Um escorregão eleitoral

Menem nunca foi entusiasta do Mercosul. A ele aderiu forçado pelos fatos. Sua doutrina, que ficará célebre na história diplomática do continente, foi a de “relações carnais com os Estados Unidos”. Com o Brasil – e outros países da área -, relações econômicas; com os americanos, relações mais íntimas, como essa história de ser membro da Otan, o que é uma ameaça à segurança e estabilidade do continente. Ele nunca entendeu o grande projeto que está no bojo do Mercosul.

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Estive envolvido, por todos os motivos, com as questões do Mercosul. Este começou como fruto de uma determinação histórica, cuja perspectiva não posso perder. Na sua criação, o Brasil teve uma posição generosa, abdicando de seduções hegemônicas com o objetivo maior de mudar a história de divergências e separações do continente sul-americano. A Argentina, tendo à frente do seu governo o grande estadista Raúl Alfonsín, da estirpe de Sarmiento, Sans Peña e San Martin, teve a mesma visão da grande mudança. Acabou-se a tão sofrida questão do Prata que produziu tantos equívocos, até perspectiva de corrida nuclear.

Com o Mercosul, todos lucramos. A Argentina saiu da crise herdada dos governos militares e da Guerra das Malvinas. Quem governa tem que saber que há tempo de semear e de colher. O semeador foi Alfonsín. O mercado argentino, depois do Tratado de Integração, cresceu, estendeu-se aos 160 milhões [na época] de consumidores brasileiros com a tarifa zero. A siderurgia argentina, sucateada, renasceu, possibilitando a volta das grandes indústrias de base, à frente a automobilística, com suas fábricas reabertas. O petróleo argentino, o gás, o trigo encontraram grande expansão, mesmo com prejuízo e reações de setores brasileiros prejudicados. A causa maior justificava. Nosso comércio, relações políticas, culturais e de intercâmbio tiveram um desenvolvimento extraordinário que não pára de crescer.

Menem nunca foi entusiasta do Mercosul. A ele aderiu forçado pelos fatos. Sua doutrina, que ficará célebre na história diplomática do continente, foi a de “relações carnais com os Estados Unidos”. Com o Brasil – e outros países da área -, relações econômicas; com os americanos, relações mais íntimas, como essa história de ser membro da Otan, o que é uma ameaça à segurança e estabilidade do continente. Ele nunca entendeu o grande projeto que está no bojo do Mercosul.

Uma união do porte do Mercosul sempre tem problemas. O perigo era o governo brasileiro fazer o jogo eleitoral de Menem, esticando a corda. Caminhamos muito no projeto de integração com a Argentina. Repito que nossa aliança foi o fato mais importante depois de nossas independências. Aqui também tivemos resistências. Quero lembrar que o presidente Geisel, por quem tenho uma grande admiração, lembra no seu livro de memórias que me disse ser contrário ao Mercosul. Alegava que o Brasil caminhara muito na sua inserção mundial para desperdiçar esforços num projeto regional. A tudo superamos e o Brasil é unânime na aprovação ao projeto de amizade, cooperação e integração com a Argentina.

As declarações do ministro Clóvis Carvalho, que entrara com o pé direito no Ministério do Desenvolvimento, foram competentes e equilibradas, com a visão e a perspectiva dos interesses nacionais e importância do Mercosul.

Nada de retaliações, nada de represálias. Menem passaria, como passou. O povo argentino é eterno e está a favor da integração com o Cone Sul.

No mundo globalizado ninguém pode viver sem responsabilidades compartilhadas. Dificuldades teremos sempre. Os estadistas estão aí para solucioná-las.
A geografia nos uniu e a história nos reservou um destino comum, de crescermos juntos.


 
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