Era Natal

Foi no Natal passado. Os sinos da Matriz badalavam o seu blim-blim-blom anunciando que o Natal chegava. As miríades de estrelas brigavam com nuvens ameaçadoras de chuvas lá no céu, enquanto a rainha noite lá nas alturas, uma vez ou outra mostrava o seu rosto timidamente. Havia chovido na cidade toda a tarde e por […]

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Foi no Natal passado. Os sinos da Matriz badalavam o seu blim-blim-blom anunciando que o Natal chegava. As miríades de estrelas brigavam com nuvens ameaçadoras de chuvas lá no céu, enquanto a rainha noite lá nas alturas, uma vez ou outra mostrava o seu rosto timidamente.
Havia chovido na cidade toda a tarde e por todo o início da noite. Assim tínhamos uma noite fria para os hábitos climáticos da cidade.
O dia tinha sido agitado, o centro comercial fervilhava, as vitrines eram convidativas ao consumo, como um espelho mágico que atraía os passeantes. Naquela tarde não vi o Sol poente esconder-se no horizonte e tão pouco vi a Vênus despontar no céu com o seu vesperal encanto.
Muitos comemoravam o Natal, mas não aquilatavam o verdadeiro valor daquela data. Nunca imaginariam que um dia há muitos anos, sobre os montes silentes, os rebanhos dormiam e os pastores vigiavam.
O sinal foi dado por uma grande estrela que fulgurou na imensidão do espaço sideral. Como um viajor, são os pastores familiares aos astros.
A abóbada celeste como um imenso candelabro é a ampulheta por onde se esvai a poeira das constelações aos olhos dos que atravessam as noites sobre a Terra ou sobre as águas em vigília. Os pastores mapeiam com os seus olhos todos os recantos cintilantes da abóbada celeste. As ovelhas adormecem sob a quietude silenciosa do vale seguras no velar dos não dormitantes que centram os ouvidos aos mínimos ruídos.
Naquela vigília, surge no céu uma grande estrela.
Débeis emoções, indizível sensação de calma e gozo de viver, parecia tornar-se como uma pena seus rudes corpos queimados pelo vento oriental e afeitos as duras fadigas da vida pastoril. Um canto se fez ouvir. Sons melodiosos perpassavam no ar transparente, pareciam teias de sons diáfanos de imponderabilidade mais imponderável do que a brisa mais tênue.
As vozes que promanavam do céu proclamavam: “GLÓRIA A DEUS NAS ALTURAS E PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BOA VONTADE”.
Estando os pastores ainda perplexos, uma voz ecoou: “tranquilizai-vos. Trago-vos notícias de grande alegria, que será também para todo o povo. Porque na cidade de Davi nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor. Natal é Deus encarnado e habitando entre nós”.
A Ceia de Natal com certeza seria fausta.
Dirigia o meu carro por uma das ruas, enquanto o sino da catedral ainda batia. Foi quando os meus olhos fitaram uma criança sem camisa, descalça, vestida de uma longa bermuda.
Parei no primeiro estacionamento. Passei observar aquela criança que na noite de Natal quando faustas ceias seriam feitas, desde o mais humilde até o mais rico. Mas aquela criança perambulava descalça naquela noite fria. Olhava vitrines, os latões de lixos, talvez querendo mitigar a fome do seu Natal, nos repastos sobejantes caídos da mesa do almoço daquela véspera de Natal.
Continuei acompanhando aquela criança, ninguém lhe dava atenção.
De repente, tirou algo do lixo e comeu. Não sei se foi uma maça podre ou uma fruta de natal sobejada.
Vi por um momento naquela criança a teofania do Filho de Deus naquela noite de Belém, quando os residentes diziam para José: “não há lugar”.
Aquela criança perdeu-se na escuridão da noite. E assim ela se foi.


 
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