SOUYENGÉ encontra no Amapá as raízes de sua música e defende a integração cultural entre os povos das Guianas
Cantora franco-surinamesa fala sobre sua primeira visita a Macapá, revela admiração pela música brasileira e destaca as semelhanças culturais que aproximam o Amapá, o Suriname e a Guiana Francesa

Cleber Barbosa
Da Redação
A música não reconhece fronteiras. E, quando os ritmos, os costumes e as histórias de diferentes povos se encontram, as distâncias geográficas parecem ainda menores. Foi com esse sentimento que a cantora franco-surinamesa SOUYENGÉ chegou ao Amapá para participar do Festival Quebra-Mar, evento que voltou ao calendário cultural de Macapá depois de dez anos, trazendo como proposta a integração entre os povos das Guianas.
Nascida na Guiana Francesa, filha de pais surinameses e profundamente identificada com a cultura caribenha, a artista encontrou em Macapá muito mais do que um público interessado em sua música. Descobriu paisagens familiares, manifestações culturais semelhantes às de sua terra, comidas que despertaram lembranças e uma população que, segundo ela, tem a mesma maneira acolhedora de receber as pessoas.
Na sexta-feira, durante participação ao vivo no programa Ponto de Encontro, da Rádio Diário FM, SOUYENGÉ conversou com o jornalista Cleber Barbosa, com o auxílio do intérprete André. Entre uma resposta e outra, arriscou palavras em português, improvisou versos sobre sua passagem pelo Brasil e revelou sua admiração por artistas brasileiras como IZA e MC Soffia.
A cantora também falou sobre a importância da música como instrumento de aproximação entre o Brasil, o Suriname e a Guiana Francesa, territórios que compartilham referências históricas, culturais e familiares, mas que ainda enfrentam dificuldades para ampliar suas relações institucionais.
A entrevista contou ainda com a participação de Brenda, integrante da produção local do Festival Quebra-Mar, que explicou a proposta de valorização das identidades culturais da região. Para SOUYENGÉ, a experiência reforçou uma percepção que acompanha sua trajetória artística: apesar das diferentes línguas e fronteiras, os povos das Guianas têm muito mais em comum do que imaginam.
Cleber Barbosa – É a sua primeira vez aqui no Amapá? Como está sendo essa experiência?
SOUYENGÉ – Sim, sim, é a minha primeira vez e estou adorando! Estou muito feliz de estar aqui com vocês. É uma experiência muito especial conhecer o Amapá, estar em Macapá e encontrar tantas coisas que me fazem lembrar de casa. Estou realmente amando tudo isso.
Cleber Barbosa – É verdade que você já aprendeu algumas palavras em português antes mesmo de chegar ao Brasil?
SOUYENGÉ – Sim! Antes de chegar aqui, eu já estava assistindo às minhas séries favoritas em português. Então comecei a ter esse contato com a língua. Gosto muito de aprender idiomas e estou tentando aprender cada vez mais. Às vezes misturo as palavras porque falo várias línguas, mas quero conseguir me comunicar em português. Aprendo muito rápido e tenho certeza de que, na próxima vez que vier, vou conseguir falar muito mais.
Cleber Barbosa – Em que cidade você nasceu? Você é do Suriname ou da Guiana Francesa?
SOUYENGÉ – Eu nasci na Guiana Francesa, mas meus pais são do Suriname. Por isso, cresci muito próxima da cultura surinamesa. Embora tenha nascido na Guiana Francesa, a cultura do Suriname está muito presente em mim, na minha família e na minha maneira de viver. Sempre tivemos essa ligação muito forte com o país. É uma identidade que carrego comigo.
Cleber Barbosa – Você chega ao Brasil, um país de tantas referências musicais, do samba, do frevo, do funk, do brega e do forró, e encontra aqui no Amapá pessoas que também admiram e dançam o zouk e outros ritmos caribenhos. Como tem sido essa experiência de encontrar sua própria cultura tão presente deste lado da fronteira?
SOUYENGÉ – Foi incrível! Realmente incrível, porque foi como enxergar um pouco de mim mesma em todas essas pessoas. Quando cheguei, percebi que a paisagem é muito parecida com a do Suriname e da Guiana Francesa. O ambiente, os lugares, tudo me trouxe essa sensação de familiaridade.
Mas não é apenas a paisagem. A maneira como as pessoas recebem umas às outras também é muito semelhante. As pessoas são acolhedoras, cumprimentam, dizem bom dia, demonstram carinho. É exatamente como acontece em casa.
E a música está por toda parte! Isso também me chamou muito a atenção. Estávamos na rua, na orla de Macapá, e havia pessoas correndo, dançando, se divertindo, com música naquele ambiente. Era uma corrida de Halloween, e achei aquilo muito divertido. No Suriname também temos essa relação muito próxima com a música, com a rua e com as pessoas. Então, quando vejo tudo isso aqui, tenho a sensação de estar em casa. É muito bonito perceber essas semelhanças.
Cleber Barbosa – O Festival Quebra-Mar tem justamente essa proposta de integrar as Guianas e aproximar povos que estão geograficamente tão próximos, mas que nem sempre mantêm o intercâmbio cultural que poderiam. Como você se identifica com essa proposta?
SOUYENGÉ – Eu me identifico muito com isso. Quando as pessoas olham para mim, muitas dizem que sentem que represento todas as Guianas. E eu entendo esse sentimento, porque essa mistura cultural faz parte de quem eu sou.
Tenho essa relação com diferentes línguas, diferentes culturas e diferentes lugares. A Guiana Francesa, o Suriname e os outros territórios da região estão muito presentes na minha identidade. Eu falo várias línguas e agora também quero falar português!
Para mim, essa aproximação é muito natural. Somos povos que têm muitas coisas em comum. Por isso, é muito bom estar aqui e participar de um festival que valoriza justamente essa ligação.
Cleber Barbosa – Já que você está tão à vontade em Macapá, dá até para improvisar alguma coisa sobre essa experiência no Brasil?
SOUYENGÉ – Claro! Posso improvisar! [Cantando] “Eu vim para o Brasil, me senti tão bem, acho que vou ficar. Vim para Macapá, me senti tão bem, acho que vou ficar!”
Cleber Barbosa – E tem alguma música brasileira que você gosta de cantar? Não necessariamente uma música que esteja ensaiando para o palco, mas aquela que você canta no carro, em casa, nos momentos de lazer?
SOUYENGÉ – Eu amo a IZA! Gosto muito dela. Não sei se consigo cantar as músicas dela corretamente, mas canto no meu carro, canto porque realmente gosto. Acho ela incrível!
Ela é uma artista que admiro muito. Gosto da música, da maneira como se apresenta e de tudo o que representa. Mesmo quando não sei se estou cantando exatamente as palavras certas, continuo cantando, porque gosto muito do trabalho dela.
Cleber Barbosa – E as pessoas já disseram que você se parece com a IZA?
SOUYENGÉ – Sim, muitas vezes! Eu consigo perceber essa comparação. Ela é uma mulher negra muito bonita e tem uma maneira de trabalhar a música que mistura diferentes culturas. Gosto muito dessa fusão que ela faz.
Ela também reúne dança e música de uma forma que considero muito próxima da cultura caribenha. Existe essa conexão entre o que ela faz no Brasil e aquilo que temos no Caribe. É uma das coisas que mais admiro no estilo dela.
Também gosto muito de uma artista mais jovem, a MC Soffia. Ela tem uma presença muito forte, trabalha com rap e transmite muita força. Gosto muito dela também. São artistas brasileiras que realmente admiro.
Cleber Barbosa – Durante muitas décadas, o Brasil tem procurado ampliar suas relações com os países e territórios do Platô das Guianas. Existem encontros entre autoridades, discussões sobre cooperação transfronteiriça e muitas dificuldades para transformar esses entendimentos em ações concretas. São países diferentes, mercados diferentes, regras envolvendo o Mercosul e a União Europeia. Mas, enquanto essas negociações avançam lentamente, as populações já mantêm relações culturais e familiares há muito tempo. Você percebe essa proximidade? Acredita que a música e a arte podem acelerar esse processo de integração?
SOUYENGÉ – Definitivamente! Acredito muito nisso. E estar aqui é uma demonstração de como essa aproximação acontece de maneira natural.
Vou dar um exemplo que não está apenas na música, mas também na comida. Aqui vocês têm a farinha, e nós temos algo muito parecido no Suriname, que chamamos de kwak. É um produto semelhante, feito da mandioca, mas com os grãos um pouco maiores. Quando vi a farinha de vocês, reconheci imediatamente essa semelhança.
Outra coisa é o açaí. Nós também temos e gostamos muito. No Suriname, conhecemos como podociri. Eu sou uma grande fã! E percebo que vocês também gostam muito.
O peixe é outra coisa que aproxima nossas culturas. No Suriname, as pessoas também gostam muito de peixe. Então, quando observamos a alimentação, encontramos várias semelhanças.
E a música também tem essa força. Os ritmos, os tambores, as batidas, tudo isso fala conosco de uma maneira muito especial. São elementos que reconhecemos, que fazem parte da nossa cultura.
Por isso, acredito que a música pode ser um instrumento muito importante para aproximar as pessoas. Quando encontramos essas referências em comum, percebemos que existe uma ligação muito forte entre nós. A cultura consegue mostrar essa proximidade de uma maneira muito natural.
Cleber Barbosa – Essa identificação com diferentes culturas também aparece na sua relação com os idiomas? Você consegue transitar entre várias línguas?
SOUYENGÉ – Sim! Eu falo várias línguas, e às vezes acabo misturando tudo. Isso acontece comigo, inclusive, quando tento falar português. Em alguns momentos, misturo com o espanhol, porque são idiomas que têm algumas semelhanças.
Mas gosto muito disso. Gosto de aprender, de conversar e de me comunicar com as pessoas. Agora estou aprendendo português e quero melhorar. Tenho certeza de que vou conseguir. Na próxima vez que vier, vocês vão perceber a diferença!
Cleber Barbosa – Depois dessa recepção e de tantas descobertas, que sentimento você leva da sua primeira passagem pelo Amapá?
SOUYENGÉ – Estou muito feliz. Gostei muito de estar aqui, das pessoas, da maneira como fui recebida e de todas essas coisas que encontrei e que me lembram a minha própria cultura.
É muito especial chegar a um lugar pela primeira vez e sentir tantas semelhanças com aquilo que conhecemos. A paisagem, a música, a comida, a maneira como as pessoas se relacionam, tudo isso me fez sentir muito bem.
Quero continuar aprendendo português e espero voltar. Da próxima vez, vou conseguir falar muito mais com vocês. Vocês vão ver! Eu aprendo muito rápido!
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Festival Quebra-Mar valoriza a identidade cultural das Guianas
A presença de SOUYENGÉ em Macapá integrou a programação do Festival Quebra-Mar, que retornou depois de uma década sem realização. Durante a entrevista, Brenda, representante da produção local, explicou que a escolha da artista estava diretamente relacionada ao tema da edição, dedicado à integração entre os povos das Guianas.
Segundo ela, embora o Amapá esteja geograficamente próximo do Suriname e da Guiana Francesa, ainda existe a necessidade de ampliar as relações culturais entre essas populações.
A proposta do festival é justamente reconhecer referências compartilhadas, valorizar a identidade regional e fortalecer a circulação de artistas entre territórios vizinhos.
Brenda destacou que a influência da música caribenha, especialmente do zouk, está presente inclusive na história do brega, gênero que faz parte da identidade musical do Norte do Brasil.
A programação reuniu artistas amapaenses e convidados de outras regiões brasileiras e da Guiana Francesa, com apresentações gratuitas no anfiteatro da Fortaleza de São José de Macapá.
Para a produção, a retomada do Quebra-Mar representa não apenas o reencontro do público com o festival, mas também uma oportunidade de reafirmar o Amapá como território de conexão entre o Brasil e o Caribe.
E, para SOUYENGÉ, essa conexão já ganhou uma tradução bastante pessoal: a descoberta de que, mesmo do outro lado da fronteira, existem pessoas, ritmos e costumes capazes de fazê-la se sentir em casa.
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