Cidades

Coronavírus: das ruas para o Aluguel Social, empregos e encontros com a família

Alguns já começaram a trocar as histórias sobre fome e frio para as de esperança e sonhos.

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Da dura realidade para um cenário inverso, que promete proteção e dias melhores. Essa é a expectativa das pessoas em situação de rua que estão recebendo assistência da Prefeitura de Macapá durante a pandemia. Alguns já começaram a trocar as histórias sobre fome e frio para as de esperança e sonhos.

Não há dúvida de que este é um caminho desafiador para se estar vivo. Mas também é um momento em que nossos recursos coletivos nunca foram maiores e mais capazes. Aqueles que estavam “invisíveis” aos olhos da sociedade, os sem “nome” (por falta de documentos) ganharam identidade. Quem não dava e nem recebia amor voltou para casa. E quem um dia sonhou com um “cantinho”, hoje tem seu lar.

Em meio a pandemia, a Prefeitura de Macapá decidiu, por meio de decretos, impor medidas de proteção para diminuir os riscos de contágio do vírus na capital amapaense, assim os atendimentos da rede socioassistencial foram adaptados a esta realidade. A partir destas orientações, o Centro POP Amizade suspendeu seus atendimentos especializados e acompanhamentos, oferecendo apenas os serviços básicos: higiene, café da manhã e almoço.

No dia 27 de março, foi liberado o espaço (Hotel Holiday) para o alojamento temporário para a população em situação de rua, sob responsabilidade da Secretaria Municipal de Assistência Social. Nada mais gratificante que, em meio ao caos, onde medo, morte e tristeza andam de mãos dadas, uma risada seja arrancada de quem pouco sorri. A condição de viver nas ruas se deve a diversos fatores, que, na maioria das vezes, acabam em fracasso, e voltar atrás já não é possível. São pessoas que acumulam histórias de fome, frio, abandono, desprezo, vícios, desemprego, rejeição e violência. Usam qualquer espaço que sirva de abrigo.

Quando falamos sobre pessoas, sabemos que há particularidades na condição de várias delas e cada uma pode ter tido um motivo particular para viver nas ruas; mas há também questões em comum entre essas pessoas, que são repetidamente vistas em muitos casos.

Nova oportunidade

“Antes de chegar em Macapá, passei por várias cidades do Brasil. Eu estava há 25 anos no Pará, vim em busca de uma vida melhor, um emprego, mas quando consegui me instalar na cidade veio a pandemia. Sem dinheiro e pouco conhecimento, acabei nas ruas, fiquei desacreditado, infeliz e sem perspectivas, “briguei” com o frio, fome, violência e, principalmente, contra o Coronavírus”, relatou o goiano Dulciney Augusto da Silva, 42 anos, que atualmente vive no alojamento temporário para a população em situação de rua, assistido pela Prefeitura de Macapá.

“Ganhei uma nova oportunidade quando me trouxeram para cá e vou agarrá-la. Por meio da prefeitura, estou retirando meus documentos pessoais, os quais havia perdido na noite. Estão fazendo meu cadastro para ser inserido no programa de aluguel social. Finalizo minha história com uma única palavra: Gratidão”, disse Augusto da Silva.

Uma nova chance

A história do maranhense Gilberto Lima Costa, 34 anos, também tomou rumos bem diferentes depois que ele foi resgatado das ruas e passou a viver no abrigo. “Eu dizia que o dinheiro era meu, que bebia quando eu queria e parava quando eu queria, mas a realidade não foi essa. Eu não tinha noção das coisas, oportunidades passavam e eu não enxergava por conta da bebida e problemas no casamento”, disse sobre sua vida de antes. “Cheguei aqui doente e, com fome, me deram de comer, vestir e também cuidaram da minha saúde. No momento, estou tirando meus documentos e pretendo ir em busca de emprego em minha área, que é de designer gráfico, e pretendo me restabelecer com a ajuda da prefeitura”, pontuou Gilberto.

O reencontro

Uma história com final feliz também para o artista de rua Diego Herman, que voltou ao seu país de origem (Argentina) por intermédio da Secretaria Municipal de Assistência Social, que providenciou documentos provisórios necessários para sua ida. “No abrigo matei minha fome, recebi assistência à saúde, mas também ganhei respeito, carinho e tratamento digno”, falou, demonstrando sentimento de gratidão a todos que o ajudaram.

Esta semana, ele enviou um vídeo agradecendo a todos por tudo que fizeram por ele, e disse: “Estou feliz, estou bem, estou no aconchego de minha família e dando continuidade aos protocolos de prevenção ao Coronavírus, que me foram passados aí. Me mantenho em quarentena”, finalizou o argentino.

Página virada

Antônio Jaime de Souza Gemaque, 51 anos, tinha um lar, mas a dependência química e alcoólica tirou dele a família, amigos e emprego. “Eu tinha uma família, uma vida razoável, mas perdi tudo, e quando tentei voltar foi tarde demais. Passei a viver nas ruas, sem se importar com nada, fui levando os dias, até que vim parar aqui”, relatou.

Questionado sobre os planos para o futuro, Jaime, que trabalha como vendedor ambulante, disse que pretende voltar às atividades e construir um novo capítulo de sua história. Quero esquecer os dias de fome, frio, medo, angústia e incertezas. Será uma página virada em minha história. Hoje, tenho meus documentos pessoais e assim serei inserido no aluguel social. Saindo daqui posso ir para um lugar certo para morar, com segurança”, declarou, sorridente.

“Com expressão cansada, marcada pelas rasteiras da vida e vítimas da exclusão, essas pessoas hoje têm novas perspectivas, outros sonhos e, principalmente, esperança”, comentou Flábio Sena, coordenador do alojamento temporário.

“Foram três meses de convivência. Cada um deles tem sua história, seus limites e, claro, seus sonhos, que há tempos estavam adormecidos. Aqui, eles encontraram incentivo, assistência. Puderam voltar a ter uma vida digna e, ao sair, poderão andar com as próprias pernas. Nesse período que estivemos juntos, temos saldo positivo, os novos caminhos que cada um seguirá daqui para frente, buscando realizar seus desejos com independência”, concluiu Flábio, satisfeito com o saldo do trabalho em equipe.

Alojamento temporário

O alojamento temporário para a população em situação de rua de Macapá está em funcionamento desde 27 de março, na Avenida Henrique Galúcio, nº 1623, bairro Santa Rita (Hotel Holiday), e teve contrato encerrado dia 25 de junho. A partir desse encerramento, será feito o acompanhamento por meio do Centro POP Amizade, que estará com prédio novo sendo oferecido café da manhã, almoço e janta, e a moradia ficará pelo aluguel social, que já está sendo direcionado para cada um que tem as documentações necessárias.

Serviços oferecidos pelo alojamento temporário

Durante a permanência no alojamento temporário, as mais de 100 pessoas em situação de rua que passaram pelo alojamento foram assistidas por inúmeros projetos e programadas pela Prefeitura de Macapá, como o fornecimento de café da manhã, almoço, lanche da tarde e janta, serviços de quarto e roupa lavada, acompanhamento e assistência aos usuários que se encontravam doentes, vacinas e entrega de medicamentos necessários.

Também receberam kits de higiene e máscaras protetoras. Houve a entrega de roupas e calçados. Quem precisou teve auxílio do corpo técnico com assistentes sociais, psicólogo, terapeuta ocupacional, sociólogo e administrador.

Lazer

Os assistidos também tiveram momentos de lazer e entretenimento por meio do “Cine Alojamento Temporário”, uma atividade terapêutica por meio de apresentações de filmes no próprio abrigo com telão de projeção e som de cinema. Aqueles que não tinham documentos, haviam perdido contato com familiares, receberam ajuda dos técnicos para a busca de informações em Macapá em todo estado do Amapá em outros estados da federação e até fora do Brasil.

Fotos: Max Renê

 
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