Entrevista

“O sucesso do açaí é mérito do caboclo ribeirinho”

Ele tinha tudo para gozar da comodidade de um escritório confortável que um executivo consagrado merece, mas para o empresário Cláudio Guimarães, 66, o grande barato do seu negócio com alimentos orgânicos é estar junto ao caboclo ribeirinho, percorrendo rios e igarapés da região amazônica onde estão os principais fornecedores de matéria-prima de seus empreendimentos, voltados à produção de alimentos em conserva, como o palmito de açaí. A fábrica King of Palms, instalada em Santana (AP) vem recebendo visitantes ilustres nos últimos tempos, de várias partes do mundo, que saem falando maravilhas do processo de produção sustentável. Guimarães agradece, mas faz questão de atribuir o sucesso à capacidade empreendedora e consciência ambiental do ribeirinho.

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Claudio Guimarães. Empresário fala do verdadeiro ‘boom’ que o açaí e o palmito dos açaizais está causando no mercado.

CLEBER BARBOSA
Da Redação

Diário do Amapá – O empreendimento que o senhor lidera, a fábrica de palmitos orgânicos King of Palms, está há mais de trinta anos funcionando em Santana, mas somente agora ganhou espaço na mídia nacional, graças a testemunhos de gente importante como o francês Jean-Pierre Coffe, o especialista financeiro Carlos de Colon e até diretores do Banco Mundial, que saíram daqui dando-lhe os parabéns. Como foi essa redescoberta?
Claudio Guimarães – É um prazer para mim falar com vocês. Só queria transferir esses parabéns não a mim, mas à população amapaense, em especial aos nossos parceiros, na realidade desde 1973, portanto são quase quarenta anos na realidade. Eu estou no Amapá pessoalmente há trinta anos, admirando o trabalho do caboclo ribeirinho.

Diário – Daí o senhor fazer questão de transferir os parabéns a eles, é isso?
Claudio – Exatamente, gostaria de transferir os méritos desse sucesso porque foram eles que desenvolveram toda a técnica do manejo do açaizeiro para produzir essa quantidade gigantesca hoje de polpa de fruta e de palmito.

Diário – São produtos genuinamente amapaenses e que estão ganhando as mais rigorosas clientelas pelo Brasil afora e até no exterior, não é mesmo?
Claudio – Os dois hoje com condições de serem qualificados como produtos orgânicos, portanto bons para a saúde, extremamente bem feitos, dentro dos melhores padrões internacionais de qualidade sanitária, isso é que é importante. E quem fez isso foi o caboclo, nós só levamos a eles essa noção de que há uma clientela lá fora para um produto de alta qualidade.

Diário – E eles assimilaram essa mensagem que o empreendimento do senhor buscou transmitir?
Claudio – Eles se adaptaram e estão fazendo um trabalho digno de reconhecimento, aliás, é o que está acontecendo, pois o IFC, que é um órgão do Banco Mundial, esteve no ano passado aqui, veja, vieram de Washington só para vir ao Amapá verificar. Depois veio esse jornalista Francês que está escrevendo a história do palmito e do açaizeiro e outras pessoas.

Diário – E que saíram bastante impressionados, diga-se de passagem.
Claudio – É, os parabéns eu agradeço, mas, como já disse, transfiro integralmente aos nossos caboclos ribeirinhos do Amapá.

Diário – Na entrevista que deu ao Diário do Amapá, o especialista financeiro internacional Carlos de Colon definiu muito bem isso, dizendo que o manejo é um conhecimento que o índio já tinha e que o ribeirinho também domina muito bem, sobre como tirar o seu sustento sem devastar a floresta nativa.
Claudio – É, diria que o mais importante é que eles possam se desenvolver, essa é a definição do progresso, do desenvolvimento, ou seja, não é só crescimento. É manter o habitat deles, os hábitos deles, fazendo com que famílias que a gente conheceu, como todos que freqüentam o Amapá há mais de trinta anos, viam que a grande maioria era analfabeta.

Diário – Essa situação mudou bastante para a realidade atual?
Claudio – Nós levamos o doutor Carlos de Colon para visitar duas ou três casas na região, onde ele viu que tem água tratada, onde tem fossa séptica, onde a casa é de uma limpeza muito grande e com tudo dentro, computador, televisão moderna e, sobretudo, onde os filhos das pessoas que trabalharam conosco, cuja grande maioria era analfabeta, agora tem casas onde os filhos, como a gente viu uma lá, onde uma moça é formada em teologia, outra formada em design industrial, a terceira em literatura comparada e a quarta em Direito.

Diário – Que evolução então, uma mudança de perfil bem acentuada, não é?
Claudio – Um progresso fantástico, gente que está feliz e que não precisa sair de lá.

Diário – Daí sua satisfação em fazer parte dessa nova realidade, a nova classe média que o doutor Carlos de Colon de referia?
Claudio – Esse é o progresso pelo qual tenho a maior admiração, pois foi fruto do trabalho do caboclo, do ribeirinho amapaense que com poucos recursos, com pouca ajuda ele conseguiu desse trabalho, de uma técnica feita por eles nas ilhas, sobre como conservar o açaizal, sem devastar nada. Evidentemente os órgãos públicos depois levaram escolas, justiça ambulante, enfim, a vida do homem ribeirinho hoje é outra, como disse o senhor Carlos de Colon, de uma classe média que ninguém conhecia e que merece ser desenvolvida e que merece ser mostrada.

Diário – Porque também são parte desse novo Brasil, que se sobressai do ponto de vista econômico, não é?
Claudio – E que são de uma dignidade e uma beleza muito grande. Não é o que aparece da Amazônia brasileira lá fora, daí eu ficar muito feliz atualmente, pois a Amazônia tem coisas muito mais bonitas para ser mostradas.

Diário – É preciso lembrar que na ponta do fio dessa nova realidade que o senhor tanto gosta de falar está o produto final, o pote do palmito de açaí orgânico, sem agrotóxicos, produzido dentro dos padrões de sustentabilidade, com a marca King of Palms, mas também com a descrição de que a fábrica fica em Santana, no Amapá, não é?
Cláudio – Sem dúvida e essa certificação, isso tem que ser dito, ela não é conseguida facilmente não. Esta semana que entra, inclusive, tem duas certificadoras internacionais, uma suíça e outra francesa, que estarão em nossa fábrica para certificar não o produto, mas o trabalho de cada caboclo, cada fornecedor. Todo colaborador nosso tem uma função e tem que responder a um padrão de atitude de qualidade, de limpeza, de serviço feito na hora, enfim, isso que é comovente, não é só o produto que está na prateleira.

Diário – Mas que bom que o produto está ganhando clientelas também, as mais exigentes mesas e prateleiras não é mesmo?
Claudio – Sim, claro, o produto está nas prateleiras de supermercados da Espanha, nos Estados Unidos, na China, no México, assim também como no Rio de Janeiro e em São Paulo, então cada caboclo desse que trabalha no campo como nas fábricas são qualificados, eles são submetidos anualmente a diversas vistorias e auditorias, daí nós estarmos muito orgulhosos e não tem nenhum gringo, só gente daqui mesmo, é tudo caboclo mesmo.

Diário – O Amapá recebeu certa vez a visita de uma missão do Parlamento Italiano e pelo que se soube a respeito da viagem eles também têm interesse na área dos alimentos orgânicos tanto que programaram uma visita ao seu empreendimento. São boas perspectivas também para o senhor?
Claudio – Sem dúvida, eu infelizmente não pude ir na ocasião, mas gostaria de registrar que isso é mais uma prova de confiança, eu não estou, mas a casa está sempre aberta e tenho certeza de que esses italianos foram bem recebidos, como foram os três diretores e três vice-presidentes do Banco Mundial que vieram de Washington para nos visitar e falaram com todos os nossos funcionários, com todos os nossos parceiros, foram nas comunidades como Mazagão Velho, onde foi constituída recentemente uma cooperativa nova que trabalha conosco e disso tudo nós temos o maior orgulho.

Diário – Obrigado pela entrevista.
Claudio – Eu que agradeço e faço votos de que a nossa população do Amapá continue trabalhando do jeito que está com a felicidade e alegria que dão a todos, inclusive aos nossos clientes.

 

Perfil…

Entrevistado. Há quase quarenta anos o empresário Claudio Guimarães, 66 anos, comprou a King of Palms, uma empresa familiar que consistia em uma pequena indústria de conservas com uma fábrica no Rio de Janeiro e outra no Paraná, mas que já exportava. Nascido no Brasil e criado na França, Guimarães viu que tinha nas mãos um tesouro quase intocado. Produtos brasileiros à época não tinham prestígio no exterior. Hoje, a marca Amazônia vale ouro. Aos poucos ele foi desativando todas as outras linhas e, a partir de 1983, concentrou o negócio somente no palmito do açaizeiro para o mercado da gastronomia. E seu foco passou a ser lojas da Europa e dos Estados Unidos, onde já existia a procura pelos chamados alimentos orgânicos – uma estratégia que deu e está dando certo.

 
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