Engraxataria 10 de Novembro

O Café Aymoré e o Elite Bar eram os pontos dos intelectuais e dos boêmios macapaenses. Os funcionários públicos procuravam andar bem vestidos e ter os sapatos brilhando. Manter os calçados sempre limpos não era tarefa fácil, porque as ruas de Macapá não eram calçadas.

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Não se pode afirmar que os homens residentes em Macapá só passaram a ter seus sapatos brilhando após a instalação da “Engraxataria 10 de Novembro”. Porém, o empreendimento facilitou a vida de quem necessitava andar com os sapatos bem cuidados. Em vez de comprar graxa, escova e flanela, o sujeito procurava o engraxate, sentava-se numa cadeira apropriada e ainda lia jornais e revistas de graça. Essa cortesia só era permitida a quem engraxasse seus sapatos. A idéia de montar uma engraxataria em Macapá partiu do senhor Manoel dos Santos, cidadão egresso de Belém, onde exercia a atividade de engraxate e vendedor de jornais e revistas. Ciente de que a cidade de Macapá havia sido definida como a capital do Território Federal do Amapá, portanto sede de uma nova unidade federada tratou de obter informações sobre o local onde pretendia trabalhar. Não conhecendo outra profissão, o engraxate Manuel dos Santos não reunia condições para se candidatar a um emprego de operário das obras públicas que vinham sendo realizadas no burgo. Sabendo que poderia ganhar a vida com o trabalho de engraxate confabulou com a esposa e embarcou para Macapá. Trouxe seus apetrechos e os instalou na calçada do casarão amarelo que havia pertencido ao Coronel Coriolano Fineas Jucá, de frente para o prédio da Prefeitura Municipal de Macapá, que também servia de abrigo para o governo territorial. O casarão amarelo abrigava a Pensão da Madame Charlotte e o Café Aymoré, ambos à direita da Travessa Siqueira Campos e o Elite Bar, este de frente para a Rua Independência (atual Vereador Binga Uchoa). A pensão alugava quartos e fornecia alimentação a seus inquilinos e terceiros.

O Café Aymoré e o Elite Bar eram os pontos dos intelectuais e dos boêmios macapaenses. Os funcionários públicos procuravam andar bem vestidos e ter os sapatos brilhando. Manter os calçados sempre limpos não era tarefa fácil, porque as ruas de Macapá não eram calçadas. Estabelecido em um local privilegiado, Manuel dos Santos angariou um punhado de bons clientes. Uma singela placa de madeira, com a inscrição “Engraxataria 10 de Novembro” identificava seu ponto de trabalho. O nome do empreendimento correspondia a uma homenagem a Getúlio Dorneles Vargas, Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil, que, no dia 10 de novembro de 1937 havia decretado o “Estado Novo”, transformando nosso país numa ditadura. Manuel dos Santos passou a conviver com servidores públicos, comerciantes, trabalhadores avulsos e quaisquer outros cidadãos que recorriam aos seus préstimos. Isso o transformou numa pessoa muito bem informada, desde fatos ocorridos no serviço público aos corriqueiros de uma cidade. Entretanto, Manuel dos Santos tinha a hombridade de manter-se discreto.

O homem sabia de tudo, mas preferia vender a imagem de quem estava alheio as conversas que ouvia. Antigos clientes do Manuel me disseram que uns cruzeirinhos de gorjeta ajudavam a clarear a sua mente. Algo do tipo: ”eu vou te revelar um segredo, mas não espalha”. O “Elite Bar”, instalado por João Vieira de Assis, mudou de local de funcionamento e levou consigo a “Engraxataria 10 de Novembro”. Amplo, moderno e aconchegante, o estabelecimento comercial do João Assis passou a funcionar na esquina da Av. Presidente Getúlio Vargas com a Rua São José. Mesas e cadeiras novas espalhadas no terraço a cerca de 50 centímetros de altura do leito das citadas vias públicas. A engraxataria e os freqüentadores contumazes ocupavam espaço na parte do terraço que tinha como limite a parede da casa do casal João Picanço e Raimunda Marques Picanço. Dessa forma, se sentiam mais à vontade e longe dos “perus”. Além de engraxar sapatos, Manuel dos Santos vendia jornais e revistas. Os jornais vinham de Belém no avião dos Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul, principalmente a Folha do Norte e a Província do Pará. As revistas nem sempre eram novas,mas tinham boa aceitação. No dia 4 de outubro de 1946, a cidade de Macapá perdeu o concurso de Manuel dos Santos, falecido no reduto do seu lar, Deixou viúva a senhora Itamar Pereira dos Santos e órfãos as filhos Léa, Lecy e Lael.


 
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