O cientista e o jovem

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Um jovem estudante francês chamado Frederico Ozanam, passeando uma noite pelas ruas de Paris, entrou por acaso numa igreja. Não era incrédulo e nem fervoroso. Dentro da igreja viu um homem ajoelhado rezando. Por curiosidade, aproximou-se dele e ficou espantado ao reconhecê-lo: “É o professor Ampére!”, pensou. André Marie Ampére era realmente, naqueles tempos, o maior gênio da Escola Politécnica de Paris. Era o descobridor da eletricidade dinâmica e das leis básica do eletromagnetismo, que h oje chamamos de Equações de Maxwell. “Se um homem notável como este, um dos maiores cientistas do mundo, não se sente diminuído ou envergonhado ao demostrar a grandeza da sua fé, não vejo mais motivo algum para conservar o meu espírito envenenado pelo respeito humano!”, disse consigo mesmo o estudante Ozanam. Anos depois, foi Ozanam quem fundou, com um grupo de amigos universitários da Sorbonne, a grande sociedade de São Vicente de Paulo, conhecidos como Vicentinos.

 

Com essa anedota, por ocasião da solenidade de Todos os Santos e Santas, quero lembrar que a santidade é um chamado para todos os batizados. Manter viva a memória de cristãos leigos e leigas, “santos e santas”, na ajuda a fortalecer o nosso empenho a sermos, cada vez mais, corajosos com o compromisso da nossa fé, assumido no dia do nosso batismo.

 

Muitas vezes nos perguntamos se talvez não fosse mais fácil vivenciar a fé nos tempos passados, quando a sociedade toda parecia ser mais visivelmente cristã. Talvez alguns costumes ajudavam a cumprir as práticas religiosas, mas isso não significava que a luta do bem contra o mal fosse mais leve e vitoriosa. No campo do mundo (Mt 13,38), ou seja, na história da humanidade, sempre crescem juntos o joio e o trigo. Aos cristãos não cabe arrancar o joio, mas ser o bom terreno que acolhe a semente da Palavra e produz “ cem, sessenta, trinta por um” (Mt 13,8). Cada época tem as suas dificuldades e incertezas, mas também nunca faltou, e nem faltará, a presença misteriosa do Divino Espírito Santo, que age livremente dentro e fora da Igreja. Foi o que Jesus disse a Nicodemos, fazendo uma comparação entre o Espírito e o vento: “O vento sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem e para onde vai” (Jo 3,8). Nos nossos dias, por exemplo, a grande oferta de experiências religiosas, nas mais variadas denominações com relativa propaganda e proselitismos, pode confundir os católicos, mas, de outro lado, obriga-nos a exercer a nossa liberdade de escolha e de engajamento.

 

Refletindo bem, a verdadeira santidade nunca foi, ou será, somente uma questão de costume, banal e repetitivo, porque nunca ninguém foi obrigado a ser santo ou santa. Sempre foi, e será, uma decisão pessoal, uma resposta consciente, livre e generosa. Isso não quer dizer que a santidade seja privilégio de poucos. Não, ela é um chamado para todos, mas o cristão comprometido com a sua fé receberá críticas, encontrará desafios para acertar o caminho, poderá ganhar desonra, zombaria e martírio. Nada de novo para quem não se deixa atrair pelas modas, as conveniências, as telenovelas e os shows em templos lotados com pregações cheias de promessas ou ameaças retumbantes. Também os possíveis escândalos dentro da nossa Igreja não devem nos surpreender demais. Quando deixamos de vigiar sobre nós mesmos e sobre os nossos irmãos, por caridade fraterna, todos podemos vacilar e cair. A santidade sempre foi, e será, muito mais feita de humildade, silêncio, caridade sem tocar os sinos, amor dispensado por gratuidade. Santidade combina mais com sacrifício e doação da própria vida que com o sucesso humano, construções grandiosas e fama mundial. Se a Igreja aponta alguns irmãos e irmãs como santos e santas é para nos ajudar com os seus bons exemplos. A santidade é possível, sim. Mas o reconheciment o e a recompensa sempre serão prerrogativa do Pai. Esta será a pergunta dos justos: “Quando foi Senhor?” (Mt 25,37ss). Eles amaram sem tantas preocupações porque o que vale mesmo na vida é o amor. Foram santos e santas!


 
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