Travessia simbólica na Ponte Binacional inicia suspensão de visto para brasileiros na Guiana Francesa
Autoridades amapaenses e francesas acompanharam acesso dos primeiros brasileiros ao território da França com a nova medida legal

A entrada em vigor da suspensão da exigência de visto para brasileiros que ingressarem na Guiana Francesa foi marcada, nessa sexta-feira, 31, por uma travessia simbólica na Ponte Binacional Brasil–Guiana Francesa, entre Oiapoque e Saint-Georges de l’Oyapock. O ato histórico marcou a integração transfronteiriça entre os dois territórios, aproximando pessoas, oportunidades e o futuro.
Mariza de Paula mora no Rio de Janeiro e, assim que soube da isenção da obrigatoriedade, organizou-se para viajar ao Amapá e acessar a Guiana Francesa pela ponte. É na capital do território francês que mora desde 2019 a única filha, a pesquisadora Flávia Divino.
“Agora eu vou poder vir sempre visitar minha filha, meu neto que eu não pude vir ver quando nasceu. Agora vou poder vir mais vezes, com o que fizeram para todos os brasileiros. Não tem explicação para descrever esse momento. Estou muito feliz”, celebrou a brasileira.
Acompanhando a mãe, Flávia Divino estava emocionada por receber Mariza em território francês, na região onde construiu sua vida, após o visto ter sido negado na primeira tentativa.
“Minha mãe vai conhecer minha casa, junto ao meu filho e meu esposo. Trabalho na Guiana Francesa, tenho família e é muito especial pra gente ter esse momento que minha mãe vai conseguir passar sem visto, apenas com o passaporte. Esse dia representa a junção da minha família, sem dificuldades, a possibilidade da minha mãe poder visitar minha família aqui, no local que eu trabalho, que eu vivo”, descreveu Flávia Divino, brasileira que mora em Caiena e que foi buscar a mãe em Oiapoque.
Nova relação diplomática entre Brasil e França
A travessia feita a pé reuniu autoridades do Governo do Amapá, da Prefeitura de Oiapoque e lideranças brasileiras. No lado francês, a comitiva foi recebida pelo ministro-conselheiro da Embaixada da França no Brasil, Brice Fodda.
“É um prazer recebê-los aqui, desse lado da ponte, sem o visto. O Amapá, em particular, fez a diferença para chegarmos nesse dia. Vamos continuar os esforços para o bem da fronteira e sejam bem-vindos à Guiana Francesa”, disse o ministro ao recepcionar a comitiva brasileira.
Até 1996, brasileiros precisavam de visto para entrar tanto na França metropolitana quanto na Guiana Francesa. Um acordo naquele ano derrubou essa obrigatoriedade, que permaneceu para o acesso ao território ultramarino. Após 30 anos, o diálogo diplomático chegou à dispensação do visto e o início de uma nova relação entre os povos.
Para o Governo do Amapá, a nova fase será de mais circulação legal, mais cooperação institucional e mais controle qualificado sobre ilícitos, assim como amplia as atividades de turismo, comércio, cultura, ciência e educação; e valoriza Oiapoque como cidade estratégica na única fronteira do Brasil com a União Europeia.
“Foi o primeiro dia que pudemos atravessar a Ponte Binacional apresentando somente nosso passaporte, sem precisar ir até Brasília para tirar o visto, com custo altíssimo e burocracia. Resultado de uma luta e de muito diálogo do Governo com o Itamaraty e o governo Francês para que isso acontecesse. Essa demanda não é de hoje: são 30 anos que essa é uma pauta da cooperação transfronteiriça, numa fronteira definida há 126 anos com o Laudo Suíço e que se abre hoje. Isso muda tudo nas relações econômicas, familiares, esportivas, culturais e turísticas, mas principalmente as relações são histórias reais que mudam com uma fronteira mais igualitária. Todos ganham com o fim do visto”, afirmou o governador do Amapá, Clécio Luís.
Além do caráter simbólico, o ato buscou orientar a população sobre as novas regras de ingresso na Guiana Francesa. Embora a exigência de visto esteja suspensa até 31 de janeiro de 2027, permanecem obrigatórios os procedimentos migratórios.
O visto deixou de ser obrigatório para quem ficará em território francês por um período inferior a 30 dias, a cada seis meses.
Além do passaporte válido (com de pelo menos três meses até a data de retorno ao Brasil; o brasileiro deve apresentar Certificado Internacional de Vacinação Contra a Febre Amarela, um atestado de seguro médico e garantias financeiras que variam de acordo com a duração da viagem e tipo de hospedagem (confira aqui todas as regras).
“Eu estava esperando essa liberação há 20 anos. Eu não conheço a Guiana Francesa, mesmo morando aqui na fronteira. Só tenho a agradecer o empenho de todos pelo trabalho desenvolvido no Amapá, para que possamos viver o dia de hoje”, citou Fabrício dos Prazeres, morador de Oiapoque que atravessou a fronteira nesta sexta-feira, sem exigência do visto.
A medida, implementada inicialmente por seis meses, simboliza a conquista de um trabalho conjunto dos governos do estado e brasileiro, em diálogo com o governo francês, em prol de um avanço seguro para a mobilidade na fronteira, fortalecendo os vínculos sociais, culturais, econômicos e institucionais entre o Amapá e a Guiana Francesa.
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