Tempo de orações

No Maranhão, a Quaresma verdadeiramente só começa depois do “lava-pratos” na igreja de São José do Ribamar, o santo padroeiro do Estado, no domingo após o Carnaval, quando se reúnem todos os blocos e foliões, entre ressacas e devoções.

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Começou a Quaresma? Não sei. Antigamente era período religioso fixo que se iniciava na Quarta-Feira de Cinzas. Hoje, depende. Na Bahia ninguém sabe bem quando acaba o Carnaval e, se o Carnaval não acaba, não começa a Quaresma.

No Maranhão, a Quaresma verdadeiramente só começa depois do “lava-pratos” na igreja de São José do Ribamar, o santo padroeiro do Estado, no domingo após o Carnaval, quando se reúnem todos os blocos e foliões, entre ressacas e devoções.

Nos Estados Unidos, de onde acaba de chegar o doutor Armínio Fraga, presidente do Banco Central, não há Quaresma porque não existe Carnaval. Em Veneza há um Carnaval lerdo, mas, como é tradição na Itália, na quarta-feira os sinos tocam em dobrados de tristeza chamando os fiéis às cinzas.
No Brasil muitas vozes pedem que diminua esse espírito de Carnaval permanente, mas a tendência é as Quaresmas eventuais diminuírem.
Afinal, o Carnaval é a preparação dos cristãos, permitindo-lhes uma concentração de alegrias, para enfrentar os 40 dias bíblicos de Moisés e Jesus Cristo, no deserto, mergulhados em oração e sofrimento, para chegar à semana da Paixão.

E as cinzas? São o simbolismo da dor, conforme os textos sagrados. Tamar, quando violentada por Amnom, rasga as vestes e passa “cinza na testa”. O rei de Nínive, avisado pelo profeta Jonas da destruição da cidade, deita-se “sobre cinzas”. As cinzas sempre lembram o infortúnio e o destino do homem: o pó, o nada.

E nada mais ausente do espírito carnavalesco do que a lembrança da morte. O Carnaval tem o dom de fazer esquecer tristezas. O país, nessa época, tira férias. Não só do trabalho, mas de suas preocupações e problemas. É tempo de tréguas. Não há governo nem oposição, nem Bolsa, nem dólar, nem recessão, nem inflação. Se os governos durassem os dias de Carnaval, seriam lembrados como os melhores governos, justamente porque no tempo de Carnaval a sensação geral é de falta de governo. O poder é exercido diretamente pelo povo nas ruas, numa manifestação de poder anárquico.

Afonso Arinos dizia que não se podia falar de poder sem pensar em pessoas. Esse é mais um fenômeno na área da sociologia do que na da ciência política. O poder é um grupo de pessoas que fala em nome de todos.

Senti isso quando ouvi uma passista de escola de samba dizer na TV, banhada em felicidade: “Hoje é meu dia. Eu mando e desmando, sou rainha, posso tudo, sou dona de mim e de todos”. Para concluir: “Dura pouco, mas sou total”.

Esse é o espírito do poder total da alegria. Nada mais democrático do que um dia de Carnaval; ninguém é rico nem pobre, nem chefão nem comandante. Todos estão nivelados por uma força interior de busca da felicidade momesca.

Como em tudo, a porta da perdição é mais larga do que a da salvação. Alguns em busca do Carnaval que invade e se prolonga na plenitude de todos os gostos. Agora, com ou sem Carnaval requentado, é enfrentar a Quaresma, tempo de meditação. E o Brasil está precisando muito de muita meditação, de preces e indulgências. o Amapá também.


 
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