Nota 10

José Ortiz tem cinzas do corpo jogadas no Amazonas, rio que tanto amou

Engenheiro civil executivo da Icomi morreu domingo, 1, rendendo-se a problemas cardíacos


 

Douglas Lima
Editor

 

Aos 90 anos e oito meses de idade, morreu domingo, 1, no Hospital São Camilo, decorrente de problemas cardíacos, o engenheiro civil e último presidente da Indústria e Comércio de Minérios (Icomi) no Amapá, José Luiz Ortiz Vergolino.

 

 

Doutor Ortiz, como era carinhosamente chamado, veio para o Amapá, procedente de Belém (PA), ainda jovem, recém-formado engenheiro civil, para trabalhar na Icomi, que na época do território federal fez história como pulsadora do maior desenvolvimento local em todos tempos, até àquele período.

 

José Luiz Ortiz Vergolino, com sua grande sabedoria e honestidade, galgou cargos de destaque na mineradora que extraiu manganês. A encerrar as suas atividades, nos anos 1990, já com o Amapá na condição de estado, a empresa o tinha como presidente.

 

 

No velório do pai, na residência da família em Santana, José Oscar revelou que Ortiz fez questão de permanecer no Amapá, por ter aprendido a amar esta terra, carregando duas grandes paixões: a estrada de ferro, a qual ajudou a construir, e o rio Amazonas.

 

A casa de doutor Ortiz, lembrança da empresa na qual trabalhou décadas, à margem do Amazonas, fazia com que ele, sentado na cadeira preferida, ao lado da mesa de sinuca, diariamente admirasse o grande rio que escolheu para que as cinzas de seu corpo fossem jogadas, pedido atendido pela família.

 

José Oscar (filho)

 

José Oscar chamou o pai de um gladiador delicado e sóbrio, e agradeceu ao Amapá pelo acolhimento que deu à sua família. “Ele amou tanto o Amapá, mas tinha paixão pela estrada de ferro, que acabou destruída, e também pelo rio Amazonas”, reforçou.

 

Para o neto José Luiz, o avô era um homem admirável pela sua integridade e honradez. “Não tenho nenhuma memória ruim do meu avô. Nunca vi ninguém falando mal dele, e trago comigo o conselho que ele me dava: procure sempre fazer o bem às pessoas”.

 

José Luiz (neto)

 

Em 23 de junho de 2017, na Seção Retalhos da História, José Luiz Ortiz Vergolino, no Portal Diário do Amapá, fez o seguinte registro sobre a entrega do patrimônio deixado pela Icomi ao governo do estado do Amapá:

 

“Estrada de Ferro do Amapá – de 1954 a 2003 (final):

Nesses quase 50 anos, um punhado enorme de brasileiros e estrangeiros construiu, operou, manteve, viveu muitas alegrias, sofreu e deixou um pedaço de si em algum lugar da ferrovia.

 

José Luiz Ortiz Vergolino

Retalhos da História

Toda essa infraestrutura – máquinas, equipamentos e veículos em geral – custou US$ 27.500.000,00 (1956). Para receber esse acervo, o governo do Estado, em 15 de abril de 2003, pelo Decreto nº 4033, constituiu a Comissão de Gerenciamento do Processo de Repasse dos Bens da ICOMI ao Estado do Amapá sob a presidência do senhor procurador geral Ricardo Souza de Oliveira. Durante esse período de intensa atividade operacional foram transportadas 60 milhões de toneladas de minérios e carga geral, e 4,5 milhões de passageiros.

 

Nesses quase 50 anos, um punhado enorme de brasileiros e estrangeiros construiu, operou, manteve, viveu muitas alegrias, sofreu e deixou um pedaço de si em algum lugar da ferrovia. Todos eles mereciam estar aqui relacionados. Não foi possível. Para representá-los mencionamos apenas cinco ferroviários de escol que sintetizam o melhor do melhor da história da EFA.

 

O engenheiro Osvaldo Luiz Senra Pessoa, carioca que chefiou a abertura da picada inicial e demarcou o graid da ferrovia, foi o primeiro superintendente da EFA, escreveu as primeiras instruções, foi gerente, diretor e presidente da ICOMI; o mexicano naturalizado americano Ralf Medelim, que participou da construção, definiu a melhor estrutura para manter a via permanente; voltou ao EEUU em 1964 para retornar à EFA em 1967, e não mais sair. Foi tudo na ferrovia. Ensinou amapaenses que se tornaram excelentes profissionais. Quase morreu em cima dos trilhos. Deixou escrito que desejava ser cremado e suas cinzas lançadas no rio Amazonas em frente às instalações da ICOMI para que ele pudesse ouvir o apito das locomotivas; o espanhol Odon Morales, o mais amapaense de todos, responsável pela manutenção de todo o material rodante e máquinas da ferrovia; o engenheiro húngaro Janos Miklós, que consolidou o espírito ferroviário de disciplina e irrestrito cumprimento dos regulamentos, preparou subalternos e implantou o supletivo noturno para os trabalhadores que desejassem estudar; o engenheiro pernambucano Sergio Godoy Filho, que completou e consolidou as Instruções de Serviço, Normas e Regulamentos da Estrada de Ferro do Amapá. Eles serão lembrados sempre”.

 

 


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