Mourão e a Nação verde-amarela

Esse velho papo de esquerda e direita está tão fora de moda que já não cabe mais tal argumento na conjuntura política atual em que vivemos.

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Tenho a mais absoluta certeza de que o Alto Comando do Exército Brasileiro, da Marinha e Aeronáutica sequer pensam em realizar uma intervenção militar em todo o território nacional brasileiro, tipo fechar portas do Congresso Nacional e outras medidas típicas de regimes totalitários. Essa história de comunismo e capitalismo já se perdeu nas brumas do tempo dos anos 60, 70 e 80. A mentalidade dos oficiais das Forças Armadas do Brasil, hoje, é bem outra e muito mais centrada na nossa Carta Magna enfocando o sistema democrático brasileiro.

Esse velho papo de esquerda e direita está tão fora de moda que já não cabe mais tal argumento na conjuntura política atual em que vivemos. Quando eles “juntinhos” discutem e falam em fatias de distribuição de poder e “Money forever (dinheiro para sempre)” e manipulação de massa, que se dane a esquerda e a direita. Mas, deixando essas ultrapassadas e tolas retóricas de lado, esquerda e direita volver, repercutiu muito mal em todo o território nacional a fala do general Mourão quando ironizou, generalizou e achincalhou as duas principais raças que edificaram a nossa cultura: o índio e o negro, chamando-os de indolentes e outros adjetivos desagradáveis de ouvir.

Fiquei me perguntando como humilde historiador e jornalista, filiado à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), como é que um general do Exército Brasileiro fala tamanho absurdo na TV, em cadeia nacional?

Primeiro que toda a nossa riqueza cultural é de origem afro e indígena. O samba, o batuque, o carnaval, nosso artesanato, cultura de resistência, enfim, tudo está banhado pelo universo cultural verde amarelo afro e ameríndio.Muitos de nossos heróis nacionais, que inclusive foram maçons, eram negros ou mestiços, bravos intelectuais que marcaram seu tempo, tais como os poetas e escritores Castro Alves e José do Patrocínio.

Lembram da Batalha dos Guararapes, no morro dos Guararapes, Capitania de Pernambuco, ocorrida em 19 de fevereiro de 1646? Recordam do heroísmo de Antônio Filipe Camarão (Potiguaçu), indígena brasileiro da tribo Potiguar, nascido no início do século XVII, em Raposa, Vale do Babique, Capitania do Rio Grande? Lembram do negro Henrique Dias, filho de escravos africanos libertos, nascido em princípio do século XVII, na Capitania de Pernambuco?Lembram de José Tiaraju, mais conhecido como Sepé, que na língua guarani significa Facho de Luz? Sepé morou em uma região do Rio Grande do Sul, pertencente à Espanha, quando foi assinado o Tratado de Madri, em 1750.

Na época, os reis de Portugal e da Espanha combinavam uma troca de terrenos. Os guaranis teriam que abandonar as cidades para cumprir o acordo. Tiarajuse revoltou e liderou os guaranis na oposição ao tratado — a Guerra Guaranítica começou em 1754 e seguiu até 1756.

No último ano da batalha, o líder indígena e mais 1,5 mil índios lutaram contra mais de 3 mil homens. Diários de guerra do exército português contam que ele foi abatido com uma lança por um português e depois levou um tiro de um espanhol. A coragem de Tiaraju o fez conhecido por todo o Rio Grande do Sul.

Dia desses vi um documentário sobre o Centro Integrado de Guerra na Selva – CIGS, onde, percebem os senhores leitores, um dos principais instrutores era um indígena que conseguia manipular uma sucuri e uma jaguatirica. O CIGS é considerado excelência mundial em técnicas de guerra e sobrevivência na selva. Lá, os melhores são índios, negros e caboclos. Não sei se o general Mourão assistiu esse documentário. O que será que o Atleta do Século XX, o nosso Rei Pelé, achou das declarações de Mourão? E Pixinguinha, Portela e Jamelão, lá no andar de cima?

Palavras, palavras… As palavras, sempre as palavras… Mal pensadas, mal concebidas, muito mal ditas, são palavras que acabam atropelando a razão e pisoteando nossas raízes, nossa cultura, nosso povo, nossos índios, caboclos e quilombolas. Aqui não existem arianos. Nossa arvore genealógica Brasil é um rico produto genético muito miscigenado, misturado e muito bem temperado. É lua e sol, verão e céu estrelado…


 
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