Nota 10

Festa de São Tiago é uma das ressignificações da identidade amazônica

Morada definitiva dos negros trazidos no século XVIII pelos portugueses, para o Brasil, Mazagão Velho lembra local homônimo africano


 

Evandro Luiz
Da Redação

 

A Festa de São Tiago, em Mazagão Velho, tem raízes profundas na história colonial luso-brasileira e na diáspora dos cristãos portugueses do norte da África. Sua origem está diretamente relacionada à extinção da cidadela de Mazagão, uma possessão portuguesa localizada na costa atlântica do atual Marrocos. No século XVIII, diante da crescente pressão militar dos mouros e da instabilidade política, a Coroa portuguesa decidiu abandonar a colônia africana.

 

Em 10 de março de 1769, por ordem de D. José I, rei de Portugal, a cidadela de Mazagão foi oficialmente desativada. Cerca de 340 famílias cristãs, até então sitiadas por forças islâmicas, foram retiradas da região e transferidas inicialmente para Belém do Pará. O governo português pretendia realocá-las estrategicamente para fortalecer sua presença na região amazônica.

 

 

Com o objetivo de instalar definitivamente os mazaganenses vindos da África, o governador do Grão-Pará ordenou a construção de um novo povoado às margens do rio Mutuacá.

 

A fundação oficial da nova localidade — batizada inicialmente de Nova Mazagão — ocorreu em 23 de janeiro de 1770, quando o local foi elevado à categoria de vila.

 

A transferência física das famílias começou alguns meses depois: em 7 de julho de 1770, 136 famílias foram deslocadas de Belém para sua nova residência na Amazônia, dando origem ao que hoje se conhece como Mazagão Velho.

 

Esse contexto de deslocamento forçado, reorganização territorial e enraizamento cultural foi essencial para a manutenção das práticas religiosas e simbólicas dos antigos habitantes da Mazagão africana.

 

 

A Festa de São Tiago, nesse sentido, não apenas foi preservada, mas também ressignificada, tornando-se um marco identitário da nova comunidade amazônica.

 

Esse passado reflete-se no presente. A Festa de São Tiago ainda hoje é organizada por descendentes daqueles que permaneceram em Mazagão Velho — majoritariamente negros, mestiços e famílias de origem humilde — após a transferência da elite para Mazagão Novo. A celebração tornou-se símbolo de resistência cultural e identidade comunitária, atraindo cerca de 50 mil pessoas anualmente e movimentando a economia local por meio da hospedagem, gastronomia e comercialização de artesanato.

 

Durante duas semanas, a festa atrai visitantes de diversas regiões do Amapá. Reconhecida como patrimônio cultural imaterial do estado, preserva tradições que refletem a rica formação afro-luso-indígena da região.

 

Os moradores da vila interpretam personagens históricos e recriam episódios da tradição. A principal encenação apresenta São Tiago como um soldado anônimo na lendária batalha entre cristãos e mouros. O espetáculo destaca os momentos mais marcantes do confronto, mantendo viva uma tradição transmitida de geração em geração.

 

 

Neste ano, a tradicional Festa de São Tiago completa 249 anos e segue até o dia 28 de julho, na histórica vila de Mazagão Velho, no município de Mazagão. A festividade reúne encenações, rituais religiosos, manifestações culturais e apresentações que celebram a memória e a identidade do povo mazaganense.

 

Para garantir a realização do evento, os governos estadual e municipal firmaram parceria e montaram uma ampla estrutura de apoio, envolvendo as áreas de segurança, saúde, transporte e logística, facilitando o acesso da população e dos visitantes a esse importante acontecimento cultural do Amapá.

 

A tradicional Festa de São Tiago, em Mazagão Velho, prossegue até o dia 28 de julho, reafirmando seu papel como uma das mais importantes manifestações culturais e religiosas da Amazônia brasileira.


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