José Sarney

Carnaval, alegria do povo

 

Passou 2025 e o Carnaval veio chegando. Já começou a folia, quando as coisas vão esquentar e as águas, rolar: as águas de inverno e aquelas que passarinho não bebe — só peru na véspera de Natal.

 

O Carnaval nos foi trazido pelos portugueses, e suas origens, segundo dizem, remontam às festas pagãs da Grécia muito tempo antes de Cristo. Falam que era uma festa que louvava as colheitas e celebrava a fertilidade da terra. E — claro — caíam na gandaia.

 

Mas o que se sabe mesmo é que chegou ao Brasil no bojo das caravelas portuguesas que traziam as festas populares da Europa, a maior de todas em Veneza, com direito a máscaras, fantasias e outras roupas mais.

 

No Brasil, como o futebol, tornou-se um folguedo do povo que hoje tem a marca da cultura popular brasileira. Aqui as nossas estações não são reguladas pela rotação da Terra em torno do Sol, mas pelas festas: Carnaval, São João, tempos sem festa e Natal. Diz-se que o nome Carnaval vem do latim “carne vale”, que significa adeus à carne, com o controle dos prazeres mundanos.

 

A festa foi associada à religião lá pelos anos 500, depois de Cristo, e era o tempo da preparação para os 40 dias quaresmais, em que todos teriam que fazer jejum e rezar, preparando o espírito para lembrar o martírio de Jesus. Então, o homem, que dá um jeitinho para tudo, achou que deviam se preparar para os dias sem pecados pecando! E haja festa, vinhos e mulheres.

 

Aliás, por falar em mulheres, lembro do nosso grande poeta Manuel Bandeira — de quem fui amigo —, nos seus versos: “Que mais queres, / Além de versos e mulheres?… / — Vinhos… o vinho que é o meu fraco!… / Evoé Baco!”

 

Cabral, quando saltou nas praias de Porto Seguro, descobrindo o Brasil, encontrou as índias “descobertas” e logo armou o nosso primeiro Carnaval. Saltaram alguns marinheiros na praia e com o maracá dos índios e uns tambores, para confraternizar, fizeram uma batucada. E foi uma algazarra geral.

 

O Carnaval é uma festa da imaginação vivida de um jeito em cada lugar e em cada um de nós. O do Rio sempre foi um teatro a céu aberto, com os enredos das escolas na Marquês de Sapucaí. São Paulo já apresenta um espetáculo de altíssima qualidade. Tanto lá como em diversas capitais imperam os megablocos, juntando na dança centenas de milhares de pessoas — mais de 300 mil foliões brincando juntos, alguns passando de um milhão! Nas cidades Brasil afora, também se brinca na rua com toda a força e alegria como no fim do século passado.

 

No Maranhão, o Carnaval sempre foi marcante. Com sua forte identidade cultural, misturou ritmos que não se encontram em outros lugares: matracas e pandeiros se juntam ao reggae e às marchinhas, arrastando os foliões num espetáculo à parte. Quem ainda não foi, precisa ir ao Maranhão conhecer a mágica do bumba meu boi convivendo com o reggae.

 

Roseana, que gosta de alegria, renovou o nosso Carnaval e outras festas do nosso folclore — uma maneira de salvar a cultura popular, a grande força de identidade do brasileiro. Hoje o Maranhão tem um dos grandes carnavais do Brasil. E está de arromba. Haja perna para pular e força para bebericar.

 

É tempo de alegria, a marca do povo brasileiro.

 

Afinal, dizia-me um caboclo do Maranhão em relação à vaquejada (outra festa que marca a força cultural do sertanejo):

 

“Nada mais triste do que o fim de uma vaquejada, a saudade da dança de roda.”

 

Perguntei: E qual o consolo?

 

“A certeza de que, na outra semana, vai ter outra vaquejada.”

 

Um irmão de minha avó faleceu num sábado de Carnaval. Mas um tio meu, farrista e carnavalesco, já tinha mandado fazer a fantasia. Então pediu à família: “Só me comuniquem o falecimento na quarta-feira, para eu começar meu luto.”

 

Agora o Governador Brandão está fazendo no Maranhão um dos maiores carnavais, na Litorânea e em outros circuitos. Nomes consagrados como Ivete Sangalo, Léo Santana, Alok e o Bloco da Anitta etc. estão arrastando mais de meio milhão de pessoas!

 

Quando ouço reclamarem que estão gastando dinheiro com festas, sempre contesto: o povo, que sofre tanto, tem que ter direito de curtir dias de alegria.

 

E haja samba, pagode, forró, piseiro, pop, axé, funk, reggae, coco de roda, tambor de crioula…

 

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Uma inveja danada

 

Inveja é coisa feia. E este pecado mortal — Santo Agostinho dizia que é o pecado do diabo por excelência —, que é o desejo de ter o que outro tem, anda de mãos dadas com a avareza, que é o desejo de ter tudo.

 

Muita gente tem inveja dos relógios, carros e fortuna dos outros. Eu, de minha parte, nunca tive.

 

Na nossa geração da política disputada na internet a inveja encontrou um terreno fértil: já que todos se expõem e mostram o que têm, o invejoso quer ter o que o outro tem, sejam votos, acessos, “likes” e, naturalmente, o sucesso e o dinheiro que anda junto. Ideias, a esta altura, leva desvantagem, e a política se empobrece, embora os políticos enriqueçam.

 

Não é que a inveja não estivesse na política há muito tempo, desde sempre as disputas tiveram em grande parte a inveja como motivo. Os vitoriosos políticos, no mais das vezes, tinham um episódio de violência ou de envenenamento no seu sucesso, que resultava, naturalmente, em eles assumirem o que era do outro. Esse é um campo em que o Império Romano dá show: quando, por exceção, Marco Aurélio foi sucedido por seu filho Cômodo, as coisas foram muito piores do que com a costumeira adoção do sobrevivente entre os vários candidatos.

 

Na frente do invejoso se colocam algumas opções, e vale selecionar todas: a avareza, como lembrei, o narcisismo, o egocentrismo. O primeiro objeto de exposição é uma moeda com sua cara, e se as com a cara de Augusto são multidão nas coleções numismáticas, o futuro dirá quantas moedas mostrarão o topete do Trump, que já providenciou a sua. Mas o imperador deixou também uma multidão de bustos e esculturas de corpo inteiro — é surpreendente que ele, que fizera César deus para poder se dizer divi filius, não tenha providenciado para que sobrevivesse pelo menos uma escultura do pai adotivo.

 

Os artistas eram cooptados como os maiores divulgadores das belas (ai de quem quisesse ser realista) imagens dos poderosos. Estão aí as centenas de quadros de Napoleão, mão no casaco, que não nos deixam esquecer que ele também foi imperador. Depois, com o advento das massas e da fotografia, foram os retratos de seus heróis que desfilaram: Lênin, Stalin, Hitler, Mussolini, Hirohito, o Xá, Khomeini, Sadam Hussein e todos os que acreditam na autocracia, de um canto do mundo a outro. Outra variante é ter seu nome nas coisas, como o Trump, com inveja do Kennedy, fez com o Kennedy Center, que ele resolveu fechar porque os artistas não querem se apresentar no Donald J. Trump – John F. Kennedy Center for the Performing Arts.

 

Se o narcisismo é estampado, o egocentrismo leva também a achar que são os maiores. Um sapato com solado especial é um bom remédio para a altura, mas outros predicados são mais difíceis de enganar, de modo que o jeito é dizer que tem o maior tudo: bomba, prédio, depósito bancário, descaramento e por aí vai. Enquanto planejava restaurar o território russo ao esplendor do império soviético, o Vladimir Putin, há uns tempos, resolveu o problema colocando uma mesa em que se sentava à cabeceira e o interlocutor, do outro lado, tinha que usar um binóculo para vê-lo e um sistema de autofalantes e microfones para conversar, era humilhante. Esse truque, aliás, sempre foi usado, se sucedendo os estrados que mostravam a importância do mandão — ou até de autoridades regularmente eleitas, como os papas, que usavam até a sedes gestatoria nos ombros dos acólitos, até a época do Concílio Vaticano II, quando passaram a usar papamóvel.

 

O Trump — que faz questão de que estejamos todos a falar dele, mesmo mal — tem duas manias, uma decorativa outra arquitetônica. Nada de novo. O Franco, por inveja de Felipe II, que fizera o extraordinário Escorial, fez junto dele, no Valle de Cuelgamuros, que ele chamava de Valle de los Caídos, o horripilante memorial aos seus mortos na Guerra Civil, com o requinte de ser construído pelos presos políticos. O autocrata americano, além de encher de dourado o Salão Oval, diz ele que é seu Versailles, isto é, inveja do Roi-Soleil, Luís XIV, derrubou a East Wing da Casa Branca para lá fazer uma sala de baile tamanho família, e agora quer fazer também o “Arc of Trump” diante do Lincoln Memorial, do outro lado do rio Potomac; o detalhe é que tem que ser o maior do mundo, duas vezes e meio o Arco do Triunfo, por inveja de Napoleão!

 

Há inveja para todos os gostos!

 

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Tempo do “JÁ!” voa…

 

Vivemos atualmente com uma nova percepção sobre o tempo. Creio que os físicos encontrarão uma teoria sobre a sua compressão, porque temos a sensação de que o tempo está voando. Mas ainda existem os que querem o imediatismo do JÁ!

 

O desenvolvimento do corpo humano, na evolução biológica desde os primórdios da criação, continua no mesmo ritmo, mas estamos vivendo agora o que jamais foi pensado, com a internet e a civilização digital, que estão aí para ficar e modificar o modo de pensar numa velocidade inacreditável, com a IA (inteligência artificial) e as redes sociais.

 

No meio desse vendaval, fica a estranha confusão do anarcopopulismo e dos influencers digitais.

 

Bandeira Tribuzzi tem um poema sobre o drama humano com o tempo: “Que tempos de viver-se!”

 

Mas a verdade é que ainda precisamos de uma meditação profunda sobre a convivência do homem com o tempo.

 

Quando me encontrei com Deng Xiaoping, em Pequim, ele me falou entusiasmado de seu país dali a cem anos como se dissertasse sobre o dia seguinte. Descreveu-me empolgado as metas dos próximos 50 anos como se comentasse a madrugada que viria.

 

Refletiu sobre o problema do tempo, que é muito recorrente nos orientais, notando que nós, do lado de cá, no Ocidente, não temos uma visão clara do tempo, de como ele interfere em nossa vida. Fiquei com a impressão de que nos acusava da falácia do “JÁ”. No Brasil temos um exemplo remoto de Dom Pedro II que, ainda adolescente, quando consultado se queria ser imperador, respondera: “Quero JÁ!”

 

Comecei então a aprender o que é o tempo e perceber que é dele que se faz a vida. Muito tenho falado sobre a paciência, mas, hoje, ocorre-me defini-la como a virtude de saber esperar. Não com o sentido de reparar injustiças ou esquecer o passado, mas de ver os fatos com o sabor de “experiência vivida”, de ser humilde ao olhar erros, de aprender, de poder emitir conceitos e de ter a consciência de que muitas vezes podemos estar errados.

 

Nada mais falso do que o chavão de repetir que, se tivéssemos de viver de novo, repetiríamos tudo. Muitas coisas não faríamos, outras acrescentaríamos e outras nem uma coisa nem outra, simplesmente seriam ignoradas. Afinal, a gente melhora com o passar dos anos. Perde-se em vigor, mas ganha-se em saber. Os desenganos, as esperanças modestas, as ambições, as vaidades e as paixões têm o realismo do conhecimento do funcionamento do tempo, da vida. Porque é bíblica e sagrada a certeza de que há tempo de semear e tempo de colher. É possível que o tempo de colher seja mais glorioso. Mas é o tempo de semear que determina o que se vai colher.

 

Governei o Brasil no período mais difícil de sua história, mais cheio de cobranças políticas. Somavam-se esperanças e dificuldades. As liberdades, represadas por 20 anos, explodiam em reivindicações e gestos de intolerância. A ânsia de mudanças atropelava os fatos.

 

Coube-me plantar e poucas vezes colher. Há frustração maior do que plantar e não colher? Mas é preciso ter a noção do tempo para esperar o momento da colheita. Como exemplo, recordo que semeei o exemplo de respeitar até o limite dos exageros a liberdade de imprensa, rádio e televisão, porque sempre entendi que a prática da liberdade corrige os excessos. Não apenas nos veículos de comunicação, mas em todo o processo de circulação de informação na sociedade. As instituições se fortalecem e se consolidam. A democracia é um regime que é melhor do que os outros porque sobrevive às crises e sabe absorvê-las.

 

O Brasil vive as excelências de um regime democrático, pluralista e aberto. Sua massa crítica e as instituições não entram em colapso em face de tempestades e seguram as estruturas da sociedade e do Estado.

 

E, dentro deste vendaval, constata-se a verdade de Jefferson de que a liberdade de imprensa é a liberdade fundamental. Nosso Rui Barbosa resumiu o conceito chamando-a “pulmão da democracia”.

 

A semeadura foi boa. Hoje, todos colhemos os frutos de uma imprensa vigorosa, cumprindo sua missão de informar. Porque, no mais, as decisões são frutos da verdade que, como se diz no Maranhão, “é como o manto de Cristo, não tem costura”. Inconsútil, não admite remendo.

 

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As Abelhas, as Formigas e o Irã

 

Leio os jornais diariamente. A jornalista Jéssica Maes, em uma boa matéria, publicada na Folha de S. Paulo, registra que, no Peru, o “governo fez algo inédito em todo o mundo: concedeu direitos a um inseto.” No caso, concedeu a proteção da lei às abelhas sem ferrão, nativas da Amazônia, consideradas as mais antigas do mundo, garantindo a sua conservação: não podem, como está acontecendo, ser exterminadas. Também está proibido o uso de agrotóxicos prejudiciais a elas.

Quero lembrar que no Maranhão, talvez por inspiração do Padre Antônio Vieira, que tinha residido  no Estado, foi instaurado um inquérito contra as formigas, que, naqueles anos, por volta de 1704, atacavam a igreja do Convento das Mercês — alguns falam “do Carmo”; outros, “de Santo Antônio” —, e os Frades Menores, os mercedários, tomaram a providência de acusar formalmente as formigas de atacarem portas, janelas, santas de madeira nos altares, de tal modo que estavam destruindo a igreja, inclusive roubando farinha e outros mantimentos dos frades no Convento.

Aberto o processo jurídico no tribunal eclesiástico, foram designados advogados defensores, que argumentaram que as formigas tinham direito de alimentação dados pelo Criador, que as tinha colocado no mundo. Os editais de citação e a sentença definitiva foram lidos na boca do formigueiro: finalmente, os insetos foram condenados a sair do Convento. Dizem que, lida a sentença, as formigas, em filas imensas, saíram e foram para outros lugares, como determinado na decisão do juiz. Mas, ao longo do procedimento, tiveram que enfrentar todo o código processual, com citação, contestação, defesa, apelação e embargos até a conclusão.

Esse processo das formigas tornou-se famoso a partir da referência do Padre Manuel Bernardes, no início do século XVIII (1706), em seu célebre “Nova Floresta” — clássico que li quando jovem, da estante do meu avô, mestre-escola em São Bento, interior do Maranhão. Depois tivemos o relato do grande historiador brasileiro João Lisboa — que Capistrano de Abreu dizia ser quem melhor escrevia sobre História do Brasil e que teve sua vida escrita na obra “Pantheon Maranhense”, de Antônio Henriques Leal —, autor do “Jornal de Timon”, com o seu “Eleições na Antiguidade”. Já em nosso tempo, agora no século XXI, Eulálio de Almeida (jurista e magistrado maranhense) publicou um estudo, sob o título “O processo das formigas”, com o rigor técnico da análise do direito canônico da época, com informações mais precisas, citando os embargos, os nomes dos advogados de defesa e a defesa do direito das formigas. Esse processo das formigas é objeto recorrente na cultura popular maranhense, em peças teatrais e manifestações folclóricas.

Agora, quando penso nesses dois casos, parece que a lógica do mundo virou do avesso: a acusação e a defesa do direito de viver das formigas ocorreu há três séculos no Maranhão e hoje, no Peru, foram garantidos os direitos das abelhas, mas, no Irã, sem direito a qualquer defesa, o povo é trucidado: mais de três mil mortos! Houve até a condenação de um jovem à forca para intimidar os protestantes, que nada mais desejam se não exercer o seu direito de discordar. Tudo isso se faz numa teocracia, governo dos primórdios da Humanidade, de tempos já bolorentos de monarquias que se julgavam procuradoras de Deus, exercendo o governo em nome Dele.

O governo do Irã, como um governo teológico, tem os ouvidos fechados aos protestos que ecoam pelo mundo inteiro, mesmo os de seus simpatizantes que condenam esses massacres em massa. As metralhadoras falam sem respeitar a mais ínfima caridade, vitimando crianças, jovens, velhos, homens e mulheres — estas submetidas aos costumes opressores das burcas e da escravidão, não podendo mostrar nem suas próprias mãos. Quando os detentores do poder derrubaram o Xá, declararam que “as leis humanas só valiam se fossem compatíveis com a lei de Deus”.

As abelhas do Peru estão protegidas, agora são sujeitos de direito, pois não têm ferrão, não ameaçam ninguém com dores ou venenos e estão sendo veneradas desde os tempos remotos: são produtoras de mel e amigas do homem. Para que recebessem a proteção da lei, no caso uma portaria da Província de Junín, basearam-se num estudo técnico da Amazon Research Internacional e da Earth Law Center, isto é, direitos com respaldo científico e de filosofia jurídica.

Já no caso das formigas do Maranhão elas tinham apenas a invocar o seu direito de viver, mas esse é o direito maior de todos nós — homens ou formigas ou abelhas.

Já no Irã, nenhum direito, nem sombra de qualquer direito é respeitado. Vai aqui nossa revolta, nosso protesto e nossa exaltação à Democracia, que, graças a Deus, aqui abriu as asas sobre nós.

 

Calem a boca

 

O mundo acordou ­— ou dormiu — estarrecido com a inusitada operação do sequestro do Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Tive oportunidade de apoiar a posição do Brasil de condenação da operação militar dos Estados Unidos e emprestar minha solidariedade ao governo venezuelano por essa violência, como foi expresso pelo pronunciamento de nossos representantes na OEA e no Conselho de Segurança da ONU. Essa atitude não encontra respaldo legal; ao contrário, agride a convivência entre as nações e o direito internacional. Isso não quer dizer que ignoramos a conduta de Maduro destruindo a democracia em seu país, agredindo os direitos humanos, políticos e civis, oprimindo o povo venezuelano com a prática de tortura e destruição das instituições. Mas os fins não justificam os meios, nem a violência deve ser o instrumento que combate a violência.

 

A invocação da Doutrina Monroe é outro desvio de argumentação porque não é uma invasão de fora do hemisfério que está em causa, violando-a, mas a política proclamada na atualização feita pelo Corolário Roosevelt, em 1904, do Big Stick, América para os americanos.

 

Eu recordo de um episódio de que involuntariamente fui testemunha em 1982, no mês de abril. Eu estava nos Estados Unidos fazendo parte da comitiva do Presidente Figueiredo, representando o Congresso Nacional, quando a Grã-Bretanha invadiu as Ilhas Malvinas, que tinham sido tomadas pelos argentinos. Marquei uma audiência com o senador norte-americano Ted Stevens, no Senado Americano. Ele era representante do Estado do Alasca e um grande político americano do Partido Republicano. Lá cheguei na hora aprazada, nove horas da manhã. Os americanos, no costume herdado dos ingleses, são muito zelosos dos horários: nove horas são nove horas. Para surpresa minha, o Senador Stevens se atrasou. Acompanhava-me o   diplomata brasileiro, hoje embaixador, Seixas Correa, um dos maiores e melhores diplomatas brasileiros de sua geração. Quis retirar-me, mas o chefe de Cerimonial do Senado disse-me que o Senador Stevens estava chegando e pedia desculpas. Dispus-me a esperar 15 minutos. Logo o Senador chegou e desculpou-se dizendo que tinha ficado retido numa reunião da bancada do Senado com o Presidente Ronald Reagan, até as cinco horas da manhã, tratando da invasão inglesa das Malvinas. Tinham resolvido apoiar a invasão britânica, com a restrição de que não bombardeassem o território argentino, agindo com uma contrariedade parcial à Doutrina Monroe. Afinal, por essa doutrina estaria autorizada a interferência militar dos EUA para repelir qualquer agressão externa ao solo americano — no caso, o argentino — e não para auxiliá-la. Diante de uma informação preciosa que acabava de ter, não pude ter outra atitude senão comunicá-la, logo depois da entrevista, ao Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Embaixador Guerreiro, para que ele a utilizasse da maneira que achasse importante, no caso favorecendo os argentinos, pois ela dizia do apoio dos EUA aos ingleses. E assim o fiz. Era a invocada Doutrina Monroe!

 

Aliás, essa doutrina foi pela primeira vez usada numa ameaça militar, em 1902, pelo Presidente Theodore Roosevelt, diante do bloqueio naval de Grã-Bretanha, Alemanha e Itália, feito contra esta mesma Venezuela, cercada para que esses países recebessem o pagamento das dívidas vencidas que a Venezuela se recusava a pagar. Agora, o mesmo bloqueio visa não permitir que o petróleo seja vendido a China, Rússia e Irã. Os motivos são diferentes, mas a justificativa é a mesma: a Doutrina Monroe.

 

Outros dois pontos em evidência são Groenlândia e Cuba. (Não a Colômbia, porque o país não pode ser objeto de punição, uma vez que não tem nenhuma disputa com os Estados Unidos.) Quanto a Cuba e Groenlândia, são hipotecas da Segunda Guerra Mundial. A Groenlândia, com o fim da ameaça aos americanos depois da rendição da Alemanha, foi devolvida à Dinamarca. No que se refere a Cuba, é uma hipoteca da Guerra Fria, prolongamento da Segunda Guerra. Na crise de foguetes em Cuba, o acordo feito entre Kennedy e Khrushchev determinou que as armas nucleares seriam retiradas de Cuba, porque realmente ameaçavam a segurança dos Estados Unidos; por outro lado, como compensação, os americanos se comprometiam a retirar mísseis da Turquia e não invadir Cuba. Estas obrigações foram obedecidas por ambos.

 

Todos estes problemas podem ser resolvidos pela Diplomacia, e o mundo ficaria livre das ameaças e do medo de uma confrontação nuclear. Mas o que estamos vivendo de mais grave é que, com o advento da internet, as relações internacionais estão sendo governadas pelo discurso: as emoções são instantâneas, dando margem a decisões apressadas e muitas vezes a palavras irresponsáveis. Essa é a grande ameaça que paira no mundo.

 

Se estes homens de Estado calarem a boca e restabelecerem o domínio da Diplomacia, sem a turbulência verbal como maneira civilizada de relacionamento, partiremos para fortificar os organismos multilaterais e surgirá uma distensão benéfica e a PAZ. É hora de fechar a boca.

 

Meu Velho Ano Novo

 

Passou 2025. Bom Ano. Estamos em pleno Ano Novo, com muita esperança de que seja de grande felicidade para todos.

É sempre o mistério do tempo que a graça de Deus nos concede. Antes de saudar com esperança o Ano Novo ­— que o Padre Antônio Vieira preferia usar a fórmula de “Bons Anos” para não sermos mesquinhos desejando um só, mas todos os anos futuros —, eu agradeço a Deus o ano que passou, em que nos foi concedida pelo Criador a graça da vida. Em cada ano que passa, vivemos. Meu avô quando fazia aniversário sempre dizia: “Ruim é não fazer.” Ele mesmo, que morreu aos noventa e seis anos, quando lhe perguntavam a sua idade, confessava, sem esconder nada e acrescentava: “Vê se tu chegas lá.”

O calendário marcado pelos dias gloriosos do ano me traz memórias desde a infância, nas sombras cinzas das lembranças daquele interior perdido nos campos verdes do Maranhão, quando íamos à igreja louvar o nascimento do Filho de Deus, cujas sandálias João Batista se dizia indigno de desatar, até a madurez da reza em comum com a família, lendo o Evangelho de São Lucas, que descreve o que aconteceu na manjedoura de Belém.

Na minha infância eu já sabia que comer gomos de romã na entrada do Ano Novo assegurava que o novo ano nos tratasse bem. Depois descobri que em toda entrada de ano as pessoas colocavam, para a passar a meia-noite, um dinheiro no bolso. Assim não teriam dificuldades financeiras.

Hoje, vejo que os anos da fase do conhecimento e da comunicação gostam de lentilhas — que no interior do Maranhão nem se sabia o que era —, roupa branca, flores no mar, velas na praia e fogos de artifício. Aqueles meus primeiros anos gostavam de sinos da meia-noite, rezas, ladainhas e louvações. Outro costume daquele tempo era dar esmolas, fazer ceia para os mendigos (coisa que minha mãe nunca deixou de fazer) e comer Garibaldi: as ossadas do peru da ceia preparadas num cozido ensopado com pirão do caldo.

Naquele tempo só havia um Senhor do universo: o Criador. Hoje existem muitos deuses. O pior deles, o deus da guerra, não desaparece de muitas partes do mundo; mais forte no Oriente, em Gaza, e na Ucrânia.

Na Pinheiro da minha infância, nenhum bicho preto podia aparecer na rua no dia primeiro do ano. Eram escondidos, presos nos currais, sem direito a circular. Traziam mau agouro.

Outras coisas eram comentadas em segredo: os maridos deviam, na noite da passagem de ano, “procurar” suas esposas, o que traria felicidade no casamento. Por isso, talvez, o rosto delas fosse enigmático na véspera do Ano-Novo, uma contida alegria. Quando soube disso, já menino grande, eu as olhava com olhos desconfiados.

Com o passar dos anos, no mar alto da guerra pela sobrevivência, com as lembranças todas acumuladas como se fosse um depósito de coisas arquivadas, percebo que a infância é eterna e diferenciada. É dela que retiro uma personagem daqueles anos.

Maria Roxa, crioula tida como doida, rodopiando brejeira, com uma flor no cabelo, chega na porta de nossa casa, os meninos rindo de sua loucura, cantando. De repente ela levanta a saia e grita: “Olha a onça”. E aí nossa inocência ia embora.

O mundo precisa recuperar um pouco a sua inocência, no sentido de não praticar o mal. Precisamos valorizar a vida, o infinito número de coisas boas que Deus nos deu, com que convivemos. Inclusive as pessoas, que Deus fez a Sua imagem e semelhança e que, em imensa maioria, praticam o bem e rejeitam o mal.

Se há muitos sinais ruins, nós aqui no Brasil começamos o Ano Novo com pleno emprego, os salários em alta, a economia superando os desafios, a democracia consolidada, sem desastres maiores e cheios de esperança. Esta é a mensagem que envio a todos: um Ano Novo cheio de esperança!

 

Um conto de Natal

 

Dona Carlota vivia a sua vida de um século num velho sobradão de azulejos coloniais, em São Luís do Maranhão, envolta na solidão e nos mistérios de sua velhice final. Dali viu saírem em cortejo fúnebre os corpos dos pais; em seguida, o do marido e, depois, da filha única, que lhe contrariou o desejo de morrer primeiro, para não ficar sozinha. Os netos perderam-se nos caminhos do mundo e a abandonaram naquela morada, de onde nunca mais saiu. Só lhe restou o velho sobrado de três andares, onde havia tempo a grande família vivia, folgadamente, importando roupas e vinhos da Europa. Sua linhagem era a dos tradicionais comerciantes de algodão, no Maranhão das “soirées blanches”, do século 19.

Dona Carlota era uma sobrevivente daqueles tempos. Recusara-se a morrer. Com os anos, foi perdendo o corpo e as posses. Primeiro, os cabelos pretos e a beleza; depois as joias, a prataria e, mais adiante, as louças, os serviços da Índia, os quadros, os conjuntos de palhinha D. João V, os lustres e aparadores de cristal. Os salões foram ficando vazios, vazias as paredes, vazia a sala de jantar; o teto arriando, as telhas caindo, os forros despedaçados, as portas apodrecidas, aldrabas enferrujadas, janelas com vidros partidos, que não fechavam. Havia em tudo um cheiro de mofo e um ar de abandono. Dona Carlota confinou-se no velho quarto, com seus gatos e fantasmas. Comprou o que comer, durante muitos anos, com a venda dos seus pertences. Agora, vivia da caridade dos vizinhos, que sempre lhe deixavam no corredor um prato de comida.

Com o tempo e os invernos de tempestades, o sobradão começou a desmoronar: perigo para a moradora. O corpo de bombeiros interditou o imóvel, mas Dona Carlota se recusava a sair. A cidade acompanhava o seu drama. Seu mundo era o sobradão e seus gatos. E os fantasmas, que chegavam com os ventos da noite.

Certa vez, num Natal, perto da hora da Missa do Galo, mendigos, que se refugiavam na parte térrea do seu sobradão sem portas, encontraram no lixo uma caixa de sapatos vazia e resolveram fazer uma brincadeira de mau gosto com a Dona Carlota: iam levar a caixa vazia como se fosse um presente de Natal para a velha senhora de cabelos brancos e desgrenhados, que vivia escondida e de quem, vez ou outra, roubavam a comida. Fizeram um tosco pacote, enrolado com papel de embrulho, também achado na lixeira. E, sob a meia-luz que se formava a partir da rua, numa sombria diversão, subiram a escada de tábuas quebradas, com o corrimão coberto de excrementos de morcegos. Subiram trôpegos os degraus e chegaram ao antes grande e aristocrático salão dos banquetes, agora reduzido a lixo e abandono, teias de aranha, poeira e podridão.

— Dona Carlota, trouxemos um presente de Natal para a senhora — disseram três vezes, cada um por seu turno.

Ela, que há tantos anos não recebia um gesto de amor, que do Natal só conhecia a solidão, aproximou-se deles, lamparina à mão. Olhou-os com benevolência, mas nada falou. Recebeu a caixa, desamarrou o cordão, retirou o papel que a envolvia, e a sua face se iluminou. Os olhos brilhavam, e o rosto exprimia um sorriso de grande felicidade.

Os mendigos, estranhando a sua reação, lhe perguntaram:

— O que a senhora ganhou, Dona Carlota?

A velha senhora, olhando o interior da caixa vazia, onde via a coisa mais bela do mundo, respondeu-lhes:

— Um beijo de São José e Nossa Senhora, que vieram passar o Natal comigo.

Os sinos da Igreja do Convento do Carmo tocaram em Aleluias.

 

Amor e Ciúme

 

A violência representa um dos maiores problemas da sociedade contemporânea. Paradoxalmente ela esteve, por motivos de sobrevivência, entre as três necessidades básicas fundamentais do gênero humano, cujo controle lhe assegurou a condição de espécie mais dominante na face da Terra e de sua controladora — tudo no projeto de Deus.

 

O homem, inclua-se a mulher, como deve ser a forma correta de tratamento, sempre precisaram para sobreviver de alimentação, segurança e vestuário. A primeira para sobrevivência física; a segunda, segurança, está ligada à primeira, para escapar dos predadores, e a terceira para poder adaptar-se ao clima, aos rigores do frio e do calor.

 

O instinto violento do homem fez dele, segundo Lévy Straus, além de um ser predador, o maior poluidor. Mas hoje, a sua necessidade de segurança, uma daquelas três preocupações básicas do homem primitivo, evoluiu a novo patamar: a ameaça não é somente a individual, como também a global, com a possibilidade de destruição nuclear e a internacionalização do crime com suas conexões com as drogas e a utilização do conhecimento e da ciência para sua mundialização.

 

Mas o que desejo abordar é sem dúvida um fenômeno novo: a vulgarização da tragédia do crime desprezível da violência contra a mulher. Já não podemos assistir à televisão nem ler jornais e revistas, de qualquer mídia, sem que a predominância seja a dos crimes e tratamentos mais hediondos contra o gênero feminino. Esses fatos vêm num crescendo que está merecendo, em todas as partes da Terra, revolta e protestos fortes que motivem não somente mulheres, mas também todos os homens, pois estes foram destinados a compartilhar a felicidade da igualdade com a mulher, fazendo parte um da vida do outro, igualmente responsáveis por dar continuidade à espécie humana.  É inaceitável que a ameaça à sobrevivência das mulheres venha do próprio homem.

 

Acredito que se a ciência, em todos os seus domínios, foi capaz de chegar às profundezas do micromundos dos átomos e até das naves espaciais e de nossa presença no universo, tendo por marco inicial o homem na Lua, pode e deve também se debruçar sobre o sentimento humano para transformá-lo, pesquisando-se a raiz e os fatores dessa violência, o que está desencadeando essa tragédia de nossos dias. Não se pode excluir dessa busca o fracasso dos métodos atuais, a responsabilidade dos governos, já que eles foram constituídos e instituídos para conjurar os problemas, entre eles o da violência. Isso não pode ser feito sem uma cooperação efetiva de todos os segmentos da sociedade; e, em nosso caso, sem os diversos setores da União, dos Estados e Municípios, dos Poderes constituídos, Executivo, Legislativo e Judiciário — mas, infelizmente, o que testemunhamos nos últimos dias, em vez de cooperação, foi o mais condenável exemplo de falha na conduta de alguns membros desses Poderes.

 

Outros motivos estão à vista: a dolorosa desigualdade social, que faz com que sejam mulheres negras e de pouca idade a maior parte das vítimas dessas mãos assassinas, numa cruel mistura de misoginia, racismo e desigualdade social.

 

Outras causas subjetivas também nos dão uma pista. Elas vêm da literatura. Shakespeare, na sua genial construção da tragédia no seu teatro, nos oferece um exemplo do amor deformado pelo ciúme — que sempre esteve associado ao amor doentio que rapidamente descamba para violência. É o exemplo de “Otelo, o Mouro de Veneza”, em que sua esposa, Desdêmona, é vítima do seu amor e do ciúme do marido, dominado por intrigas de Iago, que, por revanche, cria uma teia de mentiras e intriga convencendo Otelo de que a esposa o traía, num romance que não existia. Ele, Otelo, mata Desdêmona, asfixiando-a, e depois, quando descobre que não era verdadeira a traição, mata-se. A tragédia de Otelo desdobra-se genialmente com muitas nuances, mas traz também, como toda literatura genial, a oportunidade de refletirmos sobre a verdade, a mentira e suas consequências destrutivas. Esse dilema se repete na internet, com a divulgação de tantas mentiras — como fez Iago —, multiplicando-se os riscos de violência. E terminamos por não saber o que é verdade e o que é mentira.  E quanto perigo há nisso!

 

Eu também me sinto violentado por essa violência. Recuso-me a absorver o relato completo desses fatos repugnantes. Sou forçado a tomar conhecimento desses crimes, mas me perturbam o sono e o viver.

 

Minha solidariedade a todas as mulheres que sofreram e sofrem nessa tragédia do nosso tempo.

 

Se a internet e a Igreja moderna exorcizaram o diabo, eis que ele ressurge na figura desses monstros: assassinos, espancadores e violentadores de mulheres.

 

Natal, pacto de Deus

 

Já está chegando o Natal. Ouvimos as badaladas dos sinos do Advento. A memória da chegada do Menino Jesus, que fez a opção pelos pobres entre os mais pobres. É o momento de receber, entre sorrisos e esperanças, o Deus que veio para dizer que não estamos sós neste universo de fogo e de silêncios — e que fez um pacto com os homens na Terra.

Eu, ao longo da vida, sempre tive a certeza de que Deus estava vigiando as minhas ações, omissões e pecados.

O Deus da minha infância, que me guardava nas noites escuras de fantasmas e mistérios. O Deus da minha juventude, que me protegeu das dúvidas, nos caminhos da fé. O Deus da minha maturidade, consolidado, amigo e pai. O Deus da minha velhice, que me receberá um dia, na morte, e perguntará:

— José, onde estão tuas mãos que eu enchi de estrelas? Tua cabeça onde pus meus votos de proteção?

E eu responderei:

— Estão aqui, nesta vida, como todas as vidas, de flores vivas em dias de alegria e de flores murchas em dias de ausência e silêncio.

O Natal é a festa da família. É a maior festa da humanidade. Celebramos a memória do pacto de Deus com os homens. Ele mandou seu filho ao mundo para comungar conosco da Graça da vida. Deu-nos um código de comportamento: “todos somos iguais, filhos do mesmo pai”; “amai-vos uns aos outros’ e “que tenham paz”, a paz interior, esta da reconciliação do homem com o próprio homem.

Mas mudou o Natal ou mudei eu? A pergunta de Machado de Assis é quase lugar-comum, tantas vezes citada, mas é pertinente. Mudou o Natal. O mundo mudou.

Mas o meu Natal, indestrutível, é o Natal da minha infância. Meu avô, minha avó, meu pai, minha mãe, meus irmãos, como se fossem figuras do próprio presépio. Éramos felizes. O tempo não tinha o cheiro azedo de um mundo transformado. Era o cheiro do alecrim e cravo.

Recordo-me de minha avó a preparar o presépio. A semear arroz com antecedência na terra preparada em volta da manjedoura. Quando nascia, era o verde. Os burrinhos e bichos eram de buriti. A estrela, de papel. Tudo muito simples e pobre. A cidade tinha no máximo dois mil habitantes.

Meu avô abria a Bíblia, quinze minutos antes da meia-noite. Lia um Evangelho sobre o nascimento de Jesus, um Salmo, um Padre nosso, e depois seguíamos, o sino tocando à meia-noite, para a igreja. A Missa do Galo.

Meu avô passou o costume de reunir a família e ler a Bíblia a meu pai e, quando este morreu, a mim coube continuar a tradição. No Palácio do Planalto, presidente, lia o Evangelho nos Natais e dizia a todos que era uma tradição de família.

Depois vim a saber de outros natais. A saber a origem do Natal. Que a data de 25 de dezembro foi fixada pelo papa Júlio I (São Júlio I). Em outras igrejas celebra-se em janeiro ou abril. Que no século VI os padres foram autorizados a rezar, nesse dia, três missas. Ficavam em jejum o dia inteiro.

O Papai Noel de hoje, o esbelto Bispo Nicolau, santificado, foi criado pelo cartunista americano Thomas Nost, o Santa Claus, e com sua barba e barriga invadiu a mídia e entrou no coração das crianças. Lembro-me de um tambor de lata que Papai Noel me trouxe aos cinco anos. Era feito pelo funileiro de Pinheiro! Nada mais belo e nada me fez tão alegre. A ideia de presentes refletindo a doação e a generosidade não pode perder o sentido cristão desta festa da família, representando a união do homem com Deus.

Mas leio os jornais todos os dias. É difícil misturar Natal, violência, guerras. É triste constatar que o homem ainda não mudou e que muitos natais devem vir até que o homem faça aquela revolução interior da correção, exorcizando a violência e logrando aquilo que o padre Vieira pregava no “Sermão do Mandato”: “colocar em Cristo o coração dos homens, e nos homens o coração de Cristo”.

Mas no Brasil tem céu azul. E nada ofuscará a nossa fé nesse momento em que recebemos O filho de Deus, que veio ao mundo para ensinar que o homem deve mudar segundo um processo interior de leis morais e de condutas baseadas nas virtudes, e não no medo.

Paz, paz na Terra e dentro de nós mesmos.

 

Literatura, Vocação

Na Academia Brasileira de Letras, a editora Ciranda Cultural lançou, sob um novo selo, Principis, meus três romances: O Dono do Mar, Saraminda e A Duquesa vale uma Missa. Ao mesmo tempo a Academia me fez uma homenagem que muito me tocou, ao me dedicar uma sessão especial, com meus confrades Domício Proença e Antônio Carlos Secchin analisando minha obra de prosador e de poeta.

 

Comecei a escrever muito moço. Com meu pai, aprendi a amar os livros, amor que me acompanha por toda a vida. Sem eles não sei viver: vivo com eles. Primeiro aprendi a ler alguns clássicos, na pequena biblioteca que tínhamos em São Bento, no interior do Maranhão. Depois comecei a fazer, à mão, pequenos livros, com folhas datilografadas, A Canção Inicial e Poemas Decadentes. Participei, mais tarde, de um pequeno grupo que sonhava recuperar o Maranhão: éramos escritores e pintores. Ali tive grandes companheiros, como o grande poeta Bandeira Tribuzzi, que fora estudar em Coimbra e nos trouxera a descoberta da poesia portuguesa, sobretudo Fernando Pessoa.

 

Com o meu primeiro livro de poesia, que afinal chamei de A Canção Inicial, entrei para a Academia Maranhense de Letras. Mas a política me chamou, era meu destino. Minha vocação era a literatura. Com ela noivei todas as noites.

 

Quando o destino me levou ao governo do Maranhão, entre as solicitações permanentes da tarefa de romper com os vícios que atrasavam o Estado naquela época, encontrei tempo para escrever um livro de contos, Norte das Águas, que teve uma excelente acolhida da crítica. Habituei-me a afastar as demandas da política — que me cobrava os textos de discursos, pareceres, projetos de lei etc. — para escrever literatura. Publiquei mais dois livros de poesia, Os Maribondos de Fogo e Saudades Mortas, outros contos, os três romances, ensaios, conferências.

 

Um dia reuniram a fortuna crítica de minha obra literária — não só o que se escreveu no Brasil, mas em todo o mundo — e me assustei: em 2018, tinha 119 títulos, com 168 edições; e de lá para cá já saíram vários livros e novas edições.

 

A política, além do tempo que me tomou, muito prejudicou a acolhida de minha obra literária. Não que não tenha tido aqui grandes elogios de grandes escritores, como Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Darcy Ribeiro e tantos outros, mas muitos confundiram o político com o escritor, e passaram a este a hostilidade àquele, enquanto no exterior fui analisado apenas como escritor, tendo tido uma excepcional acolhida da crítica e de personalidades como Lévi-Strauss ou Maurice Druon — e tido, além das edições padrão, a acolhida para um público maior, em coleções de bolso como Le Petit Vermillion e a Folio, da Gallimard. Eu também fui responsável, pois fui um mau autor, não pude dedicar à minha obra a atenção que todas precisam de seu autor.

 

Foi em parte na busca de alcançar as novas gerações que combinei estas novas edições, que receberam da editora um tratamento moderno, com excelentes capas e a possibilidade de serem compradas num estojo que reúne os três romances. Para temas diferentes, fiz abordagens diferentes, e não sei se quem tiver lido um terá ideia do que são os outros. O Dono do Mar é uma história de pescadores, lendas e tempos do Maranhão; Saraminda se passa em torno do ouro do Amapá e de uma mulher que com ele se identifica; e A Duquesa vale uma Missa é a visão íntima de uma paixão diferente.

 

Foi sobretudo Norte das Águas que me conduziu, pelas mãos de grandes escritores da Casa, que já eram meus amigos, à Academia Brasileira de Letras. Ali entrei com 50 anos, estou, portanto, há 45 e há cerca de 20 anos sou seu decano — coisa meio triste, pois significa que todos que lá estavam quando fui acolhido já se foram. Fiquem tranquilos, eu nem sonhava em ser Presidente da República, e meu lugar na Casa é do escritor, não do político.

 

É assim, me sentindo rejuvenescido com o lançamento destes livros, que estou emocionado e grato com a homenagem que a Academia me presta.

 

Não foi uma homenagem ao meu destino, que cumpri como pude, mas à minha vocação, a literatura.

 

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