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‘A morte’

Caminhei em direção à gélida varanda, puxei um cigarro e comecei a tragá-lo lentamente, e cada órgão do meu corpo era destroçado pela nicotina. Apesar de tudo, a fumaça serviria de anestesia para acalmar a minha alma.

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Vinícius Leal
Escritor

 

Nos últimos meses, nada me acalmava, apenas repentinas doses de devaneios, que teimavam em surgir trazendo-me esperanças fugazes. Uma certa angústia e uma sensação estranha se apossou de mim e foi criando raízes no meu coração. Na verdade, essa aflição foi minha única companhia desde que acostumei a flutuar sobre as asas da infelicidade. Para onde quer que eu fosse, ouvia passos e gritos fantasmagóricos que me confundiam profundamente. Talvez fosse mera superstição, mas diante dos últimos acontecimentos, acabei por acreditar que as pessoas são capazes de produzir energias, tanto para o bem quanto para o mal. Às vezes, podia senti-las – e isso vinha me deixando completamente exausto. Não tenho ciência do meu estado de consciência, na maior parte do tempo, misturo ficção e realidade, confesso que tenho bebido mais do que o normal.

Caminhei em direção à gélida varanda, puxei um cigarro e comecei a tragá-lo lentamente, e cada órgão do meu corpo era destroçado pela nicotina. Apesar de tudo, a fumaça serviria de anestesia para acalmar a minha alma. Regressei até a sala para pegar mais uma garrafa de whisky e em poucas horas ela já estava completamente esvaziada. Acendi as luzes do meu aposento, coloquei uma peça de Johann Sebastian Bach e comecei a escrever sobre os tempos de infância. Apesar dos meus traumas já vividos e as feridas causadas pelo tempo, o mundo me parecia um lugar bem mais agradável. Uma sensação estranha pairava no ar. Tamanho era o meu desespero, que naquela noite meus versos poderiam fazer os anjos se compadecer de mim e a brisa do inferno provocarem novas chamas sobre minha existência. Inclinei-me sobre a cadeira e continuei a escrever.

Do nada, entrei em estado de choque e caí no chão, sob fortes espasmos musculares, até sentir uma inesperada crise epilética. Sofri uma possessão demoníaca e fui arremessado diversas vezes contra a parede. Meus ossos sentiram a sensação de terem se partido em mil pedaços, enquanto foram surgindo vários hematomas espalhados pelo meu corpo inteiro. O carpete espesso à minha volta estava completamente empoçado de sangue. Não sei quanto tempo fiquei estirado ali no chão, mas me pareceu uma eternidade! Ao abrir lentamente meus olhos trêmulos, vi-os se deparar com aquela tenebrosa imagem milenar, vinda de outro mundo, parecia uma criatura com uma feição familiar …

Repentinamente, caminhou em minha direção, revelando o espectro de uma sombra meio desfigurada, de túnica escura, segurava uma foice entre as duas mãos. -“Mãe de misericórdia e pai dos desamparados”, murmurei lá no meu mais íntimo pensamento. Era a terrível figura, aquela que interrompe abruptamente a existência humana e ceifa vidas sem dó nem piedade: era… … a Morte! Seu espesso manto negro se contrastava com o brilho intenso da lua branca que podia ser vista pela janela do apartamento.

A visão aterrorizante daquele ser notívago provocou-me asfixia, tristeza, dor no estômago, ânsia de vômito e um intenso calafrio. Por um segundo, fiquei em dúvida, se tudo aquilo não seria delírio ou fantasia da minha imaginação. Aos poucos, fui recobrando a consciência e minhas vistas um tanto turvas foram voltando ao normal. E para meu espanto ainda maior, cheguei à fria conclusão de que aquilo… era real! Minha insanidade mental me colocava em xeque a todo instante, enquanto a esperança de que tudo não pudesse passar de mais um pesadelo surgiu como uma droga alucinógena, que carregava durante anos a fio em minha mente.
– “Muito curioso! … o destino às vezes nos prega cada peça!” – voltei a raciocinar.

Mas uma voz misteriosa ecoou em meus ouvidos: -“A sua hora já havia chegado muito antes, em várias outras ocasiões. Contudo, minha foice nunca lhe alcançou! Hoje, tenho que apagar a sua luz. Provoquei doces delírios em seu juízo tão fragilizado e alimentei seus monstros e fantasmas que moram aí dentro do seu âmago. Até que lhe fiz chegar esse momento de pânico e aflição. Oh, como fico em estado de êxtase e prazer absoluto! Agora, posso lhe ver bem na minha frente, ajoelhado diante de mim, me pedindo clemência! ” disse a Morte, com sua voz pausada, profunda e tenebrosa.

Um silêncio fúnebre se instalou naquela sala à meia-luz de penumbra. Depois de alguns instantes de silêncio, a Morte convidou-me para sentar, era como se um imã me atraísse! Obedeci prontamente, me aproximei dela. Sentia seu hálito frio congelando a minha carne, meus ossos, minha respiração e o meu coração palpitante… O corpo não tinha a menor força ou resistência para lutar! Não esbocei nenhum gesto de reação e, além disso, a minha alma começou a se distanciar da realidade, como se desejasse partir naquele momento. Em meu âmago, a ideia de ser recebido pela Morte sempre me atraiu. Olhei o brilho da esplêndida lua pela última vez e passei a sentir meus olhos se afogando em lágrimas que molhavam meu rosto, como se fossem carícias. Na verdade, nunca quis interromper a minha existência, apenas procurei anestesiar a minha dor.

Pouco a pouco, a Morte me cobriu com o seu manto tétrico, sem nenhuma hesitação… e me fez sentir uma coragem que nunca tive experimentado antes, de lhe retribuir o abraço do adeus, como um bom e velho amigo!

 
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