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Governador Ivanhoé Gonçalves Martins

O patriotismo e o civismo marcavam sua personalidade. Nas comemorações cívicas as paradas militares, os desfiles escolares e jogos estudantis empolgavam e deixaram lembranças inesquecíveis.

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Rugatto Boettger – Jornalista
Articulista

general Ivanhoé, se vivo fosse, completaria neste dia 26 de fevereiro seus 100 anos de idade. Ausente do Amapá desde 1972, desconhecido da geração jovem, mas bem lembrado pelos contemporâneos do seu governo. Ele representa uma legenda entre os governadores do Território Federal do Amapá. Militar brioso, patriota, competente, culto e honesto, governou o Amapá com austeridade nunca vista nesses rincões. Respeitadas as proporções atuais, a administração e os serviços públicos tiveram desempenhos espetaculares sob a sua batuta, especialmente a saúde, a educação, a segurança e os transportes. O patriotismo e o civismo marcavam sua personalidade. Nas comemorações cívicas as paradas militares, os desfiles escolares e jogos estudantis empolgavam e deixaram lembranças inesquecíveis.

Nasceu em 26 de fevereiro de 1907 em Cuiabá (MT), filho de Maurino Gonçalves Martins (baiano e oficial da Marinha de Guerra) e de Áurea Mamoré Martins (mato-grossense e descendente de índios). Cursou o primário no Colégio Estadual de Cuiabá e o secundário no Colégio Militar de Barbacena (MG). Ingressou na Escola Militar de Realengo (RJ), onde concluiu os estudos em 1927 (aspirante). Tornou-se oficial no Regimento de Artilharia Montada. Entre outros oficiais de projeção nacional, faziam parte daquela turma Juracy Magalhães, Ernesto Geisel, Orlando Geisel, Emílio Médici e Muniz do Aragão.

Durante a carreira militar cursou a Escola de Educação Física do Exército, onde foi instrutor por quatro anos. Fez o curso da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, onde também foi instrutor. Concluiu seus estudos militares na Escola de Estado Maior do Exército e na Escola Fort Leawenworth nos EUA. Integrou, comandou e presidiu inúmeras comissões de estudos e planejamentos estratégicos, tanto civis quanto militares. Foi laureado com medalhas e comendas no Brasil e no exterior (Portugal e França). Comandou o 3° Grupamento de Obuses sediado em Cachoeira do Sul (RS). Comandou o 10° Regimento GAT em Fortaleza (CE). Foi adido militar do Brasil na França durante três anos. De volta ao Brasil, comandou o 2° Grupamento de Obuses sediado em Itu (SP). Em 1958, quando servia e integrava o Estado Maior do Exército, no Rio, foi reformado, passando para a reserva remunerada no posto de general de exército.

Da sua vida particular e civil merece destaque o casamento, em 1930, com a senhorita Irene Simões dos Santos, filha de portugueses residentes em Niterói, então capital do Estado do Rio de Janeiro, de cuja união nasceu Gilberto, seu único filho, hoje empresário no Rio. Apoiou decididamente o movimento revolucionário de 1964, Foi secretário de segurança pública do Estado de São Paulo no governo Adhemar de Barros. Foi governador do Território Federal do Amapá de abril de 1967 a novembro de 1972. Foi jogador de basquete do Botafogo (RJ). Além do português castiço, falava fluentemente inglês e francês.

Um fato que merece menção especial foi a circunstância em que o general Ivanhoé passou à reserva em 1958. Nessa época, ele era coronel e servia no Estado Maior do Exército, no Rio. Estava se preparando para assumir o generalato (seu termo preferido). Brioso e patriota ao extremo, servira na Europa e conhecia intimamente a Guerra Fria. O Clube Militar, que ele freqüentava, era a maior sentinela anticomunista da América Latina. Neste período o presidente JK, começou a rever as proscrições aos movimentos e partidos de esquerda. Talvez fosse acordo com o vice-presidente João Goulart, baluarte do PTB, então o partido mais esquerdista do Brasil. O Clube Militar se arrepiou com as concessões de Juscelino. Foi redigido um manifesto de repúdio e encaminhado ao presidente através do Ministério do Exército, com a assinatura de quase 50 oficiais superiores. Dias depois, o ministro, marechal Lott, convocou os signatários, comunicou-lhes que o presidente não aceitara o manifesto e que exigia a retratação. Convocados, um por um, apenas três, entre eles Ivanhoé, mantiveram as assinaturas, invocando a intentona de 35 e a proscrição do PC. Estes três foram prematuramente reformados e os demais concluíram suas carreiras militares normalmente. Este episódio, talvez, explica a ojeriza que o general Ivanhoé dedicou aos esquerdistas pelo resto de sua vida, pois o generalato na ativa fora o sonho de sua vida.

Pelos arquivos e pelas opiniões dos que analisam os governos territoriais confirma-se que Janary Nunes, Ivanhoé Martins e Annibal Barcellos foram os governadores que mais contribuíram para a estruturação do hoje Estado do Amapá. A visão de estadista e a austeridade administrativa Martins, foram o ponto alto de seu governo. Em quase seis anos de governo não se tem notícia de uma só agressão ao erário. Ele iniciou e concluiu 143 obras no Amapá. E 15 obras foram concluídas pelo seu sucessor, José Lisboa Freire. Hoje, 35 anos depois, o governo e o povo amapaense ainda usufruem os benefícios destas obras. Entre as principais podemos citar a abertura da BR 156 até Oiapoque, a estrada de Mazagão, o asfaltamento da rodovia Duque de Caxias, a construção do quartel dos bombeiros, o quartel da PM, o Pronto Socorro, o Palácio do Setentrião, o Hospital de Pediatria, o prédio da Secretaria de Obras, a Biblioteca Pública, a Imprensa Oficial, o Conservatório de Música, os colégios Almeida Café, Antônio João, Tiradentes, José de Alencar, Princesa Isabel, Olavo Bilac, Castelo Branco, o ginásio de esportes Paulo Conrado, os jardins de infância Pequeno Príncipe e Meu Pé de Laranja Lima, criou a CAESA e a CENAVA, estruturou a CEA, ampliou o complexo HGM-Maternidade-Sanatório, providenciou o reinício das obras de UHE Coaracy Nunes, além de inúmeras outras obras na capital e no interior. E entregou o governo com dinheiro em caixa, sem dívidas e sem propaganda enganosa.

O govemador Ivanhoé, sempre franco, culto e honesto, protagonizou situações ora hilariantes, ora constrangedoras em rodas de conversas e também ao chamar à atenção de certas pessoas. Por isso havia respeito nas ruas e nas repartições públicas. Deixou frases imortais como: “Onde a gente trabalha ou estuda não se deve namorar nem negociar, porque a constante proximidade com a parte insatisfeita cria situações delicadas”. Também falou: “Eu queria ainda ter a sensibilidade e a esperança dos jovens, mas de tanto ser traída, hoje tenho o coração endurecido a ponto de nem lágrimas me com enganado e de tanto ver a pátria.

Em novembro de 72, por desentendimentos pessoais com o presidente Médici, Ivanhoé foi exonerado do cargo de governador do Território Federal do Amapá. Regresso ao Rio de Janeiro, onde foi morar na Rua Gustavo Sampaio, no Leme, onde possuía um apartamento. Por dificuldades financeiras na família, teve que vender o apartamento e foi morar de aluguel na Rua dos Oitis, na Gávea, onde permaneceu até a sua morte, por complicações cardio-pulmonares, aos 86 anos. Seus restos mortais descansam no cemitério São João Batista junto aos de sua esposa que falecera um ano antes. Nos seus dias de velhice, quando recebia uma visita amapaense no Rio, a satisfação levava o velho general às lágrimas. Sempre queria ouvir da situação do Amapá, das suas obras e dos seus amigos aqui deixaados. Lastimava-se do abandono a que fora relegado por alguns amapaenses que, quando governador, se diziam seus amigos e o assediavam. Seu consolo era ler jornais amapaenses que o mantinham informado sobre a terra que ele guardava no coração. Pelo trabalho que o general lvanhoé aqui desenvolveu, pelo exemplo que nos legou e pelo amor que dedicou a este chão pátrio, ele ainda não teve o devido reconhecimento de nós amapaenses. Seu trabalho é tão importante na nossa História que o seu nome merece ser perpetuado em algum logradouro ou instituição também muito importante.

 
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