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Fátima Diniz, presente, sempre. Desde 23 de fevereiro do ano de 1985

E é exatamente nesse contexto em que indispensável evocar o que inaceitável ser invisibilizado e, assim, designadamente, os horrores, por exemplo, da escravidão, de Hiroshima, Nagasaki, do nazismo e, em palavras que não sei escrever, em particular para Macapá, o feminicídio que extraiu a vida de Fátima Diniz.


 

Ruben Bemerguy
Advogado e Membro da AAL

 

“A saudade é o azar
de quem teve muita sorte

Iza Mara – Poetiza

 

As sociedades civilizadas, e, mais ainda, as que desejam alcançar esse torto grau – desalinho que não cabe nesse texto – reverenciam suas histórias, ano após ano, como um estatuto que proíbe o apagamento de suas memórias e afetos.

Essa é, para elas [sociedades] e para cada um de nós também, uma condição existencial coletiva e da qual dependem os próximos sóis e as próximas luas.

E é exatamente nesse contexto em que indispensável evocar o que inaceitável ser invisibilizado e, assim, designadamente, os horrores, por exemplo, da escravidão, de Hiroshima, Nagasaki, do nazismo e, em palavras que não sei escrever, em particular para Macapá, o feminicídio que extraiu a vida de Fátima Diniz.

Desde 23 de fevereiro do ano de 1985, dia em que conhecemos e, assustados, enlutamos a cidade, permanecemos todos devedores de nossa própria dor, e nem mesmo as preces, as velas iluminadas ou as coroas de flores, encontram suficiência em secar nossa cólera eternamente em úmida. Essa dor, como é fácil supor, não passa. A dores dos horrores não passam e demandam lembranças não só para que não se repitam, mas para que fluam em nossos rios perpétua indignação. É a cura do jamais esquecer.

Em respeito a dor, dedico sempre muito amor aos úmidos olhos da cidade e da gente de Macapá em memória da Fátima. É assim que Fátima vive e continua a viver em Macapá, embora Macapá não possa mais viver em Fátima Diniz.

Nada [ou quase nada] é tão covarde, desonesto, pusilânime mesmo, do que o feminicídio. Precede a morte da mulher morta, a confiança profunda que ela dedica ao homicida. É perturbador, saber que a mulher morta beijou, abraçou e deitou com o assassino. Parece um sentimento subversivo.

Ritmicamente, desde 23 de fevereiro de 1985, Macapá cultiva, e é importante que o faça como um mantra, sua confissão de que Fátima Diniz ainda em nossa cidade vive, mesmo que privado Macapá de viver em Fátima.

Assim é em puro desesquecimento que entrego intenso beijo de fraternidade ao seu João e dona Dalva, in memória, e aos queridos Américo e Chico.

 

 


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