“Saúde mental integra gestão de riscos no mercado de petróleo”
Especialista Carla Branco explica ao jornal Diário do Amapá como a atualização da NR-1 torna obrigatória a identificação dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho e reforça o papel das lideranças na prevenção de doenças mentais.

Cleber Barbosa
Da Redação
Diário do Amapá – Professora, Como a atualização da NR-1 está transformando a gestão de pessoas nas empresas?
Carla Branco – Embora a NR-1 já previsse, desde sua origem, preocupações com aspectos psicossociais, esses riscos não apareciam de forma tão explícita quanto os riscos físicos e de segurança. Em setores como o de óleo e gás, a atenção sempre esteve voltada para acidentes, ergonomia e segurança operacional. Com o aumento dos casos de adoecimento mental relacionados ao trabalho, a norma passou a exigir que as empresas identifiquem, avaliem e apresentem os riscos psicossociais existentes em seus ambientes. Isso significa reconhecer fatores como sobrecarga de trabalho, jornadas excessivas, isolamento, confinamento, assédio moral e outras situações que podem comprometer a saúde mental dos trabalhadores. Agora, as organizações precisam assumir essa responsabilidade de forma mais clara e demonstrar como pretendem reduzir esses riscos.
Diário – O que é exatamente o inventário de riscos psicossociais previsto pela norma?
Carla – Trata-se de um levantamento que passa a integrar o inventário de riscos ocupacionais das empresas. Antes, praticamente não se falava em ambiente tóxico, lideranças inadequadas ou situações que provocassem medo, insegurança ou sofrimento psicológico. Agora esses fatores precisam ser analisados. O Ministério do Trabalho recomenda que os colaboradores sejam ouvidos de forma anônima para que os riscos reais apareçam, já que dificilmente uma empresa reconhecerá espontaneamente problemas como sobrecarga, assédio ou ambientes psicologicamente inseguros. Muitas organizações estão recorrendo a consultorias especializadas para fazer esse mapeamento, justamente porque o tema envolve subjetividade e exige uma análise técnica cuidadosa.
Diário – Como criar canais de escuta para que os trabalhadores se sintam seguros em relatar esses problemas?
Carla – PEsse é um dos maiores desafios. As empresas precisam construir ambientes em que as pessoas realmente confiem para relatar dificuldades sem medo de represálias. Muitas organizações já estão investindo em programas estruturados de escuta, mas isso exige uma mudança cultural. Ao mesmo tempo, também é importante que os próprios trabalhadores desenvolvam consciência sobre seus limites, busquem ajuda quando necessário e entendam que cuidar da saúde mental não deve mais ser visto como sinal de fraqueza. O crescimento da procura por terapia mostra que esse preconceito vem diminuindo, permitindo que as pessoas cuidem tanto da mente quanto do corpo.
Diário – A formação das lideranças também precisa mudar?
Carla – Sem dúvida. Grande parte das transformações começa pelas lideranças. Hoje já existem muitas empresas investindo na formação de gestores para que compreendam que liderar não significa apenas cobrar resultados, mas também construir um ambiente psicologicamente seguro. O líder precisa saber se comunicar, respeitar limites, evitar sobrecargas e criar relações de confiança com sua equipe. Além disso, ele próprio precisa cuidar da própria saúde mental, porque ninguém consegue oferecer equilíbrio aos outros sem também se cuidar. Outro fator importante é que as novas gerações já estão cobrando esse novo perfil de liderança e muitas pessoas jovens não aceitam assumir cargos de gestão se isso significar jornadas excessivas e relações de trabalho adoecedoras.
Diário – Depois de identificar os riscos psicossociais, o que a empresa deve fazer?
Carla – O inventário é apenas o começo. A legislação exige que ele seja acompanhado de um plano de ação. Se forem identificados padrões de sobrecarga, discriminação, exclusão de determinados grupos, excesso de horas extras, casos de burnout ou qualquer outro fator de risco, a empresa deve adotar medidas concretas para corrigir esses problemas. É preciso criar canais permanentes de escuta, oferecer apoio aos trabalhadores e promover mudanças reais na organização do trabalho. Não basta reconhecer os riscos; é necessário agir para que eles deixem de existir e construir uma cultura que valorize efetivamente a saúde mental das pessoas.
Diário – Obrigado por sua participação no quadro Conexão Margem Equatorial.
Carla – Eu que agradeço e fico totalmente à disposição para ajudar a todos.
Perfil
Carla Branco reúne as atuações como professora, psicóloga e mentora corresponde à profissional atuante no Rio de Janeiro, com forte presença no ensino executivo e na psicologia clínica/
organizacional.
Atuação Acadêmica e Docência
– Instituições: Leciona como professora em grandes centros de excelência, incluindo o Ibmec, a FGV Educação Executiva e o IAG PUC-Rio.
Formação: É psicóloga de formação e Doutoranda em Psicanálise, Saúde e Sociedade.
Atuação Profissional e Clínico-Organizacional
Psicologia Clínica:
– Realiza atendimentos psicoterapêuticos voltados para a saúde mental, o fortalecimento de vínculos e o desenvolvimento pessoal.
– Seu consultório físico localiza-se no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro.
Psicologia Organizacional:
– Atua como consultora em Saúde Mental Corporativa, com foco na Gestão de Riscos Psicossociais nas empresas, desenvolvimento de pessoas e aplicação da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) no ambiente corporativo
Multidisciplinaridade:
– Além de psicóloga e professora, trabalha ativamente como mentora e tradutora.
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