José Sarney

Mazzilli, o Presidente

ORanieri Mazzilli, deputado pelo PSD de São Paulo, foi, durante muitos anos, presidente da Câmara. Tinha um aspecto de lutador de boxe ou barítono, com uma envergadura muito grande, e falava com certo ar de autoridade, o que lhe dava o respeito dos seus colegas e, ao mesmo tempo, condições para dirigir os trabalhos com muita competência.

Quando veio a Revolução de 64, o Presidente Castello pediu-lhe, e à sua Bancada na Câmara, que apoiassem o nome do Deputado Bilac Pinto para substituí-lo, uma vez que já ocupava o cargo há sete anos e estava pleiteando a reeleição.

Mazzilli, muito querido e prestigiado na Casa, manteve a sua candidatura, certo da vitória. Perdeu por larga margem de votos — 167 contra 200 de Bilac.

Quando fui falar com ele para cumprimentá-lo e lamentar sua derrota, embora nele não tivesse votado, porque pertencia à Bancada da UDN e era amicíssimo do Bilac Pinto, ele me disse:

— Sarney, eu tinha a promessa de 250 votos e, por isso, disputei a eleição. Apurada a urna, perdi por 33 votos. O pior é que tive somente 167 votos, mas recebi a solidariedade dos 250 deputados! E não tenho como distinguir quem me traiu: todos com a mesma cara!

Em sua última viagem como presidente da República, Juscelino Kubistchek foi a Portugal com uma grande comitiva para uma solenidade como nos velhos tempos, em que os chefes de Estado, em visitas oficiais, viajavam em seus melhores vasos de guerra, comboiados por uma esquadra de navios. Ao chegar a Lisboa, para onde viajou de avião, embarcou no cruzador brasileiro Barroso e foi recebido num grande desfile, que saiu da margem do Tejo.

O Presidente Kubitschek passou cinco dias em Portugal, onde foi alvo de grandes homenagens e fez discursos de amor à santa terrinha lusitana.

Como Jango o acompanhou, seguindo para Genebra, em missão oficial, Juscelino entregou o governo a Ranieri Mazzilli.

Zezinho Bonifácio contava que, no primeiro dia, Mazzilli foi a Caconde, em São Paulo, sua terra natal. Lá desfilou em carro aberto, de faixa presidencial no peito, o povo todo da região saudando e gritando: “Presidente! Presidente! Nosso filho presidente!”

No segundo dia, o Mazzilli foi à cidade de São Paulo, onde dormiu no Palácio dos Campos Elísios: concedeu audiências e recebeu a poderosa Fiesp, Federação das Indústrias de São Paulo, e mais outras entidades representativas da potência paulista.

No terceiro dia, viajou ao Rio de Janeiro. Hospedou-se no Palácio das Laranjeiras, reservado à Presidência da República, e deu um banquete para o qual convidou toda a sociedade carioca. Visitou duas ou três obras que estavam sendo construídas no Rio de Janeiro.

No quarto dia, voou para Brasília e ali recebeu — ele, vestido de fraque, com luvas de couro —, em várias solenidades no Palácio do Planalto, as autoridades: primeiro, os cumprimentos do corpo diplomático; depois, os deputados federais e, por último, os senadores e os ministros do Supremo Tribunal Federal.

No quinto dia — dizia o Zezinho Bonifácio —, Mazzilli fez uma proclamação agradecendo a lealdade do povo brasileiro a ele durante seu período de Governo e relatando seus feitos: a inflação não tinha subido; a dívida externa, também não. Agradeceu a lealdade das Forças Armadas, do Congresso Nacional e foi dormir no Palácio da Alvorada.

O Juscelino tinha uma lancha chamada Gilda, em que levava os visitantes para ver o lago Paranoá, principalmente à noite, quando havia luar, e oferecia jantares a bordo. Algumas vezes, a maldade nossa, da UDN, dizia que essas festas não eram tão puras e protocolares como se falavam: o que havia de mais belo, nas festas nessa lancha Gilda, eram as modelos do concurso de Miss Brasil, que ele homenageava dessa maneira.

Finalizava o Zezinho Bonifácio: “O Mazzilli fez tudo o que o Juscelino fazia. Calcule que, por último, queria até levar as misses em um passeio na lancha Gilda para conhecer o Lago Paranoá.”.

O Amor de Jesus Cristo

“Pode de Nazaré vir alguma coisa boa?”, pergunta Bartolomeu a Filipe, no começo da vida pública de Jesus. Pois foi nesta humilde cidadezinha da Galileia que o Criador escolheu um casal de noivos, Maria e José — ela, a pureza absoluta; ele, um carpinteiro da linhagem de Davi —, para em Maria encarnar Jesus. Seu Filho vem para que tenhamos ao nosso lado a face de Deus compreensível para os homens, uma presença para nos amparar nos momentos maus, para nos consolar nas horas amargas, distantes da terrível presença de Javé: Jesus Cristo é o amor que nos prescreve como o único caminho.

 

Sim, em Nazaré, sob os cuidados de José, que é a figura mais tranquila dos Evangelhos, que aceitou a vontade do Criador sem dizer uma palavra: ele comunica-se com os anjos que o visitam em sonhos, seguindo o Arcanjo da Anunciação. Assim, quando Jesus sai para cumprir seu destino, é o homem simples, desse lugar simples, dessa família simples — a mais extraordinária, no entanto, de todas as famílias. Jesus nunca escreveu nada, mas é o homem mais lido do mundo. Suas palavras são, por isso mesmo, palavras simples, mas de extrema expressão — palavras que mudam a humanidade. No tempo em que o que valia era a força, ele veio com um único valor, o do amor.

 

Suas palavras se diferenciam de todas as outras, pois são eternas, estão integradas a todos os tempos da Humanidade, mas os antecedem e os ultrapassam.

 

Pegou pescadores e artesãos e os transformou em discípulos que o seguiam e que receberam, no Pentecostes, pelo Espírito Santo, a missão de apóstolos, de levar o Evangelho, a Boa Nova, a Palavra a todos os lugares do mundo. Para ajudá-los enviou-lhes um que era contra ele, que recebeu na estrada de Damasco a revelação do Senhor e foi o escolhido para ser o consolidador de uma doutrina e difundir seus ensinamentos.

 

Mas o mistério profundo da encarnação era o resgate de uma promessa muito antiga, o de um Salvador, um Messias, que nos livraria do pecado original. Para isso a Palavra se fez Carne, habitou entre nós, assumiu a culpa da Humanidade — a Humanidade em seu sentido absoluto, isto é, de todos os homens de todos os tempos — e foi morto e ressuscitou. O Filho de Deus viveu como Filho do Homem o sofrimento total, a traição, a humilhação, a tortura, a morte de cruz. “Tendo amado os seus neste mundo, amou-os até o fim.”

 

Quando Jesus Cristo exclama, “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, está aceitando a integridade de nossa culpa e cumprindo sua missão. Desde esse momento doloroso recebemos a consequência da promessa de Deus Pai: a vida eterna. Para abrir o nosso caminho, Jesus ressuscitou ao terceiro dia.

 

Lembro, como já fiz tantas vezes pela importância que têm para a Igreja e, em particular, para a minha fé, as palavras de São Paulo: “se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé”.

 

Amor, amar, foram as palavras simples de sua vida. Ele diz: “O Pai que me enviou deu-me um mandamento sobre que direi e falarei. E sei que o mandamento d’Ele é vida eterna.” “Que vos ameis uns aos outros, tal como eu vos amei, para que também vós vos ameis uns aos outros.”

 

Jesus Cristo pregou a bondade para transformar o homem num ser pacífico.  Mas a Humanidade avançou muito pouco. Esperemos que se aproxime o dia em que Sua palavra seja ouvida por todos: “Ameis!”

 

“Deixo-vos paz. Eu vos dou a minha paz.”

Otávio Mangabeira

Otávio Mangabeira fora deputado federal desde 1911, chanceler no governo Washington Luís, exilado, novamente deputado, deputado constituinte, governador da Bahia, senador, participara da fundação da UDN e era membro da Academia Brasileira de Letras desde 1934. Velho, nos últimos anos de sua vida, morava no hotel Glória; se não me engano, na suíte 901, no nono andar. Recordo-me de que ele tinha os pés já bastante inflamados e andava com chinelas de plumas, muito confortáveis. Ali recebia os amigos e admiradores e os líderes dos partidos políticos, que sempre desejavam ouvi-lo.

 

Nós, da UDN, éramos presença constante. Não digo por mim, que era muito jovem, mas ali estive duas vezes, em companhia do Carlos Lacerda e do João Agripino.

 

No dia da revolta do Major Veloso, de Aragarças, Carlos Lacerda, ao saber da deflagração do movimento, telefonou para João Agripino e para mim pedindo que fôssemos ao hotel Glória, à suíte do Mangabeira, para onde ele estava se deslocando.

 

Lá cheguei e já encontrei o Lacerda dizendo ao Mangabeira que não tinha nenhum envolvimento com o fato e, pelo contrário, ouvindo alguns ruídos sobre sua ligação com oficiais da Aeronáutica, tinha chamado o Major Veloso, um dos mais afoitos, e dito que não praticasse nada de sedição — coisa de que eles falavam todo dia — e que ele condenaria qualquer movimento dessa natureza.

 

Mesmo assim, Veloso e alguns companheiros de farda desviaram três aviões militares, sequestraram um Constellation e foram para a pequena base de Aragarças. Foi o primeiro sequestro de avião do Brasil.

 

Lacerda insistia em reafirmar a Otávio Mangabeira e a todos nós — foram chegando outros colegas de partido: Rondon Pacheco, Milton Campos — sua absoluta falta de participação nesse movimento, feito com o objetivo de derrubar o Juscelino.

 

Mangabeira deu sua opinião, também contrária àquilo, dizendo que se tratava de uma loucura de jovens revoltados da Força Aérea, que ainda não haviam superado os resultados da chamada República do Galeão, na qual eles tinham feito o famoso inquérito sobre a morte do Major Vaz, que levara ao suicídio de Getúlio Vargas.

 

Ali foi tomada a decisão de que a UDN, por todos os meios, manifestaria sua contrariedade à chamada Revolta de Aragarças. Carlos Lacerda comprometeu-se a discursar, à tarde, na Câmara dos Deputados, dizendo de sua — bem como de todo o partido — condenação ao movimento e ao gesto tresloucado.

 

Foi um discurso difícil e notável!

 

Passada a agenda política, Carlos Lacerda perguntou ao Mangabeira por que ele não se mudava para um apartamento, argumentando que ficar ali no hotel seria bastante caro para ele, homem desprovido de posses, sendo muito mais barato morar em sua própria casa.

 

Mangabeira respondeu-lhe: “Carlos, na minha idade, não sei mais quem paga meu hotel.”

 

Antônio Carlos Magalhães contava que um dia Mangabeira lhe perguntara pelo Luiz Viana. Ele, então, disse que o Luiz Viana se encontrava na Bahia, aonde fora para a comemoração de sessenta anos de um amigo.

 

Doutor Mangabeira respondeu-lhe: “Quer dizer que Luiz Viana foi à Bahia só para um aniversário de sessenta anos de um fulano de tal…” E concluiu: “É. Hoje qualquer vagabundo faz sessenta anos na Bahia!”

 

Otávio Mangabeira era governador da Bahia, e o jornal A Tarde começou a atacar alguns oficiais que teriam provocado uma desordem na zona de meretrício de Salvador. Esses oficiais invadiram e empastelaram o jornal, pelo desrespeito que tinha tido com a oficialidade da guarnição militar.

 

Simões Filho, que era uma grande figura da Bahia, ex-ministro da Educação e fundador de A Tarde, procurou Mangabeira: “Governador, isso não pode acontecer no seu Governo: empastelaram o jornal, quebraram tudo e surraram uns jornalistas. Lembremo-nos de Rui Barbosa, que dizia: ‘A imprensa constitui o pulmão da democracia.’ O senhor tem que tomar providências imediatas, abrindo inquérito para punir os culpados.”

 

Mangabeira olhou para ele e respondeu: “Ó Simões, Rui é o astral; a realidade é o Exército Nacional!” E deu por encerrada a conversa.

 

Antônio Carlos contava isso com muita graça, imitando, como ninguém, o falar entre as bochechas do velho Mangabeira.

Milton Campos

O doutor Milton Campos, um dos grandes nomes da UDN, intelectual brilhante, advogado, jornalista, foi deputado constituinte, governador de Minas, senador, candidato a vice-presidente da República, ministro da Justiça. Estava, certa vez, no aeroporto do Rio, quando se aproximou dele uma sessentona, daquelas mulheres engajadas na política:

— Doutor Milton, eu sou da UDN, mas da UDN verdadeira: fui uma das viúvas da rotativa e sou da UDN da calúnia! Da calúnia, doutor Milton, como o senhor!

 

O fato é que Carlos Lacerda promovera uma campanha para comprar uma rotativa nova para o jornal Tribuna da Imprensa: algumas senhoras saíram pela avenida Rio Branco com a bandeira da UDN esticada, e as pessoas jogavam, no meio da bandeira, suas contribuições. O Diário Carioca, que era do PSD e contra a UDN, cognominou as senhoras quarentonas de “viúvas da rotativa”.

 

Milton Campos, um padrão de correção ética, sorriu e disse:

— Persevere!

 

Ele tinha um espírito de ironia fina. Quando era governador de Minas Gerais houve uma greve de professores. O secretário da Educação fez um relatório sobre a greve, informando que era grave no Município de Divinópolis, e disse ao Governador que era necessário determinar ao secretário de Segurança que mandasse um destacamento da Polícia para acabar com ela.

 

Milton Campos respondeu ao secretário:

— Não, eu tenho outra solução: vou mandar o secretário da Fazenda pagar o salário dos professores, que estão em greve pelo atraso de seus vencimentos!

 

Seu chefe do gabinete civil era o Pedro Aleixo, muito seu amigo e figura das mais expressivas da política mineira.

 

Como era ele que executava as ordens do governador, contava-se, em Minas Gerais, a seguinte história: quando alguém queria falar com o Governador Milton Campos, ele dizia:

— Fale com Pedro, primeiro.

 

Naquela época Pedro Aleixo ficou conhecido como um dos Braganças: Pedro I.

 

Quando Milton Campos foi candidato a vice-presidente na chapa de Jânio Quadros, a votação para presidente e vice era independente. Isso fez que Jango — João Goulart — promovesse o voto Jan-Jan, infelizmente vitorioso: podemos imaginar que se Milton fosse o vice-presidente não haveria a crise de 1964 e o regime militar. O Jânio não contribuiu, durante a campanha, para desestimular o Jan-Jan. Apesar disso, ele e Milton muitas vezes fizeram campanha juntos.

 

Jânio Quadros, em todos os lugares aonde chegava, fazia o mesmo discurso, sempre com uma fórmula mágica para levantar as massas e levá-las ao delírio.

 

Certa vez, em Salvador, fomos a um comício, e o Jânio provocou o Milton Campos:

— Doutor Milton, o senhor, em cada lugar, faz um discurso diferente.

 

O Milton Campos respondeu:

— É porque não tenho boa memória, Governador.

 

Em Brasília, logo após a mudança da capital, as casas dos deputados eram como repúblicas de estudante: nós nos reuníamos para bater papo e, ao mesmo tempo, tomar alguns drinques. Uma dessas casas, que tinha fregueses fixos, era a do Padre Godinho, brilhante orador e deputado por São Paulo.

 

Um dia, na mesa de drinques, o Padre Godinho perguntou a todos:

— Está faltando gelo?

Milton Campos lhe respondeu:

— Não, Godinho, está faltando uísque!

 

Outra tirada do Milton Campos, como sempre cheia de ironia e sabedoria, ocorreu durante um voo entre Rio de Janeiro e Vitória. O avião enfrentou muita turbulência e jogou muito. A aeromoça chegou junto ao Milton, que estava pálido e suava muito, e perguntou:

— Falta de ar, doutor Milton?

— Não, falta de terra.

Flores da Cunha

Quando cheguei à Câmara, lá estava o General Flores da Cunha, de terno branco, sempre de roupa clara, gravata borboleta, cabeça branca e contando histórias dos pagos gaúchos. Sua história já era, então, uma lenda: fora deputado desde a legislatura de 1913, senador em 1928, um dos líderes da Revolução de 30, governador do Rio Grande do Sul em 1935; exilado no Estado Novo, voltara ao Brasil em 42 e fora preso na Ilha Grande; constituinte pela UDN, tornara-se presidente da Câmara em 1955.

 

No primeiro dia em que nos cruzamos, ele pegou no meu braço e perguntou:

 

— Menino, de onde vens?

 

— Do Maranhão.

 

— Isto aqui já é jardim de infância?

 

Eu era bem jovem: estava nos meus 25 anos.

 

Certa vez, num debate na Câmara, o orador invocou aquele exemplo sempre usado quando se quer referir a uma coisa impossível: “É mais fácil um boi voar…”

 

Quando Flores da Cunha, criador, admirador de cavalos e de corrida, ouviu isso, levantou-se, foi ao microfone e disse:

 

— Boi não sei se voa, mas cavalo, se for alazão, voa!

 

Flores da Cunha presidia a Câmara, e eu fui, como Vice-Líder da UDN, pedir-lhe que convocasse uma sessão noturna para votarmos uns projetos. Ele me disse que fosse ao 1º secretário, Deputado Wilson Fadul, para que ele fizesse a convocação.

 

Fui ao Fadul, que me disse:

— Sarney, só convoco se o General Flores da Cunha mandar por escrito.

 

Retornei ao Flores da Cunha e repeti-lhe o que acabara de ouvir do Fadul. Ele me respondeu:

 

— Volte ao Fadul e diga-lhe que a palavra do General Flores da Cunha vale mais do que a sua assinatura.

 

Era um frequentador assíduo do jóquei-clube, onde não perdia a chance de jogar num páreo. Já na velhice, estava passando por dificuldades, e perguntaram-lhe o motivo de sua situação.

 

Ele respondeu:

— Mulheres ligeiras e cavalos lerdos!

 

Discursava na tribuna da Câmara e um deputado o aparteou dizendo:

 

— Vossa Excelência dá uma no cravo e outra na ferradura!

 

O general respondeu rapidamente:

 

— Mas não tenho culpa de você se mexer tanto!

 

Quando Juscelino mandou à Câmara dos Deputados o projeto das tesoureiras letra “O” — classificação alta na tabela de vencimentos do funcionalismo —, regularizando cargos que ele tinha preenchido, diziam, com moças muito bonitas, o General Flores da Cunha pegou-me pelo braço e perguntou:

 

— Vais votar neste projeto?

 

Eu respondi-lhe:

— General, do senhor eu esperava bons exemplos, mas em vez disso me dá um mau exemplo pedindo meu apoio a um projeto vergonhoso como este?

 

Ele me respondeu:

— Sarney, olha ali, naquela tribuna…

 

Eu olhei, e ele me mostrou uma velhinha elegante, de chapeuzinho de lado, assistindo aos debates na Câmara. Então acrescentou:

 

— Aquela é a Rosita. Ela fazia nossa felicidade quando nos defendíamos do minuano no tempo dos provisórios — forças armadas estaduais, compostas por brigadas militares e milícias civis. Ela vai ser nomeada tesoureira letra “O”. Então tu achas que, porque Adão, pai de todos nós, nos meteu nesse sacrifício de trabalhar para comer, para tudo na vida, eu não devo, por motivo de gratidão e amor, aumentar o orçamento da República um pouquinho por causa de uma mulher?

 

E completou:

— Uma vez, na tenda da campanha, esquecido de que estava fumando um bom charuto, queimei-a! Ela reagiu, em trejeitos de carinhos: “General, usted me lastima!”

D. Pedro I

Nos 150 anos da Independência, em 1972, o Coronel Otávio Costa, chefe da comunicação do Médici, teve a ideia de criar uma diplomacia dos ossos para reavivar o nosso sentimento patriótico: trouxe de Portugal os ossos de D. Pedro I, que percorreram o Brasil inteiro e, depois, tiveram o devido repouso no Panteão do Ipiranga, em São Paulo.

 

O caixão não podia ser aberto, fazia parte do acordo Portugal-Brasil, porque havia sempre o perigo de ossos trocados. E os portugueses bem sabem disso: a urna que continha os ossos de Santo Antônio de Lisboa, venerada por séculos na igreja do mesmo nome, quando foi aberta, para grande surpresa, tinha apenas ossos de um pobre carneirinho!

 

No Maranhão, a urna fúnebre ficou solitária no Palácio dos Leões.

 

O jornalista Erasmo Dias, tradicional boêmio de São Luís e grande escritor, estava, como em todas as noites, na zona do meretrício, quando se lembrou dos ossos de D. Pedro. Era alta madrugada. Chamou os bêbados retardatários das pensões de mulheres:

 

— Dom Pedro I está no Palácio dos Leões. Convido vocês a irem comigo visitar os ossos do Imperador.

 

Organizou um séquito respeitoso que, cambaleante e silenciosamente, subia e descia as ladeiras desertas da velha cidade para prestar homenagem ao proclamador da Independência.

 

Chegaram ao Palácio dos Leões, onde estava o caixão, para o velório patriótico.

 

Na sala de lustres portugueses, luzes baças, o caixão dourado.

 

Os bêbados se aproximaram. Erasmo foi o intérprete deles. Fechou o punho, bateu forte na tampa do caixão do Imperador e falou com a voz embargada e roufenha, pela cerveja e pela noite:

 

— Guabiru! Guabiru! Papaste as melhores damas do Império!

 

Feita a homenagem, retiraram-se em respeitoso silêncio.

 

  1. Pedro adorava cavalos e formara o hábito de elogiá-los aos donos, que acabavam por presenteá-los ao Imperador. Uma feita admirou um cavalo de um homem de sua guarda de honra, Domingos Marcondes de Andrade. Elogio, elogio, e nada. D. Pedro comentou o apreço exagerado do dono pelo animal. O guarda lhe disse que corria que ele costumava chamar os cavalos pelo nome de quem os presenteara e que nunca nenhum Marcondes fora montado. Assim o cavalo passou ao Imperador com a promessa de nunca o chamar com o nome do antigo dono.

 

Conta-se que D. Pedro I, após a abdicação, quando partia para a reconquista da coroa portuguesa, viu aquela fileira de barões nomeados por ele, deputados e senadores, entre a solidariedade e o medo do futuro.

 

O Marquês de Paranaguá apresentou-se na nau inglesa Warspite. D. Pedro disse-lhe que dele não podia se encarregar, pois já trazia muita gente às costas.

 

— Espero que não irá a Portugal antes de minha filha ficar estabelecida no trono; proíbo-lhe.

 

— Mas, senhor, que quer que eu faça? Não tenho fortuna.

 

— Faça o que quiser, não é da minha conta: por que não roubou como Barbacena? Estaria bem, agora.

 

Barbacena negociara o casamento de D. Pedro com D. Ana Amélia, e o Imperador o considerava inescrupuloso.

 

Era o mesmo D. Pedro que dissera ao Marquês de Quixeramobim sobre Gonçalves Ledo, um dos grandes heróis da Independência e homem de grande prestígio, inimigo dos Andrada, quando aquele defendia do crime de responsabilidade seu Ministro da Guerra, General Oliveira Álvares:

 

— Forte tratante! É a terceira vez que o compro e em todas me tem servido bem.

 

Desde 1826 abdicara da Coroa portuguesa em nome da filha, Maria II. D. Miguel, seu irmão, dera um golpe de Estado e formara um regime absolutista. Depois de preparar, com parcos recursos, o resgate de Portugal para a filha e para o liberalismo, D. Pedro, usando o título de Duque de Bragança, finalmente desembarca perto do Porto, em julho de 1832. Um ano depois de tremendo esforço, em que fizera de tudo, até montar canhões, conquista Lisboa e Porto; em maio de 1834 assina a Paz. Mas, nas comemorações, leva o lenço à boca num acesso de tosse e o retira vermelho de sangue: está tuberculoso. Continua, com imensa dificuldade, trabalhando. Ocupa, no Palácio de Queluz, o Quarto dom Quixote — decorado com cenas do livro de Cervantes —, onde nascera. E ali morre, quatro meses depois, vitorioso contra os moinhos de vento da História.

Combates do Neiva

Um dos grandes amigos de meus primeiros anos de política foi Neiva Moreira. Alguns anos mais velho do que eu, Neiva era “americano” de Nova Iorque, município do Maranhão. Começou no jornalismo no Pacotilha, jornal de São Luís,que foi comprado por Chateaubriand, que levou Neiva para os Diários Associados no Rio de Janeiro. Fomos colegas na Câmara dos Deputados nas três legislaturas que lá passei.

 

Neiva era um grande político, tinha espírito público e, sobretudo, um temperamento revolucionário, o que fez com que chegasse ao extremo: quando Brizola criou o Grupo dos Onze, Neiva transferiu seu título do Maranhão para o Rio de Janeiro, acreditando que seria feita uma revolução com o Brizola. Conseguiu apenas ser cassado em 1964 e amargar quinze anos de exílio.

 

Era uma personalidade em ebulição, mas, acima de tudo, Neiva era um homem correto, honesto e idealista.

 

Ainda no Maranhão, naquelas lutas políticas sem quartel, fizemos uma conspiração para levantar a Polícia do Estado e derrubar o governador, que, naquele tempo, era interino — o meu colega de faculdade Eurico Ribeiro.

 

Para isso, contávamos com um oficial da Polícia, Coronel Gondim, que era muito exaltado e foi o escolhido para fazer o ataque, transformando-se no herói da Oposição, embora a rebelião tivesse terminado em nada, só na vergonha de o nosso herói ter saído preso: cumpriu 60 dias de cadeia por indisciplina.

 

Um dia, estávamos no Jornal do Povo, o Neiva Moreira e eu, quando o Coronel Gondim entrou assustado, pegou uma cadeira e sentou-se num canto da sala. Só ouvimos, do lado de fora, a sua mulher gritando:

— Saia daí, seu covarde, que eu quero te quebrar a cara com este sapato!

 

Abrimos a porta e vimos a esposa do Coronel Gondim — que o tinha flagrado no cinema com uma moça —, de sapato na mão, querendo invadir a nossa sala e espancar o nosso herói. Este estava amarelo num canto e pedia:

— Segurem a minha mulher! Segurem a minha mulher! Segurem a minha mulher!

 

Então, quando encerrou o expediente, eu disse:

— Hem, seu Neiva? Veja nossa missão: defender o nosso herói de apanhar da mulher!

 

Clóvis Sena, grande jornalista e intelectual, diretor de redação do Jornal do Povo, escrevia as manchetes. Nesse tempo, o jornal não era feito: acontecia. As matérias escritas eram compostas à mão nos tipos e montadas na página para serem impressas; página cheia, ia para o prelo. Cabia a mim separá-las e dizer aos leitores: “Segue na página tal.” Notícias internacionais vinham através de um rádio velho, ouvido com dificuldade por Clóvis Sena.

 

Um dia o nosso concorrente anunciou a queda do rei Faruk, do Egito, e a ascensão do General Nasser, que tanta influência exerceu no Oriente Médio. Neiva Moreira foi a Clóvis Sena.

 

— Não houve nada internacional que desse no rádio na noite passada?

— Só uns tirinhos ali pelo Egito, disse-lhe Sena.

— Pois é, seu dorminhoco, nosso concorrente dá em manchete a queda do mais antigo Governante da face da Terra, uma monarquia de cinco mil anos, nós não damos nada, e você ainda me diz que foram uns tirinhos no Egito!

 

Já naquela época o compromisso do jornalismo com a verdade era um problema. De novo, as fake news têm o nome e o descaramento dos que as manipulam ostensivamente.

 

Odylo Costa, filho, estava no Maranhão quando um velho jornalista, Zuzu Nahuz, publicou que o Senador Vitorino Freire teria sido agredido numa sessão do Senado. Vitorino reagiu com uma certidão de que no dia noticiado não houvera sessão na Casa.

Odylo, perplexo com o desmentido, perguntou a Neiva Moreira:

— O Zuzu é veraz?

Neiva respondeu-lhe:

— Pra cá, é.

E deu a justificativa:

— Essa certidão do Vitorino deve ser falsa!

Os Desastres da Guerra

Goya foi uma testemunha muito especial do que aconteceu na Espanha quando Napoleão resolveu alterar a ordem mundial. Formam-se, então, dois pontos de vista: o do homem de Estado e chefe militar que se colocaria, não só em sua própria visão, mas na da História, num patamar mais elevado que os inúmeros outros que pensaram estar na mesma situação de fazedor de destinos; e a do artista — também o maior de seu tempo — que compreendeu a alma humana em todas as suas nuances, inclusive a da sua degradação pela violência.

 

As cenas gravadas por Goya em “Los desastres de la guerra” mostram que ela é uma abominação, a expressão do Mal com seus inesgotáveis detalhes sórdidos. O horror está condensado na série de Pinturas Negras que decoravam a Quinta del Sordo — apelido dado pelos vizinhos ao artista em seus anos finais — como a que retrata “Saturno devorando a un hijo”. Ainda hoje sinto o impacto que tive ao entrar na sala do Museu do Prado a elas reservadas.

 

Minha amiga Hélène Carrère d’Encausse, secretária-perpétua da Academia Francesa, escreveu, em Le Malheur Russe, que na Rússia os assassinatos políticos só cessam quando são substituídos pela guerra. Lá o mecanismo do poder pela violência é a regra iniludível. O quadro de Goya poderia exprimir dois episódios que marcam em vermelho — ou em negro? —  a História da Rússia: os homens que fizeram o renascimento russo, Ivan, o Terrível, e a adesão da Rússia ao século das luzes, Pedro, o Grande, mataram os primogênitos com as próprias mãos.

 

Há, por isso, uma diferença entre a guerra desta semana e as também horríveis e monstruosas guerras que se espalham pelo mundo, inclusive a nossa própria guerra incivil — pois nossos números são maiores do que os da maior parte delas. A diferença é seu potencial de estender-se ao resto da Humanidade. Já nesse momento em que o Ocidente deflagra, contra a ofensiva armada e arbitrária, o desligamento econômico da Rússia, o mundo globalizado fratura-se e pagará todo ele as consequências indiretas, sem falar do desmonte direto que sofre a sociedade russa.

 

Mas o que não podemos tirar da cabeça é o descontrole da fera humana quando acuada. Lembro apenas que dois homens a quem muito se deve o fim de um período de barbárie, Winston Churchill e Franklin D. Roosevelt, lançaram as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, matando mais de 250 mil pessoas.

 

Como dormimos tranquilos sabendo que mais de seis mil bombas nucleares estão à disposição de um homem — longamente treinado pela KGB a obliterar qualquer sentimento — que vê sua decisão de esmagar um vizinho trazer os custos da guerra a seu próprio país? O uso dessas bombas, mesmo parcial, pode provocar consequências que vão das contaminações radioativas, da fome nuclear, do inverno nuclear até ao holocausto nuclear, a extinção da vida na face da Terra: ninguém, nem mesmo os criadores dessas máquinas de destruir, sabe quais são suas consequências reais. Sabemos apenas o que aconteceu nas duas cidades japonesas e nas usinas de Chernobyl e Fukushima, nada de bom.

 

Multiplicam-se, felizmente, as iniciativas pela paz. Testemunha e estudioso da História, sei que não é fácil. Raramente vi a paz chegar antes de acontecerem os desastres da guerra. Do homem ser a besta do homem. Das vidas serem ceifadas com absoluta crueldade.

 

Esperemos que a paz chegue rápido. Se não, que chegue devagar. Mas que chegue, porque, sem a paz, virá o dia em que não saberemos o que aconteceu: estaremos todos mortos.

Clodomir Millet

A glória política é efêmera. Como dizia Malherbe das rosas, vivem o espaço de uma manhã. Ela vive de instantes, de uma atitude, de um discurso, de um gesto e logo cai no domínio do esquecimento. Para citar um exemplo maior, veja-se a imagem do Winston Churchill, que é muito mais lembrado pelo anedotário dos seus apartes, do que como o extraordinário homem que, com uma coragem imensa, contra quase todos os colegas da Câmara dos Comuns, alertou para o perigo da Alemanha e, em seguida, comandou a Segunda Guerra Mundial como grande estrategista, reuniu a resistência no grupo dos Aliados e passou quase seis meses nos Estados Unidos para convencer Roosevelt a entrar na luta e não limitar-se à venda de armamentos.

Faço este introito para dizer que nós do Maranhão cometemos uma grande injustiça esquecendo a figura de um grande político, Clodomir Millet, que quase sozinho, depois da Revolução de 1930, sustentou a resistência ao Senador Vitorino Freire. Este teve seu ponto mais alto durante o Governo do Presidente Dutra, seu amigo próximo, que o prestigiou cegamente, dando-lhe todas as condições para implantar uma das maiores máquinas políticas do Maranhão. Clodomir Millet, médico de formação, mas vocacionado para a política, fundou as Oposições Coligadas, que finalmente, em 1965, chegaram ao governo, elegendo-me Governador do Estado. Iniciamos então outro ciclo político, que modernizou o Maranhão, dotando-o da melhor infraestrutura do Nordeste, com o 2º porto do Brasil, o Itaqui, e abundância de energia, com a construção da Hidroelétrica de Boa Esperança, a interligação dos sistemas de Tucuruí e Paulo Afonso, com todas as hidroelétricas do São Francisco.

Clodomir Millet dominou a política do Estado durante esse tempo todo, como oposição ou, mais tarde, como governo, mostrando como suas qualidades principais a inteligência e a coragem. Foi Deputado Federal e Senador da República, transformando-se em figura de grande destaque no Congresso Nacional, excelente parlamentar, conhecido por se aprofundar no estudo das leis. Destacou-se como grande formulador da legislação eleitoral, a que se dedicou; durante aquele tempo em que as leis eleitorais estavam movediças e em estado de transição, nenhuma foi elaborada sem ter em sua base a contribuição de Millet. Ele tinha espírito público e mostrou isto quando da edição do AI-5, sendo signatário do famoso “Telegrama dos Cinco”, em que ele, Daniel Krieger, Teotônio Vilela, Luís Viana e Josaphat Marinho disseram ao Presidente da República que não concordavam com aquela ruptura democrática.

Clodomir Millet foi um grande Senador, teve expressão e prestígio político nacional como estrategista e líder, comandando um grande grupo de políticos, não só no Maranhão, mas também em âmbito nacional.

No Senado era respeitado por sua inteligência, capacidade política e coragem. No Maranhão fomos do mesmo lado, embora de partidos diferentes.

Fomos amigos, e minha eleição a Governador teve uma forte participação sua, ao comandar a revisão eleitoral em que foram excluídos cem mil títulos falsos e foi destruído o sistema da eleição a bico de pena, que no Maranhão sobrevivera a sua extinção formal por mais de trinta anos.

O político também não ofuscou o bom médico, numa personalidade que sabia comandar e aglutinar correligionários e amigos.

Quando fui Presidente, Millet colaborou no meu governo ocupando o cargo de diretor da Companhia Usinas Nacionais, no Rio de Janeiro, recusando cargos mais relevantes.

Clodomir Millet não deve ser esquecido e sim sempre lembrado como um dos grandes políticos do Maranhão, como o foram no passado Lino Machado, Silva Maya, Luís Domingues e tantos outros que prestaram serviços ao Maranhão.

Solidão na solidão

Uma das indagações mais nebulosas que estão sendo feitas sobre as consequências posteriores da pandemia são os problemas mentais. Do corpo já se sabe quase tudo ou quase nada, mas quanto à cabeça só há especulação sem nenhuma comprovação. É certo que não se pode separar o corpo do espírito, nem este dele, a não ser numa meditação filosófica, como concebeu Descartes, que a alma e o corpo são duas substâncias separadas. Na visão fisiológica ele, corpo, é que determina o estado mental.
Uma constatação pessoal é da diferente vivência que se tem do isolamento — de que não se pode abrir mão —, não só a segregação residencial como o afastamento entre as pessoas, uma vez que a ciência quantificou em dois metros a distância entre interlocutores, mesmo com a obrigatória máscara, para evitar o risco de contágio.
Estou há um ano recolhido em casa e com uma rígida conduta para receber visitas de amigos — até mesmo de chatos é gostoso.
Habituado a ler e escrever, mergulhei quase todo meu tempo nessa melhor forma de vida que existe. Tive a felicidade de ao nascer ser privilegiado com a dádiva de um grande, maior e íntimo amigo, a quem eu quero bem e por quem tenho grande amor — até táctil, ao folheá-lo —, sua excelência, o livro. Daí me arrepia quando ouço que ele vai desaparecer e a geração do futuro só conhecerá sua forma digital. Eu considero o livro a maior descoberta científica da humanidade. Foi ele que transformou o mundo, a partir do tipo móvel, acabando com as limitações dos copistas. Cai e não quebra, pode ser lido em qualquer lugar — no banheiro, no carro, tomando o cafezinho —, não precisa de energia. E tem todos os programas de computador: por isso segundo Bill Gates foi o livro que fez o computador.
Ele combate a solidão e com ele nunca nos sentíamos sós. Era até uma terapia contra doenças e problemas. Mas sugiro aos psiquiatras examinar uma nova síndrome que está me apavorando: um cansaço da solidão que eu sabia espantar, um espaço para uma solidão na solidão da segregação e do medo, que a cada dia aumenta. Não é a que conhecíamos, que às vezes tinha até seus encantos, mas um tipo de tristeza e transfiguração que ameaça se intrometer na solidão, destruindo-a; mas mantendo-a mais profunda de uma maneira diferente que não sei definir.
Medo da morte? Não, da eternidade, como dizia Unamuno. Quando apareceu a Aids escrevi que essa doença desconhecida era a primeira que associava o amor à morte, ameaçando a fonte da vida. O Corona propõe uma incompatibilidade entre o amado e a amada, o estar junto, o sentir o corpo, o desfrutar da vida, colocando o receio da morte para nos separar do próximo. Foi o Cristo quem nos mostrou o próximo, no episódio do bom samaritano. Qual é a essência desta parábola? É o amor. Será que o Corona, ao trazer a morte, quer afastar o amor?
Isso é o pior, porque o amor é a essência do mundo, do homem e da mulher.
Deus nos retire deste sofrimento em que estamos mergulhados, que passou a ser a oração de cada dia — e estamos no extremo de não suportar.