Submarinos alemães afundados na costa do Amapá

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A Kaiserliche Marine da Alemanha utilizou 1.168 submarinos na II Guerra Mundial. Cerca de 150 atuaram no litoral brasileiro e afundaram 33 navios mercantes que transportavam matérias primas para os Estados Unidos da América. Os alemães identificavam estas poderosas armas como “Unterseeboat”, que literalmente quer dizer “pequeno barco de baixo-de-água”. De forma simplifica, usavam a letra U e um número para identificá-los. Singrando as águas atlânticas, entre os Estados Unidos e o Golfo do México, os U-boats tinham o propósito de afundar navios de carga que transportavam suprimentos e material bélico dos Estados Unidos e Canadá para a Europa. Ao entrarem na guerra, os Estados Unidos fizeram uso de radar, sonar, carga de profundidade, decodificação de códices, escolta aérea e formação de comboios, diminuindo a eficácia alemã. Em meados de 1941, começou a ser instalada a “Cintura do Atlântico”, que correspondia ao trecho de 1.700 milhas entre Natal e Dacar. O Brasil autorizou os USA a instalar bases aéreas nas cidades de Amapá, Belém, Natal e Recife e liberou-lhes os portos de Recife e Salvador. Ainda em meados de 1941, chegava a Natal a “Task-Force 3” dos Estados Unidos. Em represália, os alemães atacaram navios brasileiros na costa americana e no Caribe. Foram a pique os navios Cabedelo, Buarque, Olinda, Arabutan, Cairu e Parnaíba. Em águas brasileiras, o submarino italiano “Bergarigo” torpedeou sem sucesso o navio Comandante Lira.Barcos corsários camuflados de navios mercantes supriam as necessidades dos submarinos alemães.Havia U boats que só faziam o abastecimento dos outros e eram chamados de “milchkuh” ou vaca leiteira. A Força do Atlântico Sul, criada pelos americanos estava sediada em Recife. A ação contra os U-boats destruiu nove unidades alemãs, duas delas na costa do Amapá: U-590 e U-662.

O U-Boat-590, comandado pelo capitão OBLT Werner Kruer vinha sendo caçado porque afundara o navio Pelotas Lóyde. Navegava na superfície ao largo da costa do Amapá, em alto mar, dia 9/7/1943, quando o avião Catalina PBY-3, do Esquadrão PV-94 sediado em Belém, que patrulhava a região norte o avistou a 200 milhas do litoral amapaense. Ao perceber a aproximação do avião o submarino emergiu e desapareceu por cerca de uma hora. Logo depois retornou á superfície, ocasião em que o catalina mergulhou sobre ele e lançou suas bombas, atingindo-o em cheio. O U-590 foi ao fundo no ponto demarcado por 3º e 22’ de Latitude Sul e 48º, 38’ de Longitude Oeste.Restaram na superfície do oceano 5 homens e vários destroços. A tripulação do Catalina jogou ao mar várias balsas, mas apenas 2 alemães conseguiram alcançá-las. Horas mais tarde eles foram recolhidos por um navio e levados para os Estados Unidos e submetidos a interrogatórios.

O U-Boat-662 navegava ao largo da costa do Amapá, no dia 21/7/1943, comandado pelo capitão OBLT Heinz-Eberhard Muller, a espreita do comboio T3-2, que seguia com destino aos Estados Unidos. Ele já havia afundado três navios. O Catalina 94-P-4, que dava cobertura aos navios brasileiros avistaram o submarino a 4 milhas de distância e se posicionou para o ataque. O submarino imediatamente acionou a artilharia antiaérea, conseguindo ferir o radiotelegrafista do avião. O aparelho iniciou um pique raso, já atingido pelo fogo inimigo. Mesmo com problemas no estabilizador vertical e na cantoneira exterior do casco da estação radiotelegráfica, o Catalina conseguiu despejar suas bombas sobre o submarino, atingindo em cheio o casco a bombordo, da torre de comando à frente da proa. Esta se elevou sob espessa cortina de fumaça e o submarino afundou sob mancha de óleo. Pouco tempo depois, quatro tripulantes, entre eles o capitão foram vistos na superfície do oceano. O Catalina lançou balsas, para onde nadaram os sobreviventes que foram resgatados pelo navio USS – S Siren e levados para os Estados Unidos. Bastante danificado o catalina 94-P-4 retornou a Belém com problemas hidráulicos e de comunicação pelo rádio. O submarino foi a pique na posição Latitude 3º 56’ Sul e Longitude 48º 46’ Oeste.


Frutas da minha infância

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Os primeiros anos da minha vida, compreendidos entre maio de 1944 e abril de 1946, foram passados na cidade de Mazaganópolis, onde meu pai, Francisco Torquato de Araújo era prefeito municipal. Qualquer moleque com dois anos de idade já consegue comer determinadas frutas, desde que elas não tenham caroço grande. No quintal da residência do gestor municipal havia goiabeiras, bananeiras, cajueiros e camapu. Como não gosto de caju in natura e do suco que ele fornece, duvido que o degustasse.

Não aprecio camapu. Acredito que bananas e goiabas me agradavam muito. No Reduto do Rio Furo Seco, localizado na região das Ilhas do Pará, que era propriedade da minha família, a variedade de frutas era bem maior: taperebá, ingá (de moça, de velha, cipó, de macaco, pracuuba), grumixama, melão,melão-de-São Caetano, marajá, maracujá-do-sertão, murumuru grelado, açaí, bacaba,biribá,mari,mari-mari,sapoti, murici,jambo, manga, abiu, tucumã, mucajá, melancia e mututi.

Aliás, o interiorano aplicava outro nome a essa frutinha amarela e doce :” remela-de-cachorro”. No inicio de 1948, passamos a morar em Macapá, no centro histórico da cidade, mas não perdemos nosso vinculo com o Furo Seco. Nossa casa tinha sido feita sob encomenda, à Avenida General Gurjão, incrustada no quadrilátero urbano que os macapaenses chamavam de “Formigueiro”. Não tardei a conhecer uma frutinha meio azeda, cuja arvore ocupava um espaço por trás da sede do Esporte Clube Macapá, entidade esportiva que substituiu o Panair Esporte Clube. Meu pai dizia que o nome da fruta era ginja, trazida pelos portugueses no tempo da colonização de Macapá. De um modo geral, as pessoas apanhavam as ginjas para fazer doce em calda. A iguaria era gostosa, notadamente com farinha bem torrada. Em 1950, um pouco mais crescido e com seis anos de idade, passei a frequentar o Jardim de Infância, instalado à esquerda do Grupo Escolar Barão do Rio Branco. Pertinho da minha sala havia uma frondosa árvore denominada mutambeira. As frutinhas eram pretinhas e doces. A molecada juntava e enchia a boca, mastigando-as para extrair um sumo bem agradável. A massa ninguém engolia. Em seguida, andando pela área do antigo campo de aviação da Panair do Brasil, conheci a maravilhosa “mama”, fruta envolta em casca de cor bege, cuja polpa era branca.

Quem a chupava em razoável quantidade dava a impressão de ter tomado leite, deixando o liquido escorrer pelos cantos da boca. O povo chamava a árvore de mameira, mas sua identidade florestal é tarumã-da-terra firme. O terreno que havia pertencido à Panair do Brasil e depois ficou como patrimônio dos Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul S.A. parecia um jardim de frutas exóticas.
Devido à extensão do terreno, o senhor Rocha, gerente da Cruzeiro, não dava conta de fiscalizá-lo integralmente. Furtivamente, as pessoas ultrapassavam as cercas de arame farpado para recolher inúmeras frutas. Ali conheci uma fruta muito gostosa, o jutaí, também rotulado como jatobá. Perto da casa do Seu Rocha podíamos ver alguns jutaizeiros e inúmeras frutas no chão. Seria arriscado demais tentar pegá-las. Uma vez, balando rolinhas, vi o Seu Rocha caminhando sob os jutaizeiros e decidi arriscar um pedido. A primeira pergunta que ele fez foi sobre minha filiação: ”tu és filho de quem, moleque?” Eu respondi: “do Seu Chico Torquato”. De modo cordial, Seu Rocha mandou que eu entrasse e juntasse jutaís. Menino do meu tempo dificilmente usava camisa.

Um calção, sem bolsos era o suficiente. Enrolei no cós do short umas três frutas, levando uma quantidade maior nas mãos. Desejei tanto dispor das sacolas que as donas de casa faziam com sacos de sal ou com pedaços de lonas de caminhão. A aventura me custou um baita carão dado, por meu pai. Nos terrenos baldios de Macapá, mesmo no centro da cidade, encontrávamos diversos pés de jurubeba. Algumas senhoras nos mandavam colher as frutinhas avermelhadas, mas diziam que elas eram venenosas e só podiam ser usadas para o preparo de xaropes.

Depois, soubemos que elas podiam ser digeridas sem cozimento. Seu Ponciano, ilustre morador do Formigueiro, dizia: “qualquer fruta, que o passarinho comer é bom alimento”. A declaração dele acabou com os velhos tabus.


Jornal “O Balufa”

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Partiu do ginasiano Carlos Oliveira Nery, a idéia da criação de um jornalzinho independente no Colégio Amapaense. Fui o primeiro a ser informado de tal pretensão, haja vista que integrávamos a 4ª série ginasial B e éramos bons amigos. Isso aconteceu no dia 10 de setembro de 1962, após uma aula de Português, ministrada pelo Professor Raimundo Pantoja Lobo, o popular Aporema. Ao comentar a respeito do primeiro jornal a circular no Brasil, “A Gazeta”, do Rio de Janeiro, no ano de 1808, o ilustre mestre também se lembrou do Jornal “O Castelo”, periódico que circulou sob a coordenação do Grêmio Literário e Cívico Rui Barbosa. Entusiasmado com o assunto, o Carlos Nery decidiu concretizar sua idéia. Rapidamente formou um grupo constituído por ele, Nilson Montoril de Araújo, Pantaleão Gonçalves de Oliveira, Aldony da Fonseca Araújo, José Maria “Gato” e Lucas Vale. Em 1962, o Colégio Amapaense era dirigido pelo Engenheiro e Professor de Matemática Manuel Nogueira, que se propões a nos apoiar, desde que, divulgássemos coisas deveras importantes.

A cordialidade do Professor Nogueira nos deu animo redobrado e nos levou à presença do Professor Antônio Munhoz Lopez, Diretor da Divisão de Educação.Na época, a Divisão de Educação funcionava em um anexo do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, atrás da Biblioteca e Arquivo Público. Fomos bem recebidos e aproveitamos para reivindicar a doação de papel, tinta e stêncil para mimeógrafo. Firmamos a importante parceria convidando o Professor Munhoz para nos honrar com artigos sobre literatura e cinema. O Carlos Nery era um craque em pedir. Tinha uma conversa capaz de derrubar avião. Dentre os nossos mais frequentes colaboradores, despontava o Carlos Nilson da Costa, que era aluno do Curso Científico, reconhecidamente “bom de caneta” Em dado momento, lembramos que o jornal ainda não tinha nome. Como o nosso grupo era muito ativo e levava tudo na brincadeira, além de ter a pecha de anarquista, decidimos usar o apelido do Aldony Araújo: Balufa. Ele era bem gordinho e alguém sapecou a adjetivo Balofo, que significa muito volumoso em relação ao peso. Acontece que nosso amigo Aldony não se importava com a alcunha e ela estava correta. Todos o chamavam de Balufa. A brincadeira virou coisa séria e não faltaram colaboradores.

O jornal falava de literatura, cinema, história, educação, esportes, poesia, crônicas, entrevistas, aniversários, humor e algumas fofocas. Em julho de 1963, a equipe do jornal integrou a embaixada do Grêmio/Colégio Amapaense, que realizou uma visita a Serra do Navio a convite da Gerência da Indústria e Comércio de Minérios S.A. O exemplar não era vendido. O jornal nunca criticou gestores públicos e se manteve alheio às questões políticas. Mesmo assim, sua impressão foi interrompida após a intervenção militar de 31 de março de 1964. O mesmo fato ocasionou o fechamento da sede do Grêmio Literário e Cívico Rui Barbosa, a destituição de sua diretoria e a clandestinidade da associação. Dentre os fundadores do jornal “O Balufa”, apenas o Pantaleão Oliveira e o Nilson Montoril de Araújo vivem em Macapá. Os demais já faleceram. O Carlos Nery mudou-se para Belém, onde cursou medicina. O Lucas Vale foi residir em Brasília, onde forças de repressão o teriam eliminado. O José Maria “Gato” retornou a Manaus. O Aldony Araújo, Balufa para os amigos, que simplificaram sua alcunha para Babá, andou por Belém, mas depois retornou a Macapá. Antes do surgimento do Jornal “O Balufa”, outro periódico denominado “O Castelo”, obteve enorme aceitação nos meios educacionais do Amapá. Circulou pela primeira vez no dia 5 de novembro de 1951, como órgão de publicidade do Grêmio Literário e Cívico Rui Barbosa, criado por um grupo de alunos do Ginásio Amapaense para progredir nas atividades literárias e jornalísticas.

O Ginásio Amapaense funcionava no Grupo Escolar Barão do Rio Branco. A 1ª edição do jornal “O Castelo” colocava em destaque a memória de Rui Barbosa e continha crônicas, poesias e notícias diversas. O jornal tinha 12 páginas e boa ilustração, principalmente de um castelo, ainda hoje símbolo do “Colosso Cinzento”. Vários alunos que o idealizaram e nele publicaram obras literárias pararam de fazê-lo após a conclusão de curso ginasial. Porém, o jornalismo amapaense ganhou importante participes.


O Porco-carneiro de Macapá

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O cidadão João Barca de Araújo Coutinho, membro de uma família tradicional de Macapá, exercia a profissão de marceneiro quando ocorreu a criação do Território Federal do Amapá, a 13/9/1943. A exemplo de seus conterrâneos gostou da novidade, mas ficou meio escabreado com as noticias de que tudo mudaria na cidade onde residia. Na época, Macapá era uma pequena e carente cidade do Estado do Pará, onde o tempo passava de modo pachorrento. Muitos moradores possuíam “roçados” nas áreas periféricas da cidade e criavam seus animais soltos pelas ruas, passagens e largos. João Barca possuía um belo boi-cavalo, que em outras regiões do Brasil é denominado boi-de-montaria Era, então, figura de destaque do Marabaixo, tendo composto vários “ladrões” de sucesso. Também é de sua autoria uma canção dolente denominada “A Morte do Pedreira”.

O Pedreira foi um cavalo que pertenceu a Jeribá Álvares da Costa, criador de gado nos campos que margeiam o rio Macacoary e morreu de inanição devido ao descuido do vaqueiro encarregado de sua alimentação e segurança. O falecimento do Pedreiro ocorreu no local onde está erguido o Teatro das Bacabeiras. Após a instalação do governo territorial, a 25/1/1944, os hábitos dos moradores foram mudando gradativamente.

O boi-cavalo do João Barca deixou de pastar livremente no centro de Macapá. Capim para alimentá-lo não faltava, razão pela qual o animal era mantido no cercado da residência de seu proprietário, situada à Rua General Gurjão, entre as Ruas São José e Coronel José Serafim Gomes Coelho, a atual Tiradentes. João Barca era vizinho de meu pai, Francisco Torquato de Araújo e seu compadre de “águas bentas”.

No dia da festa de São José, seu João Barca preparava o boi-cavalo com muito capricho, colocava uma bela sela em seu dorso e o levava para o largo da Matriz. Quem quisesse dar uma voltinha ou apenas tirar fotografia montado no boi-cavalo, pagaria Cr$ 1,00 (um cruzeiro). Habilíssimo com suas ferramentas de marceneiro, seu João Barca fabricava móveis, esquadrias, utensílios domésticos e brinquedos. Na oficina dele havia uma serra igualzinha a que aparece na pintura feita pelo Padre Lino Simonelli, ao lado esquerdo do altar mor da igreja de São José. Em 1953, por ocasião da realização da 6ª Feira de Animais e Produtos Econômicos, levada a efeito na Fazendinha, a Divisão de Pesquisa e Produção apresentou como novidade uma raça de porco totalmente desconhecida na região e pouco difundida no Brasil, a chamada porco-ovelha. A raça é originária da Áustria e da Hungria e o animal tem pelos densos e cacheados, parecendo lã. Provém do cruzamento da raça britânica Lincolnshire Curly Coat com a raça Mangalitza, na Áustria. Em 1900, os porcos da Inglaterra foram vendidos para a Áustria e Hungria, países onde surgiu a raça Mangalitza Gilt. Em 2007, os ingleses decidiram reintroduzir o porco-ovelha na Grã-Bretanha, extinta na comunidade desde 1972.

O animal comprado por João Barca era um macho, ainda pequeno e tinha poucos pelos brancos. A proporção em ele que foi crescendo, os pelos cacheados foram aparecendo. A novidade foi considerada uma aberração da natureza, decorrente do cruzamento de um porco com uma ovelha, coisa impossível de acontecer, porque são animais de espécies diferentes.

A curiosidade humana transformou o porco-carneiro numa celebridade. Gente à beça aparecia na casa do João Barca querendo ver a extraordinária criatura. O assédio só diminui quando o dono do porco pintou uma tabuleta, pendurando-a na cerca de sua casa: “Porco-carneiro, entrada Cr$ 1,00”. Além do salário de servidor público lotado na Garagem Territorial, João Barca contava com os ganhos advindos do boi-cavalo, do porco-carneiro e de seus biscates como marceneiro. A existência do porco rendeu ao Batista, filho do João Barca, a alcunha de porco-carneiro, haja vista que lhe cabia receber os curiosos, cobrar a taxa de visita e cuidar do animal. Porém, com o passar do tempo, o apelido foi esquecido e o Batista apenas ri quando essa história é lembrada.


Bar Cabloco, Bar Pacaembu e as festas do Pajé.

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Criação do Território Federal do Amapá, cuja área jurisdicional correspondia à Capitania do Cabo do Norte, deu aos moradores da região onde hoje existe o Estado do Amapá, um novo alento. A cidade de Macapá, que até janeiro de 1944, tinha apenas 2.042 habitantes, viu esse contingente se elevar para 2.512, em fins do mesmo ano e alcançar 4.192 almas em janeiro de 1948. Muita gente migrou para Macapá em busca de emprego, principalmente operários necessários às obras públicas. As famílias que possuíam casa com vários quartos passaram a aceitar hóspedes e fornecer alimentação. Proliferaram as pensões, os bares, os botecos e as biroscas. Trabalhadores com ocupações diversas também desembarcaram em Macapá. O crescimento populacional motivou os produtores das ilhas do Pará a trazerem frutas, carne de caça, peixe, açaí e farinha para suprir a carência desses produtos na cidade. Embarcações freteiras saiam de Belém, abarrotadas de mercadorias destinadas ao comércio de Macapá que se expandia.

Na área pantanosa onde foram rasgadas as avenidas Joaquim Francisco de Mendonça Júnior e Coaracy Gentil Monteiro Nunes, nas esquinas delas com a Rua São José, despontaram dois bares bem frequentados pela turma da boemia, mulheres da vida fácil e pelas que não eram declaradamente prostitutas, mas alugavam suas perseguidas. Para melhor compreensão da topografia do espaço acima referido, substitua as vias públicas por rudimentares pontes de madeira que o povo chamava estivas. As mundanas às vezes eram rotuladas como raparigas, predominando, porém o termo puta. As duas palavras ainda hoje são usadas em Portugal, mas não têm sentido pejorativo. O primeiro reduto de mulheres prostitutas de Macapá correspondia às casas de madeira construídas na lateral da ponte que passava ao lado do Bar Caboclo. As inquilinas dessas moradias eram cadastradas na Unidade Mista de Saúde de Macapá, tinham direito a carteira de beneficiárias, eram submetidas a inspeções periódicas e tratadas quando contraiam doenças sexualmente transmissíveis. Assim, os boêmios solteiros da cidade e os casados puladores de cerca, recorriam aos préstimos das “primas” relativamente tranquilos. As mundanas mais conhecidas eram: Maria Vadoca, Maria Batelão, Balança-os-Cachos, Peia-Onça e Loura. Elas e outras menos atrativas freqüentavam tanto o Bar Caboclo como o Bar Pacaembu. Entretanto, somente o Pacaembu tinha festas dançantes. Nenhum dos dois mantinha quartos destinados a encontros amorosos. Os pederastas, popularmente identificados pelo povo como “falsos à pátria”, não se atreviam sequer a passar na frente dos referidos estabelecimentos comerciais. O Bar Caboclo não era tão espaçoso como o Bar Pacaembu. Comportava uma mesa de bilhar e poucas mesas. As paredes continham pinturas regionais feitas por um jovem talentoso que hoje é artista plástico renomado: Herivelto Maciel. Vendia bebidas diversas, sorvetes e outros produtos. Enveredando por aquele espaço, serpenteando até alcançar o chamado torrão da terra, atrás do Hospital Geral, passava o Igarapé-do-Igapó ou Bacaba, identificado simploriamente como Igarapé da Fortaleza. Dificilmente ocorriam desentendimentos sérios entre frequentadores dos citados bares. De um modo geral aconteciam arengas, que a turma do deixa disso cuidava de abafar. Nunca ouvi falar que algum valentão ou porre tenha sido jogado dentro d’água. Entre as mundanas, havia uma que não falava daí seu apelido ser “Muda”. Certa noite apareceu na zona do prostíbulo um canoeiro natural da Vigia, que havia passado dois meses no Oceano Atlântico, na costa do Amapá, pescando gurijuba. O caboclo estava atormentado pelo desejo da carne e não perdeu tempo em contratar os serviços da Muda. O cabra gostava de fufurufuncar no escuto e foi logo apagando a lâmpada. Quando a ferramenta do “pelhudo” entrou em funcionamento ouviu-se o grito apavorante da Muda: mamãe! Socorrida por suas companheiras, a Muda esconjurou o canoeiro e prometeu ser mais cautelosa na escolha dos fregueses. Dizem que algum tempo depois o dito caboclo reapareceu na casa das “primas” e arrastou as asas para o lado da Mariazinha, uma nova inquilina. Quando ele fez o convite a Mariazinha lhe disse: “fazer indecência contigo? Nunca, mais antes a dor de um parto”.

No lado esquerdo da ponte que se estendia pelo trecho da atual Avenida Padre Júlio Maria de Lombarde demorava a casa de um cidadão conhecido como Pajé. Sua residência ocupava o espaço onde foi construído o Arara Center. Nos finais de semana a sala da casa do Pajé virava pista de dança e a entrada era paga. O promotor dos embalos valorizava os ritmos merengue, bolero, brega e assegurava que o ambiente era estritamente familiar. Ele dizia que na sua festa dançava o feio, o bonito, o pobre e o rico, não sendo permitida a desfeita. Se alguém se queixasse que tinha sido rejeitado por alguma dama ou cavalheiro, o Pajé mandava o ou a deselegante “pra riba da ponte”, já que não havia rua no local. Uma vez ele pegou o microfone e disse: “As mulhé tão se queixando que tem macho maleducado se fazendo de gostoso na minha festa. Quero dizer que aqui eu não atolero esculhão de dama”.


O terreno da Panair do Brasil

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Dia 5 de julho de 2018, enquanto aguardava o inicio da solenidade de inauguração do prédio do Centro de Educação Profissional de Música Walkiria Lima, meu pensamento voou para a década de 1940. Sentado em uma cadeira, no leito do trecho da Rua Major Eliezer Levy, entre as Avenidas FAB e Iracema Carvão Nunes, fui recordando a evolução da cidade de Macapá naquela área.
Quando a diminuta cidade ainda pertencia ao Estado do Pará e era a sede do município de Macapá, mas precisamente em 1940, aqui se instalou a Panair do Brasil S. A. uma importante empresa de aviação aérea. A pista por ela construída, para pouso e decolagem de seus aparelhos DC 3 tinha seu inicio no ponto onde foi aberta, em 1944, a Rua General Rondon, derivando em sentido diagonal, quase no formato da letra “L, para o espaço que hoje abriga o terreno do Esporte Clube Macapá,Câmara de Vereadores,Prefeitura Municipal de Macapá e centenas de outros imóveis”.

A largura do aeroporto equivalia à gleba rasgada pelas Avenidas Procópio Rola e Raimundo Álvares da Costa.O trecho inicial da Rodovia Macapá/Clevelândia, correspondente ao ‘km zero”,demorava na atual confluência da FAB com a Eliezer Levy. A extensão da pista, rumo oeste, findava em uma área alagada, próxima Rua Hildemar Maia. A Rua Tiradentes, que já foi identificada como Coronel José Serafim Gomes Coelho e Travessa Francisco Caldeira Castelo Branco, limitava o núcleo urbano de Macapá. A casa da Estação de Rádio/Farol da Panair do Brasil e a residência do gerente da empresa fora edificada, em madeira de lei, exatamente onde agora fica o prédio do Centro de Educação Profissional de Música Walkiria Lima.

A área ampla, contendo árvores frutíferas e um pequeno regato, por onde as água pluviais escoavam para a ressaca formada pelo Igarapé da Fortaleza. Algumas pequenas construções em alvenaria abrigavam instrumentos que mediam fenômenos atmosféricos. Um deles ficava no terreno que me foi concedido pelo General Ivanhoé Gonçalves Martins, governador do Território Federal do Amapá, entre abril de 1967 a novembro de 1972. Em abril de 1944, estando em curso a instalação da mencionada unidade administrativa, o Governador Janary Gentil Nunes reuniu com os lideres da comunidade negra de Macapá, que ocupavam a área em volta do velho Largo de São João e com eles negociou a desapropriação de suas propriedades. Ficou acertado, que os atingidos pela medida receberiam em cruzeiros, moeda da época, os valores certos e irrefutáveis dos seus bens.

A maioria do pessoal alvo da desapropriação tinha suas roças nos campos do laguinho, onde o governo deveria instalar um novo aglomerado populacional.O acordo foi firmado e o valor da indenização pago em moeda corrente. De imediato, duas ruas foram abertas: General Gurjão e Eliezer Levy. A primeira passou a delimitar a cabeceira da pista de aviação da Panair. A segunda começava na atual Av. Pará e estancava na cerca de arame farpado do aeroporto(Raimundo Álvares da Costa). A seqüência da via pública partiu do “km zero” no rumo do Cemitério Nossa Senhora da Conceição. Trechos assim eram chamados de pontilhão. Lembrei, então, que o palco e as cadeiras destinadas aos convidados governamentais estavam ocupando parte do “pontilhão” da Rua Major Eliezer Levy. Imaginei estar sozinho, numa área totalmente despovoada, que, progressivamente foi sendo modificada. Em 24 de maio de 1945, a empresa Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul substituiu a Panair do Brasil e incorporou ao seu patrimônio os bens da retirante. Por volta de meados da década de 1950, a cidade de Macapá tinha se expandido consideravelmente.

Nas avenidas General Gurjão, Mendonça Furtado, Presidente Vargas, Iracema Carvão Nunes e Procópio Rola surgiram casas para servidores públicos graduados, erguidas à conta de recursos orçamentários do governo federal e do IPASE. Um pouco além do ponto onde eu me encontrava, já existiam o Hospital Geral de Macapá, a Maternidade, o Dispensário dos Tuberculosos e a Unidade de Nutrição e Materno-Infantil. O mais interessante é que resido na área que pertenceu à Panair e à Cruzeiro do Sul. Curioso é que muita gente não quis morar ali.


Tuna

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Tuna é o nome do agrupamento musical surgido na Espanha no inicio do século XIX, que utiliza instrumentos diversos. Originalmente, era um mero conjunto instrumental de natureza popular. Posteriormente ganhou espaço nos estabelecimentos educacionais e passou a ser identificada como Tuna Estudantina, com uso marcante do canto.

Ao despontar no cenário musical espanhol, a tuna estava focada no ideário romântico dos antigos sopistas e pícaros. Os primeiros músicos eram estudantes pobres, que recorreram as suas habilidades musicais para obter os recursos necessários ao custeio das mensalidades nas escolas. Maltrapilhos, eles saiam tocando pelas ruas à cata de dinheiro. Enfrentava a indiferença de muitas pessoas, que os rotulavam como vagabundos e vadios.

Persistentes, os jovens estudantes executavam composições populares, românticas e folclóricas próprias das regiões que visitavam. Não é bem aceita a afirmativa, de que os integrantes das tunas seguiam os passos dos sopistas, menestréis, trovadores, jograis e afins. Os grupos foram se aperfeiçoando incluindo musicas eruditas em seus repertórios, notadamente os membros das Tunas Estudantina e Compostelanas.

As Tunas Universitárias envergavam os trajes acadêmicos das instituições onde estudavam, dando-lhes um visual mais rico e bonito. Ainda hoje, as faculdades possuem seus grupos de músicos, rotulados conforme a natureza do curso que eles frequentam: Tuna Universitária de Direito, Tuna Universitária de Medicina, Tuna Universitária de Farmácia, etc. As classes patronais também possuem grupos musicais.

No ano de 1870, a Tuna de Santiago de Compostela excursionou a Portugal, para se apresentar na Universidade de Coimbra. Fez tanto sucesso, motivando a fundação da Estudantina de Coimbra. Em 1886, foi à vez da Tuna da Universidade de Salamanca ir á capital portuguesa, influenciando os lusitanos para a criação da Estudantina Portuense. Isentas de formalidades, inúmeros grupos musicais foram despontando, dando origem a um período de pujança das tunas.

Em Portugal, o nome tuna foi incorporado ao idioma do país. Consta que a palavra tuna provém de “thune”, designativo de um albergue para mendigos, em Madrid. Isto teria levado o povo a considerar os músicos das tunas como vagabundos e malandros.

Os instrumentos musicais utilizados em uma tuna são: guitarras clássicas, cavaquinhos, bandolins, bandola, baixo acústico ou contrabaixo, pandereta, acordeão, bombo, flauta, violino e viola. Em síntese, Tuna é o grupo de estudantes que vagueia por diversos lugares, dando concertos musicais. No esporte paraense é sobejamente conhecido um clube denominado Tuna Luso Brasileira.
O aparecimento desta agremiação tem tudo a ver com um grupo constituído por jovens portugueses, que trabalhavam no comércio de Belém e decidiram formar um grupo musical para homenagear os tripulantes do Cruzador D. Carlos, da Marinha de Portugal, que aportou no cais da capital paraense no dia 13 de novembro de 1902.

Os jovens se apresentaram aos visitantes no salão do Café Apolo, levando o Senhor Antônio Augusto Lobo, a propor a fundação de um conjunto musical, para apresentar-se em festas carnavalescas e beneficentes. Á época, D. Carlos era o Rei de Portugal, razão pela qual, no dia 12 de dezembro de 1902, o grupo recebeu a denominação de “Real Tuna Luso Caixeiral”. Data de 1º de janeiro de 1903, o registro oficial da nova entidade artística. A trajetória esportiva da Tuna só começou em 1906. Porém, após a proclamação da República, em Portugal, ocorrida no dia 5 de outubro de 1910, a palavra Real foi eliminada. Em 1926. O clube adotou o nome de Tuna Luso Comercial. A 12 de junho de 1967, registrou-se como Tuna Luso Brasileira.


Uma filha de Cabralzinho na cidade de Amapá

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No inicio do mês de julho de 1950, o Governador Janary Gentil Nunes formulou convite a Sra. Altamira Cândida da Veiga Cabral Cacela para que ela viesse conhecer Macapá, capital do Território Federal do Amapá e a cidade de Amapá, onde seu pai, Francisco Cabral da Veiga Cabral, o Cabralzinho, liderou a reação dos brasileiros contra as pretensões dos franceses. Altamira Veiga Cabral era a terceira filha do casal Francisco Xavier da Veiga Cabral e Altamira Waldomira Vinagre da Veiga Cabral. Seu avô Pedro Augusto de Oliveira Vinagre descendia do tenente da Guarda Nacional, Francisco Pedro Vinagre, o 2º Presidente Cabano do Pará. Altamira Cândida já estava viúva do jurista e homem público do Pará, depurado estadual na década de 1920 e ex-prefeito de Belém na década de 1930, Dr. Alcindo Comba do Amaral Cacela. Dentre as filhas de Cabralzinho foi a que conviveu por mais tempo com o herói do Amapá. Sabia detalhes históricos da refrega entre brasileiros e franceses que o próprio pai lhe contou. Muitos destes detalhes foram repassados aos estudantes de Belém que a procuravam frequentemente. Desta feita ela iria conhecer a antiga vila do Espírito Santo do Rio Amapá Pequeno, local onde seu pai, a 15.05.1895 se notabilizou impedindo que os franceses consolidassem a ambição de dominar a região entre a margem esquerda do rio Araguary e a margem direita do rio Oiapoque. A ilustre visitante chegou a Macapá no dia 19 de julho de 1950, viajando em avião do Correio Aéreo Nacional-CAN, sendo festivamente recepcionada pelas autoridades, estudantes e populares.

Às 17 horas, a Sra. Alcindo Cacela, participou de uma solenidade realizada no Cine-Teatro Territorial, entregando ao governador Janary Nunes a farda de General Honorário do Exército Brasileiro, que Cabralzinho usava nas solenidades cívicas, espada, cinto e insígnias. Também passou ao governador uma bandeira brasileira e uma francesa, ambas rasgadas, bandeira do Estado do Pará e do Triunvirato do Território Amapaense. Compareceu à solenidade o senhor Bernardo Batista da Silva, então com 63 anos de idade, mas que, segundo Otávio Meira, autor de “Fronteira Sangrentas”, tinha 8 anos em 1895. Ele era natural da vila de Amapá e recebeu grave ferimento no punho esquerdo devido a um tiro desferido pelos invasores. Bernardo Batista da Silva faleceu em Macapá no dia 7 de dezembro de 1979, com 99 anos. Até o dia 21 de julho a senhora Altamira da Veiga Cabral ficou em Macapá como hóspede do governo territorial, alojada no Macapá Hotel. Dia 21, pela manhã, a ilustre visitante tomou o avião do CAN, que fazia a linha Rio de Janeiro-Caiena e seguiu para o Município de Amapá, desembarcando na pista da Base Aérea. Na cidade de Amapá ela foi saudada pelo Dr. José da Silva Castanheira, Juiz de Direito da Comarca local e pelo Prefeito Vitorino Luna. Algumas pessoas que participaram do ato de reação contra os franceses mantiveram demorada conversa com dona Altamira. No dia 22 de julho, aproveitando a escala que o avião do CAN fez em Amapá, com destino a capital da Guiana Francesa, com nova parada em Oiapoque, a filha de Cabralzinho seguiu para a cidade fronteiriça onde recebeu homenagens das autoridades e do povo. Ali conheceu outro cidadão que lutou ao lado de seu pai: Guilherme da Luz. Em 1950, Guilherme da Luz contava 79 anos de vida e deve ter nascido em 1877. Faleceu em Oiapoque com 97 anos. Quando o avião retornou de Caiene e pousou em Oiapoque, dona Altamira Cândida da Veiga Cabral Cacela nele embarcou e voltou para Belém.

Os objetos que a senhora Altamira entregou ao governo do Amapá foram repassados ao Museu Territorial instalado no interior da Fortaleza de São José. A bandeira do Triunvirato correspondia a um retângulo dividido em três faixas horizontais de igual dimensão, nas cores vermelho branco e vermelho. A bandeira francesa é butim de guerra e foi tomada do soldado Etyenne depois que Cabralzinho o feriu com um tiro no rosto.

O uniforme de General Honorário foi vestido em um manequim cujo rosto tinha as feições de Cabralzinho. Nele estavam colocadas as insígnias do herói. A espada de Cabralzinho também estava colocada no manequim. A farda que Cabralzinho usava nas solenidades cívicas lhe foi concedida pelo Exército Brasileiro no Rio de Janeiro, dia 11 de junho de 1896.


Proibição do uso de baladeira

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Embora o governo do Território Federal do Amapá desenvolvesse diversos programas sociais para manter as crianças e os adolescentes ocupados com atividades produtivas, alguns menores rebeldes preferiam permanecer perambulando pelas ruas e pontos periféricos de Macapá, balando passarinhos e frutas com baladeiras. A despeito de ser considerada pelos macapaenses como um brinquedo de criança, a baladeira ou atiradeira pode causar sérios danos às pessoas e animais, além de provocar prejuízos nos telhados e janelas de vidro.

O tal brinquedo corresponde a um artefato compreendendo uma forquilha de madeira, munida de duas tiras de câmara de ar e uma rede de couro, com o que se atiram pedras. Em outras partes do Brasil prevalecem outras denominações como baleeira, beca, bodoque, badoque, badogue, estilingue, funda, peteca e seta. No Norte e no Nordeste do Brasil os meninos de rua eram rotulados como moleques e não respeitavam.

Em Macapá, o uso da baladeira era tão intenso, que volta e meia os pais dos usuários do artefato eram intimados pelas autoridades policiais para comparecerem à Divisão de Segurança e Guarda a fim de resgatarem seus filhos. A reprimenda que os genitores recebiam era terrível, merecendo mesmo ser chamada de esculhambação. Houve casos em que os moleques praticavam pequenos furtos, principalmente de animais domésticos e ainda balavam nos donos das galinhas e patos. Eles também quebravam as lâmpadas dos postes da rede elétrica e de residências. Os acertos de contas entre moleques desafetos eram frequentes. Ao balarem nas mangas pituriscas, acabavam atingindo telhados das casas quando não acertavam o alvo. Como não podiam agir livremente no centro de Macapá, os moleques baladores freqüentavam a praia, na maré baixa, tentando matar maçaricos, socós, mergulhões, gaivotas e tralhotos. Também eram vistos ao longo da pista de pouso do aeroporto da Panair do Brasil que ocupava uma extensa área onde seriam abertas as avenidas FAB, Procópio Rola e Raimundo Álvares da Costa e as ruas General Rondon, Eliezer Levy, Odilardo Silva, Jovino Dinoá, Leopoldo Machado, Hamilton Silva, Manoel Eudóxio Pereira e Professor José Barroso Tostes. Ali eram abatiam rolinhas, rolões, galegas, galo-da-campina, papa arroz e outros passarinhos. Entre os passarinhos havia um chamado João Tolo, mais esperto do que o cão. Ele se metia entre as moitas de capim e pulava quando cantava. Nunca ouvi dizer que alguém tenha conseguido matá-lo com baladeira.

Em 1953, a situação era tão preocupante, que o tenente Luiz Ribeiro de Almeida, advogado que se encontrava ocupando o cargo em comissão de Diretor da Divisão de Segurança e Guarda-DSG, baixou uma ordem de serviço nos seguintes termos: “Ordem de Serviço nº. 19. O Diretor E Comandante da Divisão de Segurança e Guarda pela presente Ordem de Serviço: Considerando a nocividade e a periculosidade decorrente do uso abusivo da baladeira, também conhecida por bodoque, tiradeira, etc., para a integridade cívica da coletividade, além dos danos materiais que vem causando; Considerando, que nos últimos tempos, a cidade vem sendo infestada por tão nocivo instrumento utilizado especialmente por menores desocupados ou mal orientados; Considerando, ainda,que inúmeros casos vêm se registrando nesta Divisão, com queixas constantes sobre acidentes, alguns mesmo de caráter grave e de conseqüências lamentáveis; RECOMENDO: a) Todo menor que for encontrado utilizando baladeiras, bodoques, tiradeiras ou coisa semelhante, deve ser conduzido a esta Divisão, notificando-se em seguida os pais ou tutores para, tomando conhecimento do caso, proibirem aqueles de tal prática sob pena de responsabilidade perante a Lei; b) O nocivo instrumento deverá ser apreendido e inutilizado; c) Em caso de reincidência, esta chefia determinará o encaminhamento do menor e respectivo responsável ao Exmo Sr. Dr. Juiz de Menores para os fins de direito. Dê-se Ciência e Cumpra-se. Macapá, 10 de novembro de 1953. a) Luiz Ribeiro de Almeida – Tenente Diretor da D.S.G.” A ação dos soldados da Divisão de Segurança e Guarda redundou na detenção de alguns menores delinqüentes sobejamente conhecidos das autoridades policiais e do próprio Juizado de Menores.Como não havia local apropriado para mantê-los sob processo socioeducativo, o Governador Janary Nunes autorizou o Dr. Marcílio Felgueiras Viana, Diretor da Divisão de Educação, a manter contato com o governador do Pará, no sentido de obter vagas para interná-los no Reformatório Educacional de Menores, na Ilha de Cotijuba. Firmado o convênio, os moleques arruaceiros, brigões e surrupiadores do bem alheio sumiram das ruas de Macapá. Daí em diante, bastava alguém ver um menor praticando desatinos para dizer: “ta doido pra ir pra Ilha de Cotijuba”.


Matemático tucujú

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Em 9/5/1795, o macapaense Mateus Valente do Couto bacharelava–se em Matemática na Universidade de Coimbra. Fora a Portugal, escolhido pelo governo Luso, para iniciar o curso de Medicina, embora demonstrasse fortes inclinações pela ciência das grandezas e formas. Iniciou o curso primário em Macapá, completando – o em Belém, onde fez o curso secundário com louvor, conquistando o apreço de seus mestres e gestores públicos. Não se podia admitir que um jovem inteligente e promissor, de apenas 19 anos de idade permanecesse na Amazônia, desperdiçando tanta potencialidade. Instigado pelo mestre Diogo Inácio de Pina de Manique, Intendente de Policia do Reino a cursar Matemática, Mateus Valente do Couto aceitou o financiamento do referido curso, mas não largou a medicina.

Ao bacharelar-se em Matemática, o ilustre macapaense recebeu como prêmio à sua competência, em 1800, a nomeação para integrar o corpo de magistério das Academias Reais de Marinha e Guardas-Marinha de Portugal, sendo promovido ao posto 1º tenente. Antes da nomeação, atuou como ajudante e partidor do Real Observatório Naval, instituição onde freqüentou o curso de Arquitetura Naval e Desenho e que dirigiu anos mais tarde. Na época, um seleto grupo de brasileiros participava e mesmo orientava a obra de reforma espiritual vigente em Portugal. Em 1806 foi nomeado 2º Tenente da Marinha de Guerra de Portugal. Quando em 1807 as tropas Imperador Napoleão Bonaparte invadiram Portugal, Mateus Valente do Couto tinha o posto de capitão, sendo um dos suportes para resistir ás ações dos franceses. Desde 1803 era integrante do Corpo de Engenheiros Militares, catedrático na Academia da Marinha, Diretor Interino e Titular do Real Observatório Naval e regente da cadeira de Astronomia Teórica de Navegação.

Em 1820, assistiu o retorno da família real a Portugal. Foi Deputado, Conselheiro de Estado, Sargento-mor do Corpo de Engenheiros e depois Coronel, posto no qual foi aposentado. Permaneceu como Diretor do Real Observatório Naval até morrer, a 3/12/1848, aos 78 anos de idade.Também era membro de diversas sociedades cientificas portuguesa e estrangeiras.Publicou várias obras, entre elas mencionamos: Instruções e Regras Práticas Derivadas da Teoria da Construção, Arqueamento, Carregação e Manobras do Navio; Tratado de Trigonometria; Princípios de Óptica, Astronomia Esférica e Náutica; Breve Exposição do Sistema Métrico e Decimal e Matemática Superior.Nosso ilustre conterrâneo descendia, pelo lado materno, dos bravos lusitanos que viviam na fortaleza de Mazagão, no Marrocos.

A carreira profissional de Mateus Valente do Couto foi esplendorosa em terras lusitanas. Com irrefutável mérito foi eleito para a Real Academia de Ciências e nomeado Conselheiro de Estado, atingindo o posto de Sargento–mor do corpo de Engenheiros do Reino e condecorado com o hábito militar. Em 1820, foi eleito para, na condição de deputado da Amazônia, reapresenta-la, entre outros nascidos na região, no Segundo Parlamento que se reunia em Lisboa. Os estudos de matemática que ele desenvolveu, foram publicados em vários ensaios e obras de maior tomo sobre Matemática Superior, que renovaram o estudo desta ciência em Portugal. Quando o Brasil tornou-se independente, os gestores públicos do Pará freqüentemente recorriam aos préstimos de Valente do Couto, que era considerado como legitimo representante amazônida nas terras de além mar.Mateus Valente do Couto nasceu em Macapá, no dia 19/12/1770, filho de Antônio Diniz do Couto Valente e de Margarida Josefa da Fonseca. Seu pai, capitão de artilharia e Inspetor da construção da Fortaleza de São José, faleceu quando o garoto tinha quatro anos de idade. O tio, Luiz da Fonseca Zuzarte, amparou a família e cuidou da educação do sobrinho. A ida de Mateus para Portugal decorreu de uma escolha empreendida pelo Capitão-de–Fragata, Francisco de Souza Coutinho, realizada entre estudantes mais aplicados.

A seleção dos dois eficientes alunos concluintes do curso secundário fora determinada pelo governo português, como forma de preparo médicos para a Amazônia. No momento em que a cidade de Macapá completa mais um ano de sua elevação à categoria de vila, lembramos a epopéia deste ilustre macapaense, que a despeito de inúmeros contratempos, não se deixou abater pelas vicissitudes da vida, tornando-se um exemplo para a posteridade.