Borboletas e coelhos

O outro respondeu: Se deves pescar, pesca! Precisas decidir o que queres pegar: a borboleta, o coelho ou o peixe? Assim que decidires, deves empenhar-te com todas as tuas forças.

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Dois jovens foram ao rio para pescar. Um deles vendo uma borboleta voando, largou a vara e saiu atrás dela. Quando voltou, de mãos vazias, viu que o amigo tinha pescado um peixe muito grande. Pouco depois, novamente, o jovem se levantou e correu atrás de um coelho que estava ali por perto, mas não conseguiu alcançá-lo. Quando voltou, viu que o colega tinha pego outro lindo peixe e disse:

– Por que eu não consigo pegar nem um peixinho?

O outro respondeu: Se deves pescar, pesca! Precisas decidir o que queres pegar: a borboleta, o coelho ou o peixe? Assim que decidires, deves empenhar-te com todas as tuas forças.

Ao ouvir e refletir sobre as palavras do amigo, o jovem empenhou-se na pesca. A borboleta e o coelho voltaram a passar por ali, mas ele não deu mais atenção. Pouco depois, também ele, com grande satisfação, pegou o seu peixe e agradeceu ao amigo pela lição recebida.

O evangelho de Marcos, deste domingo, apresenta-nos a pregação inicial de Jesus, o chamado dos primeiros discípulos e a disponibilidade deles em deixar tudo para segui-lo. Fica bastante claro que se Pedro, André, Tiago e João responderam tão prontamente ao chamado, é porque o anúncio de Jesus os tocou de maneira especial. Chegou o tempo do “reino de Deus”! Valeu a pena deixar as redes, o pai, o barco, os empregados. “E partiram, seguindo Jesus” (Mc 1,20). Algo grande, desejado, esperado, mexeu no coração deles. Ainda não sabiam bem o que aconteceria. Seguiram aquele pregador itinerante que lhes disse que fazia deles “pescadores de homens”. Não será uma nova profissão, um novo ganha-pão, talvez mais lucrativo. Não. Será uma missão. Aprenderão, com Jesus, a fazer acontecer o reino de Deus na vida das pessoas. O Mestre curará doentes, perdoará pecados, dará pão aos famintos. Ensinará coisas nunca ouvidas. Será acolhido e rejeitado, amado e odiado. Eles mesmos ficarão entusiasmados e decepcionados. Para serem grandes, aprenderão a servir. Para ter cem vezes mais, terão que viver despojados e de maneira simples. Somente assim serão irmãos dos pobres que os acolherão em suas casas. O tesouro deles será estar com Jesus. Terão alegria e medo. Homens fracos! Um dia fugirão, mas depois entregarão também as suas vidas &agrav e; causa do reino de Deus. Felizes; sem arrependimentos.

“Imediatamente” é uma palavra que nos espanta. Será que pensaram bem e avaliaram os riscos? A decisão deles foi só empolgação, busca de novidade? Os evangelhos não se preocupam com isto; não foram escritos para enaltecer aqueles primeiros apóstolos, mas para os seguidores de Jesus que viriam depois. Para todos nós, afinal. O “imediatamente” é mais do que uma questão de tempo. É questão de profundidade. O que está em jogo não é uma profissão ou outra, mas o ganhar ou perder o sent ido da própria vida. O desafio de toda existência humana é reconhecer o que vale mais e o que vale menos, o que se pode, ou se deve, largar uma vez por todas e aquilo que, se for jogado fora, nos fará falta para sempre. Os evangelhos foram escritos para nos ajudar nesta escolha. Aqueles primeiros, aprenderam a deixar mais que as redes e o barco. Eles mesmos deviam ser os primeiros a se converterem. Caminhando com Jesus, perguntando e sendo questionados, começavam a conhecer um Deus diferente. Ele era um Pai compassivo, um Senhor da Vida, além de todos os preconceitos e de todas as exclusões. Sabiam que Deus tinha criado o mundo com a sua palavra. Agora, Jesus ensinava com autoridade, libertava doentes e pecadores, criava novamente a humanidade de irmãos e amigos. O “reino de Deus”, o seu projeto originário, estava ali, estava acontecendo, era possível vê-lo, tocá-lo. Estavam aprende ndo a ser pescadores de homens. Deviam se concentrar na nova missão. Que passassem borboletas e coelhos, fama e riquezas. Agora não lhes interessavam mais.


 
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