O tempo das amoras

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Quando cheguei à Câmara dos Deputados pela primeira vez, como suplente, o presidente da Casa era Carlos Luz, que se envolveu no episódio do Golpe de 1955, desfechado pelo Marechal Lott, e, afastado, sofreu um impeachment, e foi substituído por Flores da Cunha. Deste eu guardo recordações indeléveis, desde a primeira vez que me viu no plenário e perguntou-me: “Donde vens?” “Do Maranhão”, respondi; e ele retrucou: “Isto aqui já é Jardim de Infância?” Eu tinha 25 anos de idade, e estava deslumbrado com aquele cenário do Palácio Tiradentes do ano de 1955.

Ali via os ídolos do nosso partido e outras figuras notáveis da política brasileira. Via Octávio Mangabeira, Gustavo Capanema, Vieira de Melo, Carlos Lacerda, Afonso Arinos e tantas figuras cujos nomes o tempo foi apagando. Lembro-me também de Raimundo Padilha, grande orador, de Raul Fernandes, que Lacerda chamava a raposa de Valença, de Luís Viana, de Magalhães Pinto, de Rondon Pacheco, de Oscar Dias Correia, de Pedro Aleixo, de José Bonifácio, de Aliomar Baleeiro, de Bilac Pinto e de um dos maiores estadistas que conheci, Adauto Lúcio Cardoso, homem de grande integridade e referência moral de todos os tempos no parlamento brasileiro.

Com eles ao longo do tempo convivi, de alguns deles tornei-me amigo, e por eles fui escolhido, em 1958, vice-líder da UDN, sendo líder Carlos Lacerda. Era a famosa Banda de Música, onde eu tocava reco-reco.

Foi então eleito presidente da Casa, numa rebelião da Ala Moça do PSD, Ulysses Guimarães. Depois Ranieri Mazzilli, que foi presidente sete anos e presidia a Casa com um ar de imponência e um peito que Lacerda dizia ser de tenor italiano. O último presidente que tive na Câmara foi o Bilac Pinto, de quem também fui grande amigo.

Na minha memória vinham os presidentes do Império: Pedro de Araújo Lima (Marquês de Olinda), Martim Francisco de Andrada, Limpo de Abreu (Marquês de Abaeté), Zacarias de Góis, Araújo Viana (Marques de Sapucaí), Paulino de Souza, Gomes de Castro — parente de meu bisavô, a quem Ruy Barbosa reconhecia como um dos maiores oradores e com quem teve grandes e acirrados debates, inclusive sobre a anistia. E os que não foram presidentes, como o próprio Ruy, e Joaquim Nabuco!

Tantos homens, tantos talentos!

Depois fui para o Senado, já tendo sido Governador do Maranhão, passando por todos os postos da política, inclusive sendo presidente da Casa por quatro vezes, durante oito anos; e ao deixar a vida partidária era o parlamentar mais antigo da história da República e o segundo incluindo o Império. Fui Vice-Presidente e Presidente da República. Quando saí do Senado tinha a impressão de ter deixado um parlamento que não era mais o do meu tempo. Vi tudo e fui tudo na política.

Para completar, vejo agora uma coisa inédita, que jamais poderia imaginar: o Presidente da Câmara foi suspenso e afastado do mandato, com uma série de acusações que eram impensáveis nos velhos tempos.

Mas a História é feita dessas grandes surpresas. O próprio ministro Teori Zavascki disse ser um caso “extraordinário, excepcional e, por isso, pontual e individualizado.”

Já diziam os latinos “O tempora, o mores.” Padre Newton, meu professor de latim, achava que a melhor tradução desse provérbio não era “oh! tempo, oh! costumes”, mas o tempo das amoras.

É o que estamos vivendo, o tempo das amoras.


A hora e a vez dos Vice

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Mais uma vez na história do Brasil um vice-presidente assume a Presidência da República. Quem abriu a contagem foi o Marechal Floriano Peixoto, que se desentendeu com o Marechal Deodoro da Fonseca, provocando uma séria divisão nas Forças Aramadas, responsáveis pela derrubada do Império e pela implantação do regime republicano. Essa briga foi alimentada também com a divergência entre o presidente da República e o presidente da Câmara dos Deputados, Prudente de Morais. Deodoro era um homem colérico, de rompantes, e disso beneficiaram-se os republicanos. Ele fechou a Câmara, depois teve de reabri-la, mas renunciou à Presidência. Ficou tão indignado com seus colegas que mandou colocar o seu uniforme numa lata, soldá-la e jogar no mar, determinando que fosse enterrado com roupa civil.

Floriano foi o Marechal de Ferro, governou com dureza, mas atribui-se a ele ter consolidado a República.

O segundo foi Nilo Peçanha, que completou o mandato de Afonso Pena. Nilo Peçanha era um grande chefe político do Estado do Rio, hábil e de bom temperamento, mas excessivamente atraído pela politicagem provinciana que o levou a fazer sucessivas intervenções nos estados.

O terceiro foi Delfim Moreira, que substituiu Rodrigues Alves, vítima da gripe espanhola. Mas não teve tempo de governar muito. Tinha como regente — era o que se dizia — Afrânio de Melo Franco, grande expressão da política mineira. Delfim Moreira não teve como governar. Já estava vitimado por doença mental que o impedia de exercer o cargo. Foi eleito para sucedê-lo Artur Bernardes, que tinha como vice o nosso grande conterrâneo Urbano Santos da Costa Araújo.

O quarto foi Café Filho, vice de Getúlio Vargas que, com o suicídio deste, assumiu a Presidência. Também, na onda de instabilidade da política brasileira, foi deposto pelas Forças Armadas, comprometidas com Juscelino, que fora eleito em 1955 — Café era acusado de estar envolvido numa conspiração para não dar posse a Juscelino Kubitschek.

O quinto foi Jango, João Goulart, que assumiu na renúncia de Jânio Quadros. Fez um governo conturbado. Sua posse foi difícil e para ser aceito como presidente engoliu um transitório e capenga regime parlamentarista.

Anote-se também que tivemos um vice que foi impedido de tomar posse pelas Forças Armadas, Pedro Aleixo, que devia substituir Costa e Silva.

O sexto fui eu, com a morte de Tancredo. Só eu sei o que é um vice assumir sem saber nada sobre os programas do presidente que se foi e cercado sempre por insegurança e crises.

O sétimo foi Itamar Franco, no impeachment de Fernando Collor. Era um homem sério, correto, que teve a oportunidade de fazer o Plano Real — seguindo o caminho aberto pelo Cruzado — e derrubar a inflação.

O oitavo vice é agora o Michel Temer. Penso o que deve estar na sua cabeça, mas os problemas que herda são quase insolúveis e precisam de longo prazo para serem resolvidos. Somos todos testemunhas destes tempos difíceis e das incertezas que existem. Porém ele é um homem experiente, sensato e com domínio da arte da política.

Mas relacionei todos estes fatos para dizer que agora ficou provada e testada nossa democracia, nossas instituições, que funcionaram na harmonia constitucional, com ampla liberdade, o povo tendo uma participação efetiva. O comportamento das Forças Armadas foi impecável, assegurando a sustentação das instituições.

Fico feliz pelo que me toca, pois fui o responsável pela transição democrática, assegurando a realização de uma Assembleia Constituinte e a promulgação de uma nova constituição, que assegurou direitos sociais e mostrou-se capaz de colocar-nos entre as grandes democracias do mundo.


Saudade e orgulho

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Começamos as Olimpíadas em terreno de extremo pessimismo, que vinha desde que fomos escolhidos para esse grande evento do esporte mundial. Somava-se a crise econômica que atravessamos, piorando a cada dia, à crise política, que se arrasta até hoje, cujo lado visível são os bate-bocas que se arrastam na Comissão que no Senado examina a matéria.

Eu mesmo confesso que era dos mais desanimados e desalentados entre os brasileiros sobre como íamos sair dessa. Desde a desconfiança de que as obras físicas, que nos obrigamos a edificar, não ficassem prontas, até da organização dos jogos. Não tinha esperança nas festas de abertura, que em todas as Olimpíadas mundiais dão o tom e, também, o que era pior, tinha a quase certeza de mau desempenho dos nossos atletas, num país onde não existe um planejamento de formação atlética nem existe dinheiro para isso.

A verdade é que, como tudo no Brasil, funcionou a improvisação, graças ao jeitinho e à participação do povo que cultiva a cultura da festa. Para surpresa do mundo todo, começou a ajudar o cenário do Rio de Janeiro, de montanhas que entram pelo mar, das baías que invadem a terra lhe dando contorno, e no alto, o ícone do Cristo Redentor, em meio de granito e matas, a tudo dando o colorido e a beleza que deslumbram todos que o veem. O Rio de Janeiro é uma cidade bela e embelezou de saída a Olimpíada, que passou aos turistas um deslumbramento e ao nosso povo aquilo que faz parte como a bela expressão do nosso país, a alegria. E a Olimpíada que tinha atravessado o caminho do pessimismo terminou num Carnaval debaixo de chuva, com todos participando da festa. O show da abertura já tinha sido deslumbrante em cores e temas, músicas e cores, que foram terminar no show de fechamento, em que todos pediam mais, com vontade de não acabasse nunca.

E para surpresa geral os nossos atletas se esforçaram, tomados de uma força interior e de um sentimento de Pátria capaz de fazer com que esse evento de 2016 no Brasil fosse aquele em que tivemos o melhor desempenho em todos os tempos.

Todos os países se sentiram no dever de apresentar também as suas virtudes e belezas, e fizeram pavilhões e casas cheias de eventos para compor os jogos e também despertar em todos o desejo de visita-los.

Ao final o que ficou como herança? Duas palavras, SAUDADE e ORGULHO. Brasileiros e turistas, sem conhecer essa palavras única, que só existe em nossa língua, cuja melhor definição é: “Saudade é vontade de ver de novo!” Todos tiveram saudade e muitos deixaram lágrimas para lembra-la. Orgulho do Brasil e do povo brasileiro, caloroso e hospitaleiro, pelo sucesso dos Jogos Olímpicos, pela sua beleza, pela sua segurança, pelo respeito ao nosso país. ORGULHO e SAUDADE.

FICAMOS TODOS OLÍMPICOS.


A desigualdade continua

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A igualdade sempre foi o grande sonho do homem, desde que teve consciência de sua condição humana. Fizeram-se revoluções, escreveram-se tratados, pensadores, poetas e políticos construíram formulas e meios de chegarmos a ela.

A grande Revolução Francesa de 1789, considerada um marco na história da humanidade, resumiu seus ideais em três palavras chaves e divinas: liberdade, igualdade e fraternidade. Na Declaração da Independência americana Thomas Jefferson ampliava essas aspirações, dizendo que todos os homens têm direito à “busca da felicidade”. Associava-se a felicidade aos anseios do homem.

Chegou-se mesmo a considerar que o século 18 fosse o da liberdade, o 19 da igualdade e o 20 da fraternidade. E qual seria o século da felicidade? Os poetas divagaram muito sobre ela e até mesmo se existe.

Hoje, os estudiosos da alma humana buscam em Yung a visão de que todos morremos frustrados, com a mágoa de não termos vivido a vida que devíamos ter vivido. E aí entra a angústia dos erros, dos pecados e até mesmo de ter pecado.

Borges falava mesmo que se tivesse que viver de novo não seria tão prudente quanto foi, sempre “usando paraquedas”. Divagações a parte, vivemos um período em que a desigualdade diminuiu no país e milhões de brasileiros romperam a linha da pobreza, e que foi freado pela crise dos últimos anos. Mas me preocupam, não só a desigualdade de pessoas, como as desigualdades espaciais. Estas são as que marcarão o futuro dos países e do mundo. Já vinte países, no balanço alimentar e de modos de sobrevivência, não têm condições de existir e vivem da caridade.

Surge o problema da água como o mais dramático dos tempos que virão. Todos somos água e faltará água para que a vida continue. Onde ela existe não se pode mudar, pois a geografia é a única coisa imexível, como diria certo ministro dos anos 90, embora o mistério que Deus utilizou para fazer o mundo ainda não nos permita saber o que acontecerá com as mudanças climáticas, se reagiremos a tempo ou marcharemos para o desastre.

Continuo pensando que, no Brasil, o grande problema ainda é e será o das desigualdades regionais. O Centro Sul transformou se num buraco negro, que é um lugar em que a gravidade é tanta que nem a luz escapa de sua atração. É o que acontece com as regiões pobres do Brasil, sugadas pelo Centro-Sul.

O único período em que as desigualdades regionais inverteram suas setas de maneira consistente foi nos anos 85-90. Mais recentemente houve um pequeno aumento da desigualdade na região Sudeste, enquanto o resto do Brasil teve diminuição. Consequência do desemprego, que chegou primeiro nas áreas mais industrializadas. Mas continua a concentração irresistível. Essa semana uma pessoa falou-me das saudades e da beleza de sua cidade em Goiás, mas terminou dizendo-me: “Me corta o coração porque a população está diminuindo, só ficam os velhos.” Os novos são atraídos pelo Centro Sul. O interior vira fantasma e no Norte e no Nordeste é pior, além do êxodo fica a solidão e a saudade dos que jamais voltarão.


Olimpíada “a la Brasil”

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A definição de Thomas Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional, de que íamos ter uma Olimpíada “a la Brasil”, mereceu dele mesmo duas interpretações: a primeira, sutil e subliminar, de que a desorganização seria a marca; a segunda, já acossado pelas críticas da nossa inquieta imprensa, que seria com “paixão e alegria”, acalmou as coisas e todos ficaram satisfeitos. As duas definições, contudo, estão certas: uma certa desorganização é o jeitinho brasileiro de fazer as coisas, finalizando-as na última hora, e a segunda, bem verdadeira, porque é da alma nacional pôr sentimento no que faz e sobretudo alegria, alegria.

O Embaixador Lincoln Gordon, que ficou célebre pela maneira muito discutida como exercera sua missão na saída de João Goulart em 1964, disse-me uma noite em Nova Iorque, num cocktail nas Nações Unidas, que compreendeu o nosso País graças às Escolas de Samba. E contou-me a seguinte história: que, quando era embaixador no Rio, chegou o Carnaval e ele teve uma curiosidade danada de visitar um desses barracões onde se fazem as alegorias. E dirigiu-se à sede da Salgueiro, uma semana antes do carnaval. Qual não foi sua surpresa ao chegar lá e encontrar uma centena de carnavalescos numa bagunça imensa, entre bonecos sendo pintados, madeira por todo lado compondo os carros e dezenas de costureiras cozendo as fantasias. Ele me disse que olhou aquela balbúrdia e desorganização e perguntou ao seu guia: “O Carnaval é daqui a uma semana e vocês pensam que estarão prontos para desfilar?” Ele respondeu-lhe: “No domingo, quando o apito de juntar a nossa macacada soar, os tamborins da bateria entrarão no ritmo e vamos entrar na Avenida para ganhar o título.” O Embaixador então me disse que duvidou que aquilo ficasse pronto e que daquela confusão e mixórdia pudesse surgir um milagre.

Então, quando chegou o domingo e iniciou-se o desfile, aconteceu o que lhe tinham dito: o samba-enredo começou, o apito de arregimentação tocou, a bateria entrou em ordem na pista e os carros, que eram aquelas engrenagens, surgiram agora como carros alegóricos belíssimos, as mulatas dançando trepadas no alto das carruagens e tudo funcionando como um relógio.

Concluiu o Lincoln Gordon: “Então compreendi o Brasil. A improvisação e a garra, a paixão e alegria constroem as coisas.”

O sr. Thomas Bach, sem querer, disse o que era o modelo “a la Brasil”: somos desorganizados e incapazes de planejar. Mas tudo acontece dentro dos nossos objetivos e, graças a isso, somos o País da alegria, da solidariedade, da fraternidade — e os estrangeiros quando olham os nossos milagres e as nossas festas ficam de queixo caído.

A la Brasil foi a Copa, a la Brasil estão sendo as Olimpíadas, com um sucesso danado e o povo vivendo o jeito nosso de ser feliz nas festas coletivas.

Então, quando aparecem aquelas mulatas de corpo lindo e, como dizia Roberto Campos, mostrando tudo e escondendo o essencial, é um delírio!

 


A desigualdade continua

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A igualdade sempre foi o grande sonho do homem, desde que teve consciência de sua condição humana. Fizeram-se revoluções, escreveram-se tratados, pensadores, poetas e políticos construíram formulas e meios de chegarmos a ela. A grande Revolução Francesa de 1789, considerada um marco na história da humanidade, resumiu seus ideais em três palavras chaves e divinas: liberdade, igualdade e fraternidade. Na Declaração da Independência americana Thomas Jefferson ampliava essas aspirações, dizendo que todos os homens têm direito à “busca da felicidade”. Associava-se a felicidade aos anseios do homem.

Chegou-se mesmo a considerar que o século 18 fosse o da liberdade, o 19 da igualdade e o 20 da fraternidade. E qual seria o século da felicidade? Os poetas divagaram muito sobre ela e até mesmo se existe. Hoje, os estudiosos da alma humana buscam em Yung a visão de que todos morremos frustrados, com a mágoa de não termos vivido a vida que devíamos ter vivido. E aí entra a angústia dos erros, dos pecados e até mesmo de ter pecado.

Borges falava mesmo que se tivesse que viver de novo não seria tão prudente quanto foi, sempre “usando paraquedas”. Divagações a parte, vivemos um período em que a desigualdade diminuiu no país e milhões de brasileiros romperam a linha da pobreza, e que foi freado pela crise dos últimos anos. Mas me preocupam, não só a desigualdade de pessoas, como as desigualdades espaciais. Estas são as que marcarão o futuro dos países e do mundo. Já vinte países, no balanço alimentar e de modos de sobrevivência, não têm condições de existir e vivem da caridade.

Surge o problema da água como o mais dramático dos tempos que virão. Todos somos água e faltará água para que a vida continue. Onde ela existe não se pode mudar, pois a geografia é a única coisa imexível, como diria certo ministro dos anos 90, embora o mistério que Deus utilizou para fazer o mundo ainda não nos permita saber o que acontecerá com as mudanças climáticas, se reagiremos a tempo ou marcharemos para o desastre.

Continuo pensando que, no Brasil, o grande problema ainda é e será o das desigualdades regionais. O Centro Sul transformou se num buraco negro, que é um lugar em que a gravidade é tanta que nem a luz escapa de sua atração. É o que acontece com as regiões pobres do Brasil, sugadas pelo Centro-Sul. O único período em que as desigualdades regionais inverteram suas setas de maneira consistente foi nos anos 85-90. Mais recentemente houve um pequeno aumento da desigualdade na região Sudeste, enquanto o resto do Brasil teve diminuição. Consequência do desemprego, que chegou primeiro nas áreas mais industrializadas. Mas continua a concentração irresistível. Essa semana uma pessoa falou-me das saudades e da beleza de sua cidade em Goiás, mas terminou dizendo-me: “Me corta o coração porque a população está diminuindo, só ficam os velhos.” Os novos são atraídos pelo Centro Sul. O interior vira fantasma e no Norte e no Nordeste é pior, além do êxodo fica a solidão e a saudade dos que jamais voltarão.


Esperança à vista

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O Brasil saiu das eleições de 2014 numa situação que poucas vezes atravessara: dividido, e, ainda mais, numa situação de radicalismo e intolerância que em alguns momentos descambava para o ódio.

Nossa tradição era — devemos dizer que é — de tolerância e convivência entre adversários. Tancredo Neves tinha como grande ídolo o Marquês do Paraná, Honório Hermeto Carneiro Leão, que construiu o Ministério da Conciliação, reunindo conservadores e liberais. E essa conciliação foi feita por grandes brasileiros, como Nabuco de Araújo, autor de um discurso admirável, o da Ponte de Ouro, em que dizia que uns e outros deviam abrir mão das diferenças para encontrar o terreno comum do interesse do País.

A sentença conhecida, que pretendia afirmar a identidade de maus hábitos políticos, dizia “não há nada mais parecido com um saquarema (conservador) que um luzia (liberal) no poder”. A verdade é que a derrubada, feita pelo Imperador, de um partido, e sua substituição pelo outro, dizia respeito ao sistema eleitoral, que levou à constante busca de reformas que durou até à queda do Império, mas encontrava uma realidade mais forte, que era a necessidade de executar o programa que estava maduro, o programa do outro. Assim, por exemplo, a maior causa liberal, a dos negros, foi levada avante por gabinetes conservadores.

O espírito que vimos sair das últimas eleições foi o contrário disso. Se o outro pensava, era ruim. Se o outro sugeria, era preciso derrubar. Se o outro fazia, era preciso desfazer. As famílias se fragmentavam, irmãos, pais e filhos, deixavam de se falar. Nas mídias sociais, as pessoas desconectavam os que pensavam diferentemente, e ficavam falando para si mesmo, sem ouvir outras opiniões. Prevalecia o insulto sobre o argumento.

O resultado inevitável foi a desesperança. As pessoas deixaram de acreditar nos mais próximos, na comunidade, nos amigos, na política, na sociedade. O Brasil meteu-se ladeira abaixo. Foram os tempos terríveis de que estamos saindo.

Renasce a esperança. A maior parte dos brasileiros procura caminhos comuns. Começamos a ver uma luz.

Mas nosso caminho ladeira acima será difícil, e temos que ter consciência disso para que não esperemos resultados impossíveis. O buraco do orçamento é alarmante, provavelmente teremos um déficit de 200 bilhões no fim do ano. O desemprego está em alturas nunca vistas — entre os jovens está na casa de 24% (só para dar uma referência, no meu governo foi inferior a 4%).

Vamos avançar na reconstrução de um país unido, que supera as diferenças, recupera sua economia, resolve os problemas sociais — as crises gravíssimas da educação, da saúde, da segurança —, reencontra o espaço do convívio humano, das famílias e das comunidades, e reconstrói seu futuro.


Violas afinadas

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Paulo Tarso Flecha de Lima é um dos melhores profissionais da diplomacia brasileira, tão rica de talentos e que tantos serviços tem prestado ao país. Ele não se situa no presente, mas na história do Itamaraty. Conheci de perto o seu trabalho. É feito com paixão, nada superficial, aprofunda-se nos temas e tem uma visão universal dos problemas e muito clara dos interesses nacionais.
Estas considerações servem para avalizar seu testemunho corajoso sobre a missão de ser embaixador em Washington: “Sou um embaixador que tem a grande frustração de trabalhar nos Estados Unidos, porque, infelizmente, não há uma visão política da nossa relação comercial”.

Não esqueço um café-da-manhã oferecido por Bush, na visita que fiz àquele país, em 1987, com a presença do secretário Baker, de Funaro, Saad, Ricupero e a minha. A discussão era sobre relações comerciais. Baker não se conformava com os sucessivos superávits do Brasil, no comércio bilateral. Saad deu-lhe uma tábua histórica, provando que, a longo termo, a vantagem era americana. Lembre que o nosso esforço de exportação naquela época era necessário para cobrir o exorbitante serviço da dívida em face das altas taxas dos juros internacionais. Lutávamos, como agora, pela queda de barreiras, sobretudo as não-tarifárias, e os produtos eram quase os mesmos: aço, tecidos, sucos, açúcar, café etc. A conversa azedou. Queríamos o levantamento de sanções e a abertura de barreiras. Nossa posição foi firme. Não era possível um tratamento desse tipo. Nenhuma visão política sobre o comércio e a dívida, num momento em que começávamos a maior onda de democratização no mundo, depois da Segunda Guerra, que era a que ocorria na América do Sul. Diante do tom inamistoso do encontro, Bush, diplomaticamente, observou que não tínhamos mais tempo em face de outros compromissos posteriores.

Vejo que nada caminhou. O mundo mudou. Mudaram nossas relações. Não existe mais confrontação. O Brasil não tem nenhum problema político pendente com os americanos. Mas o comércio continua com os mesmos problemas.

Pedem os Estados Unidos a abertura de nossos mercados, falam da necessidade de concretizarmos a Alca, a zona de livre comércio da Patagônia ao Alasca. Nós já fizemos nossa parte. Eles não fizeram a deles. A balança comercial brasileira é a favor dos Estados Unidos com grande diferença, que cresce cada vez mais.

Devemos distinguir o povo americano, o governo americano e o sistema americano de relacionamento com o mundo. Este não mudou, o sistema é o mesmo. Defesa, acima de tudo, de seus interesses comerciais. Nada de ingenuidade de nossa parte, portanto, em aderir à Alca. Ela é um instrumento contra nós.

Bem disse o ministro Lampreia, que cada vez fica melhor, que nós não iríamos derramar lágrimas porque o Congresso americano negou o “fast track”, isto é, a autorização para o Executivo negociar os acordos internacionais. Acrescentou o ministro Lampreia que “a Alca estava em banho-maria”. Ótimas notícias, e que como foi bom ver o então Lampreia aprovar e secundar as declarações do embaixador Paulo Tarso. Com as violas afinadas vamos bem.


Um escorregão eleitoral

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Estive envolvido, por todos os motivos, com as questões do Mercosul. Este começou como fruto de uma determinação histórica, cuja perspectiva não posso perder. Na sua criação, o Brasil teve uma posição generosa, abdicando de seduções hegemônicas com o objetivo maior de mudar a história de divergências e separações do continente sul-americano. A Argentina, tendo à frente do seu governo o grande estadista Raúl Alfonsín, da estirpe de Sarmiento, Sans Peña e San Martin, teve a mesma visão da grande mudança. Acabou-se a tão sofrida questão do Prata que produziu tantos equívocos, até perspectiva de corrida nuclear.

Com o Mercosul, todos lucramos. A Argentina saiu da crise herdada dos governos militares e da Guerra das Malvinas. Quem governa tem que saber que há tempo de semear e de colher. O semeador foi Alfonsín. O mercado argentino, depois do Tratado de Integração, cresceu, estendeu-se aos 160 milhões [na época] de consumidores brasileiros com a tarifa zero. A siderurgia argentina, sucateada, renasceu, possibilitando a volta das grandes indústrias de base, à frente a automobilística, com suas fábricas reabertas. O petróleo argentino, o gás, o trigo encontraram grande expansão, mesmo com prejuízo e reações de setores brasileiros prejudicados. A causa maior justificava. Nosso comércio, relações políticas, culturais e de intercâmbio tiveram um desenvolvimento extraordinário que não pára de crescer.

Menem nunca foi entusiasta do Mercosul. A ele aderiu forçado pelos fatos. Sua doutrina, que ficará célebre na história diplomática do continente, foi a de “relações carnais com os Estados Unidos”. Com o Brasil – e outros países da área -, relações econômicas; com os americanos, relações mais íntimas, como essa história de ser membro da Otan, o que é uma ameaça à segurança e estabilidade do continente. Ele nunca entendeu o grande projeto que está no bojo do Mercosul.

Uma união do porte do Mercosul sempre tem problemas. O perigo era o governo brasileiro fazer o jogo eleitoral de Menem, esticando a corda. Caminhamos muito no projeto de integração com a Argentina. Repito que nossa aliança foi o fato mais importante depois de nossas independências. Aqui também tivemos resistências. Quero lembrar que o presidente Geisel, por quem tenho uma grande admiração, lembra no seu livro de memórias que me disse ser contrário ao Mercosul. Alegava que o Brasil caminhara muito na sua inserção mundial para desperdiçar esforços num projeto regional. A tudo superamos e o Brasil é unânime na aprovação ao projeto de amizade, cooperação e integração com a Argentina.

As declarações do ministro Clóvis Carvalho, que entrara com o pé direito no Ministério do Desenvolvimento, foram competentes e equilibradas, com a visão e a perspectiva dos interesses nacionais e importância do Mercosul.

Nada de retaliações, nada de represálias. Menem passaria, como passou. O povo argentino é eterno e está a favor da integração com o Cone Sul.

No mundo globalizado ninguém pode viver sem responsabilidades compartilhadas. Dificuldades teremos sempre. Os estadistas estão aí para solucioná-las.
A geografia nos uniu e a história nos reservou um destino comum, de crescermos juntos.


Exportar ou morrer

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Há certas afirmações fortes e bombásticas que são ditas e ficam. No geral, sínteses de emoções momentâneas. Delas é feita a história dos homens e a estória da História.

A mais célebre das nossas palavras-gestos foi a de dom Pedro e está ligada à fantasia da independência. Para fixá-la, num tempo em que a imagem era a pintura, Victor Meirelles nos deu aquele cavalo fogoso, montado por um jovem ardente que desembainhava a espada na colina do Ipiranga, perto de abandonada pousada, e gritava aos ermos para não ser escutado por ninguém, apenas pelos ouvidos do futuro: “Independência ou morte”.

Esse dom Pedro é uma figura. Se quiséssemos defini-lo na linguagem popular do Nordeste, diríamos que era um “arretado”. Sangue quente, tocado pelos calores do Brasil, não atendeu à determinação das cortes de Lisboa de ir para Portugal, bradou o “Fico”, cortou vínculos de pátria e família e fundou o único império que existiu nestas Américas.

Otávio Tarquínio de Souza, seu biógrafo, nos diz que a viagem paulista em que tomou a decisão da independência está ligada também aos sofrimentos do imperador, que, além da contrariedade às ordens de Lisboa, tinha o desconforto e a saudade dos amores da marquesa de Santos. Assim, antes do grito, escrevia à amada que estava “pingando”. Não tinha nada do pai, dom João 6º, nunca banana, esperto, com idéias arrumadas, pensando num reino sólido, preocupado com as artes e com as ciências.

Dom Pedro puxara mais à mãe, Carlota – estouvada, liberada, metida sempre em complôs e confusões contra o marido e sonhando ser a rainha do Prata. Como sua mãe, ele era aventureiro, estabanado e tinha compulsão para ter amantes.

Gostou do Brasil. Ao modo da antiga nobreza, ávida de sentimento de posse. Abdicou para não perder o trono, salvando-o para seu filho. Ao embarcar para o exílio e ouvir os lamentos do marquês de Barbacena, que reclamava por estar abandonando os amigos, reagiu indócil: “Você não pode se queixar. Está de bolso cheio – cheio do dinheiro que roubou para tratar do meu casamento com dona Amélia”. Era o mesmo dom Pedro que dissera ao marquês de Quixeramobim sobre Gonçalves Ledo, quando este o defendia: “É a terceira vez que o compro e de todas me tem servido bem”.

Em terras lusitanas, dom Pedro salta no Porto, inicia a luta contra seu irmão dom Miguel, vence a parada e torna-se dom Pedro 1º do Brasil e dom Pedro 4º de Portugal. Morre no Palácio de Queluz – onde nascera – aos 34 anos, de tuberculose, doença que o acompanhava desde as lutas do Porto. Deixa os dois filhos – dom Pedro 2º, no trono do Brasil e, no de Portugal, dona Maria da Glória.

“Independência ou morte” é a mais forte das mensagens brasileiras. Tamandaré gritou no Riachuelo: “Os que forem brasileiros que me sigam”. Fernando Henrique, “Exportar ou morrer”. Washington Luís, “Governar é fazer estradas” e o Barão de Itararé, “Quando pobre come galinha, um dos dois está doente”.

Fiquemos com o padre Xavier, que, no dia 7 de setembro de 1822, gritou três vezes, no teatro Ópera de São Paulo, para dom Pedro: “Viva o primeiro rei do Brasil”. Depois, vieram o Pelé e o rei Momo.