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Mazagão Velho mantém tradições da Semana Santa e retoma rituais presenciais

Na sexta-feira Santa, acontece a cerimônia de adoração e o canto da Mulher Verônica


Fotos: Gabriel Penha

Gabriel Penha

Especial para o Diário

 

Uma Semana Santa como nos “velhos tempos” ainda pode ser vivenciada na comunidade de Mazagão Velho, uma pequena vila que fica a cerca de 70 quilômetros de Macapá, no Município de Mazagão. Por lá, os moradores relembram esse período, que relembra a Paixão e Morte de Jesus Cristo, com rituais entremeados com tradição e fé.

Tradição que inicia já no Domingo de Ramos, quando imagens de Santos católicos são encobertas, em sinal de respeito. Respeito esse oficializado pela Prefeitura Municipal, que baixou um decreto proibindo sons automotivos ou similares que possam atrapalhar a programação da Semana Santa no distrito. Agora, esses rituais serão retomados de forma presencial – não aconteceram em 2020 e em 2021 foram feitos de forma limitada, devido à pandemia de Covid-19.

 

“Por aqui, a Sexta-Feira da Paixão é um dia sagrada.Tempos em que devemos guardar o jejum, a penitência e o silêncio”, esclarece o professor e pesquisador Antônio José Pinto, morador da comunidade.

A atmosfera descrita por ele pode ser sentida nesse período no lugar. Os comércios fecham as portas, não se ouve música alta e se vê pouquíssimas pessoas andando pelas ruas durante o dia. Na igreja Nossa Senhora da Assunção, já na quinta-feira, uma grande cortinapreta é estendida na porta, outro símbolo de luto.

Em um período em que a fé desse povo fica ainda mais evidente, grupos de oração se revezam noite, madrugada, manhã e tarde, em uma verdadeira maratona dentro da igreja, num período de 24 horas ininterruptas.

 

Cerimônia para relembrar os entes queridos
Durante sete dias, até à noite da véspera de sexta-feira acontece a cerimônia chama de Encomendação das Almas. Diversos grupos, compostos apenas por homens, percorrem pontos específicos da vila, chamados de Estações, entoando cânticos para pedir a Deus, em nome de Cristo crucificado, cura para doentes e paz no descanso para entes que já se foram; o ritmo é uma mistura de tristeza e acalanto, verdadeiro bálsamo para a alma. “Na verdade, são cânticos de solicitude e lamento. Nessas horas, pedimos proteção para os enfermos e paz para o que já se foram”, explica o morador Genésio Rodrigues.

Os cânticos da Encomendação das Almas têm mais de um século de existência e seus autores são desconhecidos. Além das estações, a cerimônia é realizada nos dois cemitérios de Mazagão Velho e Depois da Semana Santa, só poderá ser vista novamente no dia 2 de novembro (Dia de Finados).

Adoração e o canto da Mulher Verônica
O silêncio de respeito da Sexta-feira Santa é quebrado pelo som da matraca, que anuncia que a hora da missa está chegando. Nesse momento, o som dos japiins – que fazem ninho nas mangueiras da frente do santuário – divide a atenção com os hinos católicos. Natureza e fé parecem conversar.

A cerimônia tem ritos de missa normal, mas se diferencia quando chega a cerimônia de adoração a Jesus na cruz. A imagem de Cristo crucificado é colocada diante do Altar e os fiéis fazem reverência, como demonstração de respeito e dor com a morte de Nosso Senhor.

Então, um grupo de crianças surge vestida à caráter. Entre elas, uma que representa Verônica, a mulher que venceu o medo, enfrentou soldados romanos e, com um lenço, enxugou o rosto ensanguentado de Jesus a caminho da crucificação.

Começa a procissão. Os homens carregam a imagem de Jesus morto e as mulheres a da Virgem Maria. Durante o percurso, paradas em 14 estações, sendo uma delas a Capela de São Tiago. Nas paradas, uma jovem da comunidade vestida de Verônica canta hinos em latim; este ano, quem ficou com o papel foi a mazaganense Rafaela Bezerra Silveira, de 15 anos.

Depois de a procissão retornar para a igreja, começa a Via Sacra, a lembrança dos caminhos percorridos por Jesus desde a traição de Judas até a crucificação; tudo dentro da própria igreja. A última parte da tradição é a chama Procissão do Silêncio. Desta vez, os homens carregam a imagem da Virgem Maria, numa alusão à procura da mãe de Jesus ao local onde ele fora sepultado. Diversos momentos que evidencial a religiosidade e a fé do povo mazaganense, trazidas de suas origens africanas. “Além de fazer parte, temos que passar isso para as futuras gerações, já que a Semana Santa é um momento de profunda reflexão. A morte de Cristo para nos salvar mostrou a paixão Dele por nós. E refletindo, vamos seguir os ensinamentos e os caminhos de Cristo”, argumenta o professor Antônio Pinto.

Em Mazagão Velho, o luto pela morte de Jesus Cristo só deixa de ser guardado no sábado, com a leitura e liturgia da Ressurreição de Nosso Senhor.


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