José Sarney
Natal com barbas de frade
Já entramos no Advento e começamos a ouvir os sinos do Natal — para mim uma festa de alegrias contidas, com o saibo das ausências —, e a minha memória me convida a pensar em Frei Agostinho, a quem ouvia todo domingo, assistindo à sua missa na pequena e modesta Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Lá encontrávamos sempre dezenas de pedintes e pobres que eram de sua assistência. O IPHAN e a Fundação Municipal de Patrimônio Histórico, sob o comando caridoso de Kátia Bogéa — essa brilhante mulher que fez a restauração de muitos monumentos históricos do Maranhão e continua nesse amor maior construindo o Museu Nacional do Azulejo, no belo prédio de 200 anos chamado Solar dos Tarquínios —, recuperaram a igreja, que teve o seu altar-mor todo restaurado. Ali está guardada a mais bela imagem de São Benedito.
Agora meu pensamento, ao ouvir os sinos do Natal, me leva a Frei Agostinho, que rezava a missa já com intimidade com Deus, o que lhe fazia erguer lentamente a hóstia e o cálice durante a Eucaristia. Era um franciscano entre a vida e o Eterno.
Nascera às margens do Lago de Como, de onde saiu para o Maranhão, nos anos 1920, na missão de evangelizar. Caminho igual ao dos capuchinhos mandados por Maria de Médicis, 300 anos antes, para converter os índios, afastá-los do Diabo, que foram os primeiros pregadores na Amazônia.
Frei Agostinho parecia um deles, queimando suas bondades — como dizia Caminha — para afastar o Demônio e o pecado. Atravessou o tempo, assistiu ao Concílio Vaticano II e não abandonou suas sandálias de couro, sua batina de brim marrom com cordão de corda branca, seu crucifixo de madeira, sua barba longa e branca, mais pobre e sofrido que as cabras.
Durante oitenta anos, catequizou e converteu almas. Construiu muitas igrejas, em torno das quais as cidades nasceram, a maior delas em Imperatriz, no tempo em que a vila era apenas um pouso.
Frei Agostinho despiu-se de pátria e família por amor a São Francisco e a Deus. A voz mansa, os olhos já fundos eram como poços sem água, onde as lágrimas, pelo tempo, secaram.
Era um frade simples, sem misticismo, sem apelações. Foi envelhecendo, suas missas já eram cansadas e sua voz vinha lenta. Mas, de repente, de seus lábios brotavam os movimentos, como falavam os profetas. Com grande firmeza, descobria no Evangelho argumentos, ensinamentos, conclusões. A missão da Igreja era anunciar a Vida Eterna. Nada da Igreja da Libertação. Sua Igreja era a igreja da oração. Saíamos de sua missa invadidos de Paz.
Seu corpo acabou. Caiu, sua coluna sofreu, dobrou-se no sofrimento. Sem poder mais ser o apóstolo das selvas, foi recolhido ao Convento do Carmo, em São Luís, só com sua dor e as lembranças de missionário. Deram-lhe como tarefa ser o confessor da velha Igreja do Carmo.
Dona Cotinha fora encarregada de buscar Frei Agostinho para, aos domingos, celebrar a missa dos pobres na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, igreja pequena, feita por doação de escravos. Pobre, sem ouro, prata ou talha. Despojada, paredes brancas e lisas. Frei Agostinho vinha curvado, arrastando os pés, trôpego, com os olhos de dor. Recebia apenas uma pequena espórtula. Uns pobres meninos de rua o derrubam para roubar. Aumentam seus sofrimentos. Um irmão manda buscá-lo para morrer na Itália. Frei Agostinho embarca, apoiado em sua bengala, cercado das lágrimas e dos fiéis que lhe queriam bem. Afirma: “Viajo amargurado. Minha morte será mais sofrida. Queria ficar no Maranhão.”
Lembro-me de quando estávamos preparando a Festa do Natal e, durante a missa, o celebrante, o reitor do Convento do Carmo, anunciou:
— Quero dizer aos fiéis que Frei Agostinho, pelo milagre da saudade, está melhor e quer voltar ao Maranhão. Chegará no dia 8 de janeiro!
Nossos sinos do Natal ainda têm o som das barbas desse frade missionário que renova o milagre da ressurreição na sua volta para ficar conosco na terra do seu amor e do seu sofrimento.
Como o Padre Vieira, que tanto castigou com sua palavra de fogo o Maranhão, quando lhe perguntaram onde queria morrer, respondeu:
— No Maranhão!
Uma COP que caiu no poço
Uma longa e prolongada salva de palmas explodiu quando o Presidente da COP29 anunciou que tinham chegado a um acordo: 300 bilhões de dólares dos países ricos para financiar medidas destinadas a combater e limitar o aumento do clima no mundo. Mas logo em seguida levantou-se um dos delegados — eram três horas da manhã — e disse: “Estes aplausos não são para este vergonhoso acordo, mas sim porque o Sr. Presidente anunciou que está encerrada esta fracassada Conferência.”
Nesse momento repetiram-se os aplausos. Os delegados, exaustos, dormiam por todos os lados, uns em sofás amassados, outros no chão em grossos tapetes.
Uma coisa muito difícil é o êxito dessas conferências. Esta, a COP29, dias antes do fracasso, transferiu a solução dos financiamentos dos países em desenvolvimento para a próxima Conferência, já convocada para Belém, que tem a sedução chamativa de ser localizada na cidade que fica na foz do Rio Amazonas, com toda a sua grandeza, suas lendas e seus mistérios.
A primeira reunião promovida pelas Nações Unidas em busca de um pacto global para enfrentar o problema do Meio Ambiente e o despertar do mundo para a destruição da natureza e a liberação de gases tóxicos ocorreu em Estocolmo, em 1972, quando pela primeira vez se discutiu um novo modelo de desenvolvimento.
Eu era Senador nesse tempo e fiz o primeiro discurso no Congresso Nacional sobre Meio Ambiente, analisando o que fora discutido em Estocolmo. Já em 1989 eu era Presidente do Brasil e apresentamos o Brasil para sediar a Segunda Conferência do Meio Ambiente, fizemos um acordo para que se realizasse no Rio de Janeiro, o que foi aprovado: em 1992, quando eu já tinha deixado o Governo, ocorreu a Rio-92, também conhecida como Eco-92. A Conferência foi um sucesso, com grande repercussão social, e despertou o mundo. Mas o problema do clima ainda não era a bola da vez.
Assim, estamos agora, com evidência científica, sabendo que, se não enfrentarmos seriamente o aquecimento global até o fim do século, os oceanos crescerão, as cidades das orlas estão ameaçadas de inundação, as chuvas aumentarão, assim como o número de tsunami, de secas e desastres climáticos, e assim começará a destruição da Terra.
Enquanto isso, os países ricos pensam que irão salvar-se, com esses 300 bilhões de dólares e a destruição das geleiras e as inundações.
Que Belém do Pará possa ter êxito e que lá os países ricos tenham ouvidos para ouvir e olhos para ver que precisamos salvar o Planeta. Que o futuro não os acuse de suicidas.
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Lula e o G20
O Presidente Lula marcou um gol olímpico com a realização no Brasil da Cúpula do G2O. Antes da Cúpula, a reunião do G20 Social foi um sucesso, com a extensão dos objetivos do Grupo para enfrentar os problemas sociais e, para isso, conseguiu mesmo que se realizasse um evento paralelo com representantes de líderes de movimentos populares, tendo como foco o problema da fome, produzindo um documento para ser entregue à Troika, formada pelo atual presidente (Brasil, 2024), pelo ex-presidente (Índia, 2023) e pelo futuro presidente (África do Sul, 2025), conforme organização da Governança do Grupo.
Concretizou-se no Brasil a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, com a adesão de 148 membros fundadores: 82 países do Grupo, mais 24 Organizações Internacionais, nove instituições financeiras internacionais e 31 fundações filantrópicas e organizações não-governamentais.
A necessidade de união e cooperação de países com os mesmos interesses e a urgência em enfrentar crises globais fez com que os países adotassem esta fórmula do Grupo. Foi no final dos anos 90, após as crises econômicas mundiais, que se iniciou um fórum multilateral de discussão da economia mundial, entre ministros de Finanças e presidentes de Bancos Centrais. Posteriormente, em 2008, após a grande crise da bolha imobiliária americana, chefes de Estado e de Governo passaram a se reunir para discutir a estabilidade econômica global. Inicialmente G7, com a reunião dos países mais industrializados — Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá –, o grupo recebeu doze países emergentes, totalizando 19, mais a União Europeia como vigésimo membro; depois, com a União Africana, são 21 países, chegando ao formato atual do Grupo dos 20.
A reunião do Rio, no G20 Social, foi importante porque aprovou, de forma inédita, uma decisão que fugiu totalmente às origens do G20, que era debate de economia e finanças, para exigir que o mundo se debruce sobre um problema mundial, o mais terrível deles, a fome.
A inclusão do problema da fome no G20 foi essencialmente iniciativa do Brasil, e pessoalmente do Presidente Lula, que sempre o teve entre as suas pregações e preocupações. Quando eu era Presidente da República, tratei desse problema da fome nas Nações Unidas, em 1985, e denunciei esse crime contra a Humanidade: manter milhões de pessoas em extrema miséria.
Outro ponto positivo da reunião do G20 Social foi lembrar, no excelente discurso de Lula, a tragédia e a crueldade das guerras atuais e dizer que “o mundo está pior”.
Não podemos ignorar que só é possível a mudança da atenção para os problemas sociais, em que 82 países firmam um documento final, graças à globalização e aos avanços que o mundo atravessa com a civilização digital. Esta possibilitou um melhor relacionamento entre os chefes de Estado e de Governo. Recordo que já no meu tempo de Presidente (e estávamos apenas começando), quando tínhamos qualquer problema grave de interesse internacional, pegava o telefone e ligava para Alfonsín, Sanguinetti, Aylwin Azócar (ainda candidato no Chile), Mario Soares, Felipe Gonzales, Pérez de Cuéllar etc. E resolvíamos o problema e estreitávamos relacionamento e ficávamos amigos. Até hoje mantenho amizade com os que estão vivos.
Parabéns ao Presidente Lula que pouco a pouco coloca na agenda mundial a responsabilidade dos países ricos para a solução dos problemas ambientais, do problema da pobreza e da necessária ajuda aos países pobres.
Outro assunto abordado pelo Presidente, para que não fosse esquecido, diz respeito aos organismos internacionais que envelheceram, pois remontam à Segunda Guerra Mundial, como a ONU, o BID, o Banco Mundial e, sobretudo, o Conselho de Segurança, que não tem a presença da América Latina, da Índia, da África do Sul, e à falta do debate entre todos os países do mundo interessados no assunto. Hoje, nada de maior frustação do que as Resoluções das Nações Unidas que não são cumpridas, são apenas peças de intenções.
Estes problemas estão na pauta da política exterior, e o Presidente Lula adotou todos eles como bandeira.
O Brasil, assim, mantém a sua tradição de diplomacia respeitada e de excelente qualidade — desde Rio Branco até hoje, conduzida pelo grande diplomata Mauro Vieira, competente e de grande experiência.
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As baleias das crianças
Quem possui muitos livros e tem o hábito de, à noite, visitá-los, percorrendo as estantes para encontrar determinado título, aprende que os livros são danados para “andar”. É que quem gosta de livro e vai durante a noite atrás de um específico na estante, ao se deparar com outro que atrai sua atenção, coloca este fora da prateleira para no dia seguinte buscá-lo. E começa a fazer isso com tantos que esquece o lugar onde cada um estava. Assim ao encontrar determinado livro fora do seu lugar fica com a impressão de que ele caminhou.
Foi assim que outro dia achei um livro, intitulado “Meu Amigo Presidente Sarney”, e fiquei alegre e curioso. Era um livro que o escritor Virgílio Costa organizou, com uma seleção de cartas endereçadas a mim, cartas ingênuas e belíssimas na pureza de seus sentimentos e pedidos.
A maioria das cartas pedia que eu proibisse a pesca da baleia, no caso a Baleia Jubarte, que chamavam carinhosamente de Jubá, estas que vinham para as águas quentes do Atlântico, na costa do Brasil, para reprodução e aqui eram submetidas a uma pesca predatória, para venda de óleo e carne, para consumo interno e algumas vezes para exportação. Essa exploração vinha desde o século 17 e continuava no século 20. Isso fez com que essas baleias estivessem já relacionadas em “espécies em extinção”. Em nosso País, no Nordeste, os Municípios de Baía da Traição e Rio Tinto, na Paraíba, eram o maior centro dessa pesca. Havia ali uma grande atividade industrial e mesmo de sustentação da economia da cidade, com muitos pescadores e comerciantes envolvidos no negócio. Também se praticava essa pesca em Salvador, na Bahia, e no Sul, no Município de Florianópolis, mas com menor intensidade. Essa exploração da baleia foi tão grande que, em 1987, calculava-se que só existissem 300 indivíduos das Jubartes. As crianças eram quem mais me pedia para proibir essa atividade, embora existissem muitos grupos com a mesma bandeira entre ambientalistas, ONGs e outros setores da sociedade, sempre com a resistência dos interessados na exploração, que alegavam que a pesca das baleias era fonte de empregos e uma atividade econômica, principalmente dos Municípios de Baía da Traição e Rio Tinto.
Eu resisti a todas essas pressões e, motivado pela minha consciência ecológica, proibi essa pesca. Agora pesquisando o assunto descobri que, desde a proibição até agora, o número de Jubartes aumentou de trezentos indivíduos para trinta mil em nossas águas. A espécie está fora da lista das “em extinção”, e hoje as baleias podem vir procriar em nossas costas — agora muito mais empregos foram criados no turismo, com o despertar da curiosidade de ver esse mamífero aquático gigante, que pode chegar a quarenta toneladas, charmoso por suas piruetas e peripécias, com gigantescas aparições. Como já são muitas, é fácil encontrá-las. Hoje o turismo para vê-las é muito grande.
Fecho esse artigo com Ana Cláudia, que hoje deve estar na casa dos 40 anos. Sua carta é bela. Eu me comovi ao reler seu pedido e ver beleza da sua carta. As crianças amam as baleias.
São José dos campos, 24/9/85. Querido presidente, não deixe que matem nossas baleias. Tenho 6 anos e nunca vi uma. Gostaria de ver um dia. Proíba a caça de baleia. Um beijo, Ana Cláudia.
Ana Cláudia, onde você estiver, saiba que ajudou a salvar as Baleias!
MDB vitorioso
No começo da República, o Brasil não teve partido nacional, adotou o modelo de partidos estaduais. A lei que criou o regime de partido nacional foi a de 1945, a chamada Lei Agamenon Magalhães. Então, surgiram o Partido Republicano, de Artur Bernardes; o Partido Socialista, de João Mangabeira; o Partido Libertador, ou melhor, parlamentarista, de Raul Pilla e assim por diante. O regime de 1964 extinguiu os partidos, com o Ato Institucional nº 2.
Bem ou mal, aqueles partidos do regime de 1946 tiveram líderes de peso nacional, como Otávio Mangabeira, Eduardo Gomes, Carlos Lacerda, Afonso Arinos e Virgílio de Melo Franco, Adauto Lúcio Cardoso, Bilac Pinto, na União Democrática Nacional; Tancredo Neves, Juscelino Kubitschek, Amaral Peixoto, Israel Pinheiro, Gustavo Capanema, Ulysses Guimarães, no Partido Social Democrático; Brizola, Pasqualini, Jango, Fernando Ferrari, no Partido Trabalhista Brasileiro; além de muitos outros nomes também muito representativos.
Por mais defeitos que tivessem e críticas que sofressem, esses partidos eram uma forte escola de formação de líderes e pessoas de respeito na sociedade.
Em 1964, o Presidente Castelo Branco, o melhor de todos os presidentes nesse regime, desejava fazer eleições diretas — mesmo que fosse eleito o Juscelino, o provável vencedor. Feitas as eleições estaduais de 1965, pensou-se num sistema de dois partidos, nos quais se abrigariam, de um lado, os governistas e, do outro, a Oposição. Lembro que, para obter o número de parlamentares que o ato institucional pedia, Castelo fez um apelo a Rui Carneiro, grande expressão política do PSD da Paraíba, para filiar-se ao MDB, no que teve sucesso. Formaram-se assim as legendas de Arena e MDB, que se tornaram herdeiras desses grandes nomes tradicionais.
O MDB foi conduzido por idealistas e corajosos dirigentes, como Ulysses Guimarães, que se destacou com forte combatividade, abrindo o partido a nomes de todas as tendências que enfrentaram o regime militar; finalmente, em 1985, com a eleição de Tancredo/Sarney, voltamos ao Estado de Direito.
Assim o MDB é um grande partido histórico. A maior parte dos partidos que foram formados com a abertura democrática saíram do MDB. O nome do PSD, de Vargas, que desaparecera, agora ressurgiu com o Kassab, mas sem os velhos pessedistas do passado.
Todos achavam que o MDB marchava para esse destino depois do fracasso de Ulysses nas eleições de 1989 e sua morte posterior. Realmente o Partido entrou numa fase de declínio.
Agora, nas últimas eleições municipais, o velho MDB mostrou que está vivo, com suas raízes fortes.
Devemos reconhecer que a nova geração pegou a bandeira do Partido, incorporou suas lutas e tradições, e o MDB ressurgiu como o segundo maior partido em governo de prefeituras do País: fez 864 prefeitos, sendo o primeiro em número de eleitores: 27,9 milhões de votantes.
Quero louvar o Presidente Baleia Rossi, que está à frente dessa significativa vitória e tem feito um trabalho notável, super aplaudido por todos. Ele tem buscado a união e a ampliação dos nossos quadros, cultivando a convivência com todos os partidos e posicionando nossos ideais junto ao Governo e à Oposição nas alianças e votações.
Eu quero ressaltar que o MDB é o partido que comandou as lutas que levaram à implantação da democracia e possibilitou, quando eu ocupava a Presidência da República, a Transição Democrática — que, no dia 15 de março do próximo ano, completa 40 anos.
Como Presidente do Honra do Partido, quero proclamar o nosso reconhecimento pelo trabalho vitorioso realizado pelo nosso companheiro Baleia Rossi, como Presidente do Partido.
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Paulo Brossard
Paulo Brossard nasceu em 1924. No dia 23 de outubro ocorreu seu centenário. Esta é uma data que marca o momento de relembrar sua vida gloriosa, pelo que serviu ao Brasil, e homenagear a memória de um dos maiores políticos e oradores de nossa história parlamentar.
Conheci Paulo Brossard em 1975 quando ele chegou ao Senado Federal e eu estava na metade do meu primeiro mandato de senador pelo Maranhão. Vi logo tratar-se de um intelectual. Já fora consagrado no Rio Grande do Sul como professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, afamado advogado, estudioso do direito, e era respeitado como grande jurista.
Durante três mandatos, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, com seu brilho e sua correção, atuando no Partido Libertador — o mesmo de Raul Pilla, que também fora meu colega e que defendia intransigentemente o parlamentarismo —, impusera a todos um grande respeito. Logo foi reconhecido como grande político. Esta era sua vocação maior. Vindo o regime militar de 1964, com a deposição do Jango Goulart, surgiu a oportunidade de Brossard levantar a bandeira da defesa da democracia e da volta do Estado de Direito, ao mesmo tempo em que defendia os perseguidos, cassados e demitidos pelo regime de exceção que se instalara no País.
Filiou-se ao MDB, foi eleito deputado federal e, pelo seu valor e sua expressão política, vice-presidente nacional do Partido. Em 1978 disputou a vice-presidência da República na chapa com o General Euler Bentes Monteiro, que perdeu a eleição para o General João Batista Figueiredo.
Brossard logo se afirmou como grande líder da Oposição, junto a Ulysses Guimarães. Mas não era só isso que o faria entrar para a História do Parlamento: revelou-se como um grande orador, dos maiores que teve o Parlamento brasileiro, ao lado de Rui Barbosa, Gomes de Castro, Joaquim Nabuco, Carlos Lacerda e alguns mais. No Senado eu o ouvi — algumas vezes com ele debati — e pude testemunhar alguns dos seus notáveis discursos.
Tive a felicidade de ser seu amigo e com ele, Luís Vianna Filho, Teotônio Vilela, Gustavo Capanema, fizemos um grupo que toda tarde, após as sessões do Senado, se reunia no Gabinete de Luís Viana para discutir reformas e teorias políticas, os problemas nacionais e literatura. O Senado ainda podia orgulhar-se de ouvir reflexões maiores de homens de todos os partidos e de ideias diferentes. Era o diálogo e a convivência que hoje cobram dos políticos, no combate ao ódio, à intransigência e a radicalizações.
Como Presidente da República, tive a felicidade de nomeá-lo Consultor Geral da República, Ministro da Justiça (lugar que com sua modéstia ainda relutou em aceitar), onde fez excelente trabalho, com a ajuda de sua filha Marta (que herdou do pai qualidades de advogada, inteligência e cultura jurídica) e, finalmente, fazê-lo Ministro do Supremo Tribunal Federal, onde teve uma passagem brilhante, inscrevendo-se na História da Alta Corte como um dos grandes magistrados que ali passaram.
Essa foi sua carreira notável. Mas a característica maior de sua vida foi a do grande defensor da democracia, do lutador pelo Estado de Direito, defensor dos direitos fundamentais do homem, dos valores morais e cívicos, dono de um caráter sem concessões, intransigente em sua conduta pessoal.
Fui seu amigo e até hoje preservo sua memória. Construímos uma amizade pessoal que está incorporada em minha vida. Relembro que, quando voltava a sua terra natal, aposentado por idade do STF, eu o acompanhei ao aeroporto — ele com Dona Lúcia, esposa de grandes virtudes —, entrei no avião, fui até sua cadeira e dei-lhe o abraço de despedida de amigo e grande admirador, amizade que permaneceu com grande afeto até sua morte.
O Rio Grande e o Brasil proclamam no seu centenário que Paulo Brossard foi um exemplo de homem público e um dos maiores políticos, pensadores e juristas do seu tempo.
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Nazareth, 100 anos
Hoje escrevo afastado do monótono cotidiano: me volto para as razões do coração, relembrando minha gratidão eterna a Odylo Costa, filho, que me deu a felicidade de ser o meu melhor amigo — amizade esta que extrapolava para Nazareth, sua mulher, e seus filhos.
Odylo foi o maior jornalista do seu tempo. Ele não se esgotou no que escrevia, mas modernizou o conteúdo e a forma da imprensa, quando editou o Jornal do Brasil e promoveu uma revolução que logo viralizou (para usar uma expressão de hoje), como com Pompeu de Souza, no Diário Carioca.
Odylo não era uma só pessoa, mas duas almas que se completavam: ele e Nazareth. Tanto que em São Luís, capital do Maranhão, sua terra natal, havia uma velha e tradicional rua chamada Rua de Nazareth. A Câmara Municipal mudou esse nome, pois percebeu que algo estava errado, e passou sua denominação para Rua de Nazareth e Odylo. Eram dois, mas apenas um.
Odylo e Nazareth tiveram o último salão cultural do Rio de Janeiro, em Santa Teresa, numa casa que era tranquila como o casal. Um jardim de entrada, uma longa escada sobre o acesso à sala e um quintal de bichos que o casal trazia do Maranhão e do Piauí — Nazareth era de Campo Maior, interior do Piauí —, inclusive uma araponga, que gerou um abaixo-assinado de protesto dos moradores de Santa Teresa, porque esse pássaro tem o canto de uma badalada de sino tão forte que é capaz de acordar qualquer um.
Mas o que eu quero registrar é que Nazareth completaria neste 22 de outubro seu centenário de nascimento, e eu não podia deixar de lembrá-la e homenageá-la nesta data.
A história do casamento de Odylo é a história de um milagre. Ele assistia a um desfile da Escola Normal de Teresina, viu uma bela moça comandando o desfile e disse: “Vou me casar com essa moça.” E saiu à sua procura. Encontrou-a, mas ela recusou a proposta de casamento. Odylo fez versos por seis meses e tanto insistiu que realizou o seu amor e destino. Nazareth deu-lhe nove filhos e uma vida em que a fé, a religião, o amor e a bondade foram o barro da união.
Nazareth logo mostrou suas qualidades: doçura, bondade, temperança, delicadeza, afabilidade e santidade. Isto era sem dúvida o que ela transpirava no seu modo de receber, de tratar as pessoas, de viver. O destino de Nazareth-Odylo lhes reservou uma família de felicidade — uma bela família! —, mas com dois golpes que dilaceraram sua alma: o filho mais velho, Odylinho, brilhante, bonito, de qualidades e personalidade inconfundíveis, foi assassinado por um menor de rua ao defender a namorada, o que marcou sua casa e toda a população do Rio de Janeiro, todos solidários a eles. Odylo perdoou o assassino e dedicou o resto de sua vida a defender os menores abandonados. A bondade dele e de Nazareth era infinita.
Quando, no Maranhão, eu soube da tragédia, tomei o primeiro avião e já encontrei Nazareth e Odylo no cemitério. Ele me abraçou, e, num choro convulsivo, Odylo me disse: “Deus quer, Deus quis, Deus seja louvado.”
Outro fato que marcou sua vida foi que sua filha Maria Aurora nasceu com deficiência e nunca pôde sair de seu berço de sofrimento, mas sempre com um sorriso de doçura e felicidade que comovia a todos nós. Odylo e Nazareth nunca a esconderam: nas recepções e reuniões em sua casa, Maria Aurora sempre estava presente e de tudo participava na sua solidão e dormência. Eu a amava como amei a todos os seus irmãos. Nazareth e Odylo incorporaram também a sua vida a luta pelos deficientes, luta esta herdada por sua filha Teresa — a querida Teresa, que com Pedro Costa são os mais ligados a mim, com um sentimento filial.
Já disse o quanto brilhava a casa de Odylo, por onde passavam todos os grandes intelectuais, nomes indeléveis de nossa cultura: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Afonso Arinos, Peregrino Júnior, Osório Borba, Eneida, Pedro Nava, José Olympio, Zélia e Jorge Amado, Djanira, Carlos Chagas, Rachel de Queiroz, Caio Tácito…
Depois da morte de Odylinho, o talento oculto de Nazareth explodiu numa pintura tão suave, tão lírica, que era a poesia de Odylo em cores e luzes: Nazareth pintava anjos, crianças e bichos com uma beleza e uma mensagem de amor e uma simplicidade do Céu, e logo se tornou uma artista festejada e reconhecida como da família dos grandes pintores. E ela conseguiu que a sua figura de santa, marcada pelo amor e pela bondade, fosse expressa numa linguagem diferente.
Passou a fazer exposições no Brasil e no exterior, bem recepcionada pela crítica, como a de Drummond, que disse: “Entrevistei os anjos: foram unânimes. Indaguei das crianças: confirmaram. Gostamos que Nazareth Costa nos desenhe.”
Seus anjos nos lembram os famosos anjos arcabuzeiros do Potosí, na sua beleza: se estes são ricos, os anjos de Nazareth são pobres — mas são santos.
São 100 anos de Nazareth. Uma das melhores criaturas que Deus colocou em nossa Terra. Em minha casa, ela é Santa de Altar.
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O candidato Trump
O general Mark Milley foi o chefe do Estado Maior do Exército e das Forças Armadas americanas entre fins de 2019 e fins de 2023. Serviu, portanto, no governo Trump. Agora o jornalista Bob Woodward — um dos repórteres que revelaram o Watergate —, em livro que acaba de sair, War, cita declarações do general sobre Trump: “Ele é a pessoa mais perigosa que já existiu. Eu suspeitava quando falei para você sobre seu declínio mental, mas agora eu realizo que ele é um total fascista. Um fascista até o cerne.”
É verdade que ele tem razões pessoais para esse entendimento: além de ter convivido com Trump, este escreveu que ele deve ser executado por alta traição.
As ameaças de Trump estão, nesta reta final das eleições americanas, se multiplicando. Elas se dirigem a alvos específicos e a categorias genéricas. O inimigo, declarou há poucos dias, não é a China, são os traidores internos, os que não vão votar nele, os que se opõem a ele, os que desconfiam dele. Jornalistas que não o sigam de carteirinha estão entre os preferidos, alguns com dezenas de mensagens no Trump Social. Quem é da minha geração ou estudou o período entre as duas guerras mundiais lembra o processo da ascensão fascista.
É inacreditável que ele tenha dito que, se ganhar a eleição, não ajudará os Estados que não votarem nele. Há uma completa ausência de escrúpulos, a certeza de ser a lei e estar acima da lei, a convicção de que a estrutura do Estado deve estar sob seu controle direto e nas mãos de pessoas por ele escolhidas etc.
O medo está se instalando na sociedade americana com essa desarticulação mental do candidato republicano. Foi-se uma das garantias de Roosevelt: a libertação do medo — “freedom from fear” — do famoso discurso das “Quatro Liberdades”, quando o presidente americano preparava os Estados Unidos para entrarem na guerra — inclusive lembrando que o país seria atacado antes de declarar guerra, como aconteceria exatos onze meses depois em Pearl Harbour.
O número de pessoas que pretende fugir dos Estados Unidos se Trump vencer é enorme. E elas têm motivos. Os jornais de ontem trazem a história de funcionários da Defesa Civil tendo que ser retirados de locais onde ajudavam os esforços de recuperação porque a Guarda Nacional apreendeu milícias armadas que pretendiam eliminá-las, por acreditar que os furacões Helene e Milton foram criados pelo “dark state” ou por Kamala Harris e Joe Biden — as fotos espaciais que detectam traços sobre o Golfo do México não seriam multidões de pássaros migratórios, mas raios laser lançados para criar furacões contra populações republicanas…
O Brasil e o mundo conhecem o filme. O fascismo começa voltado para o interior de um país. Logo pode agir contra os vizinhos; depois quem estiver na frente que se cuide. O exemplo contemporâneo da quantidade de ditadores e autocratas que governam e provocam conflitos regionais que ameaçam a tranquilidade e a paz mundial dá medo.
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Eleição sem ideias
Passamos mais uma eleição, a vigésima primeira desde a Constituição de 1988: dez gerais, dez municipais, dez presidenciais. A conta parece errada, mas a eleição presidencial de 1989 foi separada da eleição para as duas casas do Congresso, realizada em 1990. A partir de então os anos pares alternam as eleições gerais com as municipais.
A eleição de 1989 foi a última das quatro que presidi em meus cinco anos de governo. Logo em 1985 fizemos eleições para prefeitos das capitais, de áreas de segurança nacional e de estâncias hidrominerais!?! — todas tinham, por motivos estapafúrdios, prefeitos nomeados. Fizeram prefeitos sete partidos, o PMDB, o PFL, o PDS, o PTB, o PDT, o PSB e o PT. Em 1986 a eleição trouxe os constituintes — eu enviara mensagem em 28 de junho de 1985, com 100 dias de governo, convocando uma assembleia nacional constituinte, cumprindo assim o compromisso assumido por Tancredo Neves. Foram eleitos parlamentares de 12 partidos.
A expansão dos partidos políticos era um fenômeno que vinha de longe. O partido político é uma ideia do século XIX que sobreviveu e precisa sobreviver. Mas é uma ideia em crise. O fenômeno é universal. Nos Estados Unidos, o Partido Republicano, fundado para formar uma frente ampla contra o ataque do extremismo escravocrata que assediava o poder, o “great old party”, tornou-se o instrumento de alucinações, a de Trump e a da extrema-direita. Na França o PS sobrevive aos tropeços, e o gaullismo torna-se instrumento do fantasma extremista cuja ameaça fez De Gaulle criar a 5ª República. Na Alemanha o nazismo renasce de cinzas que se pensava enterradas sob 40 milhões de mortos.
Nós tivemos dois partidos no Império, o Conservador-Regressista-Saquarema de Bernardo de Vasconcelos e o Liberal-Reformador-Luzia de Nabuco de Araújo — desculpem a simplificação grosseira desses anos tão ricos da política. O Partido Republicano surgiu como único, logo dividindo-se em facções estaduais, que repartiam o poder. Campos Salles, com um realismo antidemocrático, resolveu fazer eleições de faz de conta. Com o golpe de estado de 1930, Getúlio cooptou seu adversário histórico, Assis Brasil, para fazer uma lei eleitoral. Feita esta, em 1932, trancou-a na gaveta.
Em 1946 apareceram os partidos nacionais, inicialmente marcados pelo getulismo: a coalizão contrária, a UDN, e os dois partidos por ele construídos, o PTB e o PSD. O Partido Comunista foi logo proibido. João Mangabeira separou o Socialista da UDN. O Republicano de Bernardes e o Libertador de Raul Pilla completavam o quadro das ideias; o PSP, de Ademar de Barros, o das conveniências. Tudo acabou em 1965.
Os partidos formados artificialmente, MDB e Arena, funcionaram com as limitações que se conhece. Geisel resolveu mudar para evitar a vitória do MDB, abrindo a formação partidária. Tancredo Neves e Magalhães Pinto fizeram o PP. Eu tentei construir o PDS como um partido moderno, baseado em democracia interna, mas fui impedido — e minha ida ao encontro de Tancredo no PMDB contribuiu para a Aliança Democrática viabilizar a transição e fazer a nova Constituição.
Mas voltamos ao velho modelo dispersivo que se origina no voto proporcional uninominal de 1932. Com essa regra velha e algumas novas regras de concepção mal-intencionada, os partidos voltaram a ter donos e não precisam ter votos. Temos assim essa cacofonia de 29 partidos fisiológicos. São raras as ideias; vagos, quando existem, os programas, e não se pratica a democracia partidária. Regras mínimas de controle são recusadas pelo próprio Parlamento, formado cada vez mais por políticos sem experiência e sem visão do futuro.
As atuais eleições municipais — que acabaram em muitos lugares, mas com uma segunda rodada daqui a alguns dias — mostraram a situação desastrosa. Não se trata apenas de problema no Congresso Nacional e nas assembleias, onde a corrosão é escandalosa. Os municípios são administrados por prefeitos e vereadores que representam… nada. São eleitos, na melhor das hipóteses, por promessas demagógicas e pontuais, mais frequentemente pela calúnia, pela difamação, pela mentira ou mesmo pela violência física, sempre misturadas com uma enxurrada de dinheiro que afasta qualquer veleidade de legitimidade democrática. Felizmente, aqui e ali, há casos que escapam à regra e infelizmente a confirmam.
Com o sistema atual o eleitor não decide, pois não há uma escolha democrática: ele vota, mas em pessoas — aliás, em números — que não representam ideias ou ideais. E a democracia se faz com estas, com programas, com projetos, com visões de mundo. É preciso colocar, na pauta das reformas, a eleitoral.
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Hora de votar
Votação municipal, como se sabe, é coisa antiga no Brasil. Em 1532 votou-se em São Vicente de acordo com as Ordenações Manuelinas, na terceira edição, a de 1521, que mandou destruir todos os exemplares das anteriores. Claro que, tendo sido impressas ainda nas prensas manuais, os exemplares não chegavam a estes confins da metade portuguesa do mundo — e as regras eram transmitidas de boca em boca, de carta em carta até chegar à vila do Bacharel da Cananeia: em 1526 eram “dez ou doze casas, uma feita de pedra com seus telhados e uma torre para defesa contra os índios em caso de necessidade […] providos de coisas da terra, de galinhas de Espanha e de porcos, com abundância de hortaliças”; mas Martim Afonso de Sousa aí chegara com colonos e foi logo uma profusão de construções e tudo civilizou-se e logo logo votou-se com independência em quem tinha que ser votado: os “homens bons” diziam seis nomes ao pé do ouvido do escrivão e os seis mais votados eram os eleitores, divididos em três duplas pelo juiz da comarca, que formavam três listas cada para os cargos de vereadores, procuradores e juízes, listas que eram rearranjadas para forma três listas anuais, cada uma delas inserida num pelouro — uma bola de cera —, e estes postos num saco guardado numa arca aberta em janeiro de onde um menino de até sete anos escolhia o pelouro com a lista dos nomeados para o ano. Sistema singelo e bom.
Muito tempo depois passamos pelo sistema que João Francisco Lisboa chamou de “a cacete” — bem, parece que em alguns lugares eles não leram o nosso grande historiador e não sabem que cacete não combina com urna eletrônica.
Agora vota-se de acordo com a última mentira — as palavras da língua portuguesa são meio rudes e dolorosas, os candidatos estão livres para usar a língua de Trump, fake news —, com as últimas fake news, com a última calúnia lançada nas redes sociais.
As redes sociais, como se sabe, são neutras, quem quiser usá-las bem, use-as para o bem; outros, maus, usam-nas para o mal. Felizmente aqui no Brasil ninguém está culpando os haitianos de comerem os pets, só acusamos os outros de ladrões e assassinos. Essas acusações são um legado histórico, já o padre António Vieira, pregando diante do rei de Portugal, disse que “os príncipes são companheiros dos ladrões”.
É claro que fomos formando outras tradições. Antigamente o voto de protesto era o voto nulo. Nulificado este, já que é desconsiderado, e não se podendo votar no nome que vier à cabeça, como Cacareco, vota-se no teatro do absurdo, no nome de candidato mais improvável e que representa a negação do sistema, como o pobre palhaço Tiririca que chegou a ter vergonha dos seus colegas.
Mas eleição é também coisa séria. E então temos que pensar que nosso voto tem consequências. Chova ou faça sol, serão eleitos os mais votados, e quem diz quem são os mais votados é a soma dos nossos votos com os votos dos vizinhos. Posta a lista dos candidatos pelos partidos, não no pelouro, mas na urna, somos nós quem apertaremos os botões com os números — afinal, no séc. XXI, o que é um nome senão uma forma arcaica de notação identitária — em que confiamos. Somos nós que temos o peso de escolher bem ou escolher mal.
Assim, no domingo, vamos escolher com consciência. Pensar nas qualidades — e nos defeitos, se houver — de cada um, nos programas de governo, nas propostas de ação, nos compromissos assumidos. Votemos e, se Deus quiser, votemos bem! É o aprendizado da Democracia.
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