A Venezuela e o desafio da solidariedade humanitária em tempos de fragmentação
Os terremotos de 24 de junho não medem apenas a energia liberada pelas placas tectônicas. Medem, sobretudo, a capacidade de resposta de um Estado desgastado por duas décadas de crise, por anos de sanções e por um interregno político sem precedentes — e testam, de passagem, a qualidade da diplomacia de vizinhança sul-americana.

Por Daniel Chaves
A noite de 24 de junho começou como registro sismográfico e terminou como fato geopolítico. Dois abalos em sequência — magnitude 7,2 e, trinta e oito segundos depois, 7,5 — atingiram o centro-norte da Venezuela, os maiores a sacudir o país em mais de um século. A onda percorreu o continente: o tremor foi sentido em Caracas, na Colômbia e no Norte do Brasil, e em Belém as autoridades evacuaram preventivamente seis prédios; a vibração alcançou também o Pará, o Amazonas, Roraima e o Amapá. Quando o chão do vizinho treme e a vibração atravessa a nossa janela, a interdependência regional deixa de ser figura de linguagem. O balanço oficial divulgado em 1º de julho pelo presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, contabiliza 2.295 mortos e 11.267 feridos. A Organização Internacional para as Migrações estima, em cálculo preliminar, que 6,76 milhões de pessoas podem ter sido afetadas — cerca de dois milhões delas em Caracas. Tomado o Censo mais recente como régua, é um contingente próximo de nove vezes a população inteira do Amapá.
Sob os escombros, contudo, a aritmética convive com o improvável. Equipes francesas e norte-americanas retiraram com vida um pai e um filho de um edifício colapsado em La Guaira, quatro dias após os sismos; no dia seguinte, socorristas da Venezuela, do México e de El Salvador resgataram um jovem de 21 anos depois de 106 horas soterrado. México, Chile, El Salvador, Estados Unidos, Catar, Espanha e Nações Unidas mantêm delegações no país. O Brasil está entre os primeiros a chegar: desde 26 de junho, aeronaves da FAB transportam bombeiros de três estados, cães farejadores, integrantes da Defesa Civil Nacional e técnicos da Anatel — estes últimos equipados para localizar sinais de celulares ainda ativos sob os escombros. O quinto voo, em 30 de junho, levou 52 militares e 18 toneladas de medicamentos para ampliar o hospital de campanha brasileiro em La Guaira. A missão, coordenada pela Agência Brasileira de Cooperação, deve durar ao menos trinta dias. A análise bifurca-se a partir daqui, olhando o plano interno, em dois percursos. O primeiro lê os escombros como atestado terminal da falência do modelo chavista. O segundo os lê como colheita exclusiva do estrangulamento externo. Ambas são leituras de superfície. O mecanismo profundo é menos confortável para qualquer trincheira: capacidade estatal é infraestrutura acumulada — hospitais abastecidos, defesa civil treinada, telecomunicações redundantes, estoques estratégicos —, e ela se erode tanto pela desorganização doméstica quanto pelo cerco financeiro, em proporções que a poeira ainda não permite medir. O desastre não cria a fragilidade; ele a audita.
Há, ainda, uma janela que a tragédia entreabre. A história regional conhece o fenômeno da chamada diplomacia do terremoto: em 1999, os sismos que atingiram a Turquia e a Grécia destravaram canais bilaterais que a política convencional mantinha fechados havia décadas. Se algo análogo germinará no norte sul-americano — entre Caracas, Washington e os vizinhos que hoje dividem o mesmo canteiro de resgate —, é cedo para afirmar. Mas o tabuleiro foi embaralhado, e embaralhado pelo subsolo. Para o Brasil, a lição tem endereço amazônico. A fronteira norte conhece de longa data o transbordamento da crise venezuelana, e Roraima o sabe melhor do que qualquer chancelaria. A resposta brasileira — avião, hospital de campanha, cão farejador, técnico de telecomunicações — é a diplomacia de vizinhança em sua versão prática, sem inflação retórica.
Por isso a diplomacia e as relações internacionais não podem prescindir da reciprocidade e de valores humanitários: quando o próximo desastre auditar a nossa própria capacidade de resposta, o que e quem exatamente ele encontrará?
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