O momento do petróleo no Amapá: o novo teste do Brasil na Amazônia
Uma nova fronteira petrolífera coloca o Brasil diante de uma escolha histórica: transformar a riqueza do subsolo em desenvolvimento sem comprometer seu maior ativo global — a Amazônia

Cyro Duarte
Jornalista
Estive no Amapá pela primeira vez em 2009, durante uma pesquisa de campo para minha dissertação de mestrado sobre empreendedorismo sustentável na Amazônia, apresentada à Fundação Getúlio Vargas (FGV). Aquele trabalho se tornaria a gênese do meu livro Manifesto à Formação do Empreendedorismo Sustentável na Amazônia e, posteriormente, do movimento AF AMAZONFOREVER.
Em Macapá, fiquei hospedado no Macapá Palace, diante do rio Amazonas. A imagem permanece comigo até hoje. Macapá é uma capital amazônica literalmente voltada para o maior rio do mundo em extensão e volume de água — uma cidade onde a escala da natureza parece alterar a própria percepção de território, distância e tempo.
Foi ali, diante do Amazonas, que comecei a compreender que a Amazônia não poderia ser pensada apenas como uma floresta a ser preservada, mas como um território vivo, habitado e economicamente viável, cujo grande desafio seria encontrar uma forma de gerar prosperidade sem destruir aquilo que o torna único.
Às margens do Amazonas, em Macapá, vi crianças jogando futebol onde poucas horas antes havia água. Corriam descalças pela lama deixada pela maré, transformando a várzea em campo. Ali conheci o futlama — e percebi, quase instantaneamente, que havia entrado em uma outra dimensão do Brasil.
Muito antes de o petróleo colocar o Amapá no mapa energético, a geografia já havia transformado o estado em uma fronteira geopolítica. Durante gerações, França e Brasil disputaram o controle de um território que hoje integra o estado. Forças francesas entraram na região contestada no século XIX e, em 1895, a disputa culminou em um confronto armado. Alguns anos depois, a arbitragem de Genebra, concluída em 1º de dezembro de 1900, resolveu a chamada Questão do Amapá — ou Contestado Franco-Brasileiro — entre Brasil e França.
Um território que, durante a era colonial, despertou as ambições de ingleses, holandeses e franceses e foi defendido por Portugal como uma das portas de entrada setentrionais da Amazônia pode agora adquirir importância estratégica por uma riqueza diferente: o petróleo.
Hoje, o Amapá faz fronteira com a Guiana Francesa — e, portanto, diretamente com a França e a União Europeia. Com cerca de 730 quilômetros, a fronteira franco-brasileira é a mais extensa fronteira terrestre da França no mundo. Mais de um século depois de o Brasil consolidar sua soberania sobre a região, o Amapá volta a ocupar uma posição singular no tabuleiro geopolítico: entre a Amazônia, a Europa e uma nova fronteira petrolífera no Atlântico que poderá redefinir parte do futuro energético do Brasil.
Enquanto sua costa pode abrigar uma das novas fronteiras energéticas do Atlântico, seu interior abriga o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, uma extensão quase intacta de floresta amazônica maior que a Bélgica — e maior, em área, que o estado americano de Maryland.
O Tumucumaque está no coração do Corredor de Biodiversidade do Amapá, que se conecta a áreas protegidas no norte do Pará e no Escudo das Guianas, formando o que pesquisadores descrevem como o maior corredor de biodiversidade de florestas tropicais intactas do mundo.
No aspecto econômico, o Amapá parte de uma posição econômica e social singularmente vulnerável. No Atlas do Desenvolvimento Humano, com dados de 2021, o estado registrava IDHM de 0,688, o terceiro menor do Brasil, à frente apenas de Alagoas e Maranhão.
Sua economia também está entre as menores do país. Segundo o último dado oficial disponível do IBGE, referente a 2023, o Amapá tinha um PIB de aproximadamente R$ 28 bilhões, o terceiro menor entre as unidades da Federação; apenas Acre e Roraima possuíam economias menores.
É justamente essa pequena base econômica que dá à descoberta uma dimensão potencialmente transformadora. Se as próximas etapas de exploração confirmarem uma reserva comercial de grande escala, o petróleo poderá representar muito mais do que uma nova fonte de produção energética para o Brasil. E, para o Amapá, poderá significar uma oportunidade histórica de converter riqueza natural em infraestrutura, educação, empregos, produtividade e desenvolvimento humano.
Esses valores não são previsões oficiais; são cenários matemáticos para mostrar a ordem de grandeza. No cenário transformacional, o Amapá poderia passar de uma economia de R$ 28 bilhões para mais de R$ 100 bilhões em valores reais até 2040 — aproximadamente 3,7 vezes o tamanho de 2023.
O que a Petrobras confirmou até agora, quando este artigo foi escrito, é a presença de hidrocarbonetos, substâncias químicas compostas basicamente por hidrogênio e carbono. Petróleo e gás natural são misturas de diferentes hidrocarbonetos encontrados no poço Morpho (FZA-M-59), a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá, em lâmina d’água de 2.886 metros.
Poderia o Amapá se tornar a próxima Guiana?
A pergunta deixou de pertencer apenas ao terreno da especulação. Do outro lado da fronteira amazônica, a Guiana foi transformada por descobertas que revelaram bilhões de barris de petróleo e redesenharam seu destino econômico. Agora, o Amapá emerge na mesma grande geografia energética do norte da América do Sul. Ainda não sabemos a dimensão de suas reservas — e qualquer comparação definitiva seria prematura. Mas a descoberta muda a escala da pergunta.
O desafio histórico do Amapá, porém, não será descobrir quanto petróleo existe sob o Atlântico. Será decidir o que fazer com ele. Se uma grande província petrolífera for confirmada, o estado poderá ter diante de si uma oportunidade rara: converter uma riqueza finita do subsolo em uma riqueza duradoura na superfície — infraestrutura, educação, desenvolvimento humano, proteção da Amazônia e uma economia capaz de sobreviver ao próprio petróleo.
A ambição do Amapá não deveria ser tornar-se a próxima Guiana, mas construir algo que ainda não existe: um modelo amazônico de prosperidade para a era pós-petróleo.
A resistência ao petróleo do Amapá não vem apenas de Bruxelas, de organizações ambientais ou do movimento climático internacional. Ela atravessa o próprio Brasil: 61% dos entrevistados em pesquisa nacional disseram ser contrários à exploração de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas. O dilema já não é simplesmente Brasil contra movimento ambientalista, mas o Brasil diante de si mesmo: quanto desenvolvimento estamos dispostos a extrair do subsolo — e quanto patrimônio natural estamos dispostos a colocar em risco para obtê-lo?
O governo do Brasil luta para tornar o país desenvolvido e deixar a desigualdade para trás. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), utilizando os parâmetros de pobreza do Banco Mundial, 23,1% da população brasileira vivia abaixo da linha da pobreza em 2024 — cerca de 50 milhões de pessoas. O país enfrenta, ainda, problemas estruturais em áreas como saúde e educação.
O Brasil é uma das dez maiores economias do planeta, mas ainda convive com milhões de cidadãos privados de direitos elementares e com níveis persistentes de violência e corrupção. Por isso, a descoberta de uma nova fronteira petrolífera no Amapá levanta uma questão maior do que o próprio petróleo: se uma nova riqueza for encontrada, será o país capaz de transformá-la em segurança, educação, infraestrutura e prosperidade duradoura?
Se a produção comercial dos hidrocarbonetos for eventualmente comprovada como viável, o Brasil deveria garantir que uma grande parcela dos benefícios econômicos chegue à região por meio de investimentos em infraestrutura, saúde e educação, com uma infraestrutura permanente de pesquisa científica independente e monitoramento ambiental de alta resolução, combinando satélites de última geração, sensoriamento remoto, inteligência artificial, dados oceanográficos em tempo real e sistemas de alerta precoce capazes de identificar alterações ambientais antes que se transformem em danos irreversíveis.
A mais de dez mil quilômetros do Amapá, a Casa de Al Thani, House of Thani, em inglês, dinastia reinante no Catar, transformou o Catar de uma pequena península cuja economia dependia da pesca e das pérolas em uma das nações mais ricas do planeta.
E, muito mais perto do Amapá, sob o presidente Irfaan Ali, a antiga colônia britânica tornou-se um dos laboratórios econômicos mais extraordinários do século XXI: transformar uma riqueza petrolífera recém-descoberta em desenvolvimento antes que a abundância se converta em dependência.
A exploração na costa do Amapá deverá ser acompanhada também pelos mais rigorosos padrões internacionais de compliance, transparência e governança climática. Sob inequívoca soberania brasileira, um Conselho Internacional de Acompanhamento poderia reunir cientistas, universidades, especialistas ambientais e instituições de reconhecida credibilidade global, assegurando que cada etapa da exploração seja submetida ao escrutínio técnico, à transparência pública e à proteção dos ecossistemas amazônicos.
O Brasil tem diante de si uma oportunidade histórica — e uma responsabilidade igualmente extraordinária. Desde Dom Pedro I, primeiro chefe de Estado do Brasil independente, o país busca ocupar um lugar à altura de sua dimensão continental e de seu potencial entre as grandes nações. Agora, diante de uma nova fronteira energética às margens da Amazônia Oriental, poderá mostrar ao mundo do que é capaz: transformar uma riqueza finita do subsolo em desenvolvimento, conhecimento e prosperidade, sem sacrificar seu maior ativo global — a Amazônia, sua biodiversidade e os povos indígenas que preservam culturas milenares enquanto constroem seu próprio futuro.
O petróleo pode enriquecer uma geração. A Amazônia decidirá o destino das próximas.
Cyro Duarte
Estrategista brasileiro com atuação na interseção entre Amazônia, desenvolvimento sustentável, negócios e relações institucionais. Jornalista, com ênfase em Ciência Política, pela California State University, Northridge. Bacharel em Direito, pela Escola Paulista. Mestre em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Produtor Rural. E Criador da AF AMAZONFOREVER.
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