Largo dos Inocentes

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Largo dos Inocentes consta na planta da Vila de Macapá traçada em 1761. As casas dos moradores deveriam ser construídas nas suas duas laterais, após a Igreja de São José. A largura do logradouro correspondia ao trecho ocupado pelo templo e pelas duas travessas que o separavam da Casa Paroquial e do Senado da Câmara respectivamente: Travessa de Santo Antônio e Travessa do Espírito Santo. No ponto de fundo paralelo a igreja ficava a última via pública da vila, que ostentava o nome do fundador de Belém, Capitão Francisco Caldeira Castelo Branco. Uma passagem, denominada anos mais tarde de Coronel José Serafim Gomes Coelho interligava o Largo dos Inocentes com a Rua General Gurjão e com a Travessa Floriano Peixoto. Ao lado esquerdo da Igreja de São José o espaço abrigaria a casa do vigário Miguel Ângelo de Moraes. No lado oposto foi construído o prédio do Senado da Câmara (atual Biblioteca Pública Elcy Lacerda). As casas que circundavam o Largo dos Inocentes tinham paredes barro (taipa de mão), assentadas em traçados de varas de taboca (bambu) atracadas a esteios de aquariquara. Não havia espaço entre uma casa e outra. De cada lado figuravam aproximadamente 15 casas. Ao longo da existência de Macapá, inúmeras famílias ocuparam as moradias. Em anos mais recentes, que antecederam a criação do Território do Amapá, famílias tradicionais ali se estabeleceram, entre elas: os Lino da Silva, os Tavares do Carmo, os Tavares de Almeida, os Serra e Silva, os Lino Ramos, os Tavares Gaia, os Lemos, os Mariano Picanço, os Gaia, etc. O Largo dos Inocentes tinha então a maior concentração populacional de Macapá e as famílias mais numerosas, por isto dizia-se que o local parecia um formigueiro humano.

Em 1948, com a chegada dos Padres Italianos, a configuração do Largo dos Inocentes mudou. O trecho da Travessa José Serafim Gomes Coelho, entre o Largo e a Avenida Presidente Vargas (ex-travessa Floriano Peixoto) foi fechado devido a ampliação da área que o Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras – PIME, que ainda permanece entre nós.Isso foi necessário para instalar o Oratório Festivo e Recreativo São Luiz. As casas edificadas entre a passagem e a casa do Vigário foram desapropriadas. O domínio dos Padres ganhou cerca e virou “Quintal dos Padres”, local muito freqüentado pelas crianças da Paróquia de São José. Na área conquistada foram construídos: O Salão Paroquial Pio XII, a quadra polivalente de vôlei, basquete e futebol-de-salão, a Escola Paroquial São José, a sede da Juventude Operária Católica, a sede do Grupo de Escoteiros Católicos São Jorge, o Pensionato São José e o Cine Teatro João XXIII. No Salão Paroquial era celebrada a Santa Missa de Domingo, encenadas as peças teatrais dos meninos e das meninas e as exibições cinematográficas em máquinas de 16 milímetros . Depois da missa, os moleques ruins de bola jogavam futebol no Largo dos Inocentes, a despeito do solo ser duro e repleto de piçarra.

O Largo dos Inocentes tem este nome por causa da Rua dos Inocentes que ligava a Rua do Lago (General Gurjão) e a atual Coriolano Jucá, que já teve a denominação de Braz de Aguiar e se estendia desde a Vila Santa Ingrácia e a estradinha que dava acesso ao “campo de pouso de aviões” da cidade No largo, eram realizadas as festas em louvor a Nossa Senhora Menina, ao Menino Jesus e aos pequenos Mártires Inocentes do inicio do cristianismo. Os festejos destinados a São Raimundo Nonato, São Luiz Gonzaga, São Benedito, São Sebastião e Nossa Senhora do Rosário aconteciam no interior da igreja. A parte litúrgica em louvor ao Divino Espírito Santo e Santíssima Trindade também. Porém, desde o tempo em que o Padre Júlio Maria Lombaerd foi Vigário da Paróquia de São José, a parte profana ocorria no Largo de São João. Bem definida pelo sacerdote com a aceitação dos católicos praticantes, o evento ganhou o titulo de Festa das Coroas, desdobrada em duas quadras: Divino Espírito Santo e Santíssima Trindade. Os festeiros e os foliões do chamado Marabaixo não dispensavam costumeiras visitas ao Largo dos Inocentes, principalmente no período em que faziam o recolhimento dos donativos. Ainda assim, tinham que prestar contas ao Padre Júlio, afinal de contas não é ético e moral alguém colocar santo em esmola e se apropriar do dinheiro e bens arrecadados.

Nos dias atuais, o Largo dos Inocentes está muito descaracterizado, mas continua a mexer com a imaginação de muita gente. Há até quem diga que naquele espaço existiu um cemitério. Outros dizem que era um cemitério só de crianças não batizadas, daí a termo inocente. Não me consta que no catolicismo as crianças pedem a inocência depois do batismo, já que o sacramento instituído por João Batista lhes é ministrado em tenra idade. No período em que presidi o Conselho Estadual de Cultura ( 2004 a 2010), foi gerado um processo visando o tombamento do Largo dos Inocentes, pelo seu valor histórico e etnográfico. Os governantes não lhe deram a atenção devida.


Agricultura, produção e venda

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Ainda em 2019, o empirismo agrícola prevalece na lavoura do Amapá. Nossos agricultores continuam utilizando o machado e o fogo para limpar as áreas desmatadas destinadas as suas roças. Raramente algum produtor agrícola pode fazer uso de arado, trator, grade e adubo em suas plantações. A cultura da mandioca segue despontando como a de maior prática porque farinha todo mundo come.

Com a mandioca ralada e puba se obtêm a tapioca(da qual se faz o beiju) e o tucupi, que é muito apreciado. Como os solos do Estado do Amapá são em grande parte laterizados, os agricultores optam por culturas mais resistentes. A concorrência de gêneros produzidos em larga escala, com boa colocação no mercado dificulta a venda de seus produtos. Em 1751, quando os colonos açorianos chegaram a Macapá, plantando de imediato suas roças, as chuvas foram implacáveis com eles. Os açorianos voltaram a plantar arroz, milho, feijão, urucum, mandioca e hortaliças a partir de junho de 1752.

Em Mazagão, a contar de 1771, quando os primeiros colonos foram instalados, a produção começou fraca, mas em 1773, a exemplo de Macapá, já exportava arroz para Belém. Na Colônia Pedro II, criada em 1840 à margem esquerda do rio Araguary, a agricultura não prosperou. Porém, a partir de 1891, posicionada no local onde está a cidade de Ferreira Gomes, os resultados foram relativamente apreciáveis. A colônia produziu arroz, feijão, farinha e outros gêneros. Até um trapiche foi construído, servindo de atracador para navios egressos de Belém, que transportavam estes produtos para a capital do Pará. As febres palustres e a pobreza do solo fizeram a colônia regredir. Em 1890, no lugar denominado “Ponta dos Índios”, o governo republicano do Brasil mandou construir 12 casas de madeira para abrigar um contingente do Exército e colonos.

Entretanto, o local foi mal escolhido e o projeto de povoamento da região não teve êxito. Transferida para a localidade de Santo Antônio, à margem direita do Rio Oiapoque, a Colônia Militar ali permaneceu até 1920, ocasião em que surgiu o Núcleo Colonial de Clevelândia. Nos anos de 1920 e 1921, várias casas foram construídas para abrigar colonos nordestinos flagelados pela seca. O local dispunha de hospital, serraria, escola, estação rádio-telegráfica, luz elétrica, armazém e capela.

Em 1923, quando 30 famílias já atuavam na área, prisioneiros políticos e até 158 condenados por crimes comuns lá desembarcaram prejudicando a iniciativa. No período de 1925 a 1927, uma devastadora epidemia de disenteria bacilar ceifou a vida de 42% da população. Em 1935, o governo federal extinguiu o núcleo colonial e colocou Clevelândia sob jurisdição do Ministério da Guerra.

Em 1949, quase seis anos após a criação do Território Federal do Amapá, o governador Janary Nunes distribuiu lotes de terras a 12 colonos nordestinos ao longo da estrada que liga a base aérea a Oiapoque. A partir de 1950, o governo territorial iniciou a elaboração de um projeto visando a criação de uma colônia agrícola entre as vilas de Porto Grande e Ferreira Gomes. Outra tentativa agropecuário foi realizada na região do rio Matapi, distante 120 km de Macapá. A Colônia Agrícola do Matapi começou a funcionar em fevereiro de 1949 e em março de 1950 registrava a presença de cinco colonos.

No mês de junho desse ano havia 17 casas abrigando 100 pessoas. Os lotes de terra tinham a forma retangular medindo 300 m de largura e mil metros de comprimento. Durante os dois primeiros anos cada colono casado recebeu Cr$ 500,00(quinhentos cruzeiros) mensais em forma de pecúlio.

Quase todos os colonos vieram de sítios existentes ao longo da Estrada de Ferro de Bragança e plantaram arroz, milho, mandioca, feijão, macaxeira, batata doce, jerimum, hortaliças e frutas diversas, mesmo enfrentando os ataques do “chupão”, da formiga-de-fogo e da saúva. O arroz produzido era beneficiado na usina que o governo tinha instalado no Posto de Experimentação Agropecuária da Fazendinha.

As sementes eram distribuídas gratuitamente aos agricultores, pela Divisão de Produção e Pesquisa, e o governo comprava toda a safra.
Atualmente fala-se bastante no agronegócio, tendo a soja como produto promissor.Problemas jurídicos com as terras usadas no plantio já foram detectados, motivando a anulação de registros feitos pelo INCRA.


O terreno da Panair do Brasil

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Dia 5 de julho de 2018, enquanto aguardava o inicio da solenidade de inauguração do prédio do Centro de Educação Profissional de Música Walkiria Lima, meu pensamento voou para a década de 1940. Sentado em uma cadeira, no leito do trecho da Rua Major Eliezer Levy, entre as Avenidas FAB e Iracema Carvão Nunes, fui recordando a evolução da cidade de Macapá naquela área.

Quando a diminuta cidade ainda pertencia ao Estado do Pará e era a sede do município de Macapá, mas precisamente em 1940, aqui se instalou a Panair do Brasil S. A. uma importante empresa de aviação aérea. A pista por ela construída, para pouso e decolagem de seus aparelhos DC 3 tinha seu inicio no ponto onde foi aberta, em 1944, a Rua General Rondon, derivando em sentido diagonal, quase no formato da letra “L, para o espaço que hoje abriga o terreno do Esporte Clube Macapá,Câmara de Vereadores,Prefeitura Municipal de Macapá e centenas de outros imóveis”.

A largura do aeroporto equivalia à gleba rasgada pelas Avenidas Procópio Rola e Raimundo Álvares da Costa.O trecho inicial da Rodovia Macapá/Clevelândia, correspondente ao ‘km zero”,demorava na atual confluência da FAB com a Eliezer Levy. A extensão da pista, rumo oeste, findava em uma área alagada, próxima Rua Hildemar Maia. A Rua Tiradentes, que já foi identificada como Coronel José Serafim Gomes Coelho e Travessa Francisco Caldeira Castelo Branco, limitava o núcleo urbano de Macapá. A casa da Estação de Rádio/Farol da Panair do Brasil e a residência do gerente da empresa fora edificada, em madeira de lei, exatamente onde agora fica o prédio do Centro de Educação Profissional de Música Walkiria Lima.

A área ampla, contendo árvores frutíferas e um pequeno regato, por onde as água pluviais escoavam para a ressaca formada pelo Igarapé da Fortaleza. Algumas pequenas construções em alvenaria abrigavam instrumentos que mediam fenômenos atmosféricos. Um deles ficava no terreno que me foi concedido pelo General Ivanhoé Gonçalves Martins, governador do Território Federal do Amapá, entre abril de 1967 a novembro de 1972. Em abril de 1944, estando em curso a instalação da mencionada unidade administrativa, o Governador Janary Gentil Nunes reuniu com os lideres da comunidade negra de Macapá, que ocupavam a área em volta do velho Largo de São João e com eles negociou a desapropriação de suas propriedades. Ficou acertado, que os atingidos pela medida receberiam em cruzeiros, moeda da época, os valores certos e irrefutáveis dos seus bens.

A maioria do pessoal alvo da desapropriação tinha suas roças nos campos do laguinho, onde o governo deveria instalar um novo aglomerado populacional.O acordo foi firmado e o valor da indenização pago em moeda corrente. De imediato, duas ruas foram abertas: General Gurjão e Eliezer Levy. A primeira passou a delimitar a cabeceira da pista de aviação da Panair. A segunda começava na atual Av. Pará e estancava na cerca de arame farpado do aeroporto(Raimundo Álvares da Costa). A seqüência da via pública partiu do “km zero” no rumo do Cemitério Nossa Senhora da Conceição. Trechos assim eram chamados de pontilhão. Lembrei, então, que o palco e as cadeiras destinadas aos convidados governamentais estavam ocupando parte do “pontilhão” da Rua Major Eliezer Levy. Imaginei estar sozinho, numa área totalmente despovoada, que, progressivamente foi sendo modificada. Em 24 de maio de 1945, a empresa Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul substituiu a Panair do Brasil e incorporou ao seu patrimônio os bens da retirante. Por volta de meados da década de 1950, a cidade de Macapá tinha se expandido consideravelmente.

Nas avenidas General Gurjão, Mendonça Furtado, Presidente Vargas, Iracema Carvão Nunes e Procópio Rola surgiram casas para servidores públicos graduados, erguidas à conta de recursos orçamentários do governo federal e do IPASE. Um pouco além do ponto onde eu me encontrava, já existiam o Hospital Geral de Macapá, a Maternidade, o Dispensário dos Tuberculosos e a Unidade de Nutrição e Materno-Infantil. O mais interessante é que resido na área que pertenceu à Panair e à Cruzeiro do Sul. Curioso é que muita gente não quis morar ali.


A Estrada de Ferro que enferrujou

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No inicio das atividades da Indústria e Comércio de Minérios S.A.- ICOMI, em Serra do Navio, o Rio Amapari era a via fluvial usada por quem, partindo de Porto Platon, pretendia alcançar aquela região onde estavam as jazidas de manganês. Antes da chegada da mineradora, faiscadores de ouro e pequenos comerciantes usavam a citada rota.

O registro da existência do minério de manganês tinha sido realizado pelo geólogo Josalfredo Borges, em 1934. Em 1946, quando os trabalhos de instalação do governo do Território Federal do Amapá, do qual era o governador, o capitão Janary Gentil Nunes conclamou os cidadãos que atuavam em áreas de exploração mineral, a fornecer ao executivo, amostras de pedras com características de minerais. Um dos frequentes usuários do rio Amapari, Mário Cruz, dono de uma ubá impulsionada por motor de popa archimedes de 12 HP, que mantinha em sua casa, na cidade de Belém, algumas pedras escuras, as quais ele imaginava serem ferro, transportou-as para Macapá e as apresentou à Divisão de Produção e Pesquisa.

O geólogo alemão Frits Louis Archerman, que prestava serviços ao governo territorial, logo identificou como manganês. Outras amostras confirmaram a existência de ferro, tantalita, estanho. Mediante concessão do governo brasileiro, a ICOMI deu inicio a implantação de uma soberba infra-estrutura operacional para extrair e vender o manganês. A logística da empresa também foi magistral no tratamento de seus funcionários. Tudo que a ICOMI precisou levar para Serra do Navio saia do Porto de Santana, por via rodoviária até Porto Platon. Na sequência da viagem ocorria com o uso de pequenas embarcações, que também traziam amostras de minérios. Posteriormente, a empresa usou uma balsa de ferro e nela transportou as primeiras toneladas de manganês, da vila Santa Terezinha para Porto Platon. Em caçambas, o minério foi transferido para a área onde surgiria o píer e o cais da companhia, em Santana. Isso continuou acontecendo até entrar em operação a Estrada de Ferro do Amapá.

A construção foi iniciada em janeiro de 1954 e inaugurada em 5/1/1957. “Para a construção de suas instalações no Amapá, a ICOMI obteve um crédito no Eximbank, de Washington, de US4 67.500.000,00(sessenta e sete milhões e quinhentos mil dólares), a juros de 4-1/2%(quatro e meio por cento), para financiamento das importações de materiais e pagamento das despesas de construção no Brasil. Deste total,posto à disposição da empresa, foram dispendidos apenas, em números redondos, 55 milhões de dólares”.

A extensão da linha principal é de 193,594 km, acrescido de 12,832 km das linhas correspondentes aos pátios de manobras e desvios, perfazendo o total de 206,426 km. Cada quilômetros tem 1.765 dormentes. Em toda a extensão da linha há cerca de 368.679 dormentes. Na fase mais operosa da ICOMI, deslizaram sobre os trilhos da Estrada de Ferro do Amapá nove locomotivas: três GM Diesel Elétricas, modelo 1200 SW , uma modelo 1500 SW e quatro GE C 30-7. A empresa dispunha de 80 vagões para transporte de minérios com capacidade de 70 toneladas cada. Em 1997, a ICOMI encerrou suas atividades com a exploração de manganês.

Em 1998, retirou-se do Amapá. Os bens que ela deixou, na forma do contrato de concessão que lhe foi feito pelo Governo Federal, eles passaram a pertencer ao Governo do Estado do Amapá. Foi quando a desdita se abateu sobre a ferrovia. A gestão estadual não conseguiu manter as composições operando com a mesma competência revelada pela ICOMI. Surgiram três empresas, que também se revelaram tremendos fiascos: MMX(2006), Anglo American (2008) e a Zanim (2013). Esta última ainda foi contemplada da concessão da Estrada de Ferro, mas não deu conta do recado. Segundo registros disponíveis nas redes sociais dão conta de que, no dia 15 de dezembro de 2014, o trem de carga circulou pela última vez, entre Serra do Navio e o Porto de Santana. No ano posterior foi a vez do trem puxando vagões com passageiros. A partir de então, toda a estrutura existente nos 206,426 quilômetros vem sendo saqueada.

Em 2017, através de um relatório, a SETRAP afirma, que as áreas de segurança perto dos trilhos estão sendo invadida. As ocorrências foram registradas na Polícia, mas nada de prático poderá acontecer sem a intervenção judicial. Muita coisa já foi surrupiada e levada para fora do Estado.


Habent sua fata libelli

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Ao ser concretizada a pretensão de se proceder à reativação da Academia Amapaense de Letras, em 1988, recebi a incumbência de cuidar da parte estrutural do Silogeu. Os que promoveram a sua fundação, a 21 de junho de 1953, não chegaram a elaborar o estatuto e o regimento da instituição. De imediato, concebemos o Estatuto e passamos a operar. Atentei para a adoção de um lema para a sociedade literária do Amapá e fui localizá-lo entre expressão latina contidas no “Diccionário Prático Encyclopédico Illustrado Luso-Brasileiro, publicado na cidade do Porto, em Portugal, edição de 1935, sob a direção de Jayme de Seguir. Prendeu minha atenção a expressão “HABENT SUA FATA LIBELLI” usada pelo escritor romano Terencianus Maurus, no século II, correspondendo ao verso 1.286, cujo teor é: “Pro captu lectoris habent sua fata libelli” (Os escritos têm seu destino de acordo com a capacidade do leitor). De modo geral é citada apenas habent sua fata libelli, traduzido como os livros têm seu próprio destino. Pouco se sabe sobre o autor da expressão. Ele teria nascido na Mauritânia, então província romana e compôs um manual em versos sobre presódia e métrica com o titulo” De litteres, syllabis, metria “(sobre as letras, sílabas e metros), aplicado, sobretudo a exemplo de Horácio.

O autor troca de métrica cada vez que trata de um verso ou estrofe diferente. Essa obra, esquecida durante a idade média, foi redescoberta em 1493 e novamente perdida depois de impressa pela primeira vez, em Milão, no ano de 1407. A edição mais famosa é a de Simon de Colores, de 1531. A edição mais recente é de Chiara Cignolo, de 2002. Nessa obra aparece pela primeira vez a expressão latina que ficou famosa; Habent Sua Fata Libelli. Há várias traduções a respeito da expressão, mas todas evidenciam a importância dos livros, que devem estar disponíveis para uso do leitor interessado em se instruir. Que importância tem os livros que permanecem encaixotados em depósitos de bibliotecas públicas? Milhares ou milhões se perderam ou foram jogados fora. Da capacidade do leitor depende o destino dos escritos.

A expressão latina que intitula este artigo é o lema da Academia Amapaense de Letras. A propósito do assunto, vale lembrar as diversas doações de livros que foram feitas para a Biblioteca Pública de Macapá, notadamente no inicio de sua instalação, quando o importante órgão do Governo do Território Federal do Amapá passou a funcionar em um prédio à esquerda do Grupo Escolar Barão do Rio Branco. A mais notável delas corresponde aos livros do médico, literato e político macapaense Acylino de Leão Rodrigues, uma autêntica preciosidade, que foram doados à Biblioteca Pública do Amapá por sua esposa. Ela sabia que a doação era o propósito do ilustre médico e literato, que havia integrado a Academia Paraense de Letras.
Os livros chegaram a Macapá em perfeitas condições, em 1950, após o falecimento do doador. Por ocasião da transferência da Biblioteca Pública, para outro imóvel edificado em frente à Escola Normal de Macapá, edificado no governo do General Ivanhoé Gonçalves Martins, uma boa parte do acervo bibliográfico ali chegou encaixotada e desta forma permaneceu por bastante tempo. Em 1970, o prédio do antigo Senado da Câmara, ao lado da Igreja de São José foi demolido, sendo erguida naquele local outra sede para a Biblioteca. Várias coleções famosas foram transferidas para lá, mas a maioria, em virtude da ação das traças, dos cupins e da umidade tinha sofrido irreparáveis danos. Há muito tempo, nossa Biblioteca Elcy Rodrigues Lacerda não recebe novas obras literárias.

Os livros antigo, que tinham ficado sem as capas ou sofrido desgastes, devido ao incessante manuseio, foram classificados como imprestáveis e descartados. Muitas obras eu recolhi para a Biblioteca Aracy Mont’Alverne, que montei no Conselho Estadual de Cultura. Quem me substituiu na presidência do colegiado extinguiu o acervo.

O valor de uma obra está contido em suas páginas e não nas capas. Mesmo assim, os livros danificados são úteis e o destino deles é ficar à disposição dos que gostam de ler ou precisam pesquisar. Lugar de livros não é dentro de caixas, salas fechadas, sanitários e banheiros. Livros danificados podem ser recuperados.


Memorial antropológico-cultural do Amapá

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O propósito de construir um memorial para Janary Gentil Nunes volta a ganhar força. Há quase dez anos, o falecido deputado Dalton Martins concebeu um projeto relativo à construção de um memorial para homenagear o primeiro governador do Território Federal do Amapá. Depois de ter sido aprovado na Assembléia Legislativa, o projeto foi encaminhado ao governador Waldez Góes para ser sancionado.

Do Palácio do Setentrião a documentação seguiu para a Fundação Estadual de Cultura do Estado do Amapá-FUNDECAP, a fim de ser analisada e receber parecer técnico, que respaldasse a decisão do chefe do executivo. Na época, ocupando o cargo de assessor cultural do citado órgão recebi a incumbência de emitir o importante parecer e o fiz em breve período de tempo. Julguei que, em vez de prender-se exclusivamente a enaltecer os feitos de Janary Nunes, o memorial deveria ter a responsabilidade de recolher, catalogar, registrar e manter sob sua guarda e preservação, objetos e documentos referentes a costumes, crenças, comportamento, organização social, linguística, sociologia, economia, história e geografia humana dos grupos em que se distribuiu o homem amapaense através das épocas. Até uma minuta de projeto-de-lei foi elaborado, mas os poderosos de então preferiram ignorar a propositura. Naquela oportunidade não houve vontade política na sanção do projeto de Dalton Martins, que havia participado da campanha eleitoral do governador. Atualmente, a vontade política existe e tudo parece caminhar para um desfecho feliz.

O lançamento da pedra fundamental do memorial deverá ocorrer na Fazendinha, dia 1º de junho, data do natalício de Janary Nunes. O trabalho desenvolvido por este brilhante amazônida precisa ser mostrado aos amapaenses, sem fantasias e disfarces. Os fatos históricos gerados por ele são suficientemente fortes para reconhecê-lo como gestor de incontestável liderança e ferrenha autoridade na defesa de um ideal, que ele preferiu rotular como “A Mística do Amapá”.

Os amapaenses natos e os que vieram de outras plagas precisam conhecer a história dos pioneiros que fizeram vingar a criação do Amapá como unidade federada. Muitos são os relatos de ilustres brasileiros que conheceram Macapá antes da década de 1940. Boa parte destes relatos ainda está preservada, como o que foi escrito pelo magistrado Inácio de Souza Moita, em 1951. Ele havia atuado como Juiz de Direito da Comarca de Macapá em 1931 e voltava a rever Macapá 20 anos depois: “Estou entusiasmado com o que vi em Macapá. Conheci esta cidade em 1931, quando lá fui como Juiz de Direito da Comarca.

A cidade não era mais que um burgo pobre, abandonado de Deus e dos homens, com uma população mal passando de mil habitantes, duas dezenas talvez de velhos prédios, resto de uma época, já longínqua, de fartura e opulência; no mais, tugúrios, marasmo e miséria, onde tudo atestava tristeza, desânimo e apatia. Aquele burgo pobre de há 20 anos, é hoje um centro de civilização e cultura que se expande, tentacular e ruidoso, em bairros residenciais, ruas largas, praças de esportes, com serviço de luz elétrica que não tem colapsos, quer de dia quer de noite, água encanada e esgotos, estes últimos ainda não terminados, a cargo do Serviço Especial de Saúde Pública-SESP, mediante contrato com o Governo.” Outro testemunho significativo foi dado pelo então Deputado Juscelino Kubitschek, mediante discurso pronunciado no Cine-Teatro Territorial em 1947: “ Há um sentido profundo de brasilidade na obra que aqui se realiza. O homem desta jungle bravia não é um apático e menos ainda um desinteressado pelos destinos de sua terra. Luta, pelo contrário, contra vicissitudes inúmeras e, batido pela desventura da enfermidade e do desconforto, reage com bravura, extraindo de suas forças periclitantes lições heróicas de amor e devotamento à causa da grandeza de nossa Pátria”.

O trabalho que Janary Nunes fez no Amapá deve ser analisado com os olhos da história, sem espaço para revanchismo. Presidindo a PETROBRAS, Janary Nunes mostrou que ela era viável. A primeira refinaria da importante estatal, erguida em Volta Redonda, ocorreu em sua gestão. Antes disso, os abutres políticos não se interessavam pela instituição. Depois deste feito, eles pressionaram Juscelino Kubitschek para alijar o Coronel Janary Nunes. Lhe foi dado, como prêmio de consolação, a nomeação como Embaixador Plenipotenciário do Brasil, na Turquia.


Seu Manuel, o popular “Pau Furado”

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Moreno, corpo esguio e rosto marcado pelo sofrimento, assim era o seu Manuel, um deficiente físico que vivia da caridade pública na cidade de Macapá. Morava em um prédio que fora construído pelo governo do Território Federal do Amapá para abrigar o “Restaurante dos Operários” e servir de abrigo aos que vieram de outras plagas para trabalhar na construção de diversos prédios públicos e que viviam em alojamentos precariamente edificados. Os trabalhadores permaneciam naquele local pelo tempo necessário para construírem suas casas em lotes que a Divisão de Terras e Localização distribuía.

O restaurante acabou sendo rotulado de Barracão dos Imigrantes, ficava na esquina da Rua São José com a Avenida Professora Cora Rola de Carvalho. Pelo centro dessa segunda via pública passava a tubulação do primeiro sistema de esgoto de Macapá. A área era tão alagada que houve foi preciso construir-se pequenos pilares para manter os tubos fora do lamaçal. No inicio seu Manuel usava apenas uma grossa bengala para sustentar a mudança de passo da perna esquerda. Depois se fez imprescindível trocar a bengala por uma muleta relativamente desgastada para poder se deslocar, haja vista que a atrofia da perna esquerda se agravara. Quase não falava e a dentição lhe era escassa.

A despeito de ser deficiente físico, seu Manuel caminhava bastante. Seu ponto preferido para sentar-se e ver o tempo passar era a calçada da residência da senhora Sofia Mendes Coutinho, situada no canto da Avenida General Gurjão com a Rua São José. Ali ficava horas a fio observando tudo que se passava no centro histórico de Macapá. À tarde, quando a maré enchia por volta das 16 horas, seu Manuel deixava a calçada e rumava para o trapiche major Eliezer Levy. Com muito aprumo caminhava sobre a longa ponte até alcançar o ancoradouro frontal. Á época existia na cabeça do trapiche um abrigo coberto destinado a passageiros e cargas miúdas. Era o local onde seu Manuel ficava fitando as águas do Rio Amazonas e acompanhando a chegadas dos reboques a vela provenientes da região das ilhas do Pará, que traziam açaí, frutas e peixe. Tudo era vendido rapidamente aos costumeiros fregueses, principalmente às mulheres amassadeiras do nosso rico e gostoso “petróleo”.

À conta da caridade dos caboclos seu Manuel sempre voltava para o barraco com alguns peixinhos frescos, suficientes para o preparo de um reanimante caldinho. Ele também podia ser encontrado sentado na calçada da Igreja de São José proseando com o amigo Ponciano ou sobre a panela da rede de esgoto da Avenida Cora de Carvalho. Todo mundo se admirava de o ver escalando aquele objeto alto sem pedir a ajuda de terceiros. As crianças que tão bem conheciam seu Manuel não lhe faltavam com o respeito. Algumas evitavam passar perto daquele cidadão desvalido porque os próprios pais diziam que iriam chamar o “Pau Furado” caso os filhos não se comportassem direito. A mesma coisa falavam em relação ao senhor Benedito Lino do Carmo, o Congó. A molecada da Matriz até que tentava tirar um dedo de prosa com seu Manoel, mas ele falava meio embrulhado e somente as pessoas pacientes conseguiam entendê-lo. Se naquele tempo, os políticos distribuíssem dentaduras, a pronúncia do “Pau Furado” seria melhor. Nunca consegui saber de que localidade veio seu Manoel. Algumas pessoas diziam que ele era proveniente da ilha do Marajó e teria contraído paralisia infantil. A origem do seu apelido e o complemento do nome de batismo jamais foram descobertas. Seu Manuel detestava ser apelidado.

No tempo de manga ele fazia a festa. Primeiramente amassava bem a fruta. Depois, chupava a poupa, devorava a casca e fazia um malabarismo tremendo com o caroço dentro da boca. Ao ser jogado fora, o caroço estava branquinho da silva. Seu Manuel residiu no Barraco dos Operários até morrer, no final da década de 1960. O propósito do Governador Ivanhoé Gonçalves Martins em melhorar o aspecto urbano de Macapá mudou completamente o habitat do Pau Furado. O prédio que o abrigava encontrava-se praticamente desativado e não servia mais refeições. Os alimentos necessários a subsistência de seu Manuel continuavam a ser dados por pessoas caridosas, entre elas a Alice Gorda que na época gerenciava um hotel. Foi a Alice Gorda, nossa eterna Rainha Moma, quem providenciou o sepultamento daquele homem que tanto sofreum até desencarnar do verbo.


Torre da Vigia do Rio Curiaú

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Em 1740, o Governador do Maranhão e Grão Pará, Capitão General João de Abreu Castelo Branco, deferiu uma proposta do Capitão Antônio Gonçalves para que construísse as suas expensas, uma fortificação na foz do Rio Curiaú, querendo apenas ser o seu comandante e superintendente dos serviços de fortificação do Grão Pará, com posto vitalício. Como o deferimento implicava em despesas para a Coroa Portuguesa, o governador submeteu a questão à apreciação do Rei D. João V. Através da Carta Régia de 9 de março de 1740,o monarca não acatou a proposta e alegou que a Coroa não poderia correr o risco de ver repetir-se o erro de Francisco de Melo Falcão,que no século XVII se obrigara a construir quatro fortalezas no interior da colônia, executando as obras com imperfeições, utilizando material de má qualidade e sem bom acabamento.

Em Macapá já existia um reduto fortificado erguido em 1738, que se manteve operando regularmente. A obra sonhada pelo Capitão Antônio Gonçalves foi construída em 1761, na foz do rio Curiaú, sobre um estrado de madeira, com a finalidade de fiscalizar um extenso trecho do rio Amazonas, que não era avistado do reduto fortificado da Vila de Macapá. Qualquer aventureiro, que navegasse no sentido da nascente do grande caudal, o faria protegido pela mata e só seria notado quando sua embarcação alcançasse a enseada próxima a Macapá. Em 1761, ainda não havia sido edificada a Fortaleza de São José e a área sobre a qual ela está assentada era ocupada por um Forte de Faxina, construído em três meses, entre o final de abril e o dia 31 de julho de 1761, pelo engenheiro Gaspar João Geraldo Gronfelds, época em que o Grão Pará era governado pelo Capitão General Manuel Bernardo de Melo e Castro.

A função primordial da Torre de Vigia do Curiaú consistia em avisar a guarnição de Macapá sobre a aproximação de qualquer embarcação pela margem esquerda do Amazonas. O aviso seria dado pelo disparo de um tiro de canhão, como acontecia em outras vilas e cidades do Brasil. A prática durou até o final do ano de 1761, por ser julgada alarmista. Ao ouvir o som do disparo, o aventureiro retrocedia e não podiam ser perseguidos, haja vista que, na Vigia do Curiaú não havia barco artilhado.

Os canhões foram retirados e transportados para o Forte de Faxina. Outros procedimentos foram adotados. Durante o dia, uma bandeira seria hasteada. À noite, os soldados da Torre de Vigia soltariam foguetes. Sempre que a guarnição da Torre de Vigia desse um sinal, durante o dia ou à noite, um mensageiro saia à cavalo com destino a Macapá e outro cobria o percurso fluvial na canoa. O contato terrestre entre o Forte de Faxina e a Torre de Vigia do Curiaú era feito através de uma estrada vicinal,por onde,freqüentemente cavalgavam soldados que procediam incursões no arredor norte da Vila de Macapá. Os militares também caçavam escravos fugidos. O percurso por terra se estendia até o local onde despontou a fazenda de criação de gado do Alferes Manuel Antônio de Miranda, hoje identificada como Curiaú de Dentro. Curiaú é um vocábulo indígena, que significa o “comedouro dos curiás”, uma espécie de patos pequenos.

O vocábulo curuá também designa um pato com as mesmas características. Para completar o circuito, os soldados utilizavam um batelão, manejando remos e varejões. A Vigia compreendia uma casa para o corpo da guarda e uma guarita, edificada em cima de um banco de areia, numa distância de 70 braças, equivalente a 150 metros da margem. A ligação entre os dois pontos era favorecida por uma ponte de madeira. Da vigia observava-se longo trecho do Rio Amazonas, que não se vislumbrava do Forte de Faxina, em Macapá.

O comando da Vigia estava entregue a um cabo de esquadra, que tinha sob ordens alguns soldados. As instruções para emissão de avisos à Macapá foram baixadas pelo Coronel Nuno da Cunha Ataíde Verona, comandante da Praça de Macapá, a 26/10/1762. A resposta do aviso ocorreria, de dia, com o hasteamento de uma bandeira e à noite, com um tiro de canhão. Tanto a casa da guarnição, quanto a guarita das sentinelas, ficavam sobre palafitas, com altura suficiente que impedisse serem atingidas pela maré. A Vigia foi mantida em operação até 1908, quando o governo brasileiro resolveu desativar a Fortaleza de São José.Esse relato deixa bem claro o quanto é fantasiosa a propagação de que o Curiaú abrigou um quilombo.


Fantasiosa história de cobra grande

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Narrativas fantasiosas costumam ser feitas por certos órgãos da imprensa. Não é um procedimento raro, principalmente quando determinados jornais divulgam noticias mirabolantes. Na ânsia de aumentar a venda de exemplares, repórteres e redatores não têm o mínimo cuidado de verificar se o fato em destaque realmente aconteceu. Um exemplo disso é a noticia que transcrevo: “Em fevereiro do corrente ano, conforme noticiara a imprensa do país, uma cobra gigantesca do Amazonas ataca o forte de Tabatinga, no Território do Amapá. O Forte, que estava guarnecido e perfeitamente aparelhado para repelir qualquer possível agressão exterior, não sofreu o menor dano, sendo o monstro anfíbio abatido com balaços de metralhadora P-50 instantaneamente.

O gigantesco ofídio media, apenas, 40 metros de comprimento, com 80 centímetros de altura e pesava cerca de 6 toneladas! O cachê, que acima estampamos, apresenta o “Sucurijú Gigante, já sem vida, logo após o inédito ataque à fortificação”. A reportagem cometeu um erro crasso ao localizar o Forte de Tabatinga no Território Federal do Amapá, haja vista que Tabatinga é um município do Estado do Amazonas, situado há mais de mil quilômetros de Manaus, localizado à margem esquerda do rio Solimões, na fronteira do Brasil com o Peru e a Colômbia. Na área onde surgiu Tabatinga, o Capitão-general Fernando da Costa de Ataíde Teive, Governador do Estado do Pará e Maranhão mandou, no ano de 1766, instalar o Forte de São Francisco Xavier, destinado à inspeção das canoas que se destinavam à povoação espanhola de San Pablo de Loreto, no Peru.
O negocio era tão lucrativo, que a Companhia de Comércio do Pará e Maranhão ali implantou uma filial.A partir de 1776, o forte ganhou maior importância devido ao incremento das atividades comerciais na região, Nesta época já havia sido criada a Capitania de São José do Rio Negro, cuja sede foi a antiga aldeia de Mariuá, governada pelo Coronel Joaquim de Melo e Povoa.

O Forte de São Francisco Xavier não resistiu por muito tempo,mas sua ruína não se deu à conta de ataque de Anaconda e sim devido a forte correnteza do rio Solimões.Atualmente, o Exército Brasileiro marca sua fundamental presença em Tabatinga. Curiosamente, no folclore local há uma lenda referente a uma cobra grande parida por uma indígena virgem.A moça morava com os pais em lugar isolado e se dedicava aos trabalhos domésticos.O pai morreu quando ela ainda era criança. Ao atingir a puberdade, a garota começou a sentir acentuado desconforto vendo aumentar sua barriga. Sua mãe ficou perplexa ao ver, na hora do parto, que, em vez de uma criança, uma serpente deslizou entre suas mãos. Mesmo assustada recolheu a neta, colocando-a no fundo de uma cuia, dando-lhe alimentos. Certo dia, não encontrou a neta no terreiro, deduzindo que a mesma havia seguido seu destino. Tal ofídio passou a viver em um lago, relativamente distante de Tabatinga, onde atacava quem se atrevesse a invadir seu domínio. Outro erro cometido pelo autor da matéria em negrito, que transcrevi diz respeito a não citação do ano do ataque da cobra.

O jornalista apenas evidencia que o fato ocorreu “em fevereiro do corrente ano”. Mais adiante, ao revelar dados do animal indicou que a Sucurijú tinha 80 centímetros de altura. Deveria ter escrito 80 centímetros de diâmetro. O verdadeiro autor da matéria jornalística era desinformado à beça. Talvez nem tivesse ouvido falar sobre a Fortaleza São José de Macapá, edificada à margem esquerda do canal norte rio Amazonas, bem perto de o grande caudal desembocar no Oceano Atlântico.

As evidencias me levam a crer que o suposto ataque da cobra aconteceu em meados da década de 1940. Só houve uma ocorrência interessante passada na área externa da Fortaleza de Macapá, correspondente abate de uma onça pintada que por ali transitava. Ela costumava aparecer no Elesbão, provavelmente para comer restos de porcos mortos em um curro. Certo dia a onça apareceu e o alarme foi dado. Usando um fuzil Mauser e posicionado no Baluarte São Pedro, o Guarda Territorial Oton ceifou a vida do felino.


Paisagens de Macapá das décadas de 1930 e 1940

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Essa é uma das mais expressivas paisagens da cidade de Macapá da época em que ela ainda era a sede do município paraense de idêntica denominação. A rua em questão tinha como patrono o tenente e político Antônio de Siqueira Campos, paulista de Rio Claro que se notabilizou na Revolta do Forte de Copacabana em 1922, Levante de São Borja em 1924, Coluna Prestes entre 1924 e 1927 e na Conjuração da Revolução de 1930 que levou Getúlio Vargas ao cargo de presidente da República do Brasil. A Rua Siqueira Campos começava na Travessa Visconde de Souza Franco e se estendia até a Rua São José.

A fotografia foi tirada do meio da avenida, no trecho que hoje corresponde a seu cruzamento com a Rua Vereador Benedito Uchoa. Pelo lado esquerdo de quem observa a imagem merece destaque o prédio da Intendência Municipal, onde atualmente funciona o Museu Histórico Joaquim Caetano da Silva. O imóvel foi construído na gestão do Intendente Municipal Coriolano Finéas Jucá e inaugurado no dia 15 de novembro de 1895. Antes dele vê-se uma casa residencial que pertenceu ao casal Antônio Topson e Emidia Picanço. Nela, já na fase de Macapá como capital do Território Federal do Amapá, funcionaram duas lojas: “A Barateira”, de Hamilton Henrique da Silva, piloto embretado pelo Aero Clube de Macapá, e a “Casa Olímpia”, vendedora de material esportivo, gerenciada por Raimundo Pessoa Borges, o popular Marituba. Ambos eram servidores públicos Pelo lado direito a referência fica por conta da famosa “casa amarela”, cujo proprietário foi o Tenente-coronel da Guarda Nacional Coriolano Finéas Jucá. Após sua morte, o prédio ficou sob gestão do filho Jacy Barata Jucá que o vendeu ao senhor José Pereira Montoril, mais conhecido como Cazuzinha. A casa amarela fazia fundos com o lote pertencente ao casal Leão Zagury e Sara Roffé Zagury.
Nele, estava instalada a Casa Leão do Norte e a residência de seus proprietários. No quintal, no inicio da década de 1950 foi instalada a fábrica do Flip Guaraná, um saboroso refrigerante que fez muito sucesso no Amapá.

Na casa amarela havia um pórtico de entrada com um sótão, um amplo pátio central, inúmeros quartos, cozinha, dispensa e poço amazônico. Os cômodos que faziam frente para a antiga Rua Independência, também chamada Rua de Cima, abrigaram, a partir de 1944, a sede do Amapá Clube e o Bar Elite, do senhor João Vieira de Assis. Logo na entrada do prédio funcionou o “Café Aymoré”, pertencente aos comerciante Francisco Torquato de Araújo (meu genitor) e Francisco Aymoré Batista (pai do cidadão que hoje mantém em funcionamento o estabelecimento de igual nome na Avenida Iracema Carvão Nunes). O gerente do Café Aymoré era o vigiense Carlos Cordeiro Gomes, o popular “Segura o Balde” que depois enveredou pelo jornalismo e integrou a equipe esportiva da Rádio Difusora de Macapá. No tempo que o prédio pertenceu ao meu tio Cazuzinha Montoril, uma senhora advinda da Guiana Francesa, que o povo identificava como madame Charlotte, alugou parte das instalações e nela instalou uma pensão. Vários jovens vindos de Belém, para trabalhar no Território do Amapá residiram nos quartos da casa amarela e compravam alimentação da madame Charlotte. Quando o casal Isnard Brandão e Walkiria Lima se mudou para Macapá, a casa amarela foi o primeiro imóvel que o abrigou. Numa deferência especial do tio Cazuzinha, graças à intermediação de meu pai Francisco Torquato de Araújo, um assoalho foi colocado no sótão.

Uma escada de madeira favorecia o acesso ao novo cômodo. Nesse local o casal Lima e o filho Isnard Brandão Filho moraram por um relativo período de tempo. A via publica que passava em frente a Casa Amarela tinha como patrono o Tenente Siqueira Campos, morto em 1930, quando da ocorrência do levante denominado “Os 18 do Forte”, no Rio de Janeiro.Depois da instalação do Território do Amapá ela mudou de nome duas vezes: Mendonça Furtado e Mário Cruz, o nome atual. A casa amarela foi vendida aos comerciantes Moisés Zagury e Isaac Zagury, que mandaram demoli-la, No local foi montada a oficina mecânica dos carros Ford que vendia. Atualmente, naquela área demora parte da loja 246.