Margem Equatorial exige nova estrutura portuária e pode abrir oportunidades no Amapá
Especialista em infraestrutura e operações logísticas portuárias, Nasareno Figueiredo Cei afirma que avanço da indústria de óleo e gás exigirá bases de apoio offshore, eficiência operacional, abastecimento, serviços especializados e profissionais qualificados no estado.

Cleber Barbosa
Da Redação
Diário do Amapá – Quando falamos em exploração de petróleo na Margem Equatorial, qual é a importância da infraestrutura portuária para sustentar uma atividade offshore dessa dimensão?
Nasareno Figueiredo Cei: Existem algumas questões que precisam ser muito bem compreendidas quando falamos em Margem Equatorial e prospecção de petróleo. A Margem Equatorial abrange uma área muito grande, desde o Rio Grande do Norte até o Amapá, e naturalmente existem grandes desafios. O atendimento portuário à atividade de prospecção possui características muito específicas. É necessário, por exemplo, ter uma base de apoio preparada para atender as operações offshore e os supply boats, que são as embarcações responsáveis por levar diferentes tipos de suprimentos e materiais necessários às atividades no mar. Isso é diferente daquilo que normalmente enxergamos em um porto tradicional. No caso do Amapá, existe a necessidade de implementar uma base de apoio com essas características, especialmente diante da perspectiva de uma atividade que poderá permanecer durante muitos anos. É importante que essa infraestrutura seja planejada e desenvolvida para evitar atropelos durante as campanhas e permitir que as operações aconteçam com eficiência.
Diário do Amapá – Você chegou a comparar uma base de apoio offshore com um pit stop de Fórmula 1. Por que a velocidade é tão importante nesse tipo de operação?
Nasareno Figueiredo Cei: Eu gosto dessa comparação porque ajuda a visualizar como funciona. Imagine uma corrida de Fórmula 1: o carro entra no pit stop e tudo precisa acontecer muito rapidamente. Na atividade offshore ocorre algo semelhante. O supply boat vem das plataformas com determinadas necessidades, chega à base de apoio e ali você precisa realizar uma série de atividades. Pode ser necessário trocar ou embarcar peças, movimentar equipamentos, colocar combustível, receber ou descarregar materiais e preparar novamente a embarcação para retornar ao mar. Tudo precisa acontecer rapidamente. A embarcação não pode permanecer parada durante muito tempo porque ela faz parte de uma cadeia operacional extremamente cara. Por isso, uma base offshore não pode ser pensada simplesmente como um cais onde um barco atraca. Ela precisa possuir equipamentos, estrutura, pessoal e gestão capazes de executar várias operações com velocidade e segurança.
Diário do Amapá – Os portos brasileiros ainda possuem gargalos importantes. O crescimento da movimentação de cargas torna essa situação mais preocupante?
Nasareno Figueiredo Cei: O Brasil está crescendo e os volumes movimentados também aumentam. Quando você tem crescimento na produção de soja, milho e outros grãos, mesmo um aumento percentual aparentemente pequeno representa uma quantidade enorme de carga adicional chegando ao sistema logístico. Isso pode significar a necessidade de novos terminais e novos berços. Se essa capacidade não for criada, você aumenta a fila de navios e começa a atrasar todo o fluxo logístico. Um navio de grande capacidade precisa encontrar infraestrutura para atracar, carregar ou descarregar e seguir viagem. Quando isso não acontece, ele permanece aguardando. E não podemos olhar apenas para aquilo que acontece dentro do porto. Existe também toda a logística terrestre e hidroviária ligada a ele. A carga precisa chegar ao porto e depois sair dele. Então a eficiência depende de todo esse conjunto.
Diário do Amapá – E qual é o impacto econômico dessas filas de navios e da falta de infraestrutura?
Nasareno Figueiredo Cei: Existe um custo que muitas vezes parece invisível para quem está fora da operação. Quando um navio permanece fundeado esperando um berço, ele continua gerando custos. Se existe sobreestadia, isso entra na conta da operação. E depois precisamos olhar também do porto para o interior: como está o escoamento rodoviário? Como está a ferrovia? Como está a hidrovia? Quanto tempo a carga permanece dentro do terminal? Tudo isso representa dinheiro. O Brasil avançou muito ao longo dos anos e a legislação também ajudou no desenvolvimento, mas precisamos continuar melhorando a fluidez das cargas. Quando a infraestrutura não acompanha o crescimento, o resultado é aumento de custo, atraso e perda de competitividade.
Diário do Amapá – Você acompanhou pessoalmente a transformação de alguns portos brasileiros. O que faz um porto crescer e se transformar em um grande hub?
Nasareno Figueiredo Cei: Eu tive a oportunidade de acompanhar portos ainda em estágios muito iniciais. Lembro, por exemplo, de quando era piloto de um navio de derivados da Petrobras e participei, em novembro de 1983, da inauguração do primeiro berço de Suape. Depois, aquele porto se transformou em um grande hub. Para que isso aconteça, vários elementos precisam estar reunidos. Um deles é a profundidade. O porto precisa estar preparado para receber navios cada vez maiores. Por isso a dragagem é fundamental. Se você não realiza a dragagem e não mantém uma profundidade adequada, cria um gargalo e reduz a capacidade de movimentação de cargas. Ao mesmo tempo, os navios continuam aumentando de tamanho. A infraestrutura precisa acompanhar esse movimento mundial. O Brasil está avançando, mas precisa continuar ajustando seus portos à realidade logística internacional.
Diário do Amapá – E esse avanço depende também de uma atuação coordenada entre empresas, órgãos reguladores e autoridades marítimas?
Nasareno Figueiredo Cei: Com certeza. Temos diferentes instituições envolvidas e é necessário harmonizar essa atuação. A Antaq possui um papel importante na organização e no desenvolvimento do setor. Temos também a Marinha do Brasil e as autoridades relacionadas à atividade portuária e marítima. Como consultor, acompanho projetos e vejo que existe uma busca por soluções que permitam reduzir gargalos e acelerar o crescimento. Mas isso depende de disposição de todos. É preciso reunir comunidade portuária, comunidade marítima, autoridades e empresas. O porto não funciona isoladamente. Existe uma cadeia enorme de agentes envolvidos e, quanto maior for a integração, maior será a capacidade de encontrar soluções.
Diário do Amapá – No fluxo portuário voltado ao setor de energia, quais custos mais pressionam uma operação?
Nasareno Figueiredo Cei: O custo precisa ser permanentemente acompanhado e gerenciado para não onerar o frete. Você possui uma carga que precisa chegar a determinado destino e esse transporte precisa ter um valor admissível. No final, o frete entra no preço do produto e alguém pagará essa conta. Se o custo é muito elevado, você perde competitividade. Entre os custos importantes está justamente a espera do navio. A sobreestadia representa um custo considerável e naturalmente acaba chegando ao frete. Também existe o custo do tempo que a carga permanece dentro do terminal. Quanto mais tempo ficar, maior poderá ser o ônus. Temos ainda o transporte rodoviário de longa distância, que também pesa. Por isso a gestão do sistema operacional portuário precisa trabalhar justamente para reduzir esses tempos e custos.
Diário do Amapá – Na indústria de óleo e gás, o custo da espera é ainda mais sensível?
Nasareno Figueiredo Cei: Muito mais. Tudo na área de exploração e produção possui custos elevados. Uma sonda que está no mar realizando uma perfuração custa milhares de dólares por dia. Um supply boat também representa um custo diário muito alto. Então imagine uma embarcação dessas parada porque está aguardando carga, esperando para descarregar ou porque a base não possui equipamento suficiente para fazer aquela movimentação rapidamente. Todo esse tempo entra na conta. É por isso que volto à comparação com o pit stop: precisamos otimizar os tempos. A base tem que possuir os equipamentos necessários para carga e descarga, organização operacional e uma gestão muito eficiente. Na atividade offshore, perder tempo significa aumentar significativamente os custos.
Diário do Amapá – Para uma base offshore no Amapá, quais estruturas e serviços seriam indispensáveis?
Nasareno Figueiredo Cei: Um dos pontos fundamentais é o abastecimento de combustível. Na indústria de óleo e gás, o consumo é muito elevado. O diesel marítimo é utilizado para gerar energia e atender diferentes equipamentos e embarcações, incluindo sonda, FPSO e supply boat. Uma parcela importante da carga transportada pelo supply boat pode ser justamente combustível. Por isso, uma base de apoio offshore precisa contar com um parque de tancagem de diesel e capacidade de realizar esse suprimento. Enquanto você movimenta carga geral, também precisa abastecer as embarcações e levar combustível para as unidades que estão no mar. Isso é uma facilidade importantíssima dentro de uma base de apoio.
Diário do Amapá – Além do combustível, que outros serviços podem surgir em torno dessa base?
Nasareno Figueiredo Cei: Água potável é outro item fundamental. Dependendo das características do porto e das embarcações, também serão necessários rebocadores bem equipados para apoio às operações de amarração e desamarração. Existe ainda todo o fornecimento de bordo e a área de catering, que envolve alimentação. No caso do Amapá, uma base de apoio deverá naturalmente estimular o surgimento de empresas para fornecer alimentos e outros produtos necessários à vida a bordo das plataformas e embarcações. Essas necessidades serão atendidas a partir de terra. Então, quando falamos em base offshore, não estamos falando somente do porto. Existe uma cadeia de serviços que pode surgir ao redor dessa atividade para atender aquilo que acontece no mar.
Diário do Amapá – Quando comparamos a infraestrutura brasileira com grandes portos internacionais, onde ainda precisamos avançar?
Nasareno Figueiredo Cei: Uma questão importante é a quantidade de berços disponíveis. A falta de berços acaba aumentando o custo do nosso fluxo logístico. Tive uma experiência em 2012, quando estava com uma equipe da Petrobras estudando operações e tive a oportunidade de conhecer o Porto de Long Beach, na Califórnia. É um dos grandes portos de entrada de produtos asiáticos nos Estados Unidos. O que me chamou atenção foi a quantidade de berços e, ao mesmo tempo, o pequeno número de navios aguardando para entrar. Eram poucos navios esperando diante de uma estrutura gigantesca. Essa fluidez reduz custos. No final, eficiência logística significa justamente fazer mais com menos. É um aspecto no qual precisamos continuar melhorando no Brasil.
Diário do Amapá – A chegada da indústria de óleo e gás também aumenta a exigência de conhecimento técnico para quem pretende trabalhar nesse mercado?
Nasareno Figueiredo Cei: Sem dúvida. É outro nível de indústria e isso vai elevar o nível da própria discussão portuária. Precisamos melhorar o conhecimento técnico relacionado à indústria de óleo e gás. Para o jovem que pretende fazer um curso técnico em mecânica, automação ou alguma outra área ligada a esse mercado, existe também um ponto muito importante: estudar inglês. Ter conhecimento do idioma representa um diferencial muito grande. Quem pretende buscar uma oportunidade em uma plataforma de produção de petróleo encontrará um ambiente com profissionais de diferentes nacionalidades. A operação envolve pessoas estrangeiras trabalhando conjuntamente e a comunicação passa a ser fundamental. Portanto, além da formação técnica, é necessário pensar também no inglês e em uma preparação compatível com esse novo nível de atividade.
Diário do Amapá – E qual será sua contribuição no curso de Gestão Portuária e Fluxos Logísticos?
Nasareno Figueiredo Cei: Minha participação terá justamente o objetivo de mostrar um pouco do navio e da interface entre o navio e o porto. Quero trabalhar aquilo que acontece quando uma embarcação está chegando: quais são as expectativas, quais os cuidados necessários e como funciona a segurança da navegação até chegar ao berço. Também vamos discutir os aspectos náuticos que influenciam a entrada em um porto, um pouco da vivência de bordo e como são formados os marítimos. Vamos falar sobre as responsabilidades do comandante e do imediato durante uma operação portuária e também sobre a participação da praticagem, que auxilia o comandante na chegada e na atracação. Essa interface entre porto e navio é uma área na qual atuo e que considero fundamental para quem deseja compreender verdadeiramente a logística portuária.
Diário do Amapá – Para o Amapá, qual é o principal desafio para transformar a expectativa em torno da Margem Equatorial em oportunidades concretas?
Nasareno Figueiredo Cei: O primeiro ponto é entender que será necessário se preparar. Uma atividade offshore possui necessidades muito específicas e exige infraestrutura, eficiência, conhecimento e profissionais qualificados. O Amapá precisará pensar em uma base de apoio capaz de atender rapidamente as embarcações, com combustível, água, equipamentos, serviços e toda uma cadeia de suprimentos. Paralelamente, precisamos preparar as pessoas. É necessário melhorar o conhecimento técnico da indústria de óleo e gás e buscar qualificação. Existe uma perspectiva de muitos anos de trabalho se essa atividade se desenvolver como esperado. Então a região precisa aproveitar esse período de preparação para estruturar sua infraestrutura e, principalmente, preparar sua mão de obra para participar efetivamente das oportunidades que poderão surgir.
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