Paisagens de Macapá das décadas de 1930 e 1940

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Essa é uma das mais expressivas paisagens da cidade de Macapá da época em que ela ainda era a sede do município paraense de idêntica denominação. A rua em questão tinha como patrono o tenente e político Antônio de Siqueira Campos, paulista de Rio Claro que se notabilizou na Revolta do Forte de Copacabana em 1922, Levante de São Borja em 1924, Coluna Prestes entre 1924 e 1927 e na Conjuração da Revolução de 1930 que levou Getúlio Vargas ao cargo de presidente da República do Brasil. A Rua Siqueira Campos começava na Travessa Visconde de Souza Franco e se estendia até a Rua São José.

A fotografia foi tirada do meio da avenida, no trecho que hoje corresponde a seu cruzamento com a Rua Vereador Benedito Uchoa. Pelo lado esquerdo de quem observa a imagem merece destaque o prédio da Intendência Municipal, onde atualmente funciona o Museu Histórico Joaquim Caetano da Silva. O imóvel foi construído na gestão do Intendente Municipal Coriolano Finéas Jucá e inaugurado no dia 15 de novembro de 1895. Antes dele vê-se uma casa residencial que pertenceu ao casal Antônio Topson e Emidia Picanço. Nela, já na fase de Macapá como capital do Território Federal do Amapá, funcionaram duas lojas: “A Barateira”, de Hamilton Henrique da Silva, piloto embretado pelo Aero Clube de Macapá, e a “Casa Olímpia”, vendedora de material esportivo, gerenciada por Raimundo Pessoa Borges, o popular Marituba. Ambos eram servidores públicos Pelo lado direito a referência fica por conta da famosa “casa amarela”, cujo proprietário foi o Tenente-coronel da Guarda Nacional Coriolano Finéas Jucá. Após sua morte, o prédio ficou sob gestão do filho Jacy Barata Jucá que o vendeu ao senhor José Pereira Montoril, mais conhecido como Cazuzinha. A casa amarela fazia fundos com o lote pertencente ao casal Leão Zagury e Sara Roffé Zagury.
Nele, estava instalada a Casa Leão do Norte e a residência de seus proprietários. No quintal, no inicio da década de 1950 foi instalada a fábrica do Flip Guaraná, um saboroso refrigerante que fez muito sucesso no Amapá.

Na casa amarela havia um pórtico de entrada com um sótão, um amplo pátio central, inúmeros quartos, cozinha, dispensa e poço amazônico. Os cômodos que faziam frente para a antiga Rua Independência, também chamada Rua de Cima, abrigaram, a partir de 1944, a sede do Amapá Clube e o Bar Elite, do senhor João Vieira de Assis. Logo na entrada do prédio funcionou o “Café Aymoré”, pertencente aos comerciante Francisco Torquato de Araújo (meu genitor) e Francisco Aymoré Batista (pai do cidadão que hoje mantém em funcionamento o estabelecimento de igual nome na Avenida Iracema Carvão Nunes). O gerente do Café Aymoré era o vigiense Carlos Cordeiro Gomes, o popular “Segura o Balde” que depois enveredou pelo jornalismo e integrou a equipe esportiva da Rádio Difusora de Macapá. No tempo que o prédio pertenceu ao meu tio Cazuzinha Montoril, uma senhora advinda da Guiana Francesa, que o povo identificava como madame Charlotte, alugou parte das instalações e nela instalou uma pensão. Vários jovens vindos de Belém, para trabalhar no Território do Amapá residiram nos quartos da casa amarela e compravam alimentação da madame Charlotte. Quando o casal Isnard Brandão e Walkiria Lima se mudou para Macapá, a casa amarela foi o primeiro imóvel que o abrigou. Numa deferência especial do tio Cazuzinha, graças à intermediação de meu pai Francisco Torquato de Araújo, um assoalho foi colocado no sótão.

Uma escada de madeira favorecia o acesso ao novo cômodo. Nesse local o casal Lima e o filho Isnard Brandão Filho moraram por um relativo período de tempo. A via publica que passava em frente a Casa Amarela tinha como patrono o Tenente Siqueira Campos, morto em 1930, quando da ocorrência do levante denominado “Os 18 do Forte”, no Rio de Janeiro.Depois da instalação do Território do Amapá ela mudou de nome duas vezes: Mendonça Furtado e Mário Cruz, o nome atual. A casa amarela foi vendida aos comerciantes Moisés Zagury e Isaac Zagury, que mandaram demoli-la, No local foi montada a oficina mecânica dos carros Ford que vendia. Atualmente, naquela área demora parte da loja 246.


A Pedra do Guindaste – 2ª parte

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Em setembro de 1931, estando exercendo suas atividades na Promotoria Pública do Pará, o Dr. Otávio Meira foi designado para vistoriar todos os cartórios, juizados e prefeituras de Belém até Mazaganópolis. Os municípios de Macapá e Mazaganópolis estavam sob jurisdição do Estado do Pará.É bem pitoresca sua narrativa sobre desembarque e embarque de cargas e passageiros em Macapá, pois ainda não havia sido construído o trapiche da cidade. Segundo o Dr. Otávio Meira, na maré alta, os barcos com menor calado podiam entrar no Igarapé do Igapó ou Bacaba, mas o mesmo não acontecia com os navios, que fundeavam e ficavam ao sabor das ondas. Tornava-se mais prático aguardar a maré baixa, que deixava inteiramente à mostra a Pedra do Guindaste. Em algumas oportunidades, quando a maré estava alta e as águas calmas, usava-se uma embarcação tipo barcaça para receber as cargas dos navios.

Neste caso, elas permaneciam atadas à pedra e uma engenhoca tipo bate-estacas, com moitão/roldana e corda fazia o papel de um guindaste, daí o nome atribuído à formação rochosa. Para vencer o estirão da praia era usado um carro puxado por dois bois. Foi graças aos termos do seu relatório, que o Interventor Federal Magalhães Barata liberou verbas para a construção do primeiro trapiche de Macapá. O Intendente Municipal era o Major Eliezer Levy e a obra teve inicio em 1932. Teve inicio em 1969, as entabulações para a concepção de uma imagem de São José, padroeiro de Macapá e seu assentamento na Pedra do Guindaste. Sem alardes, as partes interessadas, envolvendo Dom José Maritano, Bispo Prelado de Macapá e o Governador do Amapá, General Ivanhoé Gonçalves Martins, tomaram todas as providências cabíveis.

Ninguém contestou o fato de a imagem não carregar o Menino Jesus nos braços e ficar de frente para o rio mais caudaloso do globo terrestre. Devidamente iluminado, a imagem de São José não recebeu a missão de proteger a cidade. Como um importante símbolo do catolicismo ali ficou incólume. Porém, na noite de 23 de setembro de 1973, o navio Domingos Assmar, que fazia linha fluvial entre Macapá/Belém/Macapá foi arremessado contra a pedra, quebrando-a e lançando nas águas agitadas do Amazonas a apreciável escultura.

O proprietário da embarcação assumiu os ônus pelo restauro da imagem e a construção de uma pilastra de concreto, para substituir a Pedra do Guindaste. Novamente entrou em ação o luso-brasileiro Antônio Pereira da Costa, recuperando sua obra de arte. Para erigir a pilastra foi contratada a firma Platon Engenharia e Comércio, então capitaneada por Clarck Charles Platon. Tudo voltou a ficar como antigamente, até o momento em que, apareceram os difusores de uma nova idéia, imediatamente refugada pela comunidade macapaense que preza suas tradições. Pretendiam os arautos do turismo trocar a atual imagem por outra bem maior. Também seria removida a pilastra pioneira por outra de maior diâmetro, da qual partiria uma passarela ligando-a ao trapiche Eliezer Levy. A nova imagem deveria conter o Menino Jesus nos braços e ficar de frente para a cidade.

Estas propostas não foram o ponto que fez despertar o descontentamento popular. Inaceitável foi ignorar o valor histórico da obra concebida pelo escultor e arquiteto Antônio Pereira da Costa, apenas porque ela não tem tamanho exorbitante. Outro erra cometido pelos idealistas malfadados foi dizer que a imagem atual iria ser colocada na frente da Fortaleza de São José. Ora, a frente do monumento bélico corresponde a sua área de proteção patrimonial, onde a escultura seria um “corpo estranho, que não faz parte do projeto de autoria de Henrique Galúcio. Felizmente, as novidades não encontraram guarida no sei da comunidade macapaense. Até praticantes de outros credos não as aprovaram. Ocorre, que a imagem de “São José da Beira Rio” precisa ser protegida e colocada longe de gente fantasiosa. Um processo de tombamento precisa ser iniciado imediatamente.


A Pedra do Guindaste – 1ª parte

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Até o ano de 1723, embora já estivesse em vigor o Tratado de Utrecht, firmado entre Portugal e França a 11 de abril de 1713, que determinava ser luso-brasileira a região da Costa do Cabo do Norte, pretendida pelos francos, estes teimavam em realizar incursões pelo Rio Amazonas valendo-se da amizade estabelecida com os índios Aruan, Tucujú e Aroaqui, que constituíam os três grupos mais perigosos e hostis aos portugueses. No dia 14 de fevereiro do ano supra mencionado, os frades das ordens de Santo Antônio e da Conceição da Beira e Minho, foram encarregados de tentar, mais uma vez, a pacificação dos irredutiveis Aruan.

Foi um passo importante obtido pelos freis João e Bernardino, ambos franciscanos de Santo Antônio, os quais lograram assentar vários povoados nas terras da boca norte do Amazonas e na Ilha do Marajó. Uma série de outras medidas foram tomadas pelos portugueses, mas os franceses insistiram em querer fixar posições na Amazônia Oriental. Portugal erguera o Forte de Santo Antônio sobre as ruínas do Forte de Cumaú tomado dos ingleses, mas o tempo e a falta regular de manutenção aceleraram sua deteriorização levando-o à ruína.

No dia 5 de outubro de 1738, o capitão-general João de Abreu Castelo Branco visitou o Forte de Santo Antônio e comprovou a sua fragilidade. Através de carta endereçada ao Rei D. João V, recomendou a construção de outra fortificação em lugar mais próximo da foz do Amazonas e em área mais ampla. Ainda em 1738, um forte de faxina foi montado enquanto as providências relativas ao levantamento de uma casa forte fosse tomadas, o que não aconteceu por falta de recursos. Pequenos quartéis foram feitos e ocupados por um destacamento comandado por um capitão. Entre 1738 e 1749, ficou bem evidente a necessidade de ser erguida uma grande fortaleza, haja vista que, o reduto artilhado com apenas duas peças de artilharia já demonstrava sérios desgastes.

Os quartéis levantados em 1738 ocuparam espaços no platô de terra firme onde surgiu o povoado de São José de Macapá, na primeira quinzena de 1751, e mais tarde a portentosa Fortaleza de São José, entre 1764 a 1782. O aspecto do litoral onde foi implantado o povoado de Macapá era bem singelo, chamando a atenção dos navegadores e colonizadores uma formação rochosa assentada na margem esquerda do Rio Amazonas, Nada de sobrenatural havia sobre sua existência. Era simplesmente uma pedra, com a mesma matéria encontrada nas falésias do platô da fortaleza. Ela ornou a praia de Macapá até setembro de 1973. Desde 1970 existiu sobre ela uma imagem de São José, esposo de Maria e pai putativo de Jesus Cristo. A importante escultura foi feita pelo luso-brasileiro Antônio Pereira da Costa, natural da Freguesia de Valadares, Conselho Vila Nova de Gaia, Distrito do Porto, em Portugal. Na comunidade de Valadares, as atividades principais concentravam-se na agricultura e na produção de cerâmicas. Antônio Pereira da Costa e seu pai eram ceramistas e escultores de inegáveis méritos, com importantes obras realizadas no Rio de Janeiro, em São Luiz do Maranhão, Belém do Pará e em Macapá.

Na então capital do ex-Território Federal do Amapá, Seu Antônio Costa instalou sua oficina de trabalho no quintal da Augusta e Respeitável Loja Maçônica Duque de Caxias tendo recebido especial autorização de seus irmãos, que sempre o distinguiram como um invulgar “obreiro da paz”. Muitas das suas obras ainda são vistas e admiradas nas cidades de Macapá e Amapá: Grupo Escolar Barão do Rio Branco, Hospital Geral de Macapá, Maternidade Mãe Luzia, Fórum de Macapá, que hoje abriga a Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil, os Leões assentados na frente do citado prédio, a Estátua de Francisco Xavier da Veiga Cabral, em Amapá, o Busto de Tiradentes, o busto do Deputado Federal Coaracy Nunes, na Praça do Aeroporto Internacional Alberto Alcolumbre, o Tempo da Loja Duque de Caxias e a Imagem de São José que ainda permanece sobre um pilar de concreto ereto em meio as pedras menores da antiga formação rochosa derrubada pelo navio Antônio Assmar, em setembro de 1973. Outro leão esculpido pelo Senhor Antônio Pereira da Costa foi encomendado pelo comerciante Hermano Jucá Araújo, meu tio paterno e torcedor apaixonado do Clube do Remo. Pintada de azul, a escultura foi mandada para Belém e instalada no Estádio Evandro Almeida.


Soldados do fogo

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Desde a antiguidade, o homem se preocupou em combater e extinguir incêndios. Na Grécia e em Roma, os soldados que montavam vigilância em pontos elevados tinham a missão de dar o alarme quando sinais de fogo eram observados. Usavam-se baldes e outros recipientes similares para transportar água e o voluntarismo imperava. Na França surgiu uma das primeiras turmas com organização militar denominada “Companhia dos Sessenta Guarda Baldes”, que serviu de modelo para outros países.

No Brasil, até o dia 2 de julho de 1856, a cidade do Rio de Janeiro, sede do Império, existiu o Serviço de Extinção de Incêndios, compreendendo seções instaladas nos Arsenais de Guerra da Marinha, Repartições de Obras Públicas e das Casas de Correções. Na data acima mencionada, o Imperador D. Pedro II baixou o Decreto nº 1.175, extinguindo a instituição anterior, criando e regulamentando o Corpo Provisório de Bombeiros da Corte, cujo primeiro comandante foi o major do corpo de engenharia João Batista de Castro Morais Antas. Em 1880, a corporação passou a ter organização militar e, foram concedidos postos e insígnias aos seis componentes. Com o passar do tempo, equipamentos mais sofisticados foram utilizados, inclusive viaturas mecanizadas. Possuía o Corpo de Bombeiros da Corte, daquela época, 15 bombas manuais, 73 mangueiras de couro, 23 mangotes, 2 sacos de salvação e 240 palmos de mangueiras em depósito.

Os incêndios eram assinalados por três tiros de artilharia de grosso calibre, disparados do Morro do Castelo, com intervalos de cinco minutos e pelo toque do sino grande da Igreja de São Francisco de Paulo e da matriz da freguesia onde ocorria o incêndio. Durante o sinistro permaneceria içada uma bandeira vermelha no mastro do Morro do Castelo, sendo essa flâmula substituída à noite por uma lanterna da mesma cor. O badalar dos sinos obedecia a uma convenção especial. Um certo número de badaladas do sino da Igreja de São Francisco correspondia à freguesia onde o fogo ocorria.
A primeira pessoa que transmitisse o aviso de fogo, com as necessárias indicações, à policia ou a um posto de bombeiros, era premiada com uma gratificação correspondente à importância do aviso. Os proprietários ou condutores de veículos com tração animal eram obrigados a entregá-los aos bombeiros e a emprestar os serviços que lhes fossem exigidos. Os mestres-de-obras tinham de fornecer as ferramentas que possuíssem e as autoridades policiais tinham o direito de requisitar archotes, velas, etc, nas respectivas casas do ramo, se isso se tornasse preciso nos serviços de extinção do fogo. Todas essas requisições eram pagas à vista pelos preços normais, na Repartição de Policia, bom como o aluguel dos veículos e animais porventura utilizados. Em 1954, através do Decreto nº 35.309, o Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil, Getúlio Dorneles Vargas instituiu a data de 2 de julho como dia do Bombeiro. Em Macapá, a partir de 1944, quando foi instalado o governo do Território Federal do Amapá, a ocorrência de um incêndio mobilizava voluntários no seio da comunidade. Baldes de alumínio e latas vazias de querosene e gasolina serviam para captar água de poço, haja vista que não existia água encanada na cidade. Com a criação da Guarda Territorial, o serviço de combate a incêndios lhe foi atribuído, mas todo o equipamento existente era muito precário. A população tomava conhecimento da ocorrência de incêndio através da sirene instalada no alto do prédio da Usina de Força e Luz, inaugurado em setembro de 1945. Foi assim durante um bom período de tempo, até que inventaram de fazer a sirene soar quando um avião sobrevoava Macapá trazendo alguma importante autoridade, principalmente o governador.

A cidade de Macapá, que hoje possui um operoso Corpo de Bombeiros passou por maus momentos com pavorosos incêndios. O embrião da instituição tem origem na Guarda Territorial, com estágio na Prefeitura Municipal de Macapá e na Policia Militar. Em 1992, o antigo Grupamento de Bombeiros ganhou autonomia. Dentre os incêndios que chocaram a comunidade lembramos: o belo iate Itaguary, barris de asfalto depositados atrás da Fortaleza, as duas alas do comércio de Macapá situadas na Rua Cândido Mendes.


No Amapá também ocorre abalo sismico

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O brasileiro costuma dizer que o Brasil é um país abençoado por Deus. Também comete o sacrilégio de dizer que Deus é brasileiro. A qual Deus o brasileiro se refere? Os mais esclarecidos afirmam que Deus, seja qual for a religião, não tem nada a ver com as desgraças que ocorrem no mundo. O planeta Terra está em permanente transformação. Cabe ao ser humano saber conviver com as mudanças, prevê-las, modificá-las, evitá-las e até mesmo minimizar os seus efeitos.
Enganamo-nos em pensar que tremores de terra só acontecem em outros recantos da Terra. Precisamos ter em mente que existe o tectonismo, ou seja, o processo de deformação da crosta terrestre pela formação dos continentes, baias oceânicas, platôs, montanhas, dobras e demais forças internas. As movimentações tectônicas são suficientes para modificar ou alterar a textura original. Tectônica, em grego tektomikés significa “arte de construir” e a natureza é uma grande construtora. Os continentes existentes no globo terrestre nem sempre apresentaram as configurações atuais. Eles não estão presos a um ponto fixo, mas sim flutuam sobre o magma. Qualquer alteração do magma mexe com os blocos continentais. O magma, do grego, magma, compreende uma massa natural fluida, ígnea, de origem profunda, e que, ao esfriar-se, se solidifica, originando a rocha magmática. Todas as vezes que o magma se movimenta os efeitos são sentidos na litosfera, que é a parte externa consolidada da Terra, comumente chamada crosta da Terra. Os efeitos correspondem a sismos, vocábulo grego seismós, que quer dizer abalo. Sismo é o movimento interior da terra, o qual, conforme a localização de sua origem pode produzir ondas mais ou menos intensas, e capazes de se propagar pelo globo.
Segundo registros existentes no Observatório de Metodologia, sediado no Rio de Janeiro, cinco abalos sísmicos já ocorreram na área atual Estado do Amapá.

O primeiro data de 1 de março de 1926 e o segundo de 6 de maio de 1933. Na época o Estado do Pará tinha Jurisdição sobre as terras atingidas e que hoje pertencem ao Município de Oiapoque. Em 1926, existia ali uma população que não excedia a 1.500 almas, a maioria constituída de presos políticos e condenados de Justiça. Os imóveis eram poucos, prevalecendo o uso de madeira na edificação. Em 1933, o vazio demográfico era bem maior.

A falta de um arquivo público no Amapá prejudica qualquer pesquisa que se refira aos dois feitos. Em 1947, precisamente no dia 17 de setembro, deu-se o terceiro abalo sísmico. O jornal “Amapá”, impresso pelo Governo do Território Federal do Amapá, registrou o acontecimento na edição nº237, 3ª página. O Prefeito do Município de Oiapoque, Sr. Roque de Souza Pennafort, comunicou, via telégrafo, ao Governador do Território, interino, Dr. Raul Montero Valdez, que “um forte tremor de terras sacudiu a cidade de Oiapoque, a Vila Militar de Clevelândia, a localidade de Ponta dos Índios e da cidade francesa de Saint George, na Guiana Francesa. O abalo sísmico começou às 2 horas da madrugada e perdurou por 1 minuto e trinta segundos, sendo acompanhado de rumor semelhante ao de um trovão. Os vidros das janelas quebraram e quem dormia em rede correu assustado para a rua.” O Prefeito não tinha como medir a intensidade do abalo.

No dia 24 de abril de 1951, aconteceu o quarto sismo na região do Oiapoque. Roque de Souza Pennafort ainda ocupava o cargo de Prefeito, sendo também o telegrafista local. Imediatamente, ele passou um telegrama ao Governador Janary Gentil Nunes, nos seguintes termos: “Às 21 horas, foi sentido na cidade de Oiapoque, um tremor de terra, cuja duração mais forte chegou a um minuto, sem causar danos físicos aos moradores, mas deixando-os bastante assustados”. A exemplo do abalo sísmico de 17 de setembro de 1949, este último teve fases de intensidade crescente e decrescente e diversas habitações sofreram avarias. O fato foi com comunicado pelo Governador Janary Nunes ao observatório de Meteorologia, que registrou o abalo como tendo atingido 4.3 pontos na escala Richter. Os demais foram considerados do tipo 3.Embora não tenha havido registro oficial, consta que, no mesmo dia a terra também tremeu em Macapá, fazendo muita gente correr para a igreja de São José, a única da cidade.

Em 2 de agosto de 1997, um tremor de terras de baixa intensidade foi sentido em Macapá, assustando as pessoas que se encontravam nos prédios do Centro Cívico Administrativo, Hospital de Pediatria, Hospital Geral de Macapá, Maternidade Mãe Luzia, Colégio Comercial do Amapá, Assembléia Legislativa, Secretaria de Educação e residências edificadas na área. Diversos jornais de Macapá publicaram o acontecido. No último dia 29 de novembro de 2007, uma quinta-feira, às 16h 30 minutos, um terremoto que teve como epicentro o mar do Caribe, a 14 km da Ilha de Martinica sentido no Estado do Amapá, em Belém, na Ilha de Marajó (Pará), em Roraima e no Amazonas. Macapá e Laranjal do Jarí também foram atingidos provocando medo a muita gente. Quem estava em prédios na zona comercial de Macapá procurou deixá-los e ganhar as ruas. Pânico e susto levaram clientes do Banco do Brasil a retirar-se da agência. No vale do rio Jarí, a maior intensidade aconteceu em Munguba, distrito de Monte Dourado.A intensidade do abalo foi superior a 7 pontos na escala Richter.

Em 2005, neste mesmo período, os sismógrafos registraram outro tremor de terras em Macapá, de baixa intensidade e imperceptível pela população. Uma grande indagação desponta neste momento: estamos preparados para conviver com um abalo que provoque desmoronamento de prédios?


São José, patrono universal da igreja

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José, filho de Jacó e neto de Matam, nasceu em Belém da Judéia, no século I antes de Cristo. Pertencia à tribo de Judá e descendia do rei Davi de Israel. Era viúvo quando desposou Maria. Sua idade girava em torno de 54 anos, enquanto Maria ainda vivia sua adolescência. José gerou duas filhas e quatro filhos com sua primeira esposa e com essa prole foi viver com a jovem eleita para ser a mãe de Jesus Cristo. Os filhos homens de José eram: Tiago, José, Simão e Judá.

Eles conviveram intensamente com Jesus até constituírem suas famílias e o Divino Mestre iniciou suas pregações. Nenhum deles foi apóstolo. Maria passou sua infância no Templo de Jerusalém, sendo uma das jovens consagradas a Deus. Ela e as demais virgens foram preparadas para ser esposas dedicadas, tementes a Deus. Todas sabiam que uma delas poderia ser a escolhida para, por obra e graça do Espírito Santo gerar o Filho de Deus. Seguindo o costume hebraico, os casamentos eram previamente acertados entre os membros das tribos que compunham as tribos de Israel. José e Maria eram integrantes da tribo de Davi. Como José já estava viúvo quando Maria alcançou a idade de casar, o carpinteiro lhe foi dado como esposo. Conta-se que Maria não quis deixar o templo ao atingir a idade de casar. Os anciãos do Tempo oraram por instruções divinas e uma voz disse que o marido de Maria sairia dentre os homens solteiros que fossem ao Templo e ali deixassem seus cajados durante a noite. O eleito seria o dono do cajado que amanhecesse coberto de flores.

Muitos pretendentes assim procederam, mas nenhuma novidade ocorreu. Idêntica oportunidade foi concedida aos viúvos e José decidiu levar seu cajado ao Templo. Pela manhã o cajado de José estava coberto de lírios, o símbolo da pureza e da retidão. Contratado o casamento, José esperou o momento exato para conviver com Maria. Antes que isso acontecesse o Arcanjo Gabriel apareceu a Maria para comunicar-lhe que ela seria a mãe de Jesus. Entretanto, Gabriel só apareceu a José quando ele já havia descoberto que Maria estava grávida e eles nunca tinham coabitado. Como era um homem muito reservado e experiente, José afastou-se de Maria, mas não fez alarde de que não era o pai da criança que Maria estava gerando. José manteve em segredo sua desilusão. Se tivesse tornado público o ocorrido, certamente Maria teria sido lapidada, porque assim deviam ser punidas as adúlteras. Essa punição está contida no Deuteranômio, um dos livros sagrados que formam a Bíblia. A lapidação consistia em apedrejamento público da mulher que o homem rejeitasse por traição. As sagradas escrituras tratam da vinda do Messias e os judeus praticantes do judaísmo sabiam disso. José tinha ampla consciência de que seria um protetor para Maria e para o fruto que seria gerado em seu ventre. Como homem justo que exercia uma profissão capaz assegurar o sustento da família, José passou à História como o pai nutricio do Divino Mestre.

José sempre dedicou especial atenção a Jesus no decorrer da infância do Salvador. Lucas se encarregou de deixar isso bem evidente no evangelho que escreveu. Mateus fala dos pontos de vista de José. A última menção feita a José nas Sagradas escrituras é quando o carpinteiro procura por Jesus no Templo de Jerusalém e o encontra discutindo a doutrina do judaísmo com os anciãos. Acredita-se que José já tivesse morrido quando Jesus foi crucificado.

A veneração dos cristãos a São José começou a se espalhar a partir do século quinze. Antes disso o protetor terreno do Divino Mestre pouco era lembrado. Tinha maior acatamento outro José, filho de Jacó e Raquel que se encheu de glórias como um Zaphnath (descobridor das coisas ocultas), no Egito. Este personagem era conhecido como São José do Egito. A história deste José está contada no Gênese, um dos livros do Pentateuco. Sua vinda ao mundo é considerada uma graça de Deus porque Raquel era estéril. Mesmo sem ser o primogênito, José era o filho preferido de Jacó, fato que levou os irmãos a odiá-lo. Numa viagem ao Egito eles o venderam como escravo a mercadores ismaelitas por 20 moedas (shequel) de prata. Levado ao Egito, José foi comprado por Potifar, que era oficial e capitão da guarda do faraó. Por ser um belo rapaz, José era assediado pela mulher de Potifar a qual rejeitava por respeito a seus princípios religiosos. Sentindo-se humilhada, a mulher do oficial disse ao marido que José vivia tentando seduzi-la. José foi preso e entre os demais prisioneiros revelou-se excelente intérprete de sonhos.

Certa vez interpretou o sonho do Faraó livrando o império egípcio de sete anos de tormentos. Ganhou destaque na corte sem tornar-se arrogante. Era um homem bom e justo. O José carpinteiro sempre foi humilde e resignado. Somente a partir do ano de 1749 a Igreja Católica incluiu seu nome no Calendário Romano fixando a data da sua festa em 19 de março. São Francisco de Assis e Santa Teresa d’Ávila ajudaram a espalhar a devoção. Em 1870, o Papa Pio IX declarou São José Patrono Universal da Igreja Católica Apostólica Romana. O Papa Benedito XV o declarou patrono da Justiça Social. Em 1955, o Papa Pio XII estabeleceu uma segunda festa para São José, a festa de “São José Trabalhador” a ser celebrada no dia 1º de maio, dia do trabalho. Na arte litúrgica da Igreja, São José é mostrado como um homem velho com um ramo de lírio na mão direita e o menino Jesus sentado em seu braço esquerdo. Ele também é retratado realizando seu trabalho de carpinteiro e ensinando o oficio a Jesus. Quando é retratado só, São José carrega um cajado florido de lírios. Outra representação muito conhecida de São José evidencia sua dedicação a Maria Santíssima e a Jesus por ocasião da fuga que empreenderam para o Egito. São José caminha pelo deserto puxando um burro, sobre o lombo do qual viajam Maria e o Salvador. É uma das mais expressivas cenas da Sagrada Família. Tanto esta cena como a retratação de São José em sua oficina, nos podemos ver ao lado do altar mor da Igreja Matriz de Macapá. Os dois afrescos foram pintados pelo Padre Lino Simonelli por volta do ano de 1950. A retratação da oficina de São José foi a que mais me deixou impressionado porque eu conheci um marceneiro de Macapá que possuía uma serra igual a que o santo carpinteiro usava.

A escolha de São José como padroeiro de Macapá não é obra do acaso. Quando o povoado de Macapá foi instalado, em novembro de 1751, o Rei de Portugal era D. José I, devoto do santo. Nada mais prático para que fosse prestada dupla homenagem, ao santo e ao rei. São José é o padroeiro de Macapá há 259 anos. A fortaleza de Macapá também leva seu nome e nela existiam duas imagens de São José. Uma na capela. Outra no frontispício do portal de entrada. Na década de 1920, quando a Fortaleza foi declarada sem serventia e abandonada, a imagem postada no frontispício do portão foi retirada e guardada na Igreja Matriz de São José. Essa imagem mostra São José usando botas. Sobre esse assunto escreverei no próximo domingo.


Alice Gorda, Rainha Moma do Amapá

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o Setentrião do Brasil viveu uma rainha: a maravilhosa Alice Guedes de Azevedo. Seu reino era o império da alegria, da pândega e da roseta. O tributo devido por seus súditos correspondia a um simples sorriso. Sem ter apego a bens materiais, a rainha Alice não tinha fortuna, nem cetro de brilhantes ou coroa de ouro. Em reconhecimento ao amor que ela nutria pelo carnaval, a soberana vontade do povo lhe deu um trono e o direito de ofuscar, por um breve período de tempo, o brilho dos poderosos. Se o seu reino tivesse um primeiro ministro, ele seria o FALCONIERE, o “Cavaleiro do Samba” que assegurou sua sagração como Rainha Moma. Seu fiel escudeiro, O Rei Momo SACACA, preferia chamá-la de Madrinha e jamais pretendeu ser mais importante que ela. Nem o passista campeador “SUCURIJU” se encheu de vaidades ao substituir o Rei Sacaca quando este foi guindado à esfera celeste para alegrar a corte dos Querubins.

O quarteto aqui mencionado despontou para a folia carnavalesca no bairro moreno da cidade, onde surgiu triunfante a “Ordem dos Foliões da Orgia e do Samba”, eternizada entre nos como Boêmios do Laguinho. Foi neste reduto onde impera a cor do ébano que a Alice Gorda começou sua jornada carnavalesca na Província dos Tucujú. Cativante e conciliadora, a Rainha Alice Gorda estendeu sua simpatia pelos Cantões Maracatu, Piratão, Piratinha, Cegonhas, Embaixada, Felicidade, Solidariedade, Unidos do Buritizal, Império do Povo, Quilombo dos Palmares, Unidos do Amapá e pelos Condados Reunidos da Liba, da Abloca e da Banda.

Antes de vestir os trajes reais, Alice tinha predileção pela fantasia de ARLEQUIM, evidenciando o vermelho e o branco. Por gostar do branco e do vermelho apaixonou-se pela Escola Acadêmicos do Salgueiro, do Rio de Janeiro. Foi por influência desta entidade carnavalesca carioca que a Escola de Samba Boêmios do Laguinho também se vestiu de alvi-rubro. Com este traje secular brincou descontraidamente enquanto o excesso de peso ainda não havia prejudicado sua mobilidade. Sempre foi apaixonado pelas festas populares que fazem a riqueza folclórica do nosso país. Entretanto, o carnaval, foi o maior encantamento de sua vida. Se não dava para caminhar, a Alice se conformava em ficar sobre o capô do motor de um caminhão ou na carroçaria de uma camionete. Nem tudo foram flores na caminhada de Alice Gorda. Por ter aceitado uma homenagem de Piratas da Batucada, que contou e cantou sua vida na Avenida FAB, ela foi acusada de ter cometido o crime de lesa pátria e traído Boêmios do Laguinho. Triste e decepcionada com a atitude de pessoas que apenas apareciam na associação no período do carnaval, ela bateu em retirada. Em 1967, consciente de que poderia ter dissabores, Alice aceitou ser “testa de ferro” de um bloco de sujos que congregava integrantes do Bloco do Amapá Clube e carnavalescos partidários políticos do Coronel Janary Gentil Nunes, eleito deputado federal em 1966. Se o Amujacy Alencar, o Savino Souza, o Jarbas Gato ou qualquer outro cidadão que participou da campanha do ex-governador tivesse despontado como coordenador do bloco, certamente a Prefeitura Municipal de Macapá não teria aceitado a inscrição requerida para participar da programação oficial. Naquele ano, uma “orquestra” foi colocada na carroçaria de um caminhão para animar os brincantes.

O Veiculo fez o mesmo percurso ainda cumprido pela Banda e só começou a tocar a marcha “A Banda”, composta pelo Chico Buarque, com maior ímpeto quando atingiu a Avenida FAB. Imediatamente, os coordenadores do carnaval mandaram os soldados da Guarda Territorial montar uma barreira no esquina da Avenida FAB com a Rua Eliezer Levy para impedir que o bloco passasse em frente ao palanque oficial. Quem usou o termo “Banda” foram as autoridades e não os brincantes ou a imprensa. Alice foi acusada de ter sido conivente com os “bagunceiros e desrespeitadores da ordem”. Jornais de Macapá e de Belém não a pouparam. Braba como ela só, Alice subiu nas tamancas e enfrentou o imbróglio com muita altivez. A maioria dos que a meteu no “foguete sem rabo” se acovardou e sumiu do mapa.

No decorrer dos 45 anos em que viveu em Macapá, Alice Gorda promoveu e ajudou a promover as pândegas e as pantomimas carnavalescas. Como o firmamento precisava de uma estrela de primeira grandeza, Alice mudou de endereço, deixando seus súditos conscientes de que apenas a fraternidade é capaz de fazer o carnaval existir. Assim, neste carnaval de 2019, mesmo que as entidades carnavalescas não desfilarem no Sambódromo, as atenções de seus integrantes devem estar voltadas para o céu, onde Alice a tudo observa, com um largo sorriso estampado no rosto. mesmo lamentando que o rufar dos tambores não ecoem na Latitude Zero do globo. O maravilhoso Reino da Alegria de Alice Gorda sempre estará em festa para perpetuar a sua memória. O Estado Amapá foi o único que possuiu uma Rainha Moma.


Avião da FAB cai em Anajás

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No dia 27 de fevereiro de 1948, uma sexta-feira, um avião Douglas C-47 A-85-DL, prefixo 2040, da Força Aérea Brasileira, da linha Rio de Janeiro-Caiene-Rio de Janeiro, com escala em Belém, que havia decolado do aeroporto de Rochambeau e que retornava à capital federal era dado como desaparecido por volta de 21h45min, após passar sobre a cidade de Macapá às 21h30min. Diferentemente dos aviões do Correio Aéreo Nacional, os Douglas C-47 DA FAB não desciam em Macapá, Amapá e Oiapoque. Mas sua passagem sobre Macapá foi registrada pela Estação de Rádio-Telegrafia dos Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul. A aeronave transportava 28 pessoas sendo 22 passageiros e 6 tripulantes. A Base Aérea de Belém, que recebera mensagem do comandante relatando problemas, logo despachou vários aviões para realizar buscas e prestar socorro às possíveis vitimam. Por ocasião do último contato com a base aérea de Belém, o telegrafista informou que o avião sobrevoava a Ilha do Marajó, sem precisar o local exato em que se encontrava. Na mesma noite. O Brigadeiro do Ar Fontenelle solicitou apoio ao governo do Território Federal do Amapá para buscas por via fluvial.

Os iates Itaguary e São Raimundo, que integravam a frota de embarcações do Serviço de Navegação Territorial foram liberados para atender a solicitação das autoridades da FAB. O Itaguary seguiu para a região da ilha Caviana e o São Raimundo tomou o rumo do rio Jurupary. O iate São Raimundo foi o que mais se aproximou do local do acidente, visto que o rio Jurupary corta áreas da Ilha do Marajó próxima a Anajás e Afuá. A notícia do acidente aéreo se espalhou pelo Brasil apenas na manhã do dia 28 de fevereiro. A Rádio Clube do Pará, através de sua onda curta alertou os moradores da região fronteiriça a Macapá, solicitando que eles colaborassem com a Base Aérea de Belém caso tivessem informações sobre o desastre.

A Rádio Difusora de Macapá, à época, só possuía a Onda Média (Amplitude Modulada), cuja propagação se dava com maior alcance à noite. Ela também divulgou diversos boletins informativos. Somente às primeiras horas do dia primeiro de março o comando da Base aérea de Belém foi notificado que o avião havia realizado um pouso forçado na pequena cidade de Anajás, graças aos esforços do prefeito Silvio Carvalho e populares, que utilizaram faróis, candeeiros e archotes para sinalizar o local onde era possível o pouso de emergência. Os contatos foram feitos pelo senhor Otávio Franco, presidente do Breve Industrial, através de sua estação de rádio amador.

Em Anajás não havia serviço de rádio-telegrafia, nem energia elétrica. O comandante de uma embarcação que saíra de Anajás com destino a Breves comunicou os detalhes do acidente ao senhor Otávio Franco.

Ainda no dia 1º de março, a FAB constatava que a aterrissagem do avião ocorrera por volta das 22 horas do dia 27 de fevereiro, sob a sinalização de faróis e archotes, Anajás não tinha pista de pouso. Como o avião ficou sobre voando a cidade o prefeito Silvio Carvalho deduziu que havia problemas. Ao descer, o avião liberou bastante gasolina, mas não explodiu. Porém, os populares que procuravam salvar os ocupantes da aeronave não se deram conta de que os archotes poderiam provocar incêndio, coisa que acabou acontecendo.

O major Ary Proença, comandante da Base Aérea de Belém esteve no local dirigindo as operações de resgate das vítimas. Constatou, que dos 28 viajores, apenas 3 escaparam. Dentre os 25 mortos, 6 eram tripulantes, 8 eram militares do Oiapoque e 11 passageiros civis. Dois aviões catalina amerissaram no rio Anajá para recolher os mortos e feridos. O prefeito Silvio de Carvalho Santos recebeu diversos cumprimentos pela bela iniciativa de orientar o piloto do avião no pouso forçado. Pouco tempo depois do sinistro, Silvio Carvalho veio trabalhar em Macapá e foi um dos prefeitos de Mazagão.


Falta-nos um sistema de cultura

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Embora o lema da Bandeira Nacional seja “Ordem e Progresso”, pinçado da frase concebida pelo Francês Augusto Conte: “O Amor por principio e a Ordem por base; o Progresso por fim”, o Brasil continua sendo um país que tem suas leis, códigos e normas, mas seus mandatários não gostam de cumpri-las. O absolutismo que prevaleceu na nação brasileira, desde a sua descoberta até o fim da Monarquia, continuou marcante no período republicano e parece não ter fim.

Ainda não conseguimos implantar um Sistema Nacional de Cultura porque os governantes preferem posar de “Mecenas”, embora, no serviço público, com aplicação de dinheiro do Tesouro Nacional esse tipo de protetor cultural não existe. O mecenato é próprio dos que usam recursos advindos de suas atividades empresariais ou de quem reserva parte de seus ganhos para estimular os cultores das artes. O Brasil andou perto de implantar um sistema cultural há cerca de quatro anos, mas não o fez, a conta do apadrinhamento que os políticos usam para manter produtores das artes sob suas asas. No Amapá, seguindo os estudos realizados pelo Governo Federal, também elaboramos nosso Sistema de Cultura. O Executivo Nacional reuniu, em Brasília, em 2010, gente de todas as vertentes culturais, dispensando total atenção para os que se mostraram coniventes com a condenável prática de submissão aos chefões do Partido dos Trabalhadores exercida no país. A bola bateu na trave, foi pela linha de fundo e ninguém quis ir buscá-la para dar reinicio ao jogo. Uma prova cabal dessa verdade está no fato dos governantes terem extinguido os Conselhos de Cultura, normativos e fiscalizadores por natureza. Os governantes que não o extinguiram o transformaram em singelos Conselhos Deliberativos, principalmente para acomodar agentes culturais de sua preferência, muito mais militantes políticos do que cultores das artes. Recentemente, no decorrer da campanha política para a Presidência da República, o consagrado compositor/cantor Chico Buarque de Holanda declarou seu irrestrito apoio à candidata Dilma Rousseff.

Imediatamente, surgiram nas redes sociais diversas postagens afirmando que a declaração de Chico Buarque decorria do apoio financeiro dado pelo Ministério da Cultura a uma irmã do cantor, algo em torno de oitocentos mil reais. No período em que Gilberto Gil foi Ministro da Cultura, o cantor Caetano Veloso disse que estava sendo discriminado pelo governo, que lhe negou recursos para a realização de um trabalho musical. No Amapá, um parlamentar conseguiu arrancar do orçamento federal a importância de 600 mil reais para contemplar apadrinhados, entre eles um irmão que completava 50 anos de idade. Dentre os governantes amapaenses, o Waldez Góes foi o que mais se aproximou da implantação de um Sistema Cultural. Reinstalou o Conselho de Cultura, que havia sido jogado no abismo por João Capiberibe, instituiu a Lei de Incentivo à Cultura e deu ao Silogeu uma estrutura normativa e fiscalizadora invejável. Os bajuladores e submissos não gostaram.

Os que exerceram controle administrativo da Secretaria Estadual de Cultura declararam guerra ao Colegiado e se negaram a fornecer-lhe os documentos que a lei lhe assegurava o direito de exigir. Ao final do mandato dos conselheiros prevaleceu a vontade do parlamentar, que prometeu imorredouro apoio ao Waldez caso ele nomeasse apenas seus escolhidos. O tal parlamentar abandonou com a parceria, já no governo do Camilo, assim que nuvens negras pairaram sobre a cabeça do ex-governador. Agora, a partir do dia 1º de janeiro de 2015, Waldez Góes vai governar o Amapá pela terceira vez. Os membros do setor cultural que almejam ver o Estado trilhando a rota do mérito e não do favorecimento aguardam medidas saneadores em todos os sentidos. Se isso não acontecer, o Amapá estará ferrado e desamparado da esperança. Basta de tantas festas sem objetividade alguma. Vamos recuperar o Parque do Forte, tornar atrativa uma visita à Base Aérea de Amapá, apoiar as entidades culturais que podem engrandecer as ações de governo e mandar as favas os oportunistas. Agora, em 2018, configurada a vitória de Waldez Góes nas eleições, resta-nos esperar que o tal sonhado Sistema Cultural se torne realidade.


Remanso e Elesbão

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Ao lado direito do platô de terra firme onde está edificada a imponente Fortaleza de São José de Macapá, havia uma reentrância denominada remanso. Tinha este nome porque naquela pequena enseada as águas do Rio Amazonas não corriam com tanta força. Existem dois conceitos bem definidos sobre remanso: a) contracorrente junto à margem de um rio; b) trecho de rio que não apresenta corrente apreciável.

Na faixa litorânea que hoje integra os bairros, central e Santa Inês, instalaram-se alguns dos primeiros escravos trazidos pelos imigrantes açorianos que aqui chegaram a partir de 1751. Antes da vinda dos açorianos, por volta de 1738, um contingente de soldados chefiados por um capitão já ocupava espaço no platô, erguendo um forte de faxina. No final de ano de 1751, 86 casais de açorianos iniciaram a construção da igreja e dos tijupares que iriam abrigá-los. As instalações destes prédios eram bem simples e dominaram a área de abrangência da grande fortaleza. Enquanto os açorianos se devotavam a São José e faziam suas festas em louvor ao Espírito Santo, os negros mantinham suas tradições religiosas acobertadas pela veneração a Santo Elesbão. Este santo da Igreja católica teria sido descendente de Salomão e da Rainha de Sabá. Foi o 47º imperador da região da Etiópia, pais que dominava vasta região a oeste do Mar Vermelho. Santo Elesbão viveu no século VI dC e foi contemporâneo do Imperador romano Justiniano.

Combateu e venceu os hameritas, anulando a rebelião que eles tinham desencadeado. Abdicou o trono da Etiópia a favor do filho e rumou para Jerusalém. Posteriormente se retirou para o deserto e aí viveu como monge anacoreta até falecer no dia 27 de outubro de 555. Por ser um santo negro, ganhou a devoção dos escravos africanos difundida principalmente pelas Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, Santo Elesbão e Santa Efigênia, rainha da Núbia, filha do rei Egyppo que foi batizada pelo apóstolo Mateus. Curioso é que os próprios imigrantes portugueses e açorianos eram chamados de Elesbão, certamente devido ao fato de não serem considerados de sangue puro. Consta que os imigrantes de pele clara ou parda, que não eram escravos, deveriam ser identificados com o nome da localidade de onde provinham. Os embarcados em Lisboa teriam seus nomes incluídos na relação titulada como Lisboa. Entretanto, o escrivão da alfândega equivocou-se e escreveu Elesbão em vez de Lisboa. Com o passar do tempo muitas pessoas incorporaram a palavra Elesbão ao nome de batismo.

Sobre a praia do remanso, no terreno do encosto leste da fortaleza e na área do Elesbão os moradores de Macapá que apreciavam residir na margem do rio foram construindo suas habitações. No trecho identificado como Elesbão, atualmente cortado pela Avenida Hélio de Souza Pennafort, que começa na Avenida Henrique Antônio Galúcio e termina da avenida 1º de Maio, vários pioneiros da edificação do povoado de Macapá formaram um aglomerado urbano. Este amontoado de casinhas e gente perdurou até meados da década de 1980, ocasião em que o Governador do Território Federal do Amapá, Annibal Barcellos, o extinguiu e transferiu os moradores para o bairro Nova Esperança.

O aterro da área do remanso, do Elesbão e do igarapé do Igapó começou a ser feito em 1978, durante a gestão do Governador Arthur Azevedo Henning. A contar de 1979, os trabalhos foram intensificados pelo Comandante Annibal Barcellos, se estendendo pela orla de Macapá até as proximidades do igarapé Jandiá, dando origem à Praça Abdalla Houat, Praça Jacy Barata Jucá e expansão do Perpétuo Socorro. Para iniciar o aterro dos trechos citados, o DNOS procedeu à drenagem da praia onde seriam construídas as rampas acostáveis do bairro Santa Inês, do Igarapé das Mulheres e próximo ao canal do rio Amazonas. Somente na conclusão do aterro utilizou-se laterrita.

O Elesbão era uma referência para quem queria comprar peixe, carne de caça, frutas e açaí, que os caboclos das ilhas fronteiriças a Macapá traziam para comerciar. Ali morou uma senhora sobejamente conhecida em Macapá como Maria Mucura. Com todo respeito à sua memória, o rosto da ditosa senhora era tal e qual a cara do marsupial devorador de aves. O pequeno declive existente perto de sua casa ficou famoso como baixa da Maria Mucura. É claro que ela não gostava do apelido e xingava os desrespeitosos até a milésima geração.Moradores do bairro do Trem de Lapidação e adjacências, que gostavam de degustar uma cachacinha da marca Alvorada não deixavam de passar no boteco do seu Neco Brito e deliciar, de uma talagada só, o famoso produto advindo de Abaetetuba. Na volta para casa voltavam a encostar-se à birosca “Jesus, Maria, José” para engolir a saideira.

No entorno da Fortaleza, junto ao remanso, foi instalado um matadouro municipal. Sobre a praia funcionou um abatedouro de porcos, pertencente ao senhor Pedro Pinheiro Borges. Também existiu um dançará na área, cujo nome parece ter sido “Bela Vista”. Quando a “porrada comia no centro”, dava gosto ver os brigões caírem na lama ou na água. Sujos e molhados iam depurar a maldita cana e sossegar o facho na Delegacia de Polícia. Ambiente mais calmo era o “Bananeira”, aprazível recanto onde uma família do local promovia festas e vendia refeições. Só funcionava nos fins de semana. Quem caísse na besteira de beber, comer e não pagar era sumariamente denunciado na Polícia e esconjurado pelo resto da vida e mais três meses.