Entrevista

A literatura infantil nacionalreconhece a obra de Lúcia Tucuju

A literatura produzida no Amapá ganha destaque no cenário cultural nacional com a premiação da escritora amapaense Lucia Tucuju na primeira edição do Prêmio João e Júlia do Rio. A artista indígena do povo Galibi Marworno


 

Cléber Barbosa
Da Redação

 

Diário do Amapá – Você costuma dizer que sua escrita nasce da oralidade. Em que momento da sua vida você percebeu que a palavra (fala ou escrita) seria seu instrumento de resistência?
Lúcia Tucuju – Foi no momento que eu me encontrei numa dificuldade quando eu me tava para me formar professora que eu não tinha o domínio de turma, né? Então naquele momento eu senti que eu tinha que voltar nas minhas raízes. Foi naquele momento da de dificuldade que eu pensei: “Aí que eu vou investir na nessa questão da minha história e vou escrever, vou contar as histórias do meu povo, de onde eu vim.

 

Diário – Qual sua maior inspiração para desenvolver essas histórias?
Lúcia – Minha maior inspiração sempre foi, é a vovó. Minha avó é a base de tudo, tudo que eu escrevo é inspirado nela.

 

Diário – Quando você trabalha com crianças, o que mais te toca como elas recebem as narrativas da própria cultura?
Lúcia – O que me toca é o próprio encantamento. Quando vejo que elas vibram. Quando eu conto as histórias, quando eu uso os adereços, quando eu pego, levanto o maracá e o e os olhinhos delas brilham, é, no quando a gente entoar um canto, quando a gente faz uma dança do toré. É, me encanta muito mesmo realmente é as crianças. É a forma como elas interagem, a curiosidade delas também. A inocência. É, a inocência, tudo isso. A forma como recebem, muito receptivas e mais, como é que eu posso dizer? Mais claras também, com essa pureza muito me faz seguir ver que nem tudo também está perdido.

 

Diário – Em eventos literários e mesas de discussão, como o FLACC, você se tornou uma voz sobre identidade e território. Como você prepara os assuntos para essas programações?
Lúcia – Olha, na verdade, eu leio, eu penso no que eu vou fazer nas experiências, na bagagem que eu já trago de outras experiências de outros eventos que eu participo muito. Mas, na verdade, quando eu me deparo ali com o público, às vezes o que eu pensei em falar, o que eu pensei em dizer, dinâmica que eu pretendia fazer, muda. Tudo depende de acordo com o público. Tipo aqui, é, foi um, eu pensei em fazer agora uma proposta e as coisas foram para um outro rumo. Às vezes o plano vai mudando. Às vezes o que é planejado não dá certo. Às vezes vai muito também do da criatividade e eu trabalho assim muito com lúdicos. Sim. Com aquela minha coisa também da intuição, do que eu trago de ancestral também.

 

Diário – Você costuma transitar entre literatura, contação de histórias, educação e teatro. O que é que cada uma dessas linguagens te permite dizer que a outra não alcança?
Lúcia – Uma foi puxando a outra. Na verdade, eu vim de uma tradição oral, onde eu vi histórias que vovó contava na beira do rio, enquanto descascava mandioca, quando a gente ia dormido dentro do mosquiteiro. Então o mais forte, mesmo assim, o que é mais latente em mim são as narrativas, são as histórias de tradição oral. Mas eu sempre Eu já fazia teatro sem nunca ter visto em teatro na minha vida. Ali eu botava um lençol no quintal, na beira da casa, na ponta na de uma árvore ali. Eu era o Iara, eu era Matinta. Nunca tinha visto em teatro na minha vida. Quando eu fui pro Rio, que eu comecei a fazer teatro, uma coisa foi puxando a outra. Mas se eu for falar assim, o que mais me move mesmo assim, que é minha paixão, que é que é uma coisa assim, que é do coração, que entra pelas minhas entranhas, é a literatura. Porque ali, através da literatura, pode-se experimentar um pouco de tudo, a oralidade que eu trouxe, transformei a minhas as minhas histórias, história que eu trago da minha da minha infância. Eu transformei para os livros, dali eu levo para o teatro, porque eu já levei a contação de história para o teatro que chegou nos grandes teatros. Já fui para a Europa contando história através do meu canto, dos adereços de dança, essas coisas.

 

Diário – As narrativas indígenas muitas vezes são lidas sob a lente da exógena. Você sente que há mais abertura, de quem realmente representa Os povos?
Lúcia – Ainda não está totalmente aberto, ainda está essa coisa muito é um processo, nós estamos caminhando a passos de formiguinha. Já está mais avançado do que da época quando eu comecei, que eu comecei para as escolas mesmo, os eventos, fui como contadora de história, ainda nem era escritora, ainda nem era atriz, mas como sempre eu gostei de tudo isso, eu procurei agregar e a oportunidades foram surgindo e eu fui cada vez foi um leque que foi se abrindo e eu pude e colocando um pouco de tudo, mas assim existe essa coisa ainda mesmo da contação.

 

Perfil

Lucia Tucuju – Lucia é escritora, atriz, roteirista, narradora de histórias e professora indígena do povo Galibi Marworno, do Amapá.

 

PRINCIPAIS EXPERIÊNCIAS
– Integrante da Academia Internacional de Letras do Brasil e do coletivo Mulherio das Letras Indígenas, ela também é professora de Literaturas Indígenas em cursos de pós-graduação.

– A premiação aconteceu na quinta-feira, 25 de setembro, no Teatro Carlos Gomes, reunindo escritores, artistas e agentes da cadeia do livro e da leitura. A iniciativa é realizada pela FLUP em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro e foi criada para celebrar trajetórias e iniciativas que contribuem para movimentar e fortalecer a literatura, a leitura e a cultura na cidade.

– A 16ª FLUP é apresentada pelo Ministério da Cultura, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria de Cultura e Shell. Tem patrocínio master da Shell por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, patrocínio da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e Secretaria de Cultura, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura

– Para Lucia Tucuju, receber o reconhecimento em uma iniciativa de alcance nacional representa uma alegria especial e também a valorização de uma trajetória construída a partir da memória, da identidade e dos saberes indígenas.

 

 

 


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