A Camisa e o Passaporte: a Copa como Censo das Nações em Movimento
As celebrações marroquinas nas ruas holandesas após a eliminação da Holanda não são anomalia da globalização. São o capítulo mais recente de uma história que acompanha o processo desde a origem em suas contradições, maravilhas e limites.

Por Daniel Chaves
A cena percorreu os noticiários europeus na semana passada: eliminada a Holanda pela seleção do Marrocos, a festa estourou não apenas no Magreb, mas em Haia, onde milhares de torcedores de origem marroquina — nascidos, criados, escolarizados e pagadores de impostos em solo neerlandês — tomaram as ruas com a bandeira vermelha e verde. O paradoxo é apenas aparente. Boa parte do elenco marroquino que encanta esta Copa nasceu justamente na Europa, filhos da diáspora que escolheram vestir a camisa do país dos pais. Já no Catar, em 2022, quando o Marrocos se tornou o primeiro semifinalista africano e árabe da história do torneio, a maioria dos convocados havia nascido no exterior.
O fenômeno ganhou moldura institucional. Em 2020, a FIFA flexibilizou as regras de elegibilidade, permitindo, sob condições restritas, que atletas troquem de seleção mesmo após atuarem pela equipe principal de outro país. O resultado é um ambiente de trocas (e também um mercado) simbólicas de pertencimentos: federações africanas e árabes disputam, berço a berço, os filhos da emigração formados nas academias de Paris, Amsterdã e Bruxelas.
A Copa que se encerra amplifica a questão. Trata-se de um torneio sediado por três países — Estados Unidos, México e Canadá — costurados por cadeias produtivas, por um tratado comercial cuja renovação, aliás, fracassou em 1º de julho, em plena competição, e por uma das maiores correntes migratórias do planeta. O futebol joga sobre a mesma fronteira que a política tenta administrar. E nem sempre consegue.
Cabe a ressalva de método: nada disso autoriza leituras apressadas sobre “lealdades divididas”. O torcedor de Haia que celebra o Marrocos não está desertando da Holanda; está exercendo uma identidade que a vida real — ao contrário dos formulários — gera na prática.
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Quando distanciamos o foco do presente e percorremos a linha do tempo do torneio, descobrimos que a “novidade” é velha de noventa anos. A Itália bicampeã de 1934 e 1938, vitrine máxima do regime de Mussolini, venceu com os oriundi — jogadores nascidos na Argentina, filhos e netos da emigração italiana, repatriados para vestir o azul da pátria dos avós. Luis Monti é o caso-limite: disputou a final de 1930 pela Argentina e a de 1934 pela Itália. O fascismo, que pregava a pureza da nação, precisou importar os filhos da própria diáspora para afirmá-la em campo. A ironia dispensa comentário adicional.
O padrão tampouco era exclusividade europeia. Uruguai e Argentina, potências fundadoras do futebol de seleções, eram sociedades feitas de imigração massiva — italiana, espanhola, britânica —, e seus elencos dos anos vinte e trinta eram o espelho disso. No Brasil, a questão chega primeiro pela via racial: um futebol nascido branco e elitista, no qual o jogador negro alisava o cabelo precisou esperar 1938 para consagrar Leônidas da Silva na Copa da França. Naquele mesmo junho, Gilberto Freyre publicava suas linhas sobre o “foot-ball mulato” — e, com todas as ressalvas que a obra freyriana exige, fixava a intuição que nos interessa: a seleção como espelho racial da nação, exibindo em campo o que a sociedade ainda negava fora dele. Anos depois, os irmãos Mário e Nelson Rodrigues lançariam a tese definitiva sobre o papel do Negro no Futebol Brasileiro.
O que a globalização operou, portanto, não foi uma criação, mas uma inversão de fluxo. Nos anos trinta, o filho do emigrante europeu retornava para servir à velha metrópole; hoje, o filho do imigrante africano ou árabe, nascido na Europa, escolhe a seleção da origem familiar. O vetor mudou de sentido; o mecanismo — a nação futebolística recrutando além da própria linha de fronteira — permanece o mesmo. E a cada ciclo o tema reacende a fogueira política: a França campeã de 1998, celebrada como black-blanc-beur, foi atacada pela extrema direita precisamente por sua composição.
O que representa uma seleção nacional quando a nação vive, em parcela crescente, fora do próprio território? Quem tem direito à camisa — quem nasce no chão ou quem carrega a história? E, se o futebol já respondeu que ambos, quanto tempo a política levará para alcançar o placar? A escalação virou o terreno onde a Europa discute quem tem o direito de ser nação – e como sempre, é jogada fácil e desleal culpar o imigrante. Merece cartão vermelho.
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