Por quem gritam os biguás?

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Fala-se da ecologia com a mesma magia como no passado se falava de Deus e da criação. A visão vertical da Terra que nos foi dada pelas naves e instrumentos de ótica lançados ao espaço nos forneceu a imagem real que o pensamento humano formulava e não via: somos um pequeno nicho cósmico com recursos limitados e sujeitos às restrições do seu uso. Essa projeção passou a ser base de algumas verdades filosóficas. Todos sabemos que a Terra está doente e que, se não cuidarmos dela, acabam as condições de existir vida e ela transformar-se-á num planeta morto como tantos que existem no espaço.

Richard Falk, no seu livro “This Endangered Planet”, nos adverte sobre a contradição que vivemos de que “quanto mais o mundo se desenvolve, mais a situação da Terra piora”. E o homem, para lembrar Lévi-Strauss, é o grande poluidor.

Se tivéssemos que tirar um retrato da dor, do sofrimento, da denúncia, do desespero, ninguém tiraria um mais exato do que a foto daquele biguá negro, de bico aberto, olhos esbugalhados, asas encharcadas de óleo, gritando que não podia mais comer, voar, libertar-se do chão no prazer da vida.

O seu grito, que comoveu o Brasil e cuja imagem, publicada aqui, foi passada ao mundo inteiro, não era só por ele, mas por todas as espécies que estão ameaçadas. Pelo falcão-de-peito-vermelho do Amapá, pelo papagaio-cara-roxa de São Paulo, pela ararajuba do Maranhão, pela saíra-apunhalada do Espírito Santo, pelo sabiá-pimenta das Alagoas, pela araponga de todo o Nordeste, pelas tartarugas, pelas baleias, pelo cervo do Pantanal, pelo tatuapara, pelo mico-leão, pela preguiça, pelo peixe-boi que é cruelmente morto de pau e faca. O grito do biguá é também pelas florestas de mogno que estão sendo derrubadas, pelas queimadas, pelos rios, pelos céus.

Nada mais essencial à vida do que a água e o ar. São eles que estão sendo contaminados pelos homens numa proporção demolidora. O maior problema do século 21 será o da água doce. Na Europa, já é dramático. Aqui, os inseticidas, os pesticidas, os detergentes, as indústrias poluidoras, o lixo, o mercúrio, o desmatamento e tudo o mais nos faz pensar na urgente necessidade de salvar nossos rios que estão morrendo. Em relação ao ar, não é possível nem dimensionar o que ocorre. Os combustíveis fósseis, acumulados durante centenas de milhões de anos, estão sendo convertidos em gases e cinzas, resultando no aquecimento da atmosfera. O que irá acontecer? O efeito estufa, o buraco de ozônio e o degelo da calota polar nos indicam um desastre incompatível com a vida, nos moldes em que a conhecemos hoje.

É inacreditável que até hoje milhões e milhões de toneladas de petróleo transitem nos mares e diariamente se registre, aqui ou ali, um acidente de pequena ou grande proporção.

A mancha negra dessa catástrofe chegou à baía de Guanabara por um oleoduto da Petrobras. Não é culpa somente dela. É culpa de todos nós, que achamos ser a causa ambiental somente tema do ideário de jovens e ambientalistas.
Os biguás estão gritando por nós, que estamos matando as águas, e as aves marinhas, que vivem delas, lançam ao infinito a sua dor eterna.


Vamos ser compadres

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A fidelidade do povo maranhense aos santos juninos é não somente uma tradição, mas uma demonstração de fé. Veja-se até hoje como essas devoções tem atravessado séculos: Santo Antônio, São João, São Pedro e São Paulo. Depois veio agregar-se a veneração a São Marçal. Depois do bairro do João Paulo receber a Avenida São Marçal, a ele coube a responsabilidade de juntá-lo às nossas festas de junho.

Hoje, com as cidades cheias de asfalto e a quantidade de carros ocupando ruas, avenidas e praças, desapareceu o ritual de, em torno da fogueira, aquecidos pelo calor do fogo e da devoção, escolher-se (assim muitas vezes presenciei na minha infância) um amigo querido para ser compadre.

E então, de mãos dadas, atravessavam a fogueira e faziam o juramento: “Juro por São Pedro e São Paulo que recebo (dizia-se o nome do escolhido) para ser meu compadre”.

O outro respondia o mesmo juramento. Depois eram o abraço e as cantigas de roda em torno da fogueira, com a temática de São João, a mesma das quadrilhas.

São Marçal veio depois, não era Santo do Interior, era santo venerado em São Luís. Foi aqui que eu o conheci e incorporei-o aos festejos joaninos, principalmente rumando para São José de Ribamar, onde criou-se a tradição de reunir os Bois para encerrar os festejos.

Como todas as tradições, com o tempo, elementos vão se juntando e depois fazem parte do todo. Assim é que o João Paulo era o limite para os Bois até 1966, sem poderem entrar na cidade porque era “Brincadeira de caboclo”. Eu acabei com isso abrindo-lhes as portas do Palácio dos Leões: ali a noite toda de São João os Bois dançaram e os “caboclos” beberam sua tiquira, que era a bebida de outrora que acompanhava a “pipoca”. Leio que agora ali no João Paulos se reúnem no dia 30 os Bois de matraca e durante o dia mais de trezentas mil pessoas participam dos louvores a São Marçal e aos Bois do sotaque de matraca. Quantos anos nosso grupo, eu, Tribuzi, Luís Carlos, Lucy, Floriano, Madeira, Evandro, Domingos Vieira Filho, Cadmo, Pedro Paiva acompanhamos a noite toda o Boi da Maioba, nós de matraca na mão, até o romper do dia quando se cantava a “despedida”: “Adeus, eu já vou me embora / é chegada a hora de partir. / Assim como o dia se despede da noite, / eu me despeço de ti.”

São Marçal foi mandado para a Gália por Décio e Crato para ser Bispo de Limoges, hoje a cidade da França célebre por suas belas louças, e de lá converter a Aquitânia. Uma lenda dizia que tinha sido apóstolo de Cristo, companheiro de Pedro, o que foi desautorizado pela Igreja.

São Pedro foi o apostolo dos circuncidados (judeus), já Paulo foi designado para pregar aos gentios (Carta os Gálatas) e é um dos maiores consolidadores da doutrina cristã. São João foi o apóstolo dileto e querido, a quem Deus entregou sua mãe Maria, e quem escreveu o mais belo dos Evangelhos e o Apocalipse.

Mas não podemos esquecer que as festas do Boi começam com o batismo no dia de Santo Antônio, 13 de junho, e se encerram no dia 30, de São Marçal.

Você, meu leitor, aceite, em torno dessa fogueira virtual — linguagem de hoje —, ser meu compadre em nome de São Pedro, São Paulo e São Marçal…


É chegado o momento de sermos bilíngues

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A propósito do artigo de Juan Arias sobre o espanhol e o português como duas línguas irmãs, devo dizer que o texto é antológico, embora tenha minhas ressalvas sobre o “ão”. É muito autoritário e bem lusitano. Me encanta o ritmo e o doce deslizar, como águas que passeiam, do castelhano. Afinal é difícil compará-las. São xifópagas.

A aventura da língua portuguesa é notável. Embora Camões diga ser “a última flor da Lácio”, na verdade era um dialeto do espanhol, que não tendo terra para falar, ganhou os mares, indo até Nagazaki,onde recolheu palavras e deixou palavras. Enriqueceu-se e também influenciou a sintaxe de idiomas como o papiamento e o iorrobo, além de marcar o vocabulário de numerosos outros idiomas do iorubano ao japonês e o crioulo de Cabo Verde, Guiné, São Tomé, etc…Foi língua de Corte na África, nos reinos do Benim, Congo e Warri, assim como o francês no século XIII, tinha sido na Europa.

Pois bem, o português quando os oitenta anos do domínio português das navegações entrou em declínio, encontrou as terras do Brasil e seguiu sua vocação andante. Matou as línguas nativas, a língua geral do novo território, o neengatu, e só parou no contraforte dos Andes. E aí o que encontrou? O espanhol de onde tinha se separado. EL PAÍS nos encontra e nos integra. Agora é chegado o momento de sermos bilíngues, já que caminhamos para uma coisa horrível, o portunhol ou o espanholês, uma agressão ao português e ao espanhol. Infelizmente, muitas vezes sou obrigado a socorrer-me desse monstro. Quando Presidente tentei colocar o espanhol no currículo de nossas escolas do ensino Médio.


O sucesso de ser infeliz

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Muito já se escreveu sobre a morte de Cássia Eller, sua tragédia e o mistério que sempre ronda o fim das celebridades, como ela, jovem, ousada, amadurecida no domínio de sua arte e, de repente, ferida em pleno vôo, fato que os romanos simbolizavam naquelas colunas partidas, marco dos heróis jovens tombados em plena glória. Volto ao tema para refletir sobre o destino.

As revelações que se fizeram sobre sua alma atormentada e triste nos remetem aos personagens mais pungentes de Dostoievski e de Dickens.

É difícil a convivência com o sucesso. E, cada vez mais, o sucesso é um exigente produto de consumo. O público tem fome de ícones e de símbolos. As pessoas são obrigadas a sucumbir ao sucesso. Os ídolos são cobrados e levados a extremos de sacrifícios e renúncias, sendo o menor deles o da privacidade. E privacidade não diz respeito somente à vida privada, mas ao direito de cada um ficar só, consigo mesmo, dentro do latifúndio da sua solidão, que é invadido pelos problemas que rondam o êxito: compromissos, vaidades, intrigas, disputas e toda sorte de sentimentos corrosivos do afeto. É preciso estar preparado para enfrentá-los.

Aí entra a questão básica da felicidade, da paz interior da doutrina cristã. O discurso mais comovente que já ouvi foi do senador Agenor Maria. Ele, simples marinheiro, de repente chega ao Senado. Começa a conviver com problemas políticos e pessoais. Em comovente pronunciamento, ele conta a sua vida de sucesso e de vitória. Mas, melancolicamente, conclui: “Tudo isso aconteceu comigo, mas o tempo mais feliz da minha vida foi quando eu vendia água em Caicó, no Rio Grande do Norte. Só possuía um jumento, dois tonéis e os meus fregueses. Não tinha nenhum dos problemas que me atormentam hoje”.

Quando vi a tragédia da cantora Cássia Eller, uma mocinha que saiu de Brasília, dos bares do circuito underground da cidade, com o baixo Hoffman na mão, olhos no futuro. Chegou ao mais alto ponto da fama com a alma arruinada, revoltada, escrava do sucesso de ser infeliz, que aumentou o seu infortúnio e a deprimiu.

O velho do Restelo, de Camões, diz aos que partem na aventura da busca de fortuna e fama em mares desconhecidos: “Oh! Vã cobiça dessa vaidade”. Para que serve tudo isso?

A sociedade industrial gera valores materiais. Os valores do espírito vão ficando como inúteis. A gente, sobretudo a juventude, mergulha no alcoolismo, nas drogas, no delírio das formas mais destruidoras da alegria. No fim desse túnel está a violência.

A história de Cássia Eller permanece interrogando nossos corações. A mocinha de Brasília, a jovem roqueira dos ritmos alucinantes, morre dizendo “não consigo mais relacionar-me com ninguém, só sirvo para ganhar dinheiro”, um testemunho e uma denúncia à nossa sociedade, voltada à busca compulsiva de bens e à sublimação de todos os prazeres.

É como se, numa premonição, Caetano Veloso, quando fez a composição “As Gatas Extraordinárias”, a ela destinada, estivesse falando pela voz do destino: “Tenho que pegar essa criatura / Tenho que pegar, tenho que pegar/ Tenho que pegar”.


O perigo de falar

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Falar já é um perigo, falar demais é um desastre. Por isso, o rei David já advertia que o melhor é “guardar a língua, porque guarda a alma de muitos atropelos”. Mas uma coisa difícil é ficar calado. Eu, por exemplo, depois de 40 anos no Congresso, cheguei à conclusão de que, ao contrário do que todos pensam, o parlamento é lugar de ouvir e não de falar. Por outro lado, ouvir é bom porque ensina. José Guilherme Merquior, esse talento extraordinário, talvez a maior perda da inteligência brasileira nestes últimos tempos, foi acusado de gostar de citar, e a mim observou: “pois é, se eu cito é porque li, se li aprendi e, se confesso que preciso de aval ao que estou pensando e me socorro dos outros, é prova de humildade”. E deu uma boa gargalhada!

Não vou falar das declarações do Sérgio Motta. Afinal, perdeu-se o hábito de pensar alto, e quando alguém pensa, todos se levantam em guerra para a malhação. Na juventude, os partidos de esquerda tinham o conhecido hábito da autocrítica. Cada um levantava e dizia o que queria, trocavam palavrões, defendiam-se e por fim a coisa terminava em pancadaria ou em cervejaria. O ministro das Comunicações tem dado provas de que comunica e não se trumbica, como dizia o nosso grande pensador Abelardo Barbosa, o Chacrinha. Isso é simpático e muito humano.

Mas o que eu quero falar mesmo é sobre o hábito de as empresas americanas considerarem o Brasil país colonizado, de quem o colonizador pode dizer tudo. Veja-se a indelicadeza, a falta de visão, a injustiça das declarações feitas pelas empresas de pesquisa farmacêutica dos Estados Unidos, na visita do então presidente Fernando Henrique. “Os Estados Unidos devem abrir sua carteira para este país pirata de patentes?”, esta foi a pergunta pela qual pagaram US$ 200 mil para encher as páginas do “New York Times” e do “Washington Post”. A primeira resposta é outra pergunta: Quando os Estados Unidos já abriram sua carteira para alguém bater? Cada descoberta tem atrás de si o saber acumulado da humanidade ao longo dos séculos pelo homem. Desde os tempos da Rodada do Uruguai, o Brasil vem fazendo esforços para conseguir resolver o problema dentro dos seus interesses e respeitando os tratados e acordos que mantêm bi e multilateralmente.

Os Estados Unidos não têm a Lei do Comércio 301, votada pelo Congresso defendendo os interesses americanos? Por que o Congresso brasileiro não pode estudar mais demoradamente a lei de patentes? Sou daqueles favoráveis à solução do problema, respeitando, dentro dos interesses nacionais, a propriedade intelectual. Mas condeno esta prática do “big stick” e das ameaças. O anúncio feito pelas empresas farmacêuticas dos Estados Unidos foi, no mínimo, uma leviandade.

Mas essa gente tem cabeça de girico. Severo Gomes contava que, quando ministro da Indústria e Comércio, um relatório de uma grande produtora de medicamentos dizia: ‘Este ano o inverno foi pequeno, tivemos prejuízos porque não teve muita pneumonia. Mas fiquem tranquilos, já dispomos de todas as informações metereológicas e no próximo ano vamos ter um inverno de arrombar, com pneumonias, tuberculoses, mortes, hospitalizações multiplicadas por mil e iremos vender bastante num total de anular os prejuízos deste ano. Fiquem tranquilos os acionistas.”


A reforma dos móveis

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Durante meus sessenta e tantos anos de vida pública, a palavra que eu mais ouvi foi realmente Reforma. Mais isso não aconteceu só durante o tempo em que vivo. Abro os livros que li sobre história política e verifico novamente que não é uma palavra de agora. Ela resiste há séculos e o próprio Partido Comunista, quando estava no seu auge, já se dividia na luta entre Rosa Luxemburgo e Bernstein, na luta sobre quem devia tomar os rumos da nova ideologia. Reforma como antítese da Revolução. Rosa, La Roja, radical e intransigente, que morreu assassinada em circunstâncias misteriosas, de um lado, e seu contendor de outro, a defender mudanças que garantissem a sobrevivência do Partido.

Aqui mesmo no Brasil, durante o Império, o que mais se ouvia era a palavra Reforma. Nabuco, então — não o filho, mas o pai, o Conselheiro Nabuco de Araújo —, ao fundar o Centro Liberal, lançou o grande desafio para salvar o Império e o Brasil: “Reforma ou Revolução”, o mesmo slogan que seria usado trinta anos mais tarde pela socialista.

Jango ficou enrolado nessa questão e com ele a palavra Reforma — acrescentada da qualificação “de Base” — passou a ser, não a antítese de Revolução, mas a própria Revolução Comunista. Por isso terminou sendo deposto, livrando o Brasil do perigo vermelho!

Na democratização da Reforma, esta tornou-se, como se dizia do chá de pau-d`arco-roxo, o remédio que curava tudo. Lembro-me bem que o comício célebre de 13 de maio, em frente ao Ministério da Guerra, estopim de 64, foi chamado “o Comício das Reformas”.

Já para os militares a palavra passou a ser um fantasma aterrador, porque militar reformado passa a ser “de pijama” e fica sem prestígio.

Eu, para superar o terror da expressão Reforma Agrária, coloquei no ministério o nome de “da Reforma Agrária” e por isso fui chamado de comuna.

Agora vivemos de novo o ciclo das reformas, palavra que Fernando Henrique não quis usar e substituiu por flexibilização. E o Temer quer caracterizar o seu governo como o “Das Reformas” e por isso está pagando um preço altíssimo.

Estamos em pleno mar das reformas. É reforma para todo lado, trabalhista, política, previdenciária, da Cúria Romana, do samba-enredo, da administração, do ensino médio, do Enem, do biquíni, da bolsa de valores. Todo jornal, toda revista, toda programação de TV está sempre buscando uma reforma. Tudo tem que ser reformado. Passou da política, cruzou as igrejas e agora é de tudo.

Até minha mulher quis reformar as estantes de minha biblioteca, que julgou velhas e feias. Foi uma briga danada e finquei pé no lado antirreformista.

Mas não fiquei cantando de galo, pois ela me disse: “Então vamos reformar os móveis da sala!…”


Histórias de meu avô

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O velho Assuéro, meu avô materno, era uma dessas figuras inesquecíveis. Vermelhão, rígido, ombros largos, olhos médios e claros — e um falar firme que dava a impressão de jamais falava sem ser dando ordens ou, às vezes, pensando em voz alta. Viera para o Maranhão tangido pela seca de 1921, com minha mãe, mocinha de treze anos, e mais quatro filhos, o mais novo, Alberico, que aqui ficou a vida toda, depois de ter passado alguns anos na Polícia Militar de Pernambuco, onde chegou ao posto de major.

Gostava de falar por provérbios, muitos deles nordestinos, onde tinha sentenças preciosas.

Uma delas, talvez a que mais repito, era uma que dizia: “Três coisas neste mundo a gente não pode contar: as estrelas no céu, pau torto e gente besta.” Outro era: “Não há doce ruim, cabra bom, nem mulher feia de vestido branco.”

Certamente era uma alusão às noivas porque todas ficam bonitas nos seus vestidos de vestido de cauda rendada, usadas naqueles tempos.

Comecei a observar e me influenciar por esses ditados e tenho a certeza de que toda mulher vestida de branco fica bonita. Hoje é uma coisa fora de moda e são melhores os tomara-que-caia e as minissaias, que nos trouxeram as pernas e pedaços de coxa à mostra, desfrute que os nossos avós não tiveram, pois, naqueles séculos passados, nem os pés podiam ser mostrados. O islamismo vai diminuir por causa de permissão para usar essas coisas modernas, com passagem pelo biquíni, aquele que, segundo Roberto Campos, “mostra tudo escondendo o essencial”. Mas nos países ricos já começou um movimento de retirar os seios do essencial, numa tendência de um futuro muito promissor para a tanga.

Comecei com meu avô e fui atraído pelo biquíni e o tomara-que-caia. Mas no fundo o velho não gostava mesmo era de pano, preferia sem nada, e a prova é que me deixou uma tia quase da idade de Roseana.

Ele só não admitia era casamento sem virgindade. Era rígido e revoltado naquilo que chamava questão de honra. Um dia, eu estava na mesa de café com meu avô quando chegou um seu compadre, chamado Raimundo, e contou-lhe:

— Compadre Assuéro, a sua afilhada Teresinha perdeu a honra!

A virgindade, naquele tempo, era uma coisa sagrada: as moças não podiam jamais ter relação antes do casamento, tinham que casar virgens. Havia até uma comissão que, de manhã cedo, ia verificar se o casamento tinha sido consumado e se a noiva era virgem. O defloramento era motivo de anulação previsto em lei.

O Raimundo continuou:

— Eu vim aqui, compadre, para que o senhor me ajude. Eu já levei minha filha à delegacia de Pedreiras. O delegado mandou chamar o Antônio, autor da desonra de minha filha. Ele disse que ia se casar com ela para reparar o mal. Essa era a fórmula do art. 1.548 do Código Civil de 1916, que vigorou até o começo desse século.

O compadre continuou:

— Então, marcamos para sábado passado o casamento. Eu fui com minha filha à cidade de Pedreiras para o casamento. Mas o Antônio não apareceu. Eu vim falar com o senhor para procurar o delegado e resolver a questão.

Qual não foi minha surpresa quando o meu avô bateu a mão com força na mesa e disse:

— Compadre, você tá ficando um homem sem vergonha! Vá dar um corretivo nesse sujeito e venha me pedir para tirá-lo da cadeia! Não me venha com essa história vergonhosa, que eu já estou até com raiva!


O jogo da semântica

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As palavras, como as pessoas, têm sua vida, nascem, exploram sua juventude e morrem no desaparecimento do uso. Algumas, intencionalmente; outras, em razão mesmo do desgaste.

Recordo-me a primeira vez que ouvi a resposta a pergunta que fiz: “Como está nosso amigo comum, Eurico? Ele me respondeu: “Joia.”

Eu nunca tinha ouvido essa palavra com esse significado. Depois, foi massificada como expressão de bem-estar.

Outro amigo meu, quando viajei a Nova York e lá comentavam sobre o Brasil, me disse:

— É o país mais legalista do mundo. Quando se pergunta até sobre as pessoas:

— Como vai?

A resposta vem rápido:

— Tá legal.

Isso mostra nosso apreço à lei e a condenação a tudo que está fora dela.

Que grande hipocrisia pensar assim! Tá legal não tem explicação. É tá legal, e se aplica a muitas coisas.

Agora, a moda e a palavra que entraram em circulação foi delação, que passou a ser ofensiva para aqueles juízes que levam o pobre coitado a mostrar uma fraqueza de conduta. O delator hoje é colaborador. A primeira vantagem que ele tem ao delatar é trocar de conceito: de pessoa de conduta ultrajante para pessoa de conduta heroica.

A palavra também é objeto de consumo: consome-se até, como a própria moda, deixar de ser moda. A juventude, esta, tem o seu vocabulário próprio.

E eu, outro dia, tomei conhecimento da minha ignorância do vocabulário jovem quando perguntei a um filho meu se gostava de skate, ele me respondeu: “Meu tio, é massa.” Eu, inocentemente, perguntei “Massa de quê?” “É massa, meu tio. O senhor não sabe o que é massa?”

Recordo-me, com saudades, de uma palavra que o velho Nascimento Morais, meu companheiro de redação no jornal O Imparcial e notável figura do jornalismo maranhense, me passou num conselho: quando quiser escrever uma catilinária sobre alguém, comece com a palavra sevandija. Se não tiver sevandija, não é lapada nas costas. Mas ela já desapareceu. E eu mesmo, com saudades dela, tenho receio de empregá-la para não parecer esnobe e querer obrigar a consulta a um dicionário.

Tive um colega na Academia Maranhense de Letras que tomou parte numa discussão levantada pelo Professor Mata Roma sobre semântica.

Ele levantou-se e recitou os versos de Bilac: “Amai para entendê-las! / Pois só quem ama pode ter ouvido / Capaz de ouvir e de entender estrelas.” E concluiu: “Olhe o jogo da semântica.” Nem ele sabia o que era semântica. O velho Mata Roma disse: “Aqui não quero falar mais. Encerro minhas considerações nesse momento.” E ficamos, em nosso cotidiano na Academia, de vez em quando, a olhar para o outro colega e dizer: “Olhe o jogo da semântica.”

Domingos Vieira Filho teve a pachorra de coletar palavras do nosso linguajar. Escreveu um livro excelente A linguagem popular do Maranhão. Nela encontramos algumas expressões que já estão mortas, como, para citar uma erudita, machavelismo, que nada mais é do que a cultura chegando ao povo. Vem de Maquiavel e maquiavelismo. Além das eruditas, há as populares: cantocruzetaqualira.

Quero encerrar essas lembranças e brincadeiras com palavras repetindo uma nova expressão, que circula hoje entre os jovens e até entre os velhos: “Tô de boa.”


Passado do Futuro

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O tema do tempo sempre fascina a mente humana. Primeiro que o tempo não existe: é uma criação do homem. O tempo é um pedacinho da eternidade. Mas lembro-me de duas sínteses literárias de que eu gosto muito, quando se trata do tempo. Uma é do T. S. Eliot, o grande poeta inglês, que abre um poema sobre o tempo com estes lapidares versos: “O tempo presente e o tempo passado / Estão ambos talvez presentes no tempo futuro / E o tempo futuro contido no tempo passado. (“And time future contained in time past.”)

Tenho, ao longo da vida, escrito muito sobre o tempo em crônicas, meditações e vivências. E vejo, com alegria, que um artigo meu renova essa discussão e traz o Padre Vieira para o centro dela.

Que bom que o Amapá não esqueça Vieira. Mas acusar-me de passadista é uma deslavada ofensa, uma vez que ninguém mais do que eu procura estar com os olhos voltados para a frente, tentando desnudar o futuro.

Assim, o período que exerci a presidência foi o último tempo em que o Brasil preocupou-se com os avanços da modernidade: fizemos o laboratório de construção e teste de satélites; nossa comunidade científica dominou o desenvolvimento da fibra ótica; construímos o síncroton para estudar a estrutura da matéria, aquilo que tanto preocupa o homem, até hoje em busca da Partícula de Deus; fizemos um avanço extraordinário em algo com que o mundo até hoje tem preocupações, como o caso do Iran — a descoberta do enriquecimento do urânio na fábrica de Aramar, abrindo as portas para o aproveitamento da energia nuclear para fins pacíficos; e os materiais dos semicondutores. Até hoje a comunidade científica me homenageia por esse feito e tem saudades do passado, ainda sem motivos para ter, como Vieira, saudades do futuro.

No Maranhão, trouxe o primeiro computador que entrou no Nordeste, um Burroughs de pesquisa, para substituir as máquinas; instalamos a primeira tevê didática, hoje educacional, do Brasil; e mandei os Professores Lobato e Anselmo ao Japão para serem capacitados para as novas tecnologias do ensino.

No Senado, modernizei toda a máquina administrativa, informatizando-a, e fiz parte da comissão que criou o Prodasen, o grande banco de dados que temos no País.

Fui o primeiro — e único — Presidente a visitar o acelerador de partículas do Fermilab. Tenho verdadeira fascinação pela física pura e pelas descobertas de partículas.

Mas a acusação que me fizeram de passadista nada mais era do que protesto contra a crítica que fiz ao stalindino, que, num estado agrícola como o Maranhão, desconhece a função social da propriedade e coloca-se contra ela, perseguindo comerciantes, industriais, fazendeiros e produtores rurais, determinando que esses não tenham a proteção do direito de imissão em suas terras, proibindo a Polícia de garanti-los — segundo me dizem, há mais de dez mil mandados que foram proibidos de serem cumpridos.

Tudo isso, no final, implica na destruição de empregos, quando o Estado apresenta uma alta estatística de perdas de postos de trabalho.

Nada tão decadente quanto o stalindinismo, que completa, neste ano, 100 anos, tendo sido responsável por um grande atraso da humanidade e por vinte milhões de mortos, além de ser pregador da volta ao terror da Revolução Francesa, a guilhotina da Praça da Concórdia, em Paris.

Para terminar, numa homenagem ao tempo, cito Platão. Para mim, na melhor definição (em Timeo) sobre ele: “O tempo é a imagem em movimento da eternidade.”


A teoria da greve geral

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O Brasil está num saudosismo danado e deseja ressuscitar, na prática política, meios há muito mortos. É a famosa volta dos dinossauros. No princípio do século passado, há mais de um século, o comunismo — ou melhor, os teóricos do comunismo — pregava que a maneira de derrubar governos e implantar o marxismo era os operários fazerem uma paralisação geral, imobilizando todo um país, que, assim, sem funcionar, seria uma presa fácil da ditadura do proletariado.

E a moda circulou por todo o mundo, sobretudo pela Europa, berço do pensamento político humano.

A greve foi uma conquista dos trabalhadores, usada desde o princípio da Revolução Industrial (os exemplos da antiguidade tratam de universos muito distintos), num tempo em que a exploração do trabalhador o tornava escravo do trabalho e do patrão. Os menores e as mulheres, com salários mais baixos, eram vítimas das mais cruéis explorações. Com estes excessos foi natural nascer a reação, inclusive contra o lockout — a empresa fechar para obrigar o trabalhador a aceitar trabalhar com salários miseráveis. Se o patrão podia impor suas condições ao empregado, fechando as fábricas, arrancando-lhe o meio de ganhar o seu pão, porque esse não podia também fechar a fábrica, obrigando o patrão a ficar sem ganhar dinheiro, paralisando seu negócio por tempo indeterminado. Eis o nascimento da greve, justa reivindicação por salários e contra a exploração. Depois, com o andar da carruagem, surgiram os sindicatos, que — mais adiante com a força da contribuição sindical — deram aos operários condições de politicamente enfrentar os chamados partidos de massa contra os partidos de quadros. Duverger trata desse tema longamente.

E então a greve passou a ser um instrumento também político. Os partidos ideológicos incorporaram aos seus programas o direito de greve, que deu seus resultados e serviu bastante para o avanço do bem-estar da classe operária. Isso foi no passado. O trabalhador, hoje, com os sindicatos e suas confederações, tem uma força muito grande e não precisa recorrer às greves para obter conquistas.

As convenções coletivas, os direitos constitucionais, a empresa moderna com seu sentido social, tornaram a greve geral anacrônica, que apenas resiste em países subdesenvolvidos e sem instituições fortes. Por outro lado, a diversidade de trabalho fez com que o trabalhador também não tenha interesse em paralisar a empresa.

Daí o fracasso das greves gerais. No meu governo tentaram duas, e ambas fracassaram redondamente. Essa de sexta-feira seguiu o mesmo caminho e resumiu-se a tentar impedir que circulem os meios de transporte, o que revolta o próprio trabalhador, além de criar o medo da violência com os confrontos entre baderneiros e a polícia — também desaparelhada para enfrenta-los por meios democráticos, sem apelar para uma repressão com uso excessivo da força e com brutalidade. O que antigamente eram os piquetes, hoje são os arruaceiros, sem nada que seja trabalhador.

Daí porque, hoje, greve geral fracassa, irrita o trabalhador e atrasa as conquistas trabalhistas.