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O tsunami eleitoral de 2026

O primeiro turno de 2026 deu ao PL as maiores bancadas do Congresso e cinco governos estaduais. A pergunta já não é se a direita cresceu, mas se o crescimento deixou de ser episódio para tornar-se estrutura do Brasil dos próximos anos.


 

Por Daniel Chaves

 

A apuração de 4 de outubro foi, para muitos, um tsunami político. Na corrida presidencial, Flávio Bolsonaro terminou à frente, com 47% dos votos válidos, contra 45% de Lula. O PL elegeu 121 deputados federais, 22 a mais que em 2022: a maior bancada que um único partido tirou das urnas desde a eleição da Constituinte, em 1986. No Senado, conquistou 19 das 54 vagas em disputa e chegará a fevereiro com 28 senadores, mais que o triplo do PT. Nos estados, elegeu cinco governadores já no primeiro turno — Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Rondônia e Roraima —, contra dois há quatro anos, e lidera no Rio de Janeiro; com o Republicanos, vitorioso em São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso, governará o Sul inteiro e os dois maiores colégios eleitorais do país. Nada disso autoriza, porém, a imagem de um país que teria guinado à direita da noite para o dia. O que se moveu foi, sobretudo, o interior do campo conservador: PP e União Brasil, hoje federados, caíram de 106 para 87 deputados, indício de que o PL cresceu, em boa medida, sobre o terreno dos vizinhos. O Centrão, símbolo da fronteira difusa entre direita e centro, no Brasil, esse sim, não morreu nem perdeu sua importância, mas é inevitável dizer que ele desidratou.

 

Quando se afasta o foco do presente e se percorre a linha do tempo, a paisagem ganha relevo. Nas três décadas que se seguiram a 1985, a direita brasileira evitava dizer o próprio nome — fenômeno que a ciência política batizou de “direita envergonhada” —, abrigada sob o rótulo cômodo do centro. Além disso, tínhamos um sistema mais brasileiro, pluripartidário, e menos estadunidense, bipartidário. Em 2018, a ruptura veio de fora das estruturas tradicionais: o PSL, legenda até então periférica, elegeu o presidente da República, três governadores, quatro senadores e 52 deputados. Em 2022, o bolsonarismo mudou de endereço, fez do PL a maior bancada da Câmara, com 99 cadeiras, e conquistou oito das 27 vagas então em disputa no Senado. Em 2026, com Jair Bolsonaro inelegível e, desde 2025, condenado pelo Supremo Tribunal Federal, o campo não apenas sobreviveu à ausência do seu líder na cédula: cresceu nas três arenas e concentrou-se, cada vez mais, numa única legenda, apesar do seu espectro ser mais amplo do que o partido e seus cabeças de chapa.

 

A onda virou máquina partidária, e a regra do jogo trata de realimentá-la: como o Fundo Eleitoral é repartido segundo o desempenho no pleito anterior, 2022 rendeu ao PL R$ 881,6 milhões, a maior fatia dos R$ 4,9 bilhões de 2026. Em 25 de outubro, a regularidade favorece Flávio Bolsonaro, pois desde 1989 todo segundo turno presidencial foi vencido por quem liderava o primeiro; mas uma vantagem de menos de dois pontos é margem estreita demais para converter estatística em destino. E o próximo presidente, qualquer que seja, encontrará um Senado em que PL, PP, Republicanos e Novo somam 43 cadeiras, 48 com a União Brasil: acima da maioria absoluta, de 41, mas abaixo dos 54 votos que a Constituição exige para condenar um ministro do Supremo, impeachment que boa parte dos candidatos do PL ao Senado defendeu. Ninguém sabe o que vai acontecer dia 25, no entanto. Ondas quebram; marés obedecem a ciclos.

 

Há dever de casa para a esquerda, que pode ter de enfrentar sua refundação e reestruturação ampla. O primeiro turno das Eleições 2026 resultou em um cenário de forte retração e alerta para o campo da esquerda no Brasil. Esse resultado configurou-se geograficamente com uma forte concentração, transformando o Nordeste no grande bastião restante da esquerda, única região onde o atual mandatário liderou nacionalmente. Na Câmara dos Deputados, a bancada petista encolheu para 47 deputados federais, ficando muito atrás dos 81 eleitos pelo Partido Liberal (PL). O cenário repetiu-se no Senado Federal e nas assembleias legislativas, onde figuras históricas e caciques da esquerda — como Gleisi Hoffmann, Randolfe Rodrigues, Benedita da Silva e José Dirceu — não conseguiram se eleger, provocando um forte sentimento de necessidade de renovação interna. Nas disputas pelos governos estaduais, as vitórias da esquerda ficaram praticamente restritas ao Nordeste, com as reeleições de Rafael Fonteles no Piauí, Elmano Freitas no Ceará e Jerônimo Rodrigues na Bahia. Fora desse eixo geográfico, a única vaga conquistada pela sigla para o Senado foi a de Marília Campos, em Minas Gerais. Como consequência direta de ficarem abaixo da linha de corte regulamentar, PDT, PSOL e REDE enfrentarão restrições severas a partir do próximo ano, perdendo as prerrogativas de liderança de bancada, o acesso às verbas do Fundo Partidário e o tempo de propaganda partidária gratuita no rádio e na televisão. Dos partidos do campo da esquerda não-petista, apenas o PSB conseguiu superar minimamente a cláusula de barreira em função do seu desempenho eleitoral. A tarefa do campo da esquerda torna-se hercúlea, mas não impossível. O motor da história segue girando seus pistões.

 


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