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O argumento da força faz mais um teste no Brasil

Desde 22 de julho, vigora sobre parcela das exportações brasileiras aos Estados Unidos uma tarifa adicional de 25%, resultado de investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio norte-americano (USTR) com fundamento na Lei de Comércio de 1974; dois dias depois, em 24 de julho, sobreveio uma segunda sobretaxa, de 12,5%, motivada pela avaliação — […]



Desde 22 de julho, vigora sobre parcela das exportações brasileiras aos Estados Unidos uma tarifa adicional de 25%, resultado de investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio norte-americano (USTR) com fundamento na Lei de Comércio de 1974; dois dias depois, em 24 de julho, sobreveio uma segunda sobretaxa, de 12,5%, motivada pela avaliação — segundo Washington — de que o Brasil não dispõe de mecanismos suficientes para impedir a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. A soma das duas medidas eleva, para determinados produtos, a carga tarifária até 37,5%; circulam ainda notícias, não plenamente consolidadas em fonte primária até o fechamento desta coluna, de uma extensão da alíquota a 50% sobre a totalidade das exportações brasileiras a partir de 1º de agosto — cifra que, por prudência metodológica, deve ser lida como provisória.

A trajetória argentina, no mesmo período, seguiu direção oposta. O alinhamento ideológico entre Javier Milei e Donald Trump, somado ao Tratado de Comércio e Investimentos (ARTI), firmado em Washington em 5 de fevereiro de 2026, assegurou a Buenos Aires isenção tarifária para até 80% de suas exportações aos Estados Unidos — entre elas petróleo, pedras e metais preciosos e carne bovina, produtos que respondem por 2/3 do total exportado pela Argentina no primeiro semestre de 2026. Os efeitos já se fazem sentir na relação bilateral com o Brasil: as exportações brasileiras de veículos para o mercado argentino recuaram 1/3 no primeiro semestre, ao passo que a China superou o Brasil nas importações argentinas em US$ 333 milhões, conforme dados relativos ao período de janeiro a maio.

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O episódio extrapola, contudo, a moldura estritamente bilateral e comercial. O governo brasileiro examina se o acordo entre Estados Unidos e Argentina fere as regras do próprio Mercosul — bloco cuja lógica pressupõe posição comercial externa comum entre seus membros. Sempre com o cuidado de ser preciso, não há, até o momento, decisão formal do bloco sobre a compatibilidade do acordo com seus estatutos, e qualquer leitura definitiva seria prematura. Resta saber se o Mercosul dispõe de instrumentos — ou de vontade política entre seus membros — para tratar essa assimetria como problema comum, e não apenas como contencioso bilateral entre Brasília e Buenos Aires. Até que ponto a tarifa é, de fato, instrumento comercial, e até que ponto se converte em variável da disputa eleitoral brasileira de outubro? Que espaço resta à integração sul-americana quando dois de seus fundadores respondem de formas tão distintas à mesma pressão externa? E, afinal, a quem cabe recompor a coesão de um bloco que parece, cada vez mais, dividido pela geopolítica de seus vizinhos do norte?

A linha do horizonte, nunca esqueçamos, tem eleições – as quais a Direita sul-americana tem sido exitosa, com, talvez, a exceção do Brasil em Outubro, a maior do continente – e a expectativa de Trump em manter o Hemisfério Ocidental cada vez mais como uma América para os americanos, na explícita revisão da doutrina Monroe; ou, como ele mesmo diz, Don-Roe. Milei parece achar essa ideia boa, afinal, em uma Argentina desindustrializada e empobrecida, qual seria outra tábua de salvação? Calcemos seus sapatos, também.

O que se observa, isto sim, para além do momento e seus eventos adjacentes, é o risco de fratura exposta: o de que a integração sul-americana caminharia sempre remando arduamente contra as grandes forças da geopolítica das hiperpotências. Em um mundo cada vez mais fragmentado, esse tipo de bifurcação não soa como novidade — soa como confirmação de um padrão: a centralidade dos alinhamentos bilaterais com a metrópole americana tende a sobrepor-se, quando testada, à arquitetura multilateral que a antecede. A ideia prevalece de que a força dos argumentos é testada, ao final e ao cabo, como sempre, pelo argumento da força.


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