Entrevista

“Não se manda mais cartas e os Correios precisaram se reinventar todo dia”

A greve dos caminhoneiros gerou uma série de reflexões a respeito da logística do Brasil, revelando o abandono das ferrovias e voltando os olhares para a distribuição das cargas e, claro, das correspondências. Então para saber como andam as coisas lá pelas bandas dos Correios, uma instituição com mais de 300 anos no país, o programa Conexão Brasília chamou para um bate-papo o superintendente da estatal no Amapá, o amapaense Heráclito Costa Júnior. Foi uma conversa esclarecedora e também que lança um olhar para o passado e projeta o futuro das comunicações pois, como diz o poeta, cartas já adiantam mais. Confira os principais trechos desse encontro a seguir, num resumo especial que o Diário do Amapá traz neste domingo.

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CLEBER BARBOSA
DA REDAÇÃO

Diário do Amapá – A greve dos caminhoneiros levou os Correios a trabalhar extra superintendente?
Heráclito Júnior – Verdade, a carga do Amapá foi represada em diversos pontos do país e um dos planos de contingência foram as atividades aos fins de semana, sábado e domingo, quando a carga desembarcou, foi em grande quantidade, após a greve ser debelada. Trabalho duro, mas gratificante.

Diário – E quantos são os funcionários dos Correios aqui no Amapá?
Heráclito – Nós temos hoje 285 empregados, de Oiapoque a Vitória do Jari. Mas foram muito mais, pois em 2015 nós chegamos ao auge com 302 empregados, mas em razão de aposentadorias, planos de demissão incentivada, que é o PDI, bem como as demissões que ocorreram chegamos a esse número de 285 hoje.

Diário – Foi devido a concorrência ou qual a explicação para os Correios deixarem de ser aquela referência de antigamente em termos de postagens e despacho de cargas?
Heráclito – Bem, estamos falando de uma empresa secular, o Correios completou 355 anos de história e precisa se reinventar todo século, e vivemos na era da informação, onde tudo acontece muito rápido. Nos últimos 20 anos pelo menos nós tivemos avanços tecnológicos fantásticos. Quanto tempo faz que você não manda uma carta? Não é? Você manda um WhatsApp. Ou dá uma ligada, manda um e-mail. Então o Correio diversificou o portfólio para poder sobreviver. É importante esclarecer que o Correio detém o monopólio postal, relacionado a cartas, ainda é só a gente que faz a entrega. No entanto o segmento de encomendas é concorrencial, que nós sofremos influência do mercado local e nacional, mas eu digo sem medo de errar, que todas as pesquisas apontam, que quando se fala em encomendas se fala em Sedex, e quando se fala em Sedex se fala em Correios. Mas, claro, é uma empresa que precisa avançar muito em diversos serviços, precisa o governo federal dar o aporte institucional, pois os Correios detém uma capilaridade que ser a única empresa pública a estra presente em todos os municípios brasileiros.

Diário – Em todos?
Heráclito – Sim, por isso os Correios podem ser um operador do INSS, por exemplo, da Polícia Federal na emissão de passaporte, pode ser operador de qualquer órgão público, pois está em todos os municípios. Então nós vivemos um momento que otimizar recursos e firmar parcerias é fundamental. E os Correios, a partir da reestruturação de julho de 2017, ele tem uma área para assuntos de governo, então ações e medidas neste sentido, de parcerias, de fortalecimento institucional são feitas. Então em relação a redução de pessoas é relativo, porque nós aqui no Amapá temos um fluxo crescente na área de encomendas e do Banco Postal, que é um outro serviço dentro dos Correios.

Diário – Em muitas localidades não existe nenhum banco e todos dependem da agência dos Correios, é isso?
Heráclito – Isso, que é o Banco Postal, que é um operador do Banco do Brasil, onde o cliente faz saques, depósitos, transferências, empréstimos, consórcios, paga os seus títulos, enfim, resolve sua vida. Imagine um amapaense lá no Lourenço [garimpo], no Bailique [arquipélago], né? Eu estive no mês de março lá no Lourenço, só a título de curiosidade, e foram quinze dias chovendo ininterruptamente, a agência estava desativada, pois vivemos naquele período um apagão em todo o Brasil, com a queima de alguns equipamentos lá da unidade, então eu tranquilizava a população dizendo que o serviço iria ser retomado, mas a gente não conseguia nem sair de lá pois a estrada estava intrafegável com a chuva, então só para ilustrar que a gente leva além dos serviços a dignidade a essa parcela da população.

Diário – O senhor é funcionário de carreira dos Correios?
Heráclito – Sim, nos Correios só assumem funções funcionários da casa. Sou amapaense e desde 2007 sou servidor público. Ingressei por concurso público no Ministério da Defesa, indo atuar no 8º Batalhão de Engenharia e Construção, atuando na manutenção da [rodovia] Cuiabá-Santarém, como técnico em tecnologia militar. Em 2013 os Correios nos convocaram, e voltar para casa é além de satisfatório era uma necessidade, afinal toda a minha família está aqui, então voltar para a terra da gente e sempre melhor. E foi voltar para um lugar que a gente escolheu, não foi acidente de percurso, foi escolha profissional, em razão da história, pois a gente aprende uma coisa nos Correios, somos substituíveis, então enquanto estivermos lá temos que fazer o melhor, pois em 355 anos de história diversas pessoas ali entraram, saíram, se aposentaram ou faleceram, mas os Correios ficam.

Diário – Algumas pessoas ainda têm dúvidas sobre onde procurar por uma encomenda que está sendo aguardada, existe uma divisão também entre zona norte e zona sul?
Heráclito – Sim, a cidade é dividida em dois grandes eixos, da [avenida] Feliciano Coelho rumo ao Marco Zero [do Equador], ou seja a zona sul, é atendida por aquele centro de distribuição lá no Meio do Mundo. Para quem mora na zona norte a central de distribuição é na [rua] São José com a [avenida] Mãe Luzia.

Diário – E dos dezesseis municípios do Amapá os Correios estão presentes em todos?
Heráclito – Em todos, essa é a capilaridade dos Correios, além dos dois distritos, Lourenço e Bailique. Além disso, temos uma parceria já consolidada aqui no Amapá com a rede Super Fácil, então onde tem Super Fácil tem Correios, apesar de que nem, sempre onde tem Correios tem Super Fácil, mas a expectativa da gestão [estadual] e da diretora Luzia é que a rede também esteja presente em todo o estado, onde tem Correios.

Diário – Nesse sistema do Super Fácil, embora já consolidado, faltam ajustes como algumas entidades ainda não compartilharem todas as informações, ainda se espera, por exemplo, a baixa bancária, um ou dois dias depois, não é?
Heráclito – É verdade, mas são pequenos ajustes, pois via de regra existem alguns procedimentos que levam muito mais de um dia. Alguns órgãos já aceitam aquele boleto pago nos Correios, enquanto o processo segue. Como foi feito por um servidor público, que tem fé pública, a gente não tem muitos problemas, é questão de pequenos ajustes mesmo, mas é como você falou, é uma rede consolidada, porque quem utiliza esses serviços é a população. Nós estivemos ali no Super Fácil Zona Oeste e fizemos também a instalação de uma agência dos Correios lá dentro. Lavamos não um aglomerado de órgãos públicos, levamos dignidade para 70 mil famílias que estavam desassistidas. Quem mora para aquela região e precisava de R$ 10 tinha que se dirigir ao centro da cidade, tem trânsito, tem estresse, tem a questão da segurança. Então enquanto o Brasil estava fechando agências a gente estava abrindo mais uma aqui no Norte do país.

Diário – E sobre concurso público para os Correios, alguma previsão superintendente?
Heráclito – Existe a necessidade. Agora previsão vai depender de algumas questões, como a conjuntura financeira, o mercado concorrencial, a questão do monopólio, dos novos serviços, enfim, pois assim como as demais empresas os Correios precisam se modernizar, naquela dinâmica de sempre fazer mais com menos.

 

Perfil…

Entrevistado. O amapaense Heráclito Mendes da Costa Júnior tem 38 anos de idade, é casado e pai de seis filhos. Formado em Administração de Empresas pela Faculdade de Macapá (FAMAP), com pós-graduação em Docência do Ensino Superior pela Faculdade Vale do Acaraú (UVA). Começou a vida profissional no comércio do pai (de quem herda o nome) com madeira e depois construção civil. Em 2007 ingressou no serviço público por concurso, na Prefeitura de Santana. Em 2012 foi aprovado no concorrido concurso do Ministério da Defesa, um amapaense entre pouco mais de 300 servidores civis. Foi para Santarém e, desde 2013 retornou ao Amapá convocado pelos Correios. É o superintendente desde junho de 2017.

 
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