O mistério da Paixão

A Semana Santa nos remete aos ensinamentos básicos do cristianismo.

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Nas Sexta-feiras da Paixão, em que todos os anos tenho de aqui refletir sobre ela, ainda vivo aquele tempo da minha infância em que as imagens eram cobertas de pano roxo, em que íamos ao Senhor Morto beijar-lhe os pés, e eu sabia que ele ali estava, na Igreja de Pinheiro, velando pela vila, atendendo às minhas orações de menino e pronto para reprimir os meus pecados, que não existiam, porque eram tão puros que era santidade.

A Semana Santa nos remete aos ensinamentos básicos do cristianismo.

Quantas vezes, todos os anos, todos os dias, a cena da crucificação se repete, sem envelhecer? O símbolo da Cruz é o do sofrimento mas, sobretudo, o da ressurreição. Muitos vêem Cristo sem a cruz, outros, a cruz sem Cristo. Mas é impossível qualquer separação. São indissolúveis no mistério da Paixão, que só pode ser entendido pela fé. É Cristo amando os homens até o fim, como afirma S. João, e, neste amor maior, a eternidade que se começa a ver pelos olhos daquelas Marias que de madrugada olhavam o Santo Sepulcro, vazio.

Certa noite, em Lisboa, com Antonio Alçada Baptista, o grande escritor português, autor de “Peregrinação Interior”, numa Sexta-Feira da paixão, falamos de ser cristão e ele tirou os óculos, olhou-me e disse:

“José, hoje é o dia do grande mistério. Nada de perguntar sobre ele. É o grande e insondável mistério”.

Pascal, que pensava que é o coração que sente Deus, e não a razão, deixou nos fragmentos das Pensées muitas indagações sobre esses mistérios. Por quê os Evangelistas fazem Jesus frágil na agonia? Era tão fácil fazê-lo heroico! E o filósofo sugere: quando Ele está perturbado, é perturbado por si mesmo; quando os homens o perturbam,

Ele é forte. “Jesus sofre em sua paixão tormentos que lhe fazem os homens, mas na agonia sofre os tormentos que dá a si mesmo.”

E lembra as frases no jardim de Getsémani: “Minha alma está triste até à morte.” (Mc 14:32) — a única vez que o Cristo se queixa; e “Pai, se quiseres, afasta este cálice de mim: porém que seja feita não a minha vontade, mas a Vossa.” (Lc 22:42) — e Jesus pede uma vez que o cálice se afaste, mas duas vezes que ele venha, se é necessário. No Gólgota, à hora nona, na cruz, Jesus pergunta em aramaico: “Eloí, eloí, lemá sabachtáni?” (“Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”).

Quem era Jesus Cristo?

No Evangelho de São João ele responde muitas vezes esta pergunta, muitas vezes com novos mistérios: “Eu sou o pão da vida” e “o pão vivo” lembra a eucaristia e o caminho para a terra prometida; “o caminho, a verdade e a vida”, respondendo a Pilatos — que lhe faz a pergunta mais difícil, “o que é a verdade?”; “a porta das ovelhas” e “a porta”, por onde quem entrar salvar-se-á; “o bom pastor”, que dá a vida pelas ovelhas.

“Eu sou a ressurreição e a vida.” São Paulo diz que, sem ressurreição, não há cristianismo. A certeza da ressurreição é a grande fonte e marca da esperança.

“Eu sou a vinha verdadeira”, o sangue da aliança; “antes de Abraão ter existido já Eu Sou.” Como muitas vezes no Novo Testamento, Jesus lembra — ou os Evangelistas assinalam — passagens importantes do Antigo Testamento. No Livro do Êxodo (3:14), Deus diz a Moisés: “Eu Sou o que Sou.”

Nos seus curtos anos de vida (esquecemos como era jovem quando foi crucificado) Jesus é eterno, como Pai, omnipresente, como Espírito Santo. Ele É, na plenitude, que inclui toda a existência da Humanidade e do Universo, com os espíritos e a caridade.

Volto a Pascal: “A distância infinita dos corpos aos espíritos representa a distância infinitamente mais infinita dos espíritos à caridade.”

Jesus Cristo morreu para que nos amássemos uns aos outros. Morreu por amor a nós, e esse amor retira esta Sexta-feira Santa das sombras e a transforma em fonte de meditação e vida. No mistério da encarnação e da ressurreição.


 
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