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Onde a Direita quer chegar?

O calendário eleitoral de 2026 desmente tanto a tese da onda irresistível quanto a do susto passageiro.


 

Por Daniel Chaves

 

Entre dezembro de 2025 e setembro de 2026 o mapa eleitoral se moveu com rapidez incomum. No Chile, José Antonio Kast venceu o segundo turno de 14 de dezembro com 58,17% dos votos. Na Colômbia, Abelardo de la Espriella derrotou Iván Cepeda em 21 de junho por menos de um ponto percentual — 49,66% contra 48,70% na pré-contagem —, com o presidente Gustavo Petro questionando a apuração. Na Argentina, La Libertad Avanza fez 40,84% nas legislativas de outubro de 2025. Na Alemanha, a AfD chegou a 44,1% na eleição estadual da Saxônia-Anhalt em 6 de setembro, contra 17,1% da CDU, e lidera a média nacional de intenção de voto com 28,1%. Na França, sondagem Odoxa de novembro passado projetava Jordan Bardella com 35% no primeiro turno de 2027, vencendo todos os adversários testados. No Parlamento Europeu, as três bancadas à direita do Partido Popular somam projeção de 221 das 722 cadeiras.

Quem olha apenas as vitórias descreve uma onda; quem olha apenas as derrotas descreve um susto. As duas leituras erram pelo mesmo motivo: tratam como conjuntura aquilo que já é estrutura. Derrotada ou vencedora, a extrema direita sai dessas urnas com patamares impensáveis há uma década — e com a agenda que delimitou o terreno da disputa. É um processo cumulativo, como todo processo político. É um movimento não apenas local, como também não é linear. Na Hungria, Viktor Orbán perdeu o poder em 12 de abril, depois de dezesseis anos; o Tisza, de Péter Magyar, fez 141 das 199 cadeiras com 53,18% dos votos de lista e comparecimento de 78,99%, quase dez pontos acima da eleição anterior. Trump ganhou, perdeu, mas voltou. Em Portugal, André Ventura alcançou o segundo turno presidencial com 23,52% em janeiro e foi derrotado em 8 de fevereiro por António José Seguro, 66,84% contra 33,16%. O jogo da política não é uma corrida curta, é uma maratona

Antes de tudo cabe distinguir a direita radical, antiliberal mas disposta a aceitar a urna, da extrema direita propriamente dita, que recusa a própria soberania popular — e sustenta que o dado novo deste século não é a radicalização das margens, mas a normalização do que era marginal. O mecanismo é conhecido: o centro-direita adota o vocabulário para reter eleitores, legitima a agenda e termina entregando o eleitorado ao extremo. A Saxônia-Anhalt é o retrato acabado: a CDU caiu de 37,1% para 17,1% em cinco anos. Perplexo o mundo assiste, na Alemanha, a Extrema-Direita conquistar sua maior vitória eleitoral desde o fim do Nazismo.

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As preocupações que a mobilizam não são invenções. Insegurança urbana, perda de controle sobre fluxos migratórios, custo de vida, desindustrialização de regiões inteiras, desconfiança em instituições que prometeram e não entregaram. Em quase todos os casos ela chegou primeiro a temas que os partidos estabelecidos julgaram ilegítimos, ou pequenos demais, para nomear. Seus argumentos têm adesão- conteste, mas existente – baseados nas frustrações entre vulnerabilizados, ansiosos, dentre os que se percebem desalentados: soberania contra organismos supranacionais, ordem contra criminalidade, povo contra elites cosmopolitas, nação contra um mundo percebido como sem forma. As redes sociais e suas câmaras de eco construídas pelos algoritmos amplificam massivamente tais narrativas e mobilizam com agilidade a partir das dores do cidadão comum em um mundo com crises ambientais, econômicas, sociais e culturais visíveis desde 2008.

O perigo, contudo, não está na eleição vencida — está no que se faz no cotidiano da política. Se a eleição é a política por outros meios, não só nos resultados eleitorais, como já dissemos, mora o perigo. O Relatório V-Dem 2026 registra 44 países em autocratização, onde vive 41% da população mundial, contra 18 em democratização, com 5%. O nível médio de democracia para o habitante do planeta regrediu ao de 1978. Dez novos autocratizadores foram identificados em 2025, entre eles Estados Unidos e Reino Unido; o índice de democracia liberal norte-americano recuou 24% em um único ano, e o país passou da 20ª para a 51ª posição entre 179. A liberdade de expressão é a dimensão mais atacada, e o Estado de Direito se deteriora em 22 países. Aqui a questão deixa de ser distante.

Em 4 de outubro o Brasil vota, e o Datafolha de 3 de setembro aponta 39% para Lula e 32% para Flávio Bolsonaro, com 46% a 44% em segundo turno. A pergunta que importa não é quem ganha. É como as instituições e sua resiliência se comportam. É histórico que a extrema-direita não necessariamente ganha espaço por golpes. Às vezes, ela faz a democracia erodir pelas suas fragilidades, especialmente quando os liberais esquecem de como o social – e tudo que diz respeito ao manter a sociedade coesa – importa.

 

 


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