O herdeiro e as favas

– Não – respondeu o homem – tem sopa somente para mim. Quando tu voltares ao castelo, terás toda a comida que quiseres. Eu não quero nada de ti e para mim o teu reino não vale quanto estas favas. Tu, talvez, desejas estas favas, mas eu não desejo nada do que tens.

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O filho mais velho do duque de Turingia era considerado o mais poderoso e sortudo jovem de toda a Alemanha. Quanto antes, herdaria o ducado, as terras, as riquezas e o poder do pai. No entanto, era odiado pelos irmãos e primos que também queriam uma parte da herança. Certo dia, durante uma caçada, ficou separado dos seus companheiros. Viu um sinal de fumaça e cavalgou até onde estava o fogo. Lá encontrou um peregrino que estava cozinhando algumas favas. O jovem disse para o desconhecido:

– Tu hoje tens a honra de ter o futuro duque de Turingia como hospede. O que estás cozinhando no fogo?

O peregrino, sem levantar os olhos da panela, respondeu:

– Uma sopa de favas.

Então o príncipe pediu:

– Queres dar-me um pouco da sopa?

– Não – respondeu o homem – tem sopa somente para mim. Quando tu voltares ao castelo, terás toda a comida que quiseres. Eu não quero nada de ti e para mim o teu reino não vale quanto estas favas. Tu, talvez, desejas estas favas, mas eu não desejo nada do que tens. Reparas quantos inimigos juntaste. Querem roubar-te posses e riquezas. Eu sou pobre, mas livre e benquisto por todos e tenho as minhas favas. O herdeiro do trono olhou para o legítimo dono das favas. Pensou em todos os seus domínios, ao ódio dos seus irmãos e chorou.

Com certeza o evangelho deste domingo vai nos surpreender. Estamos demais acostumados a pensar num Jesus meigo e adocicado. Não é ele o “príncipe da paz”? Então por que fala de “fogo” e de divisão? Se por “paz” entendemos não poder falar e engolir tudo para fingir que está tudo bem. Essa não é a paz de Jesus. Pode ser a “paz” de quem não aceita críticas, de quem manda calar a boca, de quem ameaça e amedronta. Essa “paz” é só de fachada, é feita de gritos travessados na garganta, de mágoas guardadas, de mentiras a fim do bem, de suspiros de quem gostaria mudar as coisas, mas não sabe como. Essa “paz” é triste, cheira a indiferença e desânimo. É falsa.

A paz de Jesus é diferente. Não é barata, porque não pode ser fingida. Exige clareza. A verdade desmascara a superficialidade e os interesses espúrios. Por que fazer declarações de amor, quando, talvez, daquela pessoa nós somente desejamos o dinheiro dela e o conforto que a riqueza compra? Nenhuma família se sustenta só com presentes de Natal, festas de aniversários ou churrasquinhos e cervejas de final de semana. Essa é vida social; bem aproveitada, quem sabe, por medo de mexer mais a fundo e quebrar os equilíbrios concordados no silêncio.

A paz de Jesus nasce do “conflito”. Sim, porque existem “conflitos” que só podem gerar brigas e “conflitos” que, resolvidos, fazem acertar os passos e geram uma vida melhor. É o confronto – dolorido, é verdade – de quem precisa escutar e dialogar mais porque a alegria e a felicidade nossas e dos outros não podem ser impostas. São uma conquista que passa pela acolhida amorosa das limitações de cada um. Passa pela tolerância, o perdão, a partilha. Cresce com o esforço de não repetir erros, de não abusar da autoridade, de aprender a limitar a liberdade e o egoísmo próprios, para respeitar os direitos e o espa& ccedil;o vital dos outros.

As nossas famílias sofrem pela ideologia individualista da sociedade de hoje. Cada um busca o seu prazer, quer satisfazer os seus gostos – ou os seus caprichos – e pouco ou nada se importa com o respeito dos direitos dos outros. Assim os pais são bons somente quando compram tudo que os filhos desejam e os filhos são bons somente quando realizam os sonhos mais impossíveis dos pais. Ninguém escuta ninguém. Exige, cobra, quer ganhar. Raramente se pergunta se o outro pode, sabe ou consegue fazer o que pedimos. Os “conflitos” diminuem, amenizam-se e até desaparecem quando nos aceitamos – e nos amamos – por aquilo que somos e não por aquilo que temos. Quando todos juntos nos ajudamos a ser cada dia melhores. Sem ódios, invejas, ciúmes, indiferença. Quando aprendemos a conviver, a nos olhar, falar e escutar e não, simplesmente, a nos cruzar na cozinha, no quarto ou na frente da televisão. Essa é a paz humilde e sincera que desejo a todas as nossas famílias no Dia dos Pais. É a paz difícil de Jesus, mas verdadeira.


 
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