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Os futuros do Petróleo no Amapá

O anúncio do poço Morpho, em 14 de agosto, importa menos pelo que foi encontrado sob 3 quilômetros de água do que pelo prazo que abriu em terra. A contagem regressiva pelo futuro de um ciclo econômico novo ganha velocidade e urgência. Quo vadis, Amapá?


 

Por Daniel Chaves

 

Em 14 de agosto a Petrobras confirmou a presença de hidrocarbonetos no poço Morpho, bloco FZA-M-59, a cerca de 175 quilômetros da costa amapaense e a quase quinhentos da foz do rio Amazonas, sob 3 mil metros de lâmina d’água. A pergunta relevante – e já vencida – não é se o Amapá deve explorar petróleo. Essa decisão já foi tomada na rodada de 2013, no leilão de junho de 2025, na licença emitida em outubro de 2025, na perfuração em curso. Mais de 70% da população amapaense apoia a exploração. É obvio que a Margem Equatorial pode mudar o patamar da economia não só do Amapá, mas do Brasil. A matriz econômica ainda é relevante, globalmente. Podemos falar, com segurança, que mesmo quem não apoia o petróleo deve ponderar: é através das riquezas dele que financiamos, como outros fizeram no mundo, a transição para o futuro verde da sustentabilidade energética e social.

 

O percurso não foi fácil. Lembremos os célebres episódios com o Ibama, que emitiu a licença de operação em 20 de outubro de 2025 autorizando a perfuração de um único poço; no dia seguinte a Petrobras pediu a inclusão de outros três — Marolo, Maracujá e Manga — e teve o pedido negado em 10 de fevereiro de 2026 por documentação insuficiente; em 4 de janeiro, cerca de 18 mil litros de fluido de perfuração vazaram durante a operação, e o parecer técnico do órgão apontou efeitos tóxicos que a companhia contesta.   Agora, com a bola no chão, o que se anunciou é uma descoberta, e entre a indicação de hidrocarbonetos e a declaração de comercialidade há naturalmente poços de avaliação, testes de formação e engenharia de produção — a própria Petrobras fala em sete anos até a coisa andar de vez. A Agência Nacional de Petróleo, em informações costumeiramente sérias e confiáveis, estima 30 bilhões de barris de óleo equivalente atribuídos à Margem Equatorial. O que foi anunciado não é só riqueza. É prazo. Começa uma contagem regressiva e o relógio parece ter pressa.

 

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Os desafios já são, em larga medida, conhecidos. Organizar as regras fiscais, proteger e qualificar pessoas, resolver infraestrutura e conectividade com resiliência, intensificar a produção com fortalecimento da Ciência e Tecnologia, prover segurança urbana, fronteiriça e marítima e criar transparência para um futuro resiliente e desejável. Fazer o crescimento virar desenvolvimento, não só acontecendo e passando, mas ficando.

 

James Cust e David Mihalyi chamaram de maldição pré-recurso o fenômeno pelo qual países que anunciam grandes descobertas crescem menos do que as projeções feitas no dia do anúncio, e por vezes menos do que teriam crescido sem elas — a expectativa chega antes da receita, o Estado gasta contra um futuro não realizado, e o passivo sobrevive à decepção. No plano municipal brasileiro, Francesco Caselli e Guy Michaels encontraram padrão análogo: municípios que passaram a receber royalties expressivos registraram forte alta de receita e declararam gasto correspondente, mas os ganhos efetivos em infraestrutura, serviços públicos e renda domiciliar ficaram muito abaixo do que o gasto declarado sugeria.

 

Alguns contrastes iluminam o que está em jogo. A produção ocorrerá a 175 quilômetros da costa, com engenharia, embarcações e serviços de poço; em terra, o Amapá registrou PIB per capita de R$ 38.187 em 2023, contra R$ 53.887 da média brasileira; taxa de desocupação de 10,0% no primeiro trimestre de 2026, a maior do país; 42,7% dos ocupados sem vínculo formal; e a maior taxa de mortes violentas intencionais do Brasil em 2025, 42,5 por 100 mil habitantes, mais que o dobro da média nacional.

 

Todo o desenvolvimento social, produtivo, tecnológico e de infraestrutura, que são parte imprescindível do que chamamos de futuro desejável, não depende do Petroleo do amanhã, depende das decisões do agora. Qualidade nas pessoas, nas instituições e nos bons exemplos, nós já temos. Já sabemos o que é para fazer e o que não é para fazer. Construir o nosso futuro desejável é a tarefa da década.

 

 


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