Um mundo de paradoxos

Uma jovem passista, que ia aos desfiles todos os anos e que foi pioneira no topless, ficara feliz com a liberação geral dos bustos, mas eu estava enganado. Ela declarou que estava triste porque agora ninguém olha para a novidade do seu próprio.

Compartilhe:

Abro os jornais e leio que o desemprego aumentou nos Estados Unidos, que os juros vão crescer, que isso significa dificuldades para muitas famílias. É uma notícia triste. Estou errado. Para as Bolsas, não há nada de triste, ao contrário, é motivo de euforia, vão subir, estão felizes porque o desemprego e a recessão são bons sinais para a saúde delas. Quanto pior fica a vida para os que precisam de trabalho, melhor a daqueles que têm excesso de dinheiro e necessitam especular. É o que me ensina o presidente da Bolsa de Nova York, que foi além da euforia: “Melhor notícia não podíamos ter”.

Lembrei-me de uma história que já contei aqui, mas que não resisto a repeti-la. Severo Gomes era ministro da Indústria e Comércio e recebeu um relatório de um grande laboratório internacional, destinado a seus acionistas, justificando os seus lucros baixos naquele ano: “O inverno foi muito fraco e, com o tempo bom, não tivemos a incidência de pneumonia nem complicações respiratórias. Os casos de gripe foram muito aquém de nossas previsões e os gastos com anúncios sobre nossos produtos, excessivos. Assim, pedimos a compreensão dos nossos acionistas para os baixos lucros, que não foram decorrentes da falta de esforço de nossos executivos”. E continuava: “Contudo as perspectivas de melhoria são excelentes. Todas as previsões meteorológicas indicam que vamos ter um rigoroso inverno, com novos vírus gripais, não sendo descartada a hipótese de incidência de epidemias. Assim, o volume de consumo dos nossos medicamentos vai ser muito grande e explosivo, compensando o fraco desempenho deste ano”. Severo deu-me conhecimento do relatório e uma boa risada, advertindo que essa é a lógica capitalista.

No Carnaval, vi a grande discussão sobre se os desfiles deviam ou não incluir temas religiosos. Houve uma guerra de liminares. Quando as primeiras foram concedidas, proibindo a participação de Nossa Senhora da Esperança e do símbolo cristão da cruz, pensei que os carnavalescos estavam tristes. Ao contrário, estavam alegres, pois o fato aumentava a curiosidade sobre as escolas. Por outro lado, um dos organizadores do desfile considerou a proibição boa porque agora iam fazer uma ala só de cardeais, padres, bispos e monges, que seria obrigatória no Carnaval do próximo ano.
Uma jovem passista, que ia aos desfiles todos os anos e que foi pioneira no topless, ficara feliz com a liberação geral dos bustos, mas eu estava enganado. Ela declarou que estava triste porque agora ninguém olha para a novidade do seu próprio. Em Viena, sem ser Carnaval, em vez de mulheres, uma multidão de homens nus entrou na loja Kassa. Julguei que era gosto de andar pelado, mas era justamente o contrário: eles queriam vestir-se e ganhar uma mala de roupa, que seria dada pela loja numa promoção aos primeiros que chegassem.

Não deixa de ser paradoxal que os nossos homens públicos, depois de carreiras exitosas, estejam frustrados, não pelo bem que fizeram, mas pelo papel que poderiam ter desempenhado. O presidente Fernando Henrique queria ter sido ator; Pitta, bailarino do Municipal; Maluf, pianista no Metropolitan.

Picasso, nesse jogo de “o que quer ser”, disse que se fosse padre seria papa; militar, marechal; quis ser pintor e era Pablo Picasso! A vida é assim…


 
Compartilhe: