Mas por que a Groenlândia?
Enquanto Trump alega ter controle permanente sem custos, o preâmbulo do texto preserva a soberania do Reino e a autodeterminação da ilha.

Por Daniel Chaves
Em 22 de setembro, na ONU, Donald Trump, Mette Frederiksen e Jens-Frederik Nielsen alteraram o tratado de defesa de 1951. O acordo permite aos EUA expandir a base espacial de Pituffik, criar áreas de defesa em Narsarsuaq e Mestersvig, além de livre acesso aéreo e marítimo submerso. Países e investidores fora da OTAN ou UE ficam impedidos de erguer instalações militares ou controlar setores sensíveis, como recursos e infraestrutura. Sem prazo de validade, exige que uma eventual Groenlândia independente siga na OTAN e honre o pacto.
Enquanto Trump alega ter controle permanente sem custos, o preâmbulo do texto preserva a soberania do Reino e a autodeterminação da ilha. A concessão ocorre após ameaças de tarifas dos EUA a aliados em janeiro, convertidas em maior presença militar americana. O anúncio de Trump em 18 de setembro sobre o “controle permanente” sem custos sugere capitulação, mas o preâmbulo do acordo garante a soberania do Reino e a autodeterminação groenlandesa. As ameaças americanas de tarifas impostas em janeiro a aliados europeus foram negociadas em Davos com a OTAN, convertendo a pressão em um aumento formal da presença militar dos EUA na ilha.
Da coerção ao contrato, nada disso é inédito: em 1941, em plena guerra, o pacto de defesa da ilha reiterava o respeito à soberania dinamarquesa enquanto abria caminho para bases como a de Narsarsuaq, em nome da paz e segurança do Continente Americano. O inédito é outro. O tratado de 1951 vigoraria enquanto durar o Tratado do Atlântico Norte — se a aliança acabasse, ele acabaria junto, como lembrou Ole Wæver, da Universidade de Copenhague. O de 2026 não tem prazo. A presença dos EUA deixa de depender da OTAN e passa a poder sobreviver dependendo de si própria.
Cabe contextualizar o projeto do Domo Dourado, um ambicioso projeto de escudo de defesa antimísseis proposto por Donald Trump, cujo objetivo é criar um sistema multicamadas em escala continental e espacial para proteger os Estados Unidos contra ataques de mísseis de nações oponentes. A Groenlândia é o ponto de conexão geopolítica desse plano devido à sua localização crítica no Ártico, o que faz com que qualquer míssil balístico intercontinental disparado da Rússia ou da China em direção à América do Norte faria a rota mais curta pelo globo: a rota polar, passando diretamente sobre ou perto da ilha. A Groenlândia, com ou sem gelo, é uma fundamental itinerário de eventuais mísseis, atômicos ou não.
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Os argumentos de segurança não são pretexto. Se pelo ar já temos uma variável computada, por terra e mar, o degelo abre rotas e valoriza o corredor entre Groenlândia, Islândia e Reino Unido; a China se diz “Estado quase ártico” desde 2018. O risco, contudo, está menos no que o acordo diz, e mais no que no que ele ensina. Ensina que a coerção entre aliados rende: a pressão de janeiro produziu concessões sem prazo de validade, precedente à disposição de quem detenha um ativo que Washington julgue estratégico. Ensina que a autodeterminação reconhecida no preâmbulo pode nascer condicionada: pelo artigo XI, o Estado groenlandês que um dia vier a existir terá aliança e obrigações definidas antes da primeira eleição soberana. E sugere que investir virou questão de alinhamento. Copenhague e Nuuk tampouco saem de mãos vazias: afastaram a ameaça de anexação e obtiveram prioridade para fornecedores groenlandeses nos contratos das bases. Nuuk, em particular, firmou pela primeira vez, nas palavras da deputada Naaja Nathanielsen, um acordo vinculante “como país”.
Como reflexão nossa, a pergunta é a mesma que se fez em Nuuk: quem decide quem controla o subsolo. O Amapá conhece o enredo desde 1957, quando o manganês da Serra do Navio, lavrado pela ICOMI com a Bethlehem Steel, começou a descer de trem até Santana rumo à siderurgia americana da Guerra Fria. Se a soberania pode ser preservada no papel e partilhada na prática, quem traça a linha entre aliança e tutela? O que resta da autodeterminação quando a política externa de um país chega antes dele? E, quando essa lente se voltar para o subsolo amazônico, o Brasil terá critério próprio — ou apenas o dos outros?
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