Entrevista

“Desmatar e queimar a Amazônia éacelerar mudançasclimáticas”

A pesquisadora e professora do INPE Luciana Gatti, concedeu uma entrevista abrangente ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), onde analisa o impacto direto da destruição da floresta na aceleração da crise climática mundial.


 

Cleber Barbosa
Da Redação

 

Diário do Amapá – Diante do Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador Científico, qual é a importância da pesquisa científica para o país, principalmente no que diz respeito ao avanço das mudanças climáticas e no desenvolvimento de ações de proteção ambiental?

Luciana Gatti – A ciência é como os olhos da sociedade em relação ao futuro e ao presente. É através da ciência que nós conseguimos monitorar as transformações que a ação humana está provocando no planeta. Sem a ciência, estaríamos completamente cegos diante da gravidade da crise climática. No caso do Brasil, a nossa ciência tem um papel ainda mais estratégico, porque nós temos a maior floresta tropical do mundo, que é a Amazônia.Os cientistas brasileiros têm o papel crucial de mostrar ao mundo e ao próprio país o que está acontecendo com a floresta e como a sua destruição está alterando o regime de chuvas, aumentando a temperatura e intensificando os eventos extremos que nós já estamos sofrendo na pele. Proteger os povos da floresta, os povos indígenas e as comunidades tradicionais também depende da ciência, porque são eles que guardam o conhecimento tradicional e o território. A ciência valida essa importância e mostra o tamanho do risco se nós os deixarmos desamparados.

 

Diário – Quais os principais impactos ambientais e climáticos que o desmatamento e as queimadas na Amazônia?

Luciana – Em mais de 20 anos de coleta de dados na atmosfera da Amazônia, mostram um cenário extremamente preocupante. A Amazônia está deixando de ser um sumidouro de carbono — ou seja, ela está deixando de absorver o CO₂ da atmosfera — e, em algumas regiões, principalmente no sudeste da Amazônia, ela já se transformou em uma fonte de carbono. Isso significa que aquela região está emitindo mais gases de efeito estufa do que consegue absorver.

 

Diário – E por que isso acontece?

Luciana – Por causa do desmatamento e do uso do fogo. Quando você desmata e queima a floresta, você acelera as mudanças climáticas globais de duas formas: primeiro, liberando o carbono que estava estocado nas árvores há séculos; segundo, reduzindo a capacidade da floresta de resfriar a atmosfera e de produzir chuva. O desmatamento provoca um aumento na temperatura local de até 2 a 3 graus e uma redução drástica nas chuvas. Isso afeta o agronegócio no centro-sul do Brasil, seca os reservatórios das hidrelétricas e causa essas ondas de calor insuportáveis que estamos vivendo.

 

Diário – Por que o atual modelo econômico, que prioriza a expansão do agronegócio e a destruição da floresta, se tornou insustentável para a sobrevivência do bioma e da humanidade?

Luciana – Esse modelo econômico é baseado em uma ilusão de curto prazo. O agronegócio predatório avança sobre a floresta achando que vai lucrar mais expandindo a área de pastagem ou de plantio de soja. Mas a ironia cruel é que esse mesmo modelo destrói as condições climáticas que permitem a agricultura existir. Sem a Amazônia em pé, não existem os chamados “rios voadores”, que levam umidade para o resto do país. Estamos vendo quebras de safra sucessivas por conta de secas prolongadas e calor extremo. Destruir a Amazônia é cometer um suicídio econômico e ecológico. Para a humanidade, a perda da floresta acelera o chamado “ponto de não retorno” (tipping point), onde a floresta não consegue mais se regenerar sozinha e começa a se transformar em uma vegetação degradada, liberando bilhões de toneladas de carbono na atmosfera. Se isso acontecer, será impossível cumprir as metas do Acordo de Paris e conter o aquecimento global.

 

Diário – De que forma os movimentos populares do campo, como o MST, e a sociedade civil em geral podem contribuir na defesa da floresta?

Luciana – Os movimentos sociais têm um papel absolutamente fundamental. A defesa da Amazônia e o combate à crise climática não podem ser feitos apenas com fiscalização de satélite ou canetada do governo. É preciso uma transformação na forma como produzimos e nos relacionamos com a terra. O MST e outros movimentos populares mostram, na prática, que é possível produzir alimentos saudáveis através da agroecologia e de sistemas agroflorestais, que combinam a produção de comida com a floresta em pé.Vocês estão na linha de frente da restauração ambiental com o plano nacional de plantar árvores e de recuperar áreas degradadas. Esse é o caminho. Precisamos de uma reforma agrária popular que valorize a floresta em pé e que dê condições para que as famílias camponesas vivam com dignidade, gerando renda a partir da bioeconomia de base comunitária, e não da destruição. A sociedade civil urbana precisa se conectar com essa luta, apoiando a agroecologia e cobrando o fim definitivo do desmatamento legal e ilegal.

 

Perfil

Luciana Gatti – Graduada em Química (USP) e doutora em Ciência (UFSCar), principalmente em pesquisas na área de Mudanças Climáticas, focadas no entendimento do papel da Amazônia na emissão/absorção de Gases de Efeito Estufa e variáveis climáticas. 

PRINCIPAIS EXPERIÊNCIAS
– Pesquisadora titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais/ Centro de Ciências do Sistema Terrestre e professor de pós-graduação do curso Tecnologia Nuclear do IPEN / Universidade de São Paulo.
– Bolsista CNPq, oordena Laboratório de Gases de Efeito Estufa (LaGEE), parte integrante do LaPBio/CCST/INPE.
– Membro do IG3IS Implementing an Integrated, Global. Greenhouse Gas Information System.
– Atua desde 2003 principalmente em pesquisas na area de Mudanças Climáticas, focadas no entendimento do papel da Amazonia na emissão e absorção de Gases de Efeito Estufa e o efeito das variáveis climáticas nestes balanços.
– Atua nas áreas de Química da atmosfera, com ênfase em Análise de Gases Traços e Química Ambiental, atuando principalmente nos seguintes temas: gases de efeito estufa, interações atmosfericas, gases traços, compostos organicos volateis.
– Possui graduação em Química na FFCLRP- Ribeirão Preto pela Universidade de São Paulo (1987), Mestrado em Quimica Analítica pela Universidade de São Paulo – IQF São Carlos (1991) e doutorado em Ciencia – UFSCar.

 

 

 

 


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