A saga dos remédios

Na minha meninice, numa cidade pequena do interior do Maranhão, lugar de honra era do Almanaque de Bristol, que orientava sobre doenças e prescrevia remédios.

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“Não há bem mais precioso do que a saúde!” Que frase mais perfeita pode existir para um lugar-comum? Pois bem, esse é o lema de todos aqueles que, ao longo dos tempos, nos impingiram tratamentos e remédios.

Na minha meninice, numa cidade pequena do interior do Maranhão, lugar de honra era do Almanaque de Bristol, que orientava sobre doenças e prescrevia remédios. Editado por um laboratório americano, Murray e Lanman, de Nova York, dizia na contracapa que “era registrado em conformidade com o Ato do Congresso americano de 1869, por Lanman e Kemp”.

Era um folheto de propaganda de remédios importados, vendidos em todas as farmácias e tidos como drogas milagrosas. No almanaque, a cada mês correspondia, ao lado, o anúncio de uma maravilha de remédio. No meu mês de nascimento, abril, estava estampada uma bela foto de mulher e os milagres do “Tônico Oriental, preferido das damas elegantes, o único que evita a queda de cabelos”. Mais adiante era a “legítima Água da Flórida”, para curar todos os males. A malária era explicada: “A febre terçã não é uma doença, é um sintoma. O fígado é a parte afetada e é para esse órgão que se deve dirigir o medicamento”. O “Cholagougue Índia de Osgood é o remédio apropriado. Revigora o fígado, livra o sistema de toda a acumulação biliosa”. Adiante, vinham anúncios do “Extrato Duplo de Aveleira Mágica”, para lombrigas, “Pílulas de Bristol”, “Óleo Elétrico” contra dores e por aí andava.

O brasileiro, há mais de um século, engorda os laboratórios internacionais. Nos EUA, nos disse Teresa Cruvinel, glória de Coramandel em Minas e que cada vez está escrevendo melhor, que a senhora Hillary Clinton, depois de superar os problemas do Salão Oval da Casa Branca, estava envolvida na campanha para baratear os remédios pregando que se acabe com a proibição de importar remédios baratos. Aqui, a situação é diferente, queremos é consumir os remédios nacionais menos caros.

Quando tivemos a pressão internacional para votar a Lei de Patentes, sob a acusação do Brasil pirata, condenamos o chamado “pipe line”, que tinha o poder da ressurreição de patentes caducas. Depois, o governo reconheceu em MP que estávamos certos. A abertura selvagem da química fina e a Lei de Patentes fizeram que o povo brasileiro destinasse uma fatia maior do seu salário para remédios, cujos preços subiram cinco vezes, a farra medicamentosa do boi.

Hoje, como ontem, a situação é a mesma. A indústria da saúde passou a ser um negócio dos mais rentáveis. Remédios e planos de saúde abocanham o mercado. O desmonte do estado do bem-estar social evita que os governos sejam humanitários. Outrora eram as pílulas milagrosas, hoje, os preços. Esse é um setor dominado pelo capital internacional e é difícil lutar contra ele. Comissões de inquérito pegam os gerenciadores. Atrás de tudo está o modelo contra o qual nenhuma liberdade é possível. A única que sobrevive talvez seja aquela que era anunciada na rua do Petits-Champs, em Paris, número 91, no Depotici, pelos anos 30, recomendando o Purgativo Eau de Glauber. “Das liberdades, a melhor é ainda a liberdade do ventre!”


 
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