Polícia Civil deflagra ação contra esquema milionário de desvio de armas da Justiça para facção criminosa no Amapá
Estrutura era liderado por tenente da PM que desviava armamento do Fórum de Macapá e envolvia outros dois servidores cedidos ao Tjap; Justiça bloqueou até R$ 26 milhões dos investigados

Elen Costa
Da Redação
A Coordenadoria Especial de Combate à Corrupção e ao Crime Organizado (Ceccor) e a Divisão de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) deflagraram na manhã desta terça-feira, 25, a Operação Senhor das Armas, com o objetivo de desmantelar uma complexa organização criminosa voltada ao desvio, adulteração, comercialização e distribuição de armas de fogo e munições, além de lavagem de capitais.
Segundo informações, as investigações revelaram que o esquema funcionava como uma engrenagem altamente estruturada e dividida em núcleos. A origem dos desvios contava com a participação direta de três servidores públicos, sendo dois policiais militares e um agente de segurança. À época dos crimes, os três atuavam cedidos ao Tribunal de Justiça do Amapá, mas atualmente já não possuem mais qualquer vínculo com o órgão.
Como o grupo operava
• Núcleo de desvio (A Fonte): O esquema era liderado por um tenente da Polícia Militar. Aproveitando-se de sua função como encarregado da Sala do Armário Forte do Fórum de Macapá, ele desviava armas, munições e acessórios que estavam sob custódia judicial.
• Logística e transporte: A função cabia ao agente de segurança. Ele era o responsável por dar baixa nos sistemas, retirar fisicamente as armas desviadas e transportá-las até as mãos do armeiro da quadrilha. Para dificultar o rastreamento, o agente exigia receber os pagamentos de sua parte estritamente em dinheiro vivo.
• Oficina e adulteração: O principal braço comercial era comandado por um armeiro, que mantinha uma oficina clandestina. Ele recebia o material, consertava, adulterava as armas através de raspagem de numerações e negociava o arsenal utilizando catálogos fotográficos em aplicativos de mensagens.
• Compradores e facções: O destino principal das armas eram integrantes e lideranças de uma violenta facção criminosa. As compras eram feitas em massa — inclusive com ordens partindo de dentro do sistema penitenciário — para armar membros da facção e promover a retomada de territórios e conflitos urbanos. Intermediários autônomos também compravam as armas para revendê-las com alto lucro nas ruas.
• Lavagem de capitais (blindagem financeira): O braço financeiro movimentou valores na casa dos milhões. Uma policial militar, esposa do tenente apontado como líder, atuava como a principal operadora financeira do núcleo familiar, realizando depósitos fracionados para burlar a fiscalização e lavar o dinheiro do crime. O grupo utilizava contas de laranjas, empresas de fachada e uma intensa conversão de valores digitais (PIX) em dinheiro em espécie para pagar os servidores públicos envolvidos.
Durante o cumprimento dos mandados, a operação alcançou resultados práticos visando a descapitalização e a coleta probatória contra o grupo. Foram apreendidos veículos pertencentes aos suspeitos e diversas fontes de provas materiais.
A equipe policial apreendeu duas espingardas que estavam em posse do suspeito apontado como o armeiro do grupo criminoso, além de identificar a oficina usada para adulteração dos armamentos. O local foi periciado.
A Justiça determinou, ainda, o sequestro de bens imóveis, veículos e o bloqueio de valores em contas bancárias dos investigados, em um montante que pode chegar a mais de R$ 26 milhões. A Polícia Civil segue analisando os materiais e dados apreendidos para aprofundar as investigações.
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