Karen Alves: conhecimento, propósito e coragem abrem espaço para mulheres na indústria de óleo e gás
Engenheira química, professora, doutora e servidora pública federal da área de regulação de petróleo relata os desafios de construir uma carreira em um ambiente predominantemente masculino, fala sobre liderança, voluntariado e defende mais mulheres na engenharia, na ciência e nas oportunidades que podem surgir no Amapá

Cleber Barbosa
Da Redação
Diário do Amapá – Você saiu ainda muito jovem de uma cidade pequena para construir sua trajetória profissional em uma metrópole. O que trouxe da infância que foi fundamental para enfrentar os desafios encontrados depois na indústria de óleo e gás?
Karen Alves: Eu saí de casa com 17 anos, de uma cidade bem pequena, onde existiam muitos sonhos e uma vontade muito grande de vencer. Fui criada em um ambiente extremamente acolhedor e fraterno, onde o voluntariado estava presente desde cedo. Aprendi dentro de casa a lidar com o próximo com muito respeito. Quando saí do interior para uma cidade grande, levei comigo justamente esses valores. E, falando particularmente da minha família, acredito que uma das principais coisas que recebi foi a valorização da educação. A maior parte da minha formação aconteceu na educação pública, e acredito muito que, por meio da educação e do conhecimento, conseguimos vencer barreiras que muitas vezes nem imaginávamos que conseguiríamos superar. Outra coisa muito importante são os sonhos. É algo sobre o qual também falo no livro: precisamos acreditar que podemos sonhar e realizar aquilo que desejamos quando existe muita vontade para buscar.
Diário – A indústria de óleo e gás ainda é um ambiente predominantemente masculino. Como foi chegar a esse setor e, muitas vezes, ser uma das poucas mulheres nos espaços técnicos?
Karen Alves: Eu já tive uma preparação durante a própria faculdade porque fiz Engenharia Química, que também era um curso predominantemente masculino. Estudava em uma cidade do interior e convivi com muito machismo. De certa maneira, aquilo acabou sendo um treinamento para quando cheguei ao universo de óleo e gás, que é gigantesco e também possui muito mais homens. Eu já sabia que determinadas piadinhas poderiam aparecer e, naquela época, até quais roupas eu poderia ou não usar em certos ambientes. No início não foi fácil. Convivi com assédio moral, inclusive com situações de assédio sexual e piadas de mau gosto. Mas fomos caminhando e evoluindo. Quando você constrói uma carreira e estabelece que o respeito é a base da relação profissional, começa a conquistar seu espaço. Liderança não significa simplesmente aumentar a voz ou impor autoridade. Você precisa construir respeito. Hoje ainda existem problemas, evidentemente, mas, no ambiente em que estou, esse tipo de situação é muito menor. Muitas barreiras foram sendo vencidas aos poucos.
Diário – Em vários momentos você precisou provar sua competência. Como essas experiências ajudaram a moldar sua visão sobre liderança feminina?
Karen Alves: O conhecimento foi fundamental. Quando saí da faculdade, talvez ainda não tivesse dimensão de como aquela formação havia sido difícil e importante. Tive professores e professoras que foram referências e que me alertavam: você entrou muito nova, veio do interior e será testada o tempo inteiro. E havia também o fato de ser mulher. Éramos poucas. Então comecei a pensar muito sobre aquilo que eu queria para minha carreira e continuei estudando. Fiz faculdade, mestrado, pós-graduações, doutorado e continuei buscando conhecimento. Conhecimento nunca é demais. Quando me colocavam à prova, eu tinha condições de demonstrar que sabia sobre aquilo que estava falando. Desde o momento em que ingressei na ANP, procurei estudar e conhecer profundamente a área de petróleo. Sempre pensei muito antes de falar. Isso exige paciência e resiliência, principalmente porque a mulher muitas vezes é testada para saber se realmente possui aquele conhecimento. Hoje, ter títulos não me torna superior a ninguém, mas me dá confiança sobre aquilo que estou dizendo. E também aprendi uma coisa importante: quando não sei, digo que não sei, vou estudar e procurar saber.
Diário – Essa diferença entre homens e mulheres já aparecia claramente na própria universidade?
Karen Alves: Sim. Entraram cerca de 120 alunos na minha turma de Engenharia Química e acredito que havia algo entre 20 e 30 mulheres, no máximo. Nós já éramos uma minoria desde o início. No decorrer do curso, muita gente foi ficando pelo caminho ou seguindo sua própria grade e seu próprio ritmo. Quando concluí a graduação, com quatro anos e meio, apenas duas pessoas da turma conseguiram se formar exatamente naquele período, e eram duas mulheres. Então essa presença minoritária das mulheres nos cursos de engenharia era uma realidade bastante evidente. Isso vem mudando, mas naquele momento fazia parte do ambiente em que construí minha formação.
Diário – Além de uma carreira exigente, você mantém uma forte atuação voluntária. De onde surgiu essa necessidade de dedicar parte do seu tempo ao trabalho social?
Karen Alves: Isso vem muito da minha origem. No interior, as pessoas se conhecem, valorizam o olho no olho, o abraço, o aperto de mão. São valores que vão sendo construídos junto com você. Quando vim para uma cidade grande, percebi que essas relações não aconteciam com a mesma naturalidade e descobri que sentia falta disso. Então retomei o trabalho voluntário e encontrei a Fraternidade Sem Fronteiras. Sou voluntária desde 2016. É um trabalho que faço com enorme prazer porque encontro pessoas que também gostam de ajudar. E, curiosamente, quando você pergunta como minhas habilidades de gestão ajudaram no voluntariado, eu diria que aconteceu muito mais o contrário: o voluntariado ajudou a construir a forma como faço gestão.
Diário – O que você aprendeu no voluntariado e conseguiu levar para sua atuação profissional?
Karen Alves: Aprendi muito sobre responsabilidade social, sustentabilidade e propósito. Na Fraternidade Sem Fronteiras já se discutiam, por exemplo, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, os ODS, e depois consegui trazer parte desse aprendizado para a agenda do descomissionamento e para questões relacionadas à engenharia ambiental. Foram conhecimentos adquiridos nas minhas horas vagas que depois se encontraram com a minha atividade profissional. Principalmente, aprendi a importância de liderar com propósito e tratar o próximo com empatia. Quando você desenvolve uma gestão mais empática, fica mais fácil levar esse comportamento para o ambiente de trabalho. Você passa a pensar mais no coletivo, sem buscar sempre a melhor situação para si. Liderar pelo exemplo é fundamental.
Diário – No livro você relata sua relação com Dona Natalina Ribeiro. Quem foi ela e por que essa história marcou tanto sua vida?
Karen Alves: Dona Natalina foi uma senhora que encontrei em São Gonçalo, no Abrigo Adonai. Ela cuidava e liderava aquele espaço com aproximadamente 18 crianças que estavam sob sua guarda e que haviam passado por diferentes formas de violência. Ela me ensinou verdadeiramente sobre empatia e sobre se colocar no lugar do outro. Para Dona Natalina, cada criança era única. E isso me fez refletir muito sobre o meu próprio trabalho. Cada colaborador e cada pessoa de uma equipe também são únicos. Cada um possui suas necessidades, pensa de uma forma e enxerga as situações por uma perspectiva diferente. Nem sempre existe simplesmente certo ou errado; existem pontos de vista diferentes que precisam ser respeitados.
Diário – E foi dessa experiência que nasceu o projeto “Em Troca de Amor”?
Karen Alves: Sim. Esse projeto foi registrado no livro justamente porque Dona Natalina me mostrou o verdadeiro significado dessa troca. Ela esperava que os voluntários ajudassem aquelas crianças oferecendo principalmente amor. Segundo ela, comida não faltava porque sempre conseguia dar um jeito. O que muitas daquelas crianças haviam perdido dentro de casa era justamente o amor, e ela procurava proporcionar isso, juntamente com os voluntários. Fazer alguma coisa em troca de solidariedade, em troca de amor verdadeiro, foi um legado que ela deixou para mim. Fiz questão de registrar essa história no livro também como uma forma de agradecimento, porque foi realmente um divisor de águas na minha vida.
Diário – Você já foi indicada três vezes como uma liderança feminina preparada para assumir funções de alta responsabilidade. Esse reconhecimento também influenciou sua decisão de contar sua história?
Karen Alves: De certa forma, sim. Chegou um momento da minha vida em que percebi que havia estudado muito, feito pós-graduações, mestrado, doutorado e muitos cursos, mas precisava parar um pouco para refletir sobre aquilo que gostaria de deixar para meu filho e para a sociedade. Também queria encontrar uma forma de compartilhar esse conhecimento. O livro surgiu nesse momento. Quem me conhece sabe que sou uma pessoa um pouco tímida e não gosto muito de me expor, mas gosto de ter ideias e principalmente de inspirar outras pessoas, especialmente mulheres. Existem muitas mulheres com ideias boas e inovadoras que, muitas vezes, não conseguem se conectar ou encontrar espaço. Então o livro se tornou uma forma de deixar um legado e compartilhar minha trajetória.
Diário – E o que essas indicações representam para você e para outras mulheres que possuem formação para ocupar espaços de alta liderança?
Karen Alves: Elas mostram que existem mulheres capacitadas e aptas a assumir essas responsabilidades. Tenho uma trajetória com pós-graduação, mestrado e doutorado que me prepara para assumir uma posição de alta liderança, mas precisamos também de mecanismos que façam essas profissionais chegarem ao conhecimento de quem toma as decisões. As mulheres sempre foram capacitadas e estão aptas a assumir os mais diferentes cargos. Estamos vivendo um ambiente novo, em que muitas barreiras já foram vencidas. Eu mesma era uma mulher que não usava muito rosa porque achava que não precisava. Hoje vejo que vestir o rosa também pode significar dizer: estou aqui. Posso usar rosa e pensar de qualquer cor. Estamos em um momento de diversidade e precisamos chegar a esses lugares para mostrar até onde podemos ir. E, quando uma mulher chega, ela pode ajudar a levar outras mulheres junto.
Diário – Existe espaço, de fato, para as mulheres construírem uma carreira na indústria de óleo e gás?
Karen Alves: Existe, sim. E eu gostaria de falar principalmente para as mulheres, embora os homens também estejam convidados a ouvir. A mulher pode chegar onde quiser. Qualquer pessoa pode chegar, desde que tenha aquilo que gosto de resumir em fé, força, foco e coragem. No meu caso, também muito café para conseguir energia. Mas existe um conselho que considero fundamental: estudem. Como falei desde o começo, estaremos sempre sujeitas às sabatinas e às perguntas. O conhecimento é o que nos dá condições de responder. Precisamos de competência, habilidades, atitudes e sonhos. Acredito que estamos vivendo um momento muito importante dessa história.
Diário – E qual mensagem você deixa especialmente para as mulheres do Amapá diante das novas oportunidades que podem surgir com a indústria de óleo e gás?
Karen Alves: Quero que as mulheres se sintam inspiradas a continuar. Precisamos de mais engenheiras, precisamos de mais mulheres na ciência e precisamos de mulheres na indústria de óleo e gás. Principalmente no Amapá, estamos diante de desafios, mas também de coisas maravilhosas que podem acontecer. Então haverá lugar para todas, mas é preciso preparação. Estudem, busquem conhecimento e não deixem de acreditar nos seus sonhos. Muitas vezes vamos chegar a determinados lugares com medo mesmo, mas precisamos continuar. Quanto mais mulheres conseguirem ocupar esses espaços, mais possibilidades serão abertas para que outras também cheguem.
Deixe seu comentário
Publicidade
